Workaholic
1 Capítulo 1 — Coincidência.
Notas iniciais
Capítulo 1 — Coincidência.
— O que significa isso, Gregório? — Otávio diz, com o celular do namorado em mãos.
— O quê? — Aproximou-se dele.
— Isso. — Apontou as mensagens.
— Conversei com a Gabi hoje. — Greg ergueu os ombros, não entendendo o estresse do namorado.
— É esse tipo de mensagem que você troca com os amigos? — Ergueu uma das sobrancelhas.
— Por favor, não vai me dizer que está com ciúme disso.
— Você não me engana, tá achando que eu sou idiota?! — Otávio continuou, aumentando o tom de voz.
— Ei, ei, para com esse escândalo, o prédio todo vai ouvir! — Gregório retrucou de volta. — E devolve meu celular!
— Eu devolvo se você assumir o que você fez.
— Você só pode estar brincando comigo, só pode... — Bufou. — Olha, você sabe muito bem que ela é minha amiga!
— Eu nunca vi ninguém conversar com os amigos de forma tão explícita, cheia de sacanagem desse jeito! — Esbravejou, começando a ler as mensagens em voz alta. — Gabriela diz: Eu com certeza te pegaria, você é gostoso pra caralho!
— A gente só estava brincando, como sempre fazemos. — Continuou, passando a mão pela testa.
— Preciso ler o que você disse? Preciso? — Otávio continuou com o aparelho em mãos, voltando a ler. — Aí você responde: Eu também ficaria com você, você tem peitos de dar inveja a qualquer uma!
— Você sabe que eu só estava elogiando ela! Caramba! Eu só gosto de homens, ou melhor, só você, sempre foi só você! E agora você está prestando esse papel ridículo!
— Não tenta reverter a situação, fazer parecer que eu estou errado na história! Você adora fazer isso! — Otávio jogou o celular com certa força sobre a mesa da sala de estar. — Vai, sai daqui! Vai se encontrar com essa piranha que você chama de amiga!
— Você é inacreditável... — Greg arregalou os olhos, tirando o celular da mesa, guardando no bolso. — Chega, estou cheio disso!
— Ótimo, porque eu também estou.
— Vou pegar minha mochila.
— Sem essa, sai. Vaza daqui. — Otávio falou, dando um passo para a frente, bloqueando a sua passagem.
— Eu só quero pegar a...
— Sai! — Interrompeu, apoiando ambas as mãos ao tórax do namorado.
Gregório encarou-o uma última vez, retirando as mãos dele de sobre si, dando um passo para trás, preferindo retirar-se do que continuar ali. Abriu a porta de entrada e bateu-a com força, sem ligar para o que os vizinhos de Otávio pensariam.
Enquanto o elevador descia, bateu as mãos no bolso e se deu conta de que a sua carteira também havia ficado no apartamento do namorado, soltando um longo suspiro com isso, pensando que não apareceria por lá tão cedo para pegá-la de volta, não antes que o namorado lhe implorasse perdão.
Andava pelas calçadas do centro olhando para os próprios pés, pensando em como conseguia ser tão trouxa, sabendo que provavelmente Otávio ligaria dali alguns minutos, dizendo que se arrependeu, pedindo desesperadamente para que ele voltasse, como sempre fazia.
Se ele ligaria, então lhe pareceu correto naquele momento parar em algum lugar para esperar e talvez tomar alguma coisa, principalmente beber algo alcóolico já que não dirigiria, por suas chaves do carro também terem ficado no apartamento, além disso, estava precisando se abstrair por um momento.
Como tinha uma nota de dez reais em seu bolso, atravessou a rua para ir ao bar que já conhecia bem, sentando-se junto ao balcão, de frente ao barman, pedindo uma caipirinha. Olhava sua bebida ser preparada quando um alvoroço ao lado chamou sua atenção: um grupo de amigos na mesa a sua esquerda brindava, parecendo comemorar algo enquanto conversavam e riam alto.
Gregório disfarçou quando um dos rapazes que encarava, lhe olhou de volta, deixando-o envergonhado por ter sido pego. E quando ousou olhar novamente, o rapaz da mesa ainda continuava a olhar em sua direção, cujo abriu um sorriso com a troca de olhares.
Quando sua bebida ficou pronta, Gregório pensou em levantar da banqueta, até sentir um peso em seu antebraço, olhando para ver o que era, deparando-se com o sorriso simpático do rapaz da mesa, que agora estava ao seu lado, soltando seu braço, parecendo interessado em lhe dizer algo:
— Oi, eu vi você sozinho e eu quis saber se você não quer se juntar à minha mesa.
— Não. — Respondeu rispidamente.
— Desculpa a minha grosseria, eu sou Francisco... E você? — Levantou uma das mãos, para cumprimentá-lo.
