Would You Dare?
2 E Tudo Muda...
Os raios de sol iluminavam num tom alaranjado, tudo aquilo que tocavam naquele fim de tarde caloroso de verão. O rapaz de cabelos negros e expressão tranquila, fazia seu caminho através das nuvens, sentindo em sua pele o frescor do ar que enchia seus pulmões, ecoando liberdade. Ainda que não fosse tão puro quanto o do campo, tinha que admitir que ao menos, gostava muito mais da paisagem oferecida pela cidade grande. Os automóveis coloridos nas ruas, as crianças perambulando nas calçadas... Se voasse um pouco mais baixo, poderia até mesmo sentir o aroma vindo dos inúmeros restaurantes. A vida era sempre mais interessante ali.
Não demorou para que pudesse, enfim, vislumbrar seu destino: a maior construção no centro da cidade na Capital do Oeste. Muito além de servir como a sede principal dos laboratórios, campo de treinamento e local oficial da maior parte das festas e reuniões entre os velhos amigos, a Corporação Capsula era também a casa da família Briefs.
Goten já havia passado tanto tempo ali, que já lhe era como uma segunda casa. Sequer precisava se identificar ao passar pela recepção, e já não fazia nenhuma cerimônia ao entrar pela porta da frente – Ou melhor, já o teria feito alguma vez? Era difícil de saber, agora. Praticamente estivera ali desde quando era ainda bebê e sua mãe o trouxera para apresentar aos outros.
Foi também desde então que conhecera seu melhor e agora, mais antigo, amigo: Trunks Briefs. Seria muito difícil, talvez impossível, que não fizessem amizade logo de imediato. Tinham praticamente a mesma idade – Trunks era apenas alguns meses mais velho – seus pais eram amigos de longa data e ambos compartilhavam o mesmo gosto pelas brincadeiras violentas as quais nenhuma outra criança parecia poder acompanhar.
Não eram mais crianças agora, mas certamente, os laços que formaram perdurariam por toda a vida. Na verdade, fora até lá para encontra-lo. O compromisso muito esperado de sua sexta-feira, consistia em longas horas de videogame na TV enorme da família Briefs. Estava empolgado, precisava daquilo, mais ainda depois de uma longa semana de provas trimestrais.
Ao menos, a vitória no jogo daquela tarde ainda o fazia sentir bem. No entanto, tivera que ouvir sua mãe lhe questionar – ou melhor, pressionar – sobre os vestibulares do fim do ano, mesmo que ainda estivessem tão distantes, assim que chegara em casa.
Não, não queria pensar sobre aquilo. Só de se lembrar, já podia sentir o nó em seu estomago outra vez. Aquele não era o dia para lidar com aquelas coisas. Sacudiu aqueles pensamentos de sua mente, enquanto fazia seu caminho pela porta.
—Boa tarde! – Anunciou sua chegada em plenos pulmões. – Tem alguém em casa? – Seguiu para a sala de estar, vazia, ainda que pudesse sentir alguns Kis. – Trunks? – Chamou, enquanto pegava um pouco da pipoca que descansava sobre a mesa de centro.
—Já devia ter imaginado... – Ouviu a voz feminina reclamar atrás de si. Virou-se para encontrar a moça de cabelos e olhos azuis, que vinha da cozinha, trazendo mais algumas guloseimas.
Teimosa, temperamental, orgulhosa, mimada e impaciente. Lá estava a princesa saiyajin: Bra Briefs, irmã mais nova do Trunks. Parecia sempre a um passo de soca-lo no estomago, mas ainda assim, era divertido irritá-la. Sua amizade basicamente se baseava em implicarem um com o outro a todo momento.
Bra era dois anos mais nova que os rapazes e enquanto cresciam. Mesmo que tivesse a companhia de Pan, que compartilhava sua mesma idade, parecia preferir sempre querer interferir em seus assuntos, até mesmo nos jogos perigosos onde sempre se machucava e lhes causava problemas imensuráveis com o Sr. Vegeta. É claro, que as coisas não eram mais assim, agora. Bra também já não era uma criança, no entanto, a mania de aborrecerem um ao outro, parecia ter permanecido.
—Eu sei que já tava com saudades de mim, mas não precisa desse carinho todo. – Sorriu, pegando um pouco mais de pipoca, antes que ela o empurrasse para fora do seu caminho. – Onde tá o Trunks? – Perguntou enquanto ela sentava-se no sofá.
—Ora, por que não faz um favor pra nós dois, e vai procura-lo? – Respondeu, num tom malcriado, como de costume. Seus olhos fixados na tela da TV que havia acabado de ligar, enquanto parecia procurar algo para assistir.
—Quer saber? Você deveria parar de canalizar esse seu amor por mim de forma tão hostil. – Retrucou, sentando ao seu lado e pegando o controle da TV de suas mãos. Não pôde deixar de pensar, mesmo que por um instante, no que Yakii lhe havia dito. Seria por conta destas brincadeiras, que as pessoas entendiam errado seu relacionamento? Deixou para lá, no momento seguinte. De que importava?
—Ei, devolve isso aqui, seu idiota! – Exigiu, enquanto ele afastava o dispositivo de seu alcance, com certa facilidade, já que era mais alto que a garota.
—Só quando você... – Ria enquanto ela tentava alcança-lo, já de pé e afastando-a com a outra mão. – Pedir com jeitinho! – Começou a voar baixo pela sala.
—Vai sonhando! – A princesa rugiu de volta, se lançando muito rapidamente em sua direção, fazendo com que ambos despencassem sobre o chão.
—Ah, qual é? – Queixou-se, massageando a parte de trás de sua cabeça que colidira no assoalho. – Não precisava tudo isso!
—Precisava, sim! – Ela riu vitoriosa sobre ele, segurando o controle.
Talvez, fosse uma concussão, mas por um instante... por um breve momento, a visão dos cabelos azuis esvoaçados, em conjunto com o leve tom corado de seu rosto pelo esforço e o sorriso arrogante esboçado por seus lábios, lhe pareceu inebriante... quase surreal. O suficiente para fazê-lo esquecer qualquer coisa que fosse lhe dizer em resposta. Podia quase vê-la em câmera lenta, enquanto lhe dizia alguma ofensa à qual já não podia ouvir. Ela estava agora, sentada sobre seu torço. Aquilo não era novidade, não deveria ser... Já haviam brincado muitas vezes daquela forma antes, onde um – normalmente ela — acabava imobilizando o outro. Dessa vez não era diferente, mas por que sentia como se alguma coisa houvesse mudado?
Engoliu seco. De repente, seu corpo sobre o dele já não era apenas um pouco de peso pressionando-o contra o chão. Seu calor, deixara de ser apenas algo quente. Até mesmo seu cheiro, estranhamente, era mais que a mistura de rosas, morangos e balinhas... Quando tudo começou a parecer tão...?
—O que tá pegando? – A voz de Trunks o trouxe de volta à realidade, muito rapidamente, para seu próprio alívio. O rapaz de cabelos cor lilás estava recostado contra o arco da porta que dava para a varanda maior. Um olhar confuso residia em seu rosto.
—O bobão aqui, acabou de perder para a Grande Bra! – Seu riso orgulhoso ecoou mais alto, enquanto ela se levantava e voltava ao seu lugar no sofá.
—E aí, cara, vai ficar deitado aí até quando? – O outro riu enquanto vinha em sua direção, lhe estendendo a mão para que levantasse.
—Valeu. – Agradeceu, lhe mostrando um riso amarelo. Não podia continuar com aquela sensação esquisita. – O que a gente vai jogar hoje? – Perguntou, mudando o assunto.
—Na verdade, eu tava de saída. Minha mãe pediu que eu fizesse algumas coisas pra ela, enquanto está fora. – Respondeu num tom entediado. – Na verdade, por que não vem junto? Na volta eu ia passar na loja pra pegar aquele jogo que eu tinha comentado contigo. – Em outro momento, passar a tarde realizando tarefas pela cidade pareceria chato demais, mas dentre as opções de ter que pensar sobre o que acontecera agora a pouco ou voltar para os sermões de sua mãe, era uma boa oferta.
Assentiu, seguindo Trunks até a porta, para irem. Não pôde, contudo, evitar em espiar a garota distraída pela TV, uma vez mais. Ainda se sentia um pouco atordoado com o que havia acontecido. Era daquilo que Yakii havia falado mais cedo? O que podia significar...? Não. O que estava fazendo? Sacudiu aquela estranheza dentro de si e saiu de uma vez.
Já tinha problemas o suficiente, sem que precisasse analisar o que quer que tenha sido aquele momento. Ou melhor, decidira: não era nada, de fato. Não pensaria mais sobre o assunto e tudo ficaria bem...
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