World Cup 2014 Brazil!
53 Não negue seus sentimentos, Jusé! Ei, isso é um encontro?
Notas iniciais
Era uma bela manhã de sábado, um daqueles raros dias de inverno onde o sol saía e o clima esquentava, os pássaros cantavam e uma brisa agraciava os calorentos. Um dia ótimo, cheio de felicidade e harmonia!
- Já descobri tudo! — Ruan grita, batendo a mão na mesa do seu chefe — Tem muitas irregularidades no nosso contrato! Aqui nas letras pequenas diz que: "ao assinar o contrato, dou permissão total para que meu salário seja retirado de mim a qualquer momento, principalmente para alimentar o vício do meu chefe em bingo". Você não tava nos pagando pra jogar no bingo!
- Cê tá de brincadeira… *Jusé em choque*
- É pior, Jusé! Se você ler as letras miúdas, fala que o chefe “não se responsabiliza por danos físicos e/ou psicológicos e/ou morais e/ou morte eventual durante o trabalho”. E nas letras minúsculas tá falando “o que pagoainda é muito, não vou pagar mais e se reclamar eu tiro 50 centavos seus”.
- E? Vocês assinaram! Não vejo problema, se acham ruim, eu demito vocês! — o chefe dá o ultimato.
*Ruan e Jusé se entreolham*
- Posso chamar minha advogada antes de tomar uma decisão? — Jusé pergunta.
- Faça o que quiser, não vou mudar minha opinião!
*5 minutos depois*
- Alguém disse que tem comida pra minha aranha? — Austrália chega quebrando a parede com sua aranha gigante mutante chamada Advogada.
- Aqui mesmo. *aponta pro chefe*
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!
*CRASH*
O chefe dos locutores pula pela janela do quinquagésimo andar, enquanto uma aranha gigante o persegue, com um Austrália cavalgando nela.
-...
-...
- É. Ele morreu. — Ruan inteligentemente constata.
- Quem é que paga o nosso salário agora?
- Nem sei. Mais importante que isso…
Ruan começa a mexer na mesa do chefe até encontrar uma carteira gorda e um molho de chaves.
- Caralhooo, tamo rico! — Ruan abre a carteira e se impressiona com as notas de cem — E ainda descolamos o carro dele. Se duvidar tem até as chaves da casa dele aqui.
- Não acredito que você vai roubar nosso chefe.
- Vai defender esse larápio? Ladrão que rouba ladrão tem mil anos de perdão!
- Verdade. *rouba uma caneta* Hehe, sempre fiquei de olho nessa caneta toda vez que eu vinha aqui.
- Agora que temos grana à vontade, vambora almoçar!
- Onde você quer ir?
- Ah, tem uma doceria nova que abriu aqui perto!
- Você quer almoçar doces? Vai ficar diabético.
- Ali tem salgado também.
- Tá bom, vai…
- Uhuul!
Doceria
Pediram seus salgados e comeram enquanto discutiam suas previsões para os próximos jogos. Porém, Jusé não conseguia se concentrar muito na conversa, porque toda vez que Ruan sorria (e que sorriso bonito da porra, viu) ele conseguia ver um pedaço de salsinha que ficou preso no dente dele. Por algum motivo aquilo fez Jusé ter um ataque de fofura e ele teve que forçar um gole do seu café quente para não surtar de vez.
- T-tem algo preso no seu dente…
Viu o outro caçar a salsinha com a língua e errar o alvo todas as vezes. Numa situação normal ele ia rir da cara do amigo, então por que estava achando aquilo estupidamente fofo? Seu coração e a sua cabeça estavam estranhos desde… As descobertas na caverna.
Verdade seja dita, não era a primeira vez que essas emoções se manifestavam. Em certos pontos da sua vida, seu coraçãozinho deu sinais de que algo lindo estava florescendo ali dentro... Então, ele empurrava essas sensações estranhas (e, sinceramente, inconvenientes) para dentro do buraco mais escuro e labiríntico do seu coração.
Se soubesse que tais sensações voltariam para atormentá-lo, Jusé teria cavado um buraco bem mais fundo.
- Saiu? — Ruan mostra os dentes.
- Milagrosamente, sim. — Jusé se recompôs. — Que doce vai pegar?
- Todos!