— Tô esperando alguém. — Gregório mal olhou em seus olhos, para responder, muito menos apertou sua mão.
— Tudo bem. — O rapaz girou o calcanhar, sem se importar com a resposta grosseira. — Mas se mudar de ideia, o convite ainda estará de pé.
Rolou os olhos quando ele retirou-se, sendo a primeira vez que levava uma cantada naquele ambiente que tanto ia, onde comumente não era frequentado por homens tão indiscretos. Naquele momento quis saber qual tinha sido o motivo do qual o rapaz havia achado que tinha a liberdade para se dirigir a si daquela forma.
Gregório não era o tipo de pessoa fácil de se ler somente pelas suas expressões, pois normalmente não deixava resplandecer o que sentia. Suas feições eram sempre discretas, assim como em suas redes sociais, eram poucos os momentos onde revelava uma parte de sua vida pessoal, também tendo uma quantidade enxuta de amigos, se é que podia denominá-los assim.
Olhava para o seu celular enquanto mexia a sua bebida pelo canudo, procurando por mensagens novas ou ligações perdidas, tinha até reparado um pequeno trinco em sua tela, tudo, menos algum sinal de Otávio.
Por mais que sabia que era mais do que comum as crises de ciúme, todas elas partiam o seu coração de uma maneira diferente, como se o namorado não tivesse confiança alguma no relacionamento. Mesmo assim, não podia negar que Otávio era o homem dos seus sonhos; perto dos quarenta anos, não era o homem mais lindo do mundo, mas com certeza Otávio tinha um charme impagável, cabelos negros e laterais grisalhas, olhos castanhos e bochechas que Gregório adorava morder. Tinha que admitir também que seus esforços para manter a relação sempre valiam a pena.
Quando somente sobrou gelo em seu copo, sentiu-se tentado em pedir outro copo, no entanto, precisava ir embora, assim esperando que o barman terminasse de atender os outros clientes, pagando sua bebida e deixando o troco de gorjeta. Gregório deixou o estabelecimento com as mãos no bolso da calça, sentindo ao sair que ainda era observado pelo rapaz que havia lhe cantado.
Enquanto caminhava, torcia para que seu irmão estivesse em casa, pois só moravam os dois juntos e as suas chaves da entrada estavam dentro do carro. Andava apressado pelas calçadas, querendo chegar antes que escurecesse, pois além de já estar perto das seis horas da tarde, as nuvens cinzas ameaçavam chover em breve.
Já estava arrepiado pelo frio quando finalmente chegou, tocando o interfone. E para o seu alívio, o irmão atendeu, abrindo o portão automaticamente, destrancando a porta para ele.
— Chegou cedo. — Guilherme afirmou, quando Gregório entrou pela sala. — Achei que ia dormir no Otávio.
— Eu ia, mas a gente acabou discutindo. — Confessou.
— De novo? — O irmão estranhou. — Isso tá ficando chato já, você não acha?
— E qual escolha eu tenho, Gui? Ele é assim, você sabe
— Mas se vocês não querem se separar de uma vez, porque dizem que se amam, não deveriam sentar para conversar sobre isso? Não é normal brigarem tanto.
— Ah, certo, quer que eu te lembre de como ele reagiu quando eu tentei bancar o psicólogo da última vez?
— Não precisa, eu sei que ele ficou uma fera. — Guilherme respondeu, rindo, abotoando os botões da camisa.
— Você vai sair? — Gregório indagou, vendo o irmão bem arrumado.
— Vou. — Sorriu, animado. — Encontro às cegas.
— Ih, boa sorte. — Riu, indo pegar um copo d’água.
O rapaz andava para todos os lados enquanto se arrumava, chamando atenção do irmão que estava na cozinha e agora caminhava com o copo em mãos, aproximando-se dele. Guilherme estava com uma roupa social, parecendo até mesmo a forma que Gregório ia trabalhar todas as manhãs, deixando-os ainda mais parecidos.
Por mais que fossem irmãos de pais diferentes, haviam herdado os melhores traços da mãe, as bochechas fartas, os cílios grandes e o queixo quadrado. Os cabelos dos irmãos eram de um tom escuro de castanho, assim como os olhos de Guilherme; já os olhos de Greg eram de um tom cor de mel esverdeado, extremamente encantador.
— Bom, eu tô indo! — Guilherme exclamou, da sala. — Vai precisar de alguma coisa?
— Aonde você deixou as chaves? — Inquiriu ao irmão, voltando para o cômodo onde antes estava, ainda com o copo em mãos.
— Tão ali na mesa de centro, eu tô levando as minhas, não precisa me esperar.
— Tudo bem, depois me conte como foi.
— Pode deixar.
