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44 Como ele pôde?
Notas iniciais
~James POV's
Já faz pelo menos dez minutos que, por um impulso totalmente estranho, convidei o pequeno filho ou sobrinho, seja lá como for, de Samantha para entrar em minha casa. O rostinho redondo e rosado da criança estava manchado de terra e ele estava ofegante quando entrou pela porta da frente de minha casa. Ofereci-lhe água e o sofá para que pudesse sentar para descansar um pouco. Após ficar uns minutos sentado no sofá recuperando o fôlego e balançando as perninhas que estavam penduradas na beirada do móvel, ele educadamente perguntou onde era o banheiro e pediu licença para fazer "pipi". Eu ri de sua expressão e impulsivamente despejei um "Fique à vontade, a casa é sua!".
Quando retornou do banheiro, seu rosto estava limpo e havia um sorriso de pequenos dentinhos brancos estampado nele. Devolvi o sorriso de forma espontânea, e me assustei de meus impulsos diante daquele pequeno. Havia algo nele que me fazia muito bem, e não sei direito como explicar. Ele por completo me lembrava alguém, só não consegui lembrar quem. Talvez um filho de algum de meus amigos, é bem provável.
Sentado novamente no sofá à minha frente, ele cruzou os braços diante do peito e perguntou: — Voxê móla xozinhu?
– Moro sim.
– Ploquê naum móla maix com xua mamãe?
– Porque já sou grande.
– Voxê tlabalia?
– Trabalho.
– Voxê qui complou exa casa?
– Sim.
– E tem momolada?
– Porquê tantas perguntas? — indaguei, rindo — Você por acaso é da polícia e ta querendo saber se sou um ladrão?
– Clalo qui naum, xó quelia xabê — respondeu, corando um pouco.
– Minha vez — esfreguei as palmas das mãos e ele riu, uma risada perfeita e harmoniosa de criança ( som esse, aliás, que não me agradava nem um pouco até alguns minutos atrás ) — Você gosta de vídeo game?
– Adólo, maix a mamãe naum me deiza zogá muitu, ela dixe qui naum é boum.
– Quer jogar um pouco? — perguntei, empolgado.
– Quélo, quélo — bateu palmas — Maix i si a mamãe naum gostá? — a preocupação transpareceu-lhe o rostinho.
– Não se preocupe, vou ligar para ela e pedir para você jogar — respondi, ainda sorrindo igual à um idiota.
– Obligado, voxê é um titio leglau.
Enquanto Bryan jogava um clássico de infância que devia ser jogado por todas as crianças do mundo, Super Mario, me preocupei em avisar à Samantha que o menino estava em minha casa. À essa altura, ela e a mãe dele já deviam estar piradas. Lembrei-me que não tinha mais o número dela, então concluí que para o pequeno ter chegado até aqui, provavelmente ele e Samantha deveriam estar na casa de Kendall. Disquei o número que já sabia de cor, e após o terceiro toque a voz de meu amigo ressoou em meus tímpanos. Sua voz era um misto de preocupação e frustração.
– Fala James — disse ele.
– Kendall, Samantha por acaso está na sua casa ? — perguntei receoso.
– Porquê quer saber James? Quer briga de novo? Ah me poupe! — vociferou.
– Brigar? Por... — parei em meio ao palavrão e recuperei minha paciência quando notei o pequeno me olhando assustado — Eu liguei para avisar que encontrei Bryan brincando em meu quintal, considerei a hipótese de estarem nervoso e fiz esse favor.
– Bryan? — a voz dele saiu num sussurro de alívio.
– Ele mesmo, está aqui jogando enquanto espera vocês, até mais — disse e desliguei sem esperar uma resposta.
Não demorou mais de dez minutos até que a campainha de minha casa tocasse. Dei um longo suspiro e caminhei em direção à porta. Ao passar por Bryan, que pausou o jogo para prestar atenção, baguncei seus cabelinhos louros.
Abri a porta e meu coração se despedaçou. Samantha estava na minha frente aos prantos, seus olhos estavam vermelhos e inchados, seus lábios não apresentavam a cor rosada de sempre, ela estava pálida e trêmula. Seu olhar fixo ao meu implorava silenciosamente para que eu lhe mostrasse seu filho/sobrinho. Não pude negar seu pedido e me pronunciei.
– Venha, ele está aqui.
Estendi a mão até tocar a sua, desta vez ela não demonstrou relutância como na noite anterior. Meus dedos formigaram diante do toque divino de sua pele. A levei até onde Bryan estava. Quando seus olhos encontraram o pequeno que nos olhava curioso, ela imediatamente soltou minha mão e correu até tomar Bryan em seus braços. Samantha chorava como se tivesse acabado de perder alguém querido, seus soluços ecoavam por todo o cômodo e eu sentia sua dor e seu alívio como se fossem meus sentimentos.
Kendall juntou-se a eles, abraçando Samantha com tamanha intensidade e carinho que meus punhos se fecharam de raiva. Era eu quem devia estar no lugar dele. Ela começou a beijar o rosto do menino dizendo entre os beijos o quanto o amava, que ele iria ficar de castigo por ser um filho tão rebelde.
Nesse momento um pensamento me atingiu brutalmente. Bryan não era filho daquela garota, não podia ser, tinha que ser filho de Samantha, ela não amaria tanto uma criança de outro alguém, e não estaria agarrando ele nesse momento. Quem devia estar lá o abraçando era Catarina, mas esta ficou na soleira da porta observando tudo e segurando a menina. Samantha tinha um filho, ou melhor dois, mas de quem eram essas crianças? Meu raciocínio me provocou uma onda de ódio enorme, que creio eu, não seria capaz de controlar.
Era lógico, por isso Samantha havia sumido. Ela me traiu e usou o fato de ter me visto com Halston como desculpa para sumir e se safar da verdade. Não havia outra explicação. As crianças tinha a idade exata do tempo que Samantha sumiu. Agora descobri de onde senti semelhança em Bryan. Ele era filho de Kendall.
~Samantha POV's
Cobri meu filho de beijos o quanto pude. Minhas lágrimas insistentes deixaram seu rostinho rechonchudo molhado. As mãos de Kendall me abraçavam firme, me proporcionando tanto conforto quanto ter meu filho novamente em meus braços. Tudo estava perfeito, mas de repente, não senti mais as mãos de Kendall à meu redor.
Olhei para cima e vi as mãos de James agarrando a gola da camisa de Kendall. As veias dos braços de James pareciam que iam explodir. Seus olhos carregavam um ódio puro, como nunca havia visto. Kendall começava a ficar vermelho e tive que intervir.
– James, solte ele — implorei voando em cima dos dois.
– Nunca — respondeu entre dentes — Vou matar esse canalha.
– Você não vai fazer isso, não tem motivos — tentei persuadi-lo.
– Tenho motivos de sobra para estrangular esse pescoço fino — vociferou me encarando.
– O que foi que eu te fiz? — Kendall perguntou rouco.
– Não seja cínico — ironizou.
– James, ninguém aqui está entendendo, faça o favor de soltar Kendall e explicar — falei.
– Você é outra cínica, tão cínica que me fez sentir culpado por ter supostamente lhe traído, mas você me traiu primeiro — cuspiu as palavras, empurrando Kendall para longe e se virando para mim.
– Você é louco por acaso? — perguntei, indignada por suas acusações.
– Você acha o que? Que sou tão idiota que não ia notar esse seu amor entre você e esse magrelo? — apontou Kendall — Que eu não ia notar esse afeto dele por esses meninos? Que eu não ia notar a semelhança entre eles? E principalmente, que você é a mãe deles? — gritou.
Meu mundo caiu. Eu queria sim enganar a James, mas as conclusões dele foram absurdas. Como ele pôde achar que o traí, como pôde? Meus sentidos entorpeceram e eu queria sumir novamente, as lágrimas eram pura dor. As mãos de James encontraram meus braços finos e ele me sacudiu brutalmente.
– Me diga — exigiu — Me diga que me achava idiota o bastante para não notar.
– Você é um idiota — gritei — Tão idiota que não percebeu que esses filhos são seus.
Berrei impulsivamente e só notei o tamanho de minha burrada ao ver James arregalar os olhos lacrimejantes.
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