POV: ANTHONY.

7 dias na semana e a segunda feira consegue ganhar de lavada de todos os piores dias, em todos os meses do ano. Mesmo assim, quando acordei naquela manhã, me sentia ótimo.

Como de costume, fiz a minha corrida matinal e tomei café da manhã em familia. Dirigi até a empresa e fiquei satisfeito quando, ao chegar na minha sala, descobri que tínhamos batido a meta de contratações propostas pelos sócios para essa temporada. Só isso já tirava um peso enorme das minhas costas.

Jhon — meu cunhado, grande amigo e braço direito — me aconselhou a ir em todos os setores para conhecer pessoalmente os novos contratados. Não era novidade para mim que todo mundo que entrava aqui na empresa, entrava acreditando que esse era o melhor lugar do mundo. Não que não seja, mas acaba-se cometendo o grande erro de estagnar quando se percebe que é um emprego como qualquer outro.

Pen também aprovou a ideia e estava no andar do jornal hoje, disse que ia consultar pessoalmente as pautas da semana. O Lady W é um jornal que — apesar da modernidade — também é físico. Mas virtualmente o sucesso é muito maior, é claro. Ela tem dezenas de pessoas trabalhando para garantir que tudo funcione perfeitamente, mas ela é a própria Lady W, jamais permitiria que algo ocorresse sem que ela conferisse.

Quando sai do elevador, ela estava entrando e abriu um sorriso, me abraçando. Sorri de volta.

Penélope é a melhor amiga de Eloise desde que nos conhecemos por gente. Não foi nenhuma novidade para ninguém quando ela e Colin começaram a namorar no colegial, e estão juntos até hoje. Agora noivos, o primeiro dos irmãos Bridgertons a se casar. Isso sim surpreende, pois Benedict dava muita mais pinta, e nunca namorou. Enfim...

— Estava indo atrás de você! A garota Sharma que você escolheu, ela está aqui! Ela é mil vezes mais bonita do que eu imaginava, ou dava para ver na foto. E o nome dela é indiano! Já consigo ver um vislumbre de matérias importantíssimas sobre... Você não lembra quem é, né?- Ela perguntou, depois de perceber que eu estava com uma sobrancelha erguida e quase não ouvia o que ela dizia.

— Desculpa Pen, mas eu olhei cerca de mil currículos no último mês, de qualquer forma vai ser ótimo ter alguém culturalmente diferente. Estamos cansados dos britânicos, não é? Bem, eu estou.- Eu dei de ombros, rindo. Comecei a andar pelo corredor e percebi que, como sempre, as pessoas estavam parando de fazer o que costumavam fazer para me olhar, e isso me incomodava pra caralho. Por isso raramente apareço.

Eu estava acenando para algumas pessoas quando esbarrei em alguém. A menina derrubou uma xícara no chão, e graças a Deus a xícara estava vazia, e ela se espatifou no chão. Quando pedi desculpas, ela olhou pra cima e mesmo que Penélope não tivesse contextualizado a situação antes, eu saberia pra quem eu estava olhando. Era ela, a menina dos meus sonhos.

Eu não me lembrava o nome dela, mas a reconheceria a quilômetros de distancia.

A algumas semanas atrás pedimos indicações dos funcionários para novas contratações. Alguém do jornal indicou essa garota. Quando eu vi seu curriculo, percebi que ela tinha algumas experiencias interessantes. Na epoca da escola ela se destacou por participar de varias competições academicas, passando na faculdade com bolsa de 100% de desconto por mérito próprio. Em mais de uma faculdade, na verdade. Na faculdade, estagiou em algumas agencias de publicidade pequenas e em um programa de tv, nos bastidores. E ela tinha apenas 24 anos.

Abri um sorriso quando a reconheci. A foto dela do curriculo era simples e clara. Ela tinha olhos grande e expressivos, em uma foto senti conseguiria falar com ela sobre qualquer coisa. Ela não usava maquiagem na foto — apesar de agora estar maquiada até demais — e usava uma blusa simples branca, e seus cabelos estavam cacheados. E eu só consegui pensar no quanto ela era linda e torci para ela aceitar a vaga. Dias depois, comecei a ter alguns sonhos estranhos onde ela misteriosamente aparecia. Não tinha nada demais, apenas ela.

E aqui estamos.

— Bo-bo-bom dia!- Ela tentou se recompor e se inclinou para limpar os cacos da xícara.

— Pelo amor de Deus, não faça isso! Alguém vem limpar e ninguém quer que você se machuque no primeiro dia. Principalmente por causa desse aqui.- Penélope a impediu, apontando para mim no final, em tom de brincadeira. Eu sorri, mas Kate parecia desconfortável e constrangida. Bem, estavam todos olhando para ela agora.

