Workaholic
43 Capítulo 43 — Sozinho/Perdão.
Notas iniciais
Capítulo 43 — Sozinho/Perdão.
Francisco sequer conseguiu pensar ao ouvir um disparo, sentia seus ouvidos latejarem e zumbirem após o estrondo do revólver. Seu corpo todo estava anestesiado e apenas soube que não tinha sido atingido quando foi recuperando sua audição e sentindo seu coração palpitar ansioso, entendendo que nenhum local em si doía.
— Isso foi um aviso pra você não tentar nenhuma gracinha. — Otávio falou, após o tiro ao lado.
Ainda ofegante, Francisco retraiu-se mais, com sua venda sendo tirada.
— Onde eu tô? — O estudante indagou, ouvindo cães por perto latirem assustados.
— Não interessa. — Falou seriamente. — E pra deixar bem claro, se o que acontecer aqui vazar para as autoridades, você tá ferrado. Não só você, como sua mãezinha querida, Vanderléa. E sua irmã, Beatriz.
Ao ouvir aqueles nomes, Francisco estremeceu. Não sabia o que ele faria, tentando raciocinar para saber o que ele queria consigo. Tentou se concentrar no fato de que ele o pretendia deixar sair dali, embora não tivesse certeza de como.
•••
Gregório raciocinou, decidindo procurar por Francisco, não queria envolver ninguém em suas preocupações, mas se o que pensava fosse verdade, tinha que ir o mais rápido possível à casa do estagiário para tirar suas próprias conclusões.
Entrou rápido em seu carro, pressentindo que ele estava em perigo. E para sua sorte, as ruas em pleno sábado não estavam movimentadas, onde dirigiu por poucos minutos até chegar em seu destino, descendo com pressa.
Em sua mente, ainda correlacionava a informação passada por Maximiliano com o fato de Francisco não estar em casa. Caso o estagiário ainda estivesse desaparecido, iria atrás de Otávio para ter certeza de que ele não estaria aprontando.
Queria saber se o que Max havia dito seria realmente verdade, pois se era somente a si que Otávio obedecia, aproveitaria todo aquele tempo que foi enganado por ele, para agora entrar em seu jogo.
O portão da casa do estudante estava apenas encostado e, ao entrar, logo encontrou o irmão na sala, enquanto Augusto desligava o telefone, com Guilherme permanecendo calado, como se ele não estivesse ali.
— Vocês ainda não acharam o Francisco? — Gregório insistiu, se aproximando deles.
— Não. — Augusto suspirou.
— Eu estou preocupado com ele… — O gerente assumiu, envergonhado.
— E desde quando você se preocupa com alguém além de você? — Conseguiu roubar uma resposta do irmão.
— Olha, Gui… Você tá totalmente certo. — Fez uma pausa. — Eu sei que eu sou um imbecil egoísta, mas eu posso ajudar…
— A última pessoa que viu o Francisco foi o irmão dele, o Fabrício. — Augusto falou, ainda com o celular em mãos. — Os dois discutiram essa manhã, depois disso o Fabrício foi embora e a hora coincide com o horário que o Gui ouviu os gritos dos dois hoje. Estou me sentindo um detetive.
— Por favor, nem me fale essa palavra. — Gregório reclamou, em voz baixa.
— Por quê? — Augusto quis entender.
— Nada… — O gerente disfarçou. — Mas e aí? O Francisco está com o irmão?
— Não, o irmão tá na casa da mãe deles. Eu não queria preocupar a Dona Vandinha, mas a velha já tá desesperada. Tentei inventar algo para não preocupar tanto ela, mas foi impossível.
— Bom gente, eu preciso fazer alguma coisa, então eu vou procurar por ele. Alguém quer ir comigo? — Gregório informou, vendo o irmão desviar o olhar.
— Pode ir, eu vou começar pelo bairro, já até falei com alguns vizinhos. — Augusto informou. — Se tiver alguma notícia, me avise.
— Igualmente. — Gregório afirmou, dando uma última olhada para o irmão, que preferia continuar a ignorar sua presença. — Eu vou indo.
O gerente saiu em busca de mais informações, não economizando na velocidade durante todo o caminho, principalmente quando entrou na estrada que levava até a chácara de Otávio. Mal se preocupou se havia levado alguma multa durante o trajeto, somente queria encontrar Francisco logo.