Tudo parecia delicioso, era difícil decidir. Ruan sorria enquanto cantarolava baixinho e fazia caras e bocas quando encontrava algo que parecia especialmente gostoso. De repente Jusé achava difícil olhar apenas as sobremesas dentro dos expositores…
No fim, Ruan pegou um bolo de morangos japoneses de luxo, com nozes refinadas e chocolate belga trufado; Jusé, uma simples torta de limão. Ele nem gostava tanto de limão. Mas não tinha importância, ele desesperadamente tentava se concentrar no doce, não no modo que seu coração apressava uma batida quando olhava nos olhos de Ruan; no modo que seus lábios formigavam quando o via lamber a boca coberta de creme; em como sorria involuntariamente toda vez que ele dava aquela risada tão gostosa de ouvir; em como a perna dele sem querer roçou na sua, mandando choques por todo seu corpo.
- Tá tudo bem, Jusé? Você nem comeu direito.
- Ah, s-sim! — a real é que tinha perdido a fome, seu estômago já tinha se contorcido tanto que ele nem sabia mais para que lado aquilo estava virado. — Acho que não curti muito essa torta. Pode ficar, se quiser.
- Opa! Torta de graça! — Ruan aceitou o doce de bom grado e acabou com metade numa garfada só. — Hum, delícia! Se quiser pode pegar um pedaço do meu bolo~
Ele troca seu prato com Jusé, que aceita, porém sua mão tremia de nervoso e o pedaço de bolo que cortou foi direto pro seu colo.
- Eita, tá com a mão furada hoje? Aqui, pega esse pedaço. — Jusé levanta o olhar só pra dar de cara com Ruan segurando o garfo com bolo bem na sua fuça. — Abre a boquinha~~
- Tá doido, é?!
- É brincadeira! Vai, antes que você derrube mais alguma coisa.
Olhou para Ruan, depois para o bolo, depois para Ruan, depois para o bolo, depois para bem dentro de si mesmo, tentando achar um pingo de dignidade ali dentro. Como não achou nada, deixou Ruan dar o bolo na sua boca. Jusé olha para os lados. Ótimo, parece que ninguém viu aquilo...
- Hm, é doce…
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o ruivo se inclinou para frente e os dois ficaram cara a cara. A respiração de Jusé falhou e o mundo parou. Ruan levou a mão até o rosto de Jusé e limpou o canto de sua boca, delicadamente, enquanto o olhava com os olhos doces… Ou, foi isso que Jusé queria imaginar. Na verdade, Ruan lambeu o dedão e o esfregou na sua cara com zero delicadeza.
- Tava sujo. — falou simplesmente, voltando pro lugar.
- Podia ter avisado que eu limpava. Tava querendo arrancar a minha cara junto? — disse, indignado e talvez um tanto decepcionado. Ruan deu de ombros, então percebe algo.
- Ei, isso não pareceu coisa que um casal faria num encontro? — ele ri.
Jusé implode de vergonha e bate a cara no prato.
- JUSÉ?!
- Ha…Haha… Eu desmaiei por um segundo… — ele levanta a cara cheia de creme.
- V-você tá bem? Quer que eu chame uma ambulância?! Um padre?!
- Acho que eu só… Sei lá, acho que a pressão caiu…
- E o pobre bolo levou dano colateral... — Ruan pegou um guardanapo e se inclinou para perto, dessa vez tentando limpar o rosto dele o mais gentilmente possível. O toque leve fez o coração de Jusé pular e ele cai de bunda no chão..
- N-N-NÃO PRECISA! EU VOU NO BANHEIRO! — e pateticamente correu, deixando um Ruan muito confuso para trás.
...
De cara lavada e um pouco mais calmo, Jusé voltou, se sentindo completamente humilhado. Ele tinha que parar de pensar besteira, Ruan era um amigo, apenas isso. Ele não estava apaixonado pelo seu melhor amigo, com certeza não!
Parque
Depois de comer, resolveram ir para o parque. O tempo estava ótimo para descansar, e foi o que Jusé fez, já estava no quinto sono enquanto Ruan tagarelava sobre o que poderiam fazer com aquele tanto de dinheiro. Ruan queria acordar Jusé e sair logo para algum outro lugar, mas tinha pena do coitado, ele quase não dormia. Então apoiou o queixo nos joelhos e ficou observando o amigo dormir. Havia uma certa paz nessa atividade: assistir seu peito subindo e descendo, o vento bagunçando sua franja, ver os detalhes de seu rosto tranquilo, o contorno da sua boca entreaberta… Era algo hipnótico.