— Eu também não estava prestando muita atenção no caminho. Peço desculpas. Não vai se repetir.- Ela arrumou a postura e colocou as mãos para trás, ficando séria. Linda.

— Não sei se temos xícaras suficientes para quebrar todas as vezes que eu vier nesse setor, mas podemos fazer esse acordo, então. Bom dia, srta. Sharma. Me chamo Anthony Bridgerton.- Eu estendi a mão para ela, que engoliu em seco antes de apertar. A mão dela estava extremamente gelada. Alguém da limpeza se aproximou, mas ela não desviou o olhar.

— É uma enorme honra, sr. Bridgerton. Eu estou muito feliz em fazer parte do seu grupo de funcionários. O que o senhor e sua família fazem aqui é extraordinário.- Ela disse, e eu quase bufei. Todo mundo me dizia isso. Me segurei para não revirar os olhos e soltei sua mão delicadamente, enfiando nos bolsos.

— É mesmo, não é? Bem, srta. Sharma eu gostei do seu currículo de primeira e fico feliz que tenha aceitado a vaga. Tenho certeza de que Siena e Penélope cuidarão muito bem de você, e em poucas semanas teremos artigos incríveis assinados por você. Agora, com sua licença, vamos prosseguir com a minha tour rara.- Eu brinquei, tirando uma mão do bolso para colocar nas costas de Penélope e incentivá-la a andar. Kate acenou com a cabeça e nós seguimos. Quando estávamos longe o suficiente, Pen disse:

— Por favor, não estrague ela.- Ela implorou. Eu a olhei de canto, estávamos perto da sala dela.

— Não estragarei.

— Não gostou dela?

— Não entendi.- Ela abriu a porta da sala e entramos no escritório enorme. Eu fui logo para um sofázinho que tem de canto.- Ela é linda, mas não entendi.

— Você sempre fica encantado por uma novata, faz ela se apaixonar por você, e depois eu tenho que demitir a coitada porque ela fica espalhando coisas sobre os donos e isso é ruim para a empresa. Eu gostei dela, ela é simpática, não quero demitir.

— Então não demita.- Eu dei de ombros, coçando a barba.

— Eu estou falando serio, Anthony.- Ela fechou a cara e cruzou os braços. Era impossível não rir. Penélope é pequena e tem bochechas avantajadas, então ela sempre parece um filhote de gatinho quando fica brava. Ela revirou os olhos quando me viu rindo.

— Tudo bem, Pen. Não vou tentar nada com a novata. Além disso, tem outro motivo para eu estar aqui... Siena.- O assunto me voltou para a secretária-chefe desse andar, e minha amante. Penélope encolheu os ombros.

Não é novidade para mim que toda a minha familia — e Penélope se inclui em familia, ainda que ela não fosse noiva de Colin — não aprova meu relacionamento com Siena. Fora das paredes deste prédio, eu e Siena mantemos uma relação a muitos anos, que vem sendo vantajosa para ambos. Eu não tenho intenção de assumir nenhum tipo de relacionamento sério com ela por, para começo de conversa, não sentir nada por ela a não ser atração física; e porque minha familia a detesta.

— O que Siena quer dessa vez?- Deu para ver que minha cunhada estava precisando se esforçar muito para não revirar os olhos, e eu ficava feliz por isso. Eloise e Daphne nem tentavam.

— Ela me pediu para perguntar se você podia dar prioriade a algumas pautas que ela tinha colocado em sua mesa a algumas semanas e aparentemente você não deu a mínima. É claro que ela me disse isso de forma discreta e nada intencional.

— É claro.- Ela debochou, se afastando para analisar em cima da mesa e pegando a pasta que continha as tais pautas.- Diga a muda e nada intencional Siena, que eu analisei as pautas e odiei todas.

— Muda?

— Ela nunca fala absolutamente nada para mim. Fica sempre correndo atrás de fazer fofocas para você como se não fosse eu quem tivesse o poder de demitir ela a qualquer momento. Não sei mesmo quanto tempo vou aguentar manter ela aqui só por você, Anthony. Ela é uma boa secretária, mas é péssima redatora, e nem é boa fofoqueira o suficiente para trabalhar em um jornal.- O rosto de Pen foi ficando vermelho e eu sabia que o assunto a incomodava. Me incomodava também.

Siena foi uma das primeiras pessoas que entrou na Bridgertons a muitos anos atrás, eu ainda era estagiário e ela também. Senti atração por ela instantaneamente e pessoalmente pedi para que ela não fosse demitida na epoca, apesar de ela já ser muito ruim em tudo que fazia. Meu pai ainda era vivo na época, então ele só aceitou.