Gregório fechou a porta de entrada quando Guilherme retirou-se, sentindo-se tentado para ligar a televisão e relaxar, porém, preferiu fazer o que também lhe dava prazer. Foi ao seu escritório: uma pequena sala bem arejada, com vista para o jardim de inverno.
A sala de estar era confortável e espaçosa, ao lado da também ampla cozinha. A casa era o suficiente para que os dois vivessem confortavelmente e com muito espaço de sobra. E por mais que Gregório pudesse aproveitar mais dos seus dias ali, passava a maior parte de seu tempo no escritório e quando estava fora dele, seu outro refúgio era a sua escrivaninha espaçosa da companhia de marketing do qual era gerente.
Colocou a água que carregava sobre o protetor de copo da mesa e abriu a gaveta, pegando a pasta organizadora e retirando os documentos que precisaria para a semana seguinte. Passou os olhos por mais um contrato de estágio, já sendo o sétimo daquele mês, não querendo ler sequer mais uma vírgula das cláusulas que até havia decorado, colocando-o de lado para entregar o contrato para outra pessoa se responsabilizar.
Abriu a caixa de seus óculos de leitura e colocou-os, agora podendo prestar mais atenção aos papéis relevantes, tentando concentrar-se para tirar o namorado de sua cabeça. Sua vida era resumida ao trabalho e o restante do tempo que tinha, passava no apartamento de Otávio, isso quando não estavam separados por bobagem como a daquele dia.
Como pensava, notou as primeiras gotas caírem ao jardim de inverno à sua frente, com a chuva se tornando uma agradável trilha sonora para a solitária rotina de total imersão em seus negócios, mal vendo a hora passar, em meio aos papéis.
Já era tarde da noite quando ouviu a porta da sala de estar se abrindo, sabendo que era o irmão chegando. Guilherme era sempre silencioso e não foi diferente naquela noite, onde pelos passos cuidadosos dele, percebia que não queria perturbá-lo, principalmente por estar chegando tarde. Antes mesmo que chamasse-o para perguntar como tinha sido a noite, escutou a porta do quarto do irmão se fechar, assim deixando para falar com ele no dia seguinte.
Guardou tudo o que estava sobre a mesa e por mais que ainda quisesse continuar ali para adiantar seu trabalho, sabia que a hora já estava avançada e o seu sono também era precioso. Já no banheiro de seu quarto, tomou um banho relaxante e vestiu um conjunto de moletom confortável.
Desistiu da ideia de jantar, estando sem apetite, só conseguia pensar em como Otávio estaria naquele momento, deitando-se sem conseguir tirá-lo da cabeça, checando seu celular antes de colocá-lo de lado, bufando em ver que mais uma vez, não tinha nenhuma novidade. Mesmo que com todas as preocupações, Gregório foi embalado pelas gotas da chuva, que escorriam suavemente pela janela.
• • •
Segunda-feira, seis de março.
Guilherme deu carona ao irmão até o trabalho, onde Gregório descia, com sua maleta em mãos. O gerente não sabia dizer se aquela manhã estava cinza pelo tempo chuvoso ou pelo seu humor, já era comum chegar mal-humorado ao trabalho; não gostava de dormir com pendências para se resolver, muito menos quando se tratava de Otávio.
As recepcionistas há muito tempo já não lhe desejavam bom dia, principalmente por acharem que o gerente mal se importava, desacreditadas de que aquele ser com ar tão superior pudesse se importar com suas existências, simplesmente passando reto pelo balcão sempre que entrava, encaminhando-se diretamente ao elevador, sem olhar para ninguém.
Uma das regras internas do local era a seguinte: caso Gregório Souza Montenegro estivesse esperando o elevador, que esperassem pelo próximo, sempre dando-lhe prioridade. Por mais que o gerente não soubesse da existência daquela regra, ninguém se arriscaria em entrar sozinho com o homem que vestia das mais caras marcas e esbanjava superioridade.
Do setor do qual ele era responsável, todos estavam cientes da regra, todos com exceção do estagiário que começava naquele dia. O rapaz que interrompeu o momento onde a porta quase se fechava, no elevador onde Gregório se encontrava. O gerente estranhou a companhia, já que estava mais do que habituado em subir sozinho, nunca desconfiando do verdadeiro motivo daquilo, somente achando que era por sempre chegar cedo.
— Você sabe me dizer qual é o andar da companhia de marketing? — O recém-chegado indagou, olhando para o painel.
— Quinto, vamos para o mesmo andar. — Gregório respondeu, mal encarando o jovem, vendo a porta voltar a se fechar.
— Espera aí, eu conheço você. — Ele encarou o gerente minuciosamente, olhando em seu crachá. — Gregório... Hum. Não sei porque não quis me dizer no outro dia, é um nome bonito.
— Como é que é? — Olhou para o rapaz, logo reconhecendo-o da noite passada. — Justo você...
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