- Cara, que injustiça, o Jusé é muito bonito. *faz bico* Nem parece mais aquela criança magricela que todo mundo zoava. Quer dizer, ele era fofo daquele jeito também, mas agora...
Inclinou para perto, apenas o suficiente para ver melhor seus detalhes mais finos. Ele mordiscou o beiço e suspirou suavemente.
- Sério, como você ficou tão gato sem eu perceber...?
De repente sentiu o rosto esquentar… Até as palmas de suas mãos suavam!
- *se afasta* Afe, desde quando ficou tão quente?
...
Depois que Jusé acordou, aproveitaram para olhar os patos e fazer uma caminhada. O tempo todo, Jusé lutava contra aquela parte do seu cérebro gritando que eles estavam num encontro romântico. Chegando no fim, Ruan pulava de ansiedade.
- Onde vamos agora? Onde vamos agora?
- Do nada, eu tô tomando conta de uma criança hiperativa. — Jusé suspira. — Tá, onde você quer ir?
- Próxima parada, aquário!
- Misericórdia, onde que a gente vai encontrar um aquário por aqui?
- Sei lá, não dá pra ver pelo celular?
- Hmm… Aqui tá falando que o mais perto são duas horas daqui.
- Só duas horinhas, tranquilo!
- Então vai sozinho, eu que não vou gastar duas horas do meu dia no transporte público só pra ver peixe.
- Vaaaaamos, vai ser legal!
- Só se eu fosse deitado, com ar condicionado e um petisco…
De repente eles dão de cara com um grupo de pessoas entrando num ônibus, uma mulher vestindo uma blusa com um tubarão estampado vai até eles.
- Olá, nosso grupo de biologia marinha está indo para o aquário que fica a duas horas daqui, duas pessoas não puderam vir, vocês querem entrar no lugar delas? Nosso ônibus tem assentos reclináveis, ar condicionado e amendoim de graça.
-… *olhar pidão*
-…*olhar de nem ferrando*
- … *olhar pidão INTENSIFIES*
-…*fecha os olhos*
-… *aura pidona que faz você se sentir culpado LV. MAX*
-……… Afe, tá bom.
- VAMBORA!!
Aquário
A viagem foi tranquila, ficaram o caminho todo conversando com os biólogos e aprendendo fatos sobre o oceano. Quando chegaram, o grupo se dividiu e os locutores decidiram explorar o local sozinhos.
Sozinhos…
Não parecia um encontro…?
- Não!
- Não o que?
- N-nada, não foi nada… — riu de nervoso
Entraram no corredor, já de cara haviam tanques com vários peixinhos coloridos. Gastaram um bom tempo apreciando os animais, lendo as informações e zoando dos nomes bizarros que eles tinham. Na próxima sala haviam outros tipos de animais: cobras, lagartos, tartarugas, salamandras e até mesmo…
- Jusé, achei um parente seu! *aponta pro jacaré albino.* Caramba, idênticos. O branco é igual! Olha, Jusé! Vocês usaram a mesma marca de alvejante quando nasceram!
- Ha ha, muito original. — disse num tom irônico. — … Olhando bem, né que a gente se parece?
- Olha aqui quanta barata!
- AAAAHHH!!! ONDE?! É O FIM DO MUNDO, CADA UM POR SI!!
- Aqui no viveiro, maluco!
- Ah tá…
- Você tem que trabalhar esse seu trauma de barata aí, filho.
- N-não dá… As baratas me perseguem… Uma já entrou na minha boca uma vez e--
- Entendi, não precisa falar mais nada. *tapinhas de consolação*
Jusé nunca pensou que estaria se divertindo tanto vendo peixes, a animação de Ruan com todos aqueles animais era contagiante, e ele se pegou apreciando muito mais os detalhes de animais que ele considerava entediantes. Depois dos tanques, seguiram por um caminho escuro, à medida que andavam podiam ver uma luz azul iluminando o fim do corredor, e logo estavam dentro de um grande túnel de vidro.
- Estamos de baixo d’água!