Quando meu pai faleceu e eu precisei assumir todos os negócios da empresa, foi a mesma época que o blog da Pen começou a fazer sucesso e eu achei interessante abrir o jornal. Graças a Deus, foi um sucesso e Penélope — agradecida pela oportunidade de começar a ganhar dinheiro com aquilo e ser independente, mesmo sem ter uma faculdade e etc; numa epoca que internet ainda não dava dinheiro do jeito que dá hoje — aceitou que Siena fosse sua secretária. Já a ouvi comentar que foi a pior escolha que ela fez na vida.

Desde então, ela vem mantendo Siena da forma que consegue, por mim. Isso já criou discussões entre ela e Eloise, por motivos óbvios. Mas sempre que pode, Siena pede algum "favor" profissional. E apesar de me considerar uma pessoa muito profissional, acabo cedendo pela culpa que eu carrego por usá-la apenas para me satisfazer a tantos anos.

— Eu sei que é difícil. De qualquer forma, pode me deixar analisar?- Eu perguntei, estendendo a mão para a pasta. Penélope erguei o queixo e uma sobrancelha, era a pose de chefe dela.

— Não vou publicar no meu jornal absolutamente nada que eu não goste. Não importa quantas vezes por semana você transe com Siena Rosso. Ela é péssima.- Mesmo assim, ela me entregou a pasta. Eu suspire.

— Tudo bem Pen. Obrigado. Agora vou indo. Tenho alguns papéis terríveis para ler agora.- Eu disse, balançando a pasta. Me aproximei da Penélope aborrecida, dei um beijo em sua testa e me afastei.- Jantar lá em casa hoje?

— Sim.

Ela estava mesmo chateada então nem tentei manter conversa, apenas saí da sala. A mesa de Siena era próxima e ela estava esticando o pescoço, tentando ver algo. Eu revirei os olhos, ela era mesmo uma péssima fofoqueira. Me aproximei da mesa.

— Como foi?- Ela perguntou ansiosamente. Fiquei com pena.

— Penélope disse que não tinha tido tempo para olhar e acabou esquecendo, então peguei para olhar pessoalmente. Fique observando seu e-mail, vou mandar um retorno para Penélope antes do almoço, e ela provavelmente vai lhe encaminhar outro até o fim do dia. Preciso ir.- Eu menti na cara dura e me afastei.

Quando me virei, dei de cara de novo com aqueles enormes olhos negros me encarando. Ela pareceu constrangida quando eu a vi me olhando, então decidi me aproximar por... diversão?

— Oi srta. Sharma. Conseguiu outro café?- Eu perguntei. Ela engoliu em seco antes de responder, e tentou um sorriso timido. Linda.

— Na verdade eu estava agora mesmo conversando com Sophie que vou adotar a ideia do Starbucks, bem menos probabilidade de quebrar xícaras.- Ela brincou, apontando para a colega do lado. Provavelmente foi quem a indicou. A garota era bonita, o que me espantou pois eu nunca a tinha visto aqui ante.

— Bom dia Sophie... Beckett.- Eu li a placa na sua mesa. Ela sorriu pra mim, pareceu orgulhosa de si por eu lembrar seu nome. Olhei de novo pra o foco da minha atenção.- Adoro Starbucks mas lamento informar que nenhum café vai ser tão gostoso quanto o daqui. Mas experimente, outro dia descubro o que você achou da experiência. Bom trabalho, senhoritas!

Me afastei depois de ambas apenas acenarem para mim e fui para o elevador. Aproveitei que estava fazendo um tour pelo prédio, e fui ver o trabalho dos meus outros irmãos. Chocando ninguém, Colin estava na galeria comendo biscoitos enquanto o Benedict analisava alguns papéis.

— Bom dia senhores.- Eu disse, colocando a pasta de Siena em cima da mesa de Benedict para me sentar do lado de Colin e pegar um biscoito.

— Bom dia, seu gostoso. Tava aonde?- Colin perguntou, se aproximando para dar um beijo na minha bochecha e sorrir para mim.

— Fui falar com a sua mulher. Ela está estressadíssima hoje.

— Impossível. Eu a deixei perfeitamente feliz e satisfeita essa manhã. O que Siena fez?- Colin perguntou e eu tive que rir, Benedict também riu, soltando os papéis e se aproximando da gente.

— Muito trabalho hoje?- Perguntei.

