Would You Dare?
6 I Wanna Be Yours
Notas iniciais
Pan suspirou extasiada com a maciez e doçura frutada e leve da panqueca. Poucas coisas eram melhores que aquilo, mais ainda depois de beber um pouco na noite anterior. Gostava também da imagem do rapaz de cabelos lilás, em seu avental infantil, que claramente não lhe servia mais, preparando mais algumas daquelas delícias.
—Café? – Ele perguntou com um sorriso doce e distraído em seus lábios, e fácil assim, lá estava outra vez, o seu frio na barriga.
—Suco. – Respondeu, pegando a jarra na bancada e colocando um pouco em seu próprio copo. – Você devia tentar! – Provocou, enquanto ele bebericava o café em sua caneca.
—Bom, saiyajins não sofrem de gastrite. – Ambos riram.
—Já começou o desdém por nós, reles humanos? – Uub brincou, enquanto ele e Marron se juntavam a eles, na cozinha.
—Não falem tão cedo, também temos nossas fraquezas! – Pan riu apontando para um Goten assombrado pelo mal estar da ressaca, deitado num dos sofás na sala de estar. O rapaz apenas se encolheu mais um pouco, enquanto todos riam.
—Panquecas! – Marron comemorou, enquanto Trunks lhe entregava um prato.
—É, eu tava me sentindo nostálgico. – Pan sentiu seu rosto queimar um pouco.
Então, ele se lembrava? Quando eram crianças, e visitavam a casa de praia durante as férias, ele sempre lhe preparava panquecas, e todas as vezes ria, ao fazer um trocadilho com seu nome. De alguma forma, saber que ele também guardava aquilo, lhe trazia ainda mais felicidade do que as daquela época já o faziam. Apesar das coisas não serem mais tão simples quanto eram antes, ainda era reconfortante. Podia quase sentir o sabor ficar ainda melhor ao seu paladar, graças ao calor em seu peito.
Poucas coisas poderiam acabar com aquela sensação confortável e harmônica que os cercava. O cheiro e o sabor das panquecas, o sorriso de Trunks, as conversas animadas, o amor da Marron pelo mar, o amor do Uub pela Marron, o calor acolhedor daquela manhã de verão...
Era estranho que tudo pudesse perder as cores tão rapidamente, com um simples toque de telefone. Tão logo, não haviam mais olhares e sorrisos de Trunks para ela. Não tinham mais panquecas, e o sabor doce de antes, agora amargava no fundo de sua garganta, enquanto o via sair do cômodo com um carinho em sua voz, que não era para ela.
—Bom... dia... – Bra bocejou, entrando na cozinha. – Panquecas?
—É, o Trunks tava fazendo! – Marron respondeu ao terminar.
—E onde ele tá? – A outra perguntou olhando ao redor. – Eu também quero panquecas! – Choramingou.
—Tá no telefone... – Uub informou, antes de terminar seu suco. – Acho que a Mai finalmente ligou.
—Mas eu tô com fome! – Bra reclamou, como uma criança mimada.
—Aqui, fica com essas. – Pan lhe passou o prato com as que ainda não tinha experimentado.
—Mas, são suas!
—Não tem problema, eu já comi muitas, de qualquer jeito. – Esforçou-se para soar o mais natural que podia. Na verdade, só queria sair de lá, o quanto antes, e o fez imediatamente, depois que a outra aceitou o prato.
Agora, no quarto onde sempre ficava desde quando era criança, inspirou profundamente. Era mesmo uma tola. Como podia ter se deixado levar daquela forma? Não importava o quanto fantasiasse, a realidade nunca seria diferente. Trunks não era seu. Ele amava outra, e eram dela seus sorrisos mais doces, seu carinho, sua saudade verdadeira. E quanto a ela... era óbvio que ele jamais a veria como algo além de uma amiga.
Sabia disso. Sabia muito bem, mas não fazia com que machucasse menos. Encolheu-se na cama. Só lhe restava esperar que aquilo passasse, ou que ao menos, se tornasse mais fácil de fingir, antes de voltar a se juntar aos seus amigos.