O túnel passava por dentro do enorme tanque principal, estavam rodeados por água e diversos animais marinhos, peixes grandes nadavam na altura de seus olhos, arraias circulavam abaixo de seus pés e…
- Olha pra cima!
Nesse momento, um tubarão gigantesco passou bem perto do vidro, os espantando tanto que Ruan precisou se agarrar em Jusé para não cair.
- Uou! Você viu isso?! Ele passou raspando! Viu o tamanho daquilo?! — o ruivo sorria de orelha a orelha.
- Eu vi! O bicho fez até sombra! — riu — Você quase caiu pra trás!
- Ainda bem que você está aqui para me salvar, meu herói~ — fez uma pose exagerada
- Besta.
Jusé apertou o nariz de Ruan. Ele poderia jurar que, pela luz azulada, conseguia ver o rosto do amigo corar. Talvez fosse só impressão, mas aquilo fez seu coração acelerar.
Na próxima sala, seus queixos caíram. Eles tinham acabado de sair de dentro daquele tanque, mas daquele ângulo eles podiam ver melhor sua magnitude. O tanque principal era enorme e ocupava a parede inteira do salão, era como uma gigantesca janela para o mundo marinho, eles tinham uma vista muito melhor dos animais e até puderam reconhecer aquele tubarão de antes nadando perto do vidro, talvez ele gostasse da atenção dos visitantes.
- Nossa, aqui tá lotado...
- Tá, melhor a gente ir indo... *pega o braço do Jusé*
- Ei! — exclamou, envergonhado com o toque repentino.
- Que foi? Só não quero que a gente se perca.
Jusé bem que gostaria de mais distância, porém a cada novo tanque, Ruan o puxava pelo braço para ter certeza de que ainda estavam juntos. Aos poucos, Ruan passou a agarrar seu pulso, até que os dois estavam praticamente andando de mãos dadas por ali. Era sufocante, as mãos de Jusé formigavam, queria poder segurar a mão de Ruan direito, queria entrelaçar seus dedos, ficar pertinho dele e não desgrudar mais, mesmo que suas mãos doessem e ficassem nojentas de suor no final do dia. Por quê? Por mais que não quisesse sentir aquelas coisas, por que Ruan sempre complicava tudo?
E pior... Jusé sentia o olhar das pessoas nos dois. Era pura paranoia da sua cabeça, mas naquele momento, ele realmente sentia como se todos estivessem os observando, até mesmo os peixes pareciam julgá-lo...
- Você ainda tá aí? Vem cá, olha esse bicho aqui--
- Credo, Ruan! Não precisa ficar pegando em mim!
Ele afasta sua mão e passa pelo amigo de forma fria, sem ver a cara que o outro fez na hora…
...
A próxima sala tinha poucas pessoas, também não era tão interessante. Enquanto Ruan se divertia com as ostras, Jusé resolveu andar até a sala das águas-vivas. O local estava vazio e a pouca iluminação fazia os aquários se tornarem ainda mais místicos. Haviam águas vivas pequenininhas, do tamanho de uma unha, e umas tão grandes quanto seu braço. Algumas possuíam longos tentáculos que se arrastavam atrás de si como um véu, outras pareciam balões e nadavam de forma engraçada.
Jusé parou na frente de uma parede cheia de “medusas-da-lua”. Ah, o que ele não daria para ser uma água-viva flutuando tranquilamente pelo oceano? Mas nãaao, ele era um ser humano e tinha que se preocupar com problemas humanos como aquecimento global, inflação e sentimentos confusos.
Confusos mesmo! Afinal, ele não gostava de Ruan, mesmo que seu coração batesse forte e perdesse o ar perto dele aquilo não era amor! Não podia ser, até porque se fosse então... O que seu pai diria?
Jusé cravou as unhas no braço já imaginando o sermão que viria, cheio de frases homofóbicas e o clássico “vira homem!", a dor de cabeça vinha só de imaginar a gritaria. Além do seu pai nunca mais querer olhar na sua cara, a sua mãe começaria a chorar horrores, se perguntando onde ela tinha errado e tentaria arranjar uma noiva para ele. Ela provavelmente ia chorar as pitangas para as tias e-- Jesus amado, e se a notícia se espalhasse para o resto da família? Ia virar um telefone sem fio gigante, a fofoca ia correr solta e no final a notícia já teria se transformado num monstro completamente diferente! E as perguntas, e as piadas, e a atenção indesejada…!