— Menos do que você, como sempre, graças a Deus. Eu tava só olhando os últimos detalhes para a próxima exposição. Colin está aqui para vermos o buffet. E você veio fazer o quê aqui?

— Fui na Pen ver a novata.- Eu respondi abrindo um sorriso. Colin revirou os olhos.

— Já sei o que você fez. O gradesissímo rola de ouro deu em cima da novata.- Colin tentou adivinhar.

— Errou! Prometi que não vou tocar nela. Apesar de ela ser com certeza um claro objeto de desejo. A pele dela brilha.- Senti minha boca salivar e engoli.- Mas fiz a promessa.

— E veio aqui fazer o quê?- Benedict repetiu a pergunta. Eu dei de ombros.

— Jogar conversa fora por alguns minutos.

— É Kate Sharma o nome da novata.- Colin falou aleatoriamente. Eu olhei para ele, Benedict revirou os olhos.

— Ele fez uma promessa, Colin. Deixa de ser enviado do cão. A menina quer o emprego.- Benedict respondeu, me fazendo rir. Colin deu de ombros.

— Ela é amiga da Sophie.- Colin piscou para Benedict, que ficou sério e pálido de repente. Eu me endireitei na cadeira.

— Você conhece a Sophie?

— Não.- Os dois responderam juntos, mas só Colin riu por causa disso.

— Bem que Benedict queria.- Ele continuou rindo. Benedict mostrou o dedo do meio para ele antes de olhar para mim e dar de ombros.

— Sophie foi contratada a algum tempo. Eu a vi no primeiro dia e escutei falarem o nome dela, e é só isso. Colin estava comigo na hora, e acha que eu sou apaixonado por ela...

— Não é porque você persegue a menina no instagram que você está apaixonado por ela, jamais Benedict! Nem porque você hiperventila sempre que a vê de longe, mesmo que ela nunca olhe na sua direção... não, não quer dizer que você tem um amor platônico por ela!- Colin ironizou, e eu ri. Benedict fechou a cara.

— Eu não persigo ela. Descobri o instagram e foi só isso. E sobre a Kate Sharma, ela é mesmo bonita.- Ele tentou mudar de assunto e chamou minha atenção.

— Vou procurar o instagram.- Eu disse, imediatamente tirando o celular do bolso e procurando. Os dois se inclinaram para olhar para o meu celular. Foi muito fácil de achar, mas o perfil era privado.

— Pede pra seguir.- Colin disse. Eu fiz uma careta.

— Eu não sigo nenhum funcionário.

— Você segue a Siena.- Benedict comentou em um tom debochado. Eu ignorei.

— Se você seguir a Sophie, ele segue a Kate.- Colin apostou. Sozinho.

— Não preciso seguir, o perfil da Sophie é aberto.- Benedict respondeu, irrelevante. Eu guardei de novo o celular.

— Que pena. Queria babar nas fotos dela igual você baba nas da Sophie.- Entrei na brincadeira e Benedict revirou os olhos.

— Vocês dois são insuportáveis.

— Bem, vou lá. Vejo vocês mais tarde.- Eu disse, pegando a pasta de Siena e decidindo que já tinha feito tour demais, era melhor ver logo essa bomba.

Quando sentei a minha mesa, abri a pasta e não precisei ler muito pra entender o porquê de Penélope odiar o que Siena escreveu. Pressionei as têmporas com as mãos pensando que não conseguiria, de jeito nenhum, explicar para a Siena o quanto aquilo era tenebrosamente podre.

— Tudo bem?- Jhon não precisava bater na porta para entrar. Pareceu preocupado quando me viu e eu apenas balancei a cabeça, oferecendo a pasta. Jhon, assim como eu, não precisou ler muito para fazer uma careta de desgosto, ele correu os dedos para o final e revirou os olhos.- Não sei como ela teve coragem de assinar no final. Eu teria vergonha.

— Ela não sabe que está ruim. Ninguém tem coragem de dizer.- Eu falei, me sentindo mais chateado ainda. Jhon colocou a pasta de volta na mesa e deu de ombros.

— Se quiser, eu digo.

— Não, obrigado.

— Sabe que sou bom com as palavras.

— Jhon, nem Shakespeare transformaria isso em algo bonito.- Eu apontei com desprezo, fazendo ele rir. Ri junto.

— Boa sorte então. Pra ser sincero, a ideia em si não é horrível, ela só não sabe desenvolver. Talvez outra pessoa da redação consiga melhorar a ideia... fala com a Siena, vê outra pessoa da redação e vê se Penélope aceita publicar com autor e co-autor.- Jhon deu a ideia. Eu pensei por alguns segundos antes de decidir:

— Vou dar trabalho a novata.