Gregório chegava à propriedade, vendo a casa ao longe, mas nenhum sinal do carro de Otávio. Pensou em descer para verificar, até notar as marcas fortes de pneus de caminhonete na terra, que indicavam outra direção. Tomou aquele rumo sem pensar duas vezes.
•••
— Chega… — Francisco implorou, encolhido ao chão, já com o corpo dolorido pelos chutes dele.
— Ah, agora é você que vai decidir o que eu devo fazer? — Riu, ajeitando os cabelos em seguida. — Você pediu por isso, tá todo cheio de gracinha, tem que baixar sua bola pra falar comigo, seu merda.
— Desculpa! — Vociferou. — Mas o que é que você acha que tá se passando na minha cabeça agora?! Não tá nada agradável estar aqui, então fala logo o que você quer de mim!
— Então você quer gritar comigo? — Perguntou, vendo-o se encolher, imaginando que seria atingido novamente.
— Foi mal… — Falou, abaixando o tom de voz, tremendo de ódio.
— Ah, aprendeu rápido… Melhor assim. — Riu em deboche. — Agora desembucha, me fala exatamente o que você e o Gregório tiveram, sem rodeios. E é melhor não mentir.
— A gente ficou junto por uns dias, só isso. — Protegeu o rosto ao vê-lo se aproximando, ainda com as mãos amarradas.
— Vocês foram na festa de aniversário da melhor amiga dele, não foi só um caso “Chico”. Eu quero saber de tudo. — Abaixou-se na altura dele. — Vocês dormiram juntos?
Francisco engoliu em seco, encarando a expressão séria dele, com medo de apanhar mais caso ele pensasse que estaria mentindo. Assentiu timidamente com a cabeça, vendo os olhos do outro se enfurecerem.
— Eu sabia…
— Você sabe que ele não me ama, não sabe? Por que tá fazendo isso?
— Preste atenção no que eu vou te dizer, moleque. — Levantou-se, puxando-o consigo, vendo-o tentar se equilibrar com as pernas amarradas. — Eu quero te fazer um pedido muito especial… Eu posso ser bondoso quando eu quero, então isso aqui é um trato.
— Trato? — O rapaz quis saber, tentando não demonstrar nervosismo por estar tão próximo ao corpo dele.
— Gregório não é o meu maior fã nesse momento, o meu receio é que ele corra todo carente para o seu muquifo outra vez. Mas isso não vai acontecer, vai?
— Se o Greg vier correndo pra mim, pode ter certeza que eu vou receber ele de braços abertos! — Exclamou, vendo a irritação na expressão do outro, recebendo um tapa em seguida.
— Parece que você se esquece rápido. — Otávio queixou-se, franzindo o cenho ao mesmo tempo que abria um sorriso sórdido. — Quem sabe um tempo com aqueles cãezinhos dóceis não te deixe na linha? Foi o Max quem os treinou e não foi para serem gentis com os invasores.
Francisco sentia seus olhos tremerem ao observar os cães de guarda atentos atrás da grade, todos em posição de alerta, provavelmente não seriam nem um pouco receptivos a estranhos.
— Falam muito de pitbull quando o assunto é mordida violenta, mas você não faz ideia do que dobermans podem fazer… Principalmente quando irritados. — Otávio falou, arrastando-o consigo para perto da entrada do canil, sacudindo a grade.
— Eu tava brincando! — O estudante berrou, tentando não ser puxado por ele, ouvindo uma risada satisfeita do outro.
— Mas eu não. — Empurrou-o para frente, vendo-o tropeçar, tentando se segurar.
— Por favor, eu não tava falando sério… Não precisa disso! — Resmungou, sentindo o queixo tremer.
— Entra aí. — Otávio falou, após tirar a trava do canil.
— Não, valeu, tô bem aqui. — Francisco falou, com o coração aos pulos.
— Você quer ir por bem ou por mal?
— Por favor, não...
— Eu tô ficando sem paciência. — Mostrou o revólver no coldre.
— Otávio! — Uma voz ao longe chamou.
O dono da voz fez o coração do dono da propriedade acelerar e não de uma forma boa, ele não poderia pegá-lo ali justo naquela situação. Gregório aproximou-se deles, escancarando sua preocupação, tentando ficar mais próximo, indo com cautela ao ver o revólver, continuando a andar lentamente, com todo o cuidado do mundo ao dizer:
— O que você está pensando em fazer?
— Eu não vou ser trocado por nenhum moleque. — Otávio falou com raiva, vendo-o parar de andar ao retirar o revólver do coldre.
— O que está dizendo? — Gregório permanecia parado, quase sem conseguir respirar. — Pra que isso tudo?
— Ele atrapalhou a gente. — Apontou para Francisco, que ainda estava sem nada dizer. — E o que você viu hoje foi um erro! Eu não quis aquilo!
— Eu sei! Eu só fui embora porque eu não sabia o que pensar! — Gregório exclamou, desesperado para proteger Francisco. — Mas já pensei bastante, não consigo pensar em mais ninguém na minha vida a não ser você!
— Mas e ele? — Otávio desencostou o revólver do rapaz.
— Qualquer outra coisa foi só uma fase! — O gerente afirmou, engolindo um refluxo, indigesto.
Francisco não teve coragem de encarar Gregório, sentindo seu coração apertar, por mais que não soubesse o que esperar daquela situação, não imaginou que ouvir aquilo faria seu coração estilhaçar. Apesar de tudo, somente queria sair dali o mais rápido possível.
— Vem cá. — Gregório levantou uma das mãos, percebendo que tremia.
— Antes eu vou deixar ele por aqui. — Forçou o portão da grade para abrir, com os cachorros voltando a se ouriçarem do outro lado.
— Solta ele, Otávio, isso não tem graça. — Pediu, com os olhos lacrimejando, se aproximando de mansinho.
— Quem disse que é para ter?!
— Desamarra ele, vai, deixa ele ir embora… Eu vou ficar aqui com você, a gente tem muita coisa pra conversar, não tem?
— Não quer se divertir comigo? — Escancarou o portão, empurrando o estagiário para dentro.
— Solta ele! — O gerente desesperou-se, deixando a cautela de lado, correndo e agarrando o braço armado de Otávio, tentando baixá-lo.
Gregório foi empurrado, enquanto Otávio voltava a segurar Francisco, que se debatia, sendo difícil mantê-lo sob controle. Continuava a adentrar o canil, arrastando o estagiário para dentro. Os cachorros latiam enfurecidos, estressados com a gritaria, avançando enquanto o gerente corria, indo para cima deles, ainda tentando afastá-los.
Em meio aos solavancos fortes que Francisco dava para se livrar dos braços dele, Otávio o mantinha em um mata-leão, sem pretensão de soltá-lo. Gregório permanecia decidido, indo para cima deles, iria livrar o rapaz das mãos daquele homem nem que fosse preciso dar a sua vida para aquilo. O gerente lutou contra os braços do ex-namorado, sem medo do revólver que ele segurava e, com ajuda de Francisco, que se debatia, conseguiu afastá-lo do empresário.
Ao estar livre dos braços do maior, o estudante teve que dar pequenos saltos para se locomover para fora dali, enquanto Gregório mantinha Otávio longe, mesmo que fosse arranhado e agarrado pelas mãos do mais velho por isso. O gerente já não podia sentir medo, precisava ganhar tempo para fazer com que o rapaz saísse do canil.
Do lado de fora, Francisco queria agora tentar ajudar Gregório, mexendo seus braços e pernas desesperadamente tentando soltar as cordas que o prendiam, no entanto, não conseguia, vendo aflito a cena de Gregório sendo trancado no pescoço pelos braços dele, sem nada poder fazer.
Gregório acertou o ex nas partes baixas e conseguiu se afastar e correr para fora, com as mãos trêmulas ao puxar o portão e a tranca, fechando o cadeado. Sentiu o coração aos pulos ao ver que Otávio não se curvava mais pela dor e andava para perto da grade. Nada conseguia pensar ao ver o brilho metálico do revólver novamente, com os cachorros voltando a latir agressivamente enquanto o ex voltava a se exaltar:
— Você sabe que eu tenho a chave, não sabe?!
Gregório não respondeu, mantendo os olhos atentos na mira da arma, imediatamente protegendo Francisco atrás de si, ele não podia correr e era o alvo daquele homem louco, então manteve-o em suas costas. O estudante permaneceu paralisado pelo medo, atrás do corpo do gerente.
— Deixa o Francisco ir embora primeiro… — Gregório tentou entrar em um acordo, vendo Otávio colocar a mão no bolso para procurar a chave, não a encontrando de início.
Otávio não conseguia disfarçar o estresse de estar sem saída, dando um tiro na tranca, frustrado por não encontrar a chave no bolso, apavorando os dois de fora da grade com o barulho alto da explosão, alarmando ainda mais os cães, que saltaram sobre o homem dentro do canil. Para o empresário, eles pareciam em mais quantidade que antes, não só pelo peso e por não conseguir se desvencilhar dos avanços dos bichos, como pela violência, nem pareciam seus, se arrependendo de não ter participado ativamente do adestramento dos cães, pois enquanto dois agarravam seu calcanhar e canela, o outro pulava e abocanhava seu antebraço, fazendo-o soltar o revólver pela dor de ter a pele rasgada.
Enquanto os ouvidos deixavam de zunir, o gerente olhou para trás, vendo que Francisco também fazia uma careta pela dor nos tímpanos. Os sons ainda estavam abafados, o que fazia parecer que Otávio não parecia gritar e agonizar tão alto pela dor, em meio às tentativas falhas de manter os cachorros longe. Quando ele conseguia livrar-se de um, os outros partiam e agarravam outra parte de seu corpo, conseguindo finalmente derrubá-lo.
Gregório encarou a cena horrorizado por um instante, as roupas dele eram rasgadas e a pele dele exposta estava toda coberta por sangue que surgia de todas as áreas. Francisco também estava estático ao ver a fúria dos cães, sem saber para onde ia, forçando seus braços para tentar se desvencilhar das cordas mais uma vez, desesperado para fugir.
Otávio protegia o pescoço e deixava os cães lhe atacarem sem mais lutar contra. Enquanto o gerente, ainda em choque, agarrou o corpo do mais novo, pegando-o em seus braços e correndo com ele para onde tinha estacionado o carro, não muito longe dali. Abriu a porta e colocou-o sentado no banco, tentando livrá-lo dos nós de suas mãos com pressa.
Soltou as mãos dele, que não pediu ajuda para o restante, o rapaz abaixou para poder livrar as próprias pernas sozinho, enquanto Gregório olhava para ele, querendo saber se ele tinha se machucado, vendo-o com alguns hematomas, pensando em como começaria a se desculpar com ele.
Francisco jogou as cordas longe e ao encará-lo, pensou em uma piada sobre ser salvo pelo príncipe encantado, mas se manteve calado, sem ânimo de dizer nada.
— Ei! — Ouviram, com Maximiliano estacionando e descendo com pressa.
— Ele tá no canil! — Gregório afirmou, assim que o homem se aproximou. — Os cães estão atacando ele!
— E o que estão ainda fazendo aqui? Vão! — Max ordenou a eles.
Gregório assentiu, fechando a porta do carro do lado de Francisco, dando a volta no veículo e entrando. Ainda sentia suas mãos trêmulas ao dar a partida, apenas queria sair dali logo.
Enquanto iam embora, Otávio agonizava em dor, ainda ao chão, protegendo o rosto e pescoço. Embora implorasse aos animais para pararem, foi somente quando o supervisor chegou, correndo para o portão e o conseguindo abrir, que tudo se acalmou, após um grito de ordem para os cães. Os cachorros voltaram aos seus lugares como em um passe de mágica, obedecendo a voz de seu mestre.
Ver Otávio naquele estado fazia com que sua consciência pesasse, pois tinha sido influente na decisão dele ir atrás de quem não devia. E Maximiliano agora o acudia, arrastando-o todo ensanguentado para fora.
O supervisor queria ter evitado aquela situação toda, era doloroso ver Otávio naquele estado, tendo que retirar sua própria roupa para tentar estancar o sangue que não parava de jorrar das mordidas graves que ele havia levado.
Pelo peso dele, Maximiliano colocou-o com dificuldade no banco de trás de seu carro, sem se importar se sujaria tudo de sangue ou não, somente queria correr para o hospital com aquele homem, não poderia deixá-lo morrer de jeito nenhum. Correu como um louco para chegar a tempo, chegando ao hospital, deixando-o no carro enquanto corria para trazerem uma maca.
Enquanto os paramédicos vinham, Maximiliano percebeu que Otávio, por sorte, ainda parecia consciente, principalmente no momento em que ele abriu os olhos e lhe encarou, sussurrando antes de ser levado:
— Isso é tudo sua culpa…
Maximiliano não acreditou naquilo, não sabendo como agir, sentindo uma pontada em seu peito. Era como se fosse traído por ele pela enésima vez, mas havia uma diferença, pois jurou a si mesmo que depois desse dia, cortaria laços com aquele homem. Aquele era o último favor que lhe faria, pois depois daquilo, jurava por Deus que Otávio nunca mais lhe veria.
•••
O silêncio reinava e Gregório se agonizava em preocupação, tendo dirigido por alguns minutos ao decidir estacionar. Tinha saído da estrada e chegado na cidade, parando em um local não muito movimentado, mas já seguro, pela distância de onde estavam antes.
— Chico… — Falou, desligando o carro, olhando para ele ao seu lado. — Me fala como você tá…
O estudante tentou não demonstrar que seu coração acelerou ao ser chamado daquela maneira carinhosa por ele, mantendo-se sério, não querendo sequer encará-lo.
— Olha pra mim, por favor. — Tocou-o no rosto, querendo virá-lo em sua direção. — Ele te machucou? O que ele fez com você?
— Eu tô bem. — Retirou a mão dele de seu rosto. — Só me leva pra casa, por favor.
Gregório tentou segurar o choro que enroscou em sua garganta, mordendo o lábio inferior com força para se conter. Sabia que ele estava machucado e apenas queria ser capaz de reverter tudo aquilo.
— Não quer ir ao hospital? Eu te levo… — O gerente suspirou, com voz fanha.
— Não, quero ir pra casa. — Ele respondeu, olhando por pouco tempo em seus olhos.
— Me perdoa… — Gregório soltou. — Me perdoa, Chico.
— Não tem o que perdoar. — Cruzou os braços, abaixando o olhar.
— Como assim? Olha só tudo o que eu fiz! — Assumiu, com a voz embargada. — Eu nem sei o que eu faria se por acaso eu tivesse chegado um pouco mais tarde e…
Gregório não conseguia sequer expressar em palavras a dor que atingia seu peito ao imaginar um mundo sem o seu querido Bentinho. Teria que lidar com o fato de que não o merecia e que, com ele em sua vida, só o colocaria em risco. Queria poder colocar para fora todos aqueles pensamentos que o perturbavam, mas seus lábios apenas tremeram, nada conseguindo dizer.
— Estamos bem, é o que importa agora. — Francisco sentiu seu peito apertar ao ouvi-lo fungando.
Gregório respirou fundo para se recuperar, voltando a ligar o carro, tendo que enxugar uma lágrima discreta que escapou por um dos olhos. Olhou para ele novamente antes de voltar sua atenção ao trânsito, dizendo:
— Estão preocupados com você, o Gui e o Augusto armaram uma patrulha pelo bairro com seus vizinhos. Até sua mãe acabou sabendo…
— Ah, pronto… Mais essa. — O estudante esfregou a testa, bufando. — O que é que eu vou falar pra eles?
— Eu posso fazer isso, se quiser. Até porque tenho parte da culpa.
— Você já fez o bastante. — Francisco afirmou, sem saber o quanto aquela frase atingia duramente o peito de Gregório.
Após isso, se mantiveram em silêncio enquanto rumavam à casa do rapaz. O gerente tentava focar no trânsito, mas era difícil tirar certas coisas da cabeça, sabendo que era o pior ser humano existente.
Não levou muito tempo para chegar, mal desligando o carro quando notou Francisco retirar o cinto de segurança. Sabia que provavelmente ele não gostaria de conversar, ainda mais ao notar uma movimentação no portão da casa dele.
— Obrigado por me trazer. — O rapaz afirmou, abrindo a porta.
— Era o mínimo que eu poderia fazer… — Devolveu, entristecido, vendo-o descer.
— Francisco?! — Augusto gritou