Ou seja, o caos, o inferno na terra! Pelo bem da sua sanidade mental, seria melhor ele “virar homem” (seja lá o que aquilo significasse), ter um bom emprego, criar uma família e garantir um futuro para que seus pais parassem de encher seu saco. E, no seu futuro perfeito, não havia espaço para...
- É tão relaxante ver elas se mexerem. — Ruan surge ao seu lado e Jusé se segura para não gritar de susto — Como um bicho que não tem cérebro conseguiu sobreviver por tantos milhares de anos?
- Da mesma forma que você sobrevive.
- Como assim?
- Nada…
Jusé queria voltar a relaxar, seu coração batia tão forte que tinha medo que o outro pudesse escutar. Por que Ruan fazia ele se sentir daquele jeito?
Quer dizer, ele conseguia pensar em algumas coisas. Para começar, Ruan tinha uma animação, às vezes irritante, mas muitas vezes contagiante, que tornava sua personalidade magnética. Jusé apreciava seu jeito carinhoso, seu humor e sua companhia. Quando estavam juntos, tudo parecia virar uma aventura, e Ruan era seu parceiro de crime inseparável. Ele o forçava a sair da sua zona de conforto e ao mesmo tempo era seu porto seguro. Queria cuidar dele, confortá-lo nos momentos mais difíceis, proteger o seu sorriso...
Além disso... Ele era lindo demais. Porra! Não entendia como ele nunca teve uma namorada, ele era muito bonito, tinha uma bunda incrível, coxas grossas, ombros largos, ele era perfeito para abraçar, as mãos dele estavam sempre quentinhas, seu cabelo ruivo era tão bonito mesmo todo desarrumado…
E seu rosto, nossa, Jusé não conseguia deixar de olhar para ele! Todos os detalhes do seu rosto eram perfeitos, até mesmo as sardas que ele insistia em querer tirar com cremes e esconder com base. O seu sorriso era o sorriso mais lindo do mundo, parecia iluminar e aquecer todo o ambiente, e seus olhos… Ele poderia se perder para sempre dentro deles…
Ruan enfiou a cara no vidro, maravilhado com as águas-vivas. Elas dançavam de forma elegante e os olhos do ruivo brilhavam. A figura do homem, iluminada pelas luzes azuis do aquário, fez brilhar os olhos de Jusé.
…Ele podia inventar a desculpa que quisesse, mas já era tarde demais. Estava confuso com seus sentimentos? Que piada! A resposta que buscava não era óbvia o suficiente?
- Medusa-do-mar… Olha! Aqui tem aqueles fones pra escutar as informações sobre o bicho!
“Eu não gosto dele”, por que continuava repetindo a mesma frase sendo que não era verdade? Sendo que estava tão claro que…
- Eu gosto de você…
Sussurrou. Ruan não o escutou, ocupado demais com os fones de ouvido.
As palavras que saíram da sua boca pareciam tão certas. Gostava de Ruan. Gostava dele. Muito. Se seu amor fosse água, antes achava que poderia facilmente contê-lo dentro de um aquário. Porém de gota em gota aquilo tinha crescido, transbordado e se tornado um oceano inteiro que se estendia, azul e infinito, além do horizonte. Jusé tinha acabado de colocar os pés na água fria e acordado para sua realidade. Respirou a brisa salgada; deixou sua ansiedade borbulhar, depois abaixar, e o que sobrou foi apenas um calor gostoso no peito. A sensação de que, talvez, amar Ruan não fosse tão ruim assim.
- E aí, tá se divertindo? — o ruivo pergunta.
- Tô sim.
- Que bom! É que antes você não queria vir, aí fiquei preocupado de ter te arrastado à força.
- E você, tá gostando?
- Sério, esse lugar é incrível. — Ruan volta seu olhar para as águas-vivas. — Dá pra imaginar que tudo isso não é nem um terço do que existe no mundo todo? Aposto que se você vivesse no meio do oceano, não ia ter um dia de tédio!
Jusé murmurou como resposta. O oceano era vasto e cheio de vida, mas tinha certeza que, não importa onde, tudo ficaria melhor com Ruan por perto...
“Droga! Agora eu não vou conseguir tirar ele da cabeça e eu nunca mais vou ter um pensamento original na vida!”