***
Goten apertou as têmporas com um pouco mais de pressão. Por que achou realmente que beber tanto seria uma boa ideia? Ao menos, os outros pareciam ter ido uma outra vez para a praia, então estava bastante silencioso. Já podia sentir que o mal estar ia diminuindo, enquanto se permitia cochilar uma outra vez...
—GOTEN! – Era como se fosse esmagado por um prédio inteiro. Abriu os olhos com dificuldade para encontrar Bra, rindo de seu sofrimento.
—Eu... te... odeio... – Resmungou, cobrindo os ouvidos com uma das almofadas, mas pôde ouvi-la rir, mesmo assim.
—Odeia nada. – Retrucou, enquanto saía do cômodo.
—Bem que eu queria...— Concordou num sussurro, para si mesmo, antes de sentir sua mente voltar ao cochilo de antes.
O fim de semana acabou passando muito rápido enquanto tentavam se distrair na praia, e logo, a segunda-feira havia voltado para assombrá-los. O conforto e nostalgia dos dias de verão de sua infância, eram agora uma lembrança distante, enquanto Goten deixava o ar da brisa quente preencher seus pulmões, sentado sob uma árvore durante o almoço.
Não havia sido fácil encontrar aquele lugar. Havia passado toda a manhã tentando escapar de Yakii, o que fora especialmente difícil durante a aula de história em que estavam na mesma turma. Tinha certeza de que a professora nunca o vira tão investido numa aula, antes. Mas havia funcionado. Não queria passar pela estranheza que aquela conversa tinha o potencial de lhe causar, afinal, o que quer que o outro quisesse lhe dizer, sabia que não o deixaria confortável.
—O que tá fazendo aqui? – Trunks perguntou ao se aproximar. – Não vai pro terraço? – Sinalizou na direção do lugar onde sempre ficavam. Na verdade, Yakii não era o único que ele estava tentando evitar. Havia concordado com a ideia de Uub, de passar mais tempo com Bra até que aquela sensação dentro dele passasse de uma vez. Mas, não era algo tão fácil assim. Sabia que fugir não lhe ajudava, mas a outra alternativa era tão cansativa, se sentir angustiado, nervoso e sem jeito sempre que ela estava por perto... Ainda assim, no fim das contas, acenou, dando-se por vencido e acompanhando seu amigo.
Os outros estavam agora sentados ao redor do que parecia ser um pequeno piquenique, conversando, quando chegaram. Não devia ser tão difícil olhar em sua direção, mesmo assim, seu coração disparava sempre que os olhos azuis encontravam os seus. Pôde ver também, Uub rindo um pouco, olhando em sua direção. Era cruel. Por que tinha que passar por aquilo? Amaldiçoou a própria sorte, deixando-se distrair do que quer que estivessem conversando, enquanto mordiscava o sanduiche que Pan o havia dado, observando o movimento preguiçoso das nuvens no céu azul.
Por um momento, pegou-se pensando: e se as coisas não voltassem ao normal? O que faria, então? Passaria o resto de sua vida se sentindo tão desconfortável perto de uma de suas melhores amigas? Não era como se houvessem outras opções... Afinal, não parecia muito realista que Bra sequer pensasse nele daquela forma, a única outra alternativa que lhe restava, neste caso, seria se afastar por completo..., mas aquele era outro pensamento que lhe atormentava de forma impiedosa.
A agitação do grupo voltou a chamar sua atenção.
“-Oi, pessoal! Como estão as coisas por aí?” – Mai sorria, quando Trunks voltou a tela do celular na direção dos outros. Acenou para a morena, antes de se distrair outra vez.
Era estranho. Apenas alguns meses atrás, estavam todos juntos naquele mesmo lugar, rindo e conversando e tudo estava normal. O rapaz de cabelos lilás estava mais feliz, também, ao lado de sua namorada. Isso fora antes de Mai decidir partir para um semestre no exterior. Era inspirador vê-los insistir frente as dificuldades de um relacionamento à distância, mas era mais visível a cada dia, como o sorriso no rosto de seu melhor amigo parecia diminuir entre as brigas não terminadas propriamente e as ligações perdidas que pareciam se acumular.
Não devia ser um problema muito difícil de resolver, afinal, Trunks podia apenas voar até lá sempre que quisesse, e se veriam. Mas, por algum motivo, haviam decidido que não o fariam. Goten ainda não entendia muito bem o porquê, mas aparentemente, seria uma boa forma de testar seu relacionamento. No fim das contas, tudo o que via era a infelicidade crescente de Trunks e a dinâmica do grupo mudar, pouco a pouco.
Ainda assim, não parecia importar muito sua opinião ou o quanto quisessem que as coisas fossem diferentes, não podiam evitar que tudo, eventualmente, mudasse.
***
Trunks sorriu, enquanto a ouvia falar sobre seu dia. Como podia sentir tanto sua falta? Era bom poder vê-la e ouvi-la, mas nada se comparava a poder abraça-la e sentir seu cheiro, o gosto de cereja em seus lábios... Por que as coisas precisavam ser daquela forma?
Queria apoia-la. Sabia o quanto aquilo era importante para Mai, e se era o que ela precisava, então que assim fosse. Ainda se lembrava do dia em que ela lhe contou seus planos e como não estariam juntos naquele semestre. Sabia desde ali que não seria fácil, mas jamais imaginara o quão difíceis seriam aqueles meses.
—Sinto sua falta... – Sussurrou, um pouco depois, quando pareciam ter esgotado os assuntos. Podia ver a expressão no rosto da morena entristecer-se.
—Também sinto a sua... – Um meio sorriso residia em seus lábios.
—Eu podia estar aí tão rápido... – Propôs, vendo-a sorrir mais um pouco.
—Não tem nada que eu gostaria mais. – Ela lhe disse em resposta, contudo, Trunks sabia que viria um “mas” naquela frase. – Mas, — Lá estava. – eu tô tão ocupada nessa semana, lembra que te disse que quero tentar conseguir uma bolsa para a universidade? – Assentiu, em silêncio. – Preciso entregar um esboço para uma pesquisa que iria me ajudar muito de antemão, estar mais adiantada melhoraria muito mais as minhas chances... – Continuou. Trunks sempre gostara de como Mai costumava se esforçar e lutar por tudo o que queria, era um dos motivos pelos quais a amava daquela forma. Mas, mesmo toda aquela admiração e orgulho, não faziam diminuir a falta que ela lhe fazia.
Não devia ser tão difícil, pensava enquanto fazia seu caminho para a sala do conselho estudantil. Ao menos, havia se incumbido de tarefas o bastante para tentar pensar em outras coisas. O cargo de Presidente do conselho ajudava bastante nesse aspecto, e se não fosse o suficiente, ainda tinha o time de basquete do qual era o capitão. Além disso, ver a forma como Mai se esforçava, o inspirava também. Estava estudando com mais empenho, e ainda que não tivesse contado aos outros, planejava tentar também conseguir uma bolsa na universidade. Sabia que podia fazer literalmente o que quisesse e ir para onde desejasse, mas desta forma, teria certeza de que seria uma vitória só sua e não fruto da influencia e dinheiro que vinham com o sobrenome Briefs.
—Volta pra Terra, sr. Presidente! – Pan chamou sua atenção, quando cruzaram caminhos no corredor vazio. Sorriu, pegando sua mão e fazendo-a virar-se para ele outra vez, voando baixo e trazendo-a junto.
—Às vezes precisamos flutuar um pouquinho... – A viu sorrir enquanto a girava no ar, quase como se estivessem dançando.
Aquele era um daqueles momentos, muito específicos, quando o mundo parecia fazer algum sentido novamente. Havia um silêncio confortável e um calor ao seu redor que tornava cada instante seu próprio eterno. Deviam ter ficado daquela forma por não mais que alguns segundos, antes de sentir os kis se aproximando, mas era o bastante para melhorar seu dia. Trocaram mais um sorriso, antes de seguirem seus caminhos separados.
Mesmo com tudo o que vinha acontecendo, e todas as mudanças que o atormentavam, sabia que ao menos, algumas coisas continuariam as mesmas...
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