- Acho que depois daqui, tem mais uma sessão e depois acaba. Vamos, antes que o pessoal do ônibus saia sem a gente!
O ruivo diz e faz menção de pegar o pulso de Jusé. Foi no último segundo que se lembrou da reação do amigo algumas salas antes e recuou abruptamente, segurando o braço contra o peito como se precisasse o conter. Eles se encaram, Ruan ri, meio sem graça, com um semblante triste.
“Quer saber de uma coisa?”
- Vamos indo.
Jusé se aproxima e, num movimento rápido, segura Ruan pelo pulso e sai andando a passos largos, o arrastando junto. Não ousou olhar para trás, com medo que seu rosto estivesse vermelho e entregasse tudo. Já Ruan abriu um sorriso de orelha a orelha e andou mais rápido para poder acompanhar Jusé.
...
Chegando no final do passeio, os dois pararam na loja de lembrancinhas. E claro, com dinheiro infinito no bolso, Ruan estava agindo como uma criança, rodando a loja toda e colocando a mão em tudo enquanto Jusé observava de longe e fingia que não o conhecia.
Foi quando, pelo canto do olho, algo brilhante chamou a sua atenção. No meio dos chaveiros pendurados, encontrou dois pingentes de águas-vivas azuis e translúcidas.
- E aí, Jusé! Encontrou alguma coisa que você gostou? — Ruan aparece, segurando várias quinquilharias nos braços.
- A-ah, eu, eu só...
- Uia, não são as "medusas-do-mar"?
- Acho sim. — Jusé engoliu um nó na garganta e agarrou os chaveiros com mais força — Erm... Eu tava pensando... Esses são os últimos dois, então a gente podia... S-se você quiser! Pra lembrar de hoje e tal! Eu e você... O-os chaveiros...
- *tentando carregar a informação* ...Aaaaah! Um pra mim e um pra você?
- *acena com a cabeça*
- Pode ser, aí a gente fica combinando! — Ruan abre um sorriso maior ainda. Jusé sente o rosto todo em chamas e enfia os chaveiros na mão do amigo.
- T-tá! Vai pagar essas coisas logo, e-e-eu tô te esperando lá fora! *foge*
Jusé por dentro: “MEU DEUS a gente tá combinando! A gente tá combinando! O Ruan é tão fofo, eu amo muito ele! É tão bom ser iludido, puta merda! Alguém me belisca, isso é real?!”
Conteve a emoção o máximo que podia e ficou esperando Ruan pagar os cacarecos. Na saída do aquário, Ruan entregou o chaveiro. Jusé ficou pensando onde deveria pendurá-lo, mas talvez fosse melhor guardar aquilo num cofre ou emoldurar para que aquela linda lembrança ficasse guardada e segura pela eternidade…
— Hoje com certeza foi um encontro…! Hehe, onde será que o Ruan vai me levar da próxima vez~?
Aí ele teve um segundo de lucidez, e sentiu vergonha de estar tão emocionado.
Cidade
- Tchau, garotos! Tomem cuidado, aqui é perigoso de noite.
Os dois se despedem mais uma vez do grupo e caminham até o próximo ponto de ônibus, sem perceberem que estavam sendo observados. O som de uma motoca ronca na noite, e de forma ligeira, duas capivaras numa moto interceptam os locutores e desaparecem com a carteira deles pelas ruas.
- NOOOOO!! NOSSO DINHEIRO!!
- Estamos pobres novamente Ruan… O que vem fácil, vai fácil…
- N-não deveria ser assim! O mundo é injusto *chora*
- Afe, vocês só choram por dinheiro.
Eles olham para frente e se deparam com Kimiko, que estava de pijama e segurava uma sacolinha de compras.
- Kimiko! O que você tá fazendo aqui?
- Eu moro aqui do lado, vim comprar umas bolachas. E o que os dois vagabundos estão fazendo aqui?
- Fomos assaltados e perdemos o nosso dinheiro, não podemos voltar pra casa… — os dois choram, Kimiko tem uma ideia.
- Vocês podem dormir lá em casa hoje, meus pais não estão!
- Eles deixaram você sozinha em casa? Por quê? — Jusé pergunta, preocupado.
- Convenientemente saíram numa viagem de negócios. Vocês vêm ou já sabem em qual ponte vão dormir?
Casa da Kimiko
- Bem-vindos à minha humilde residência!
- Oi povo!
- Makotinho!
- Não estamos atrapalhando nada, estamos?
- Claro que não, maratona de anime é legal com mais gente.
- Sentem-se! Tem pipoca e suquinho pra todo mundo! — Kimiko os guia para o sofá.
- Esse tang tá meio aguado, né…
- Vocês vieram de última hora, fiz o que pude. — Makoto dá de ombros.
- Quietinhos aí, vou dar play!
Passaram o resto da noite assistindo Ano Hana e chorando até desidratarem. Perto das uma da madrugada, depois de assistirem Bob Esponja para voltarem a sentir alguma alegria, Kimiko levou os amigos até o quarto de visitas.
- Só aviso uma coisa…. — ela abre a porta devagar, com um sorriso malicioso. — Só temos uma cama.
- A gente dá um jeito, obrigado mesmo, Kimiko. — Ruan abraça a garota. — Vamos ver, ela disse que tem mais travesseiros no armário… Erm… Jusé, o que você tá fazendo?
- HM? N-NADA NÃO!
- Parece muito que você tá tentando pular a janela.
- Haha, que? Haha, eu? Haha, nunca!
Ruan não disse nada e simplesmente começou a se preparar para dormir, enquanto isso, Jusé foi até o armário, pegou um cobertor e se deitou, muito dignamente, no chão do quarto.
- Tem espaço pra você aqui. — Ruan fala dando batidinhas na cama.
- Não, obrigado. Dizem que dormir no chão faz bem, é terapêutico e melhora sua conexão com a mãe natureza…
- Mesmo dormindo num chão de concreto?
- Tô em cima de um tapete de lã, lã vem da ovelha e ovelha é natureza.
- Faz sentido. Mas você não vai ficar com frio?
- Pfft, claro que não. Nem tá frio hoje.
Então, escutam um estrondo do lado de fora. Ao olharem pela janela eles veem uma camada grossa de neve cobrindo toda a rua.
- VODKAAAA~ — eles escutam Rússia correndo no meio da neve com uma garrafa na mão.
Jusé até tentou dormir, mas não conseguia parar de tremer.
- E-e-ei… Q-quantos graus e-está f-fazendo a-agora?
- Hmm… Menos quarenta graus.
*silêncio*
- ...Quer deitar aqui?
Num pulo, Jusé estava debaixo das cobertas.
- Ai! Tira esse pé gelado de mim! — Ruan exclama.
- Foi mal, a cama é pequena!
- Uhum, sei, vou fingir que você não tá querendo aquecer seu pé de defunto em mim. Além de folgado é um pervertido descarado! — diz, fingindo indignação.
A cabeça de Jusé automaticamente foi para lugares inapropriados e seu rosto se contorce num misto de vergonha e desespero.
- Que cara é essa? Te chamei de pervertido e a carapuça serviu? — Ruan zomba.
- CALA A BOCA!
Jusé escondeu o rosto no travesseiro. Vendo o desespero, o ruivo gargalha e dá um cutucão no braço dele.
- Ein? Tá se entregando, ein? Tava pensando no que? Ein, ein? — Ruan balançou as sobrancelhas com um olhar sugestivo, enquanto o cutucava sem parar.
- NADA! Não tava pensando em NADA! PARA!
- E agora quer bancar o puritano. — disse com um sorriso zoeiro.
- Puritano? Olha quem fala, você fica todo nervoso quando mencionam que você é BV.
- Q-que? Eu não fico!
- Fica sim, tipo agora. Eu já te vi ficar vermelho até com beijo de novela, quem é o puritano aqui?
- Eu não sou puritano…*faz bico*
- Mas é BV. — diz, e Ruan vira de costas, irritado. Jusé nem tenta esconder o riso – Desculpa! Ruan, vira pra cá! Vira pra mim, responde, por que você tem tanta vergonha de ser BV?
- Meio óbvio, não? — ele murmura e se vira — Eu nunca beijei e já tenho dezoito, quase dezenove, anos. Sabe o que é ter a minha idade e não saber beijar?
- Ué, mas isso não é questão de idade, você vai beijar quando tiver que beijar. Além disso, ninguém nasce sabendo… Eu posso te ensinar, se quiser.
Sua boca se mexeu mais rápido que pôde pensar e o estrago estava feito. Aquilo foi a porra de um flerte, não tinha como esconder. Deitados, virados um para o outro, o ar entre eles pareceu ficar mais quente, ou talvez fosse só impressão de Jusé, de qualquer forma ele sentia seu rosto pegar fogo. Ruan piscou algumas vezes, boca entreaberta enquanto pensava em algo para dizer e, puta merda, Jusé só conseguia olhar para a boca dele! Precisava remediar a situação antes que Ruan tivesse a impressão errada! Rápido!
- Ah, tipo com uma mexerica…
- NÃO É GAY SE FOR NA AMIZADE…
Falaram ao mesmo tempo. Jusé sentiu a alma sair do corpo.
- Aah… E-eu não estava pensando nisso… — Ruan desviou o olhar. — Eu pensei, em tipo… As pessoas treinam beijos em frutas, né?
- SIM, SIM, SIM, SIM! Frutas, exatamente! Eu tava só brincando, haha! Não tava querendo te beijar não se preocupa!!!!
- T-tá, não vou me preocupar…
- …
-...
Ruan virou para o teto e Jusé virou para a parede. É agora que ele não dormia mesmo, aquilo ia ficar na sua cabeça para sempre. A ciência tinha que descobrir por que gostar de alguém fazia o cérebro humano diminuir as funções em 50%.
- Nos ferramos. — Ruan disse, interrompendo os pensamentos de Jusé. — Já que perdemos o dinheiro, precisamos voltar a trabalhar… — começou, Jusé automaticamente bateu a mão na testa.
- Ugh, não acredito que a gente tem que voltar pra essa merda! Eu juro pra você que eu tô a um fio de só deixar de aparecer por lá…
- Aguenta, a Copa já tá acabando! E veja pelo lado bom, pelo menos esse trabalho merda fez a gente se reencontrar. — Ruan sorriu. — Nem acredito que a gente se conheceu no oitavo ano, já faz quase sete anos, não é?
- Não foi no quinto ano? — Jusé arqueia a sobrancelha. — A gente quase saiu no soco porque eu não queria te emprestar um lápis.
- Não, foi no oitavo. Eu vi que você era isolado e te obriguei a ser meu amigo.
- Ok. A gente se conheceu na escola. Depois você foi embora no ensino médio. Até aí a história bate?
- Sim…? — Ruan fica pensativo. — Espera, se a gente é amigo há tanto tempo, como eu não te reconheci quando a gente se reencontrou?
- Sei lá, você tem memória de peixe. — Jusé franze o cenho — A gente tá morando junto há quanto tempo?
- Desde antes da Copa, né? Não faz sentido a gente morar junto e não se reconhecer…
- A gente se conheceu mesmo na escola?
- A gente se conhece?
- A gente existe? *começam a questionar a própria existência.*
- Será que isso é uma “anomalia temporal” que o Romênia falou? — Jusé diz
- A minha vida toda, as minhas memórias, são uma mentira…*tremendo*
- Calma, não entra em pânico! — Jusé agarra seus ombros — A gente só precisa ignorar e seguir a vida, lembra?
- I-ignorar e seguir a vida… — Ruan tenta se acalmar.
- A nossa vida já é uma bagunça do caralho. Você viu o que aconteceu durante essa Copa, qualquer um que tentasse encontrar lógica naquilo ia ter um infarto.
- Verdade.
- Vamos só dormir logo. O importante é que estamos vivos. — Jusé se ajeita debaixo das cobertas e murmura — Só espero que não role um retcon falando que estávamos mortos o tempo todo…
- Ou que estamos em um coma e a gente acorda no futuro…- Ruan boceja, suas pálpebras mal se aguentavam abertas. — Você acha que essas anomalias temporais são prova de que existem universos paralelos?
- Possível.
- Você acha que somos amigos em todos os universos? — Ruan pergunta.
- …Espero que sim.
- Eu também. Não importa o lugar, eu quero poder estar sempre com você.
Jusé retribuiu um sorriso como resposta. Ruan dormiu primeiro, enquanto o albino ficou encarando o teto, coração a mil, nervoso demais para conseguir fechar os olhos. Ele não era religioso nem nada, mas rezou para que houvesse algum universo onde eles fossem mais que amigos…
Fale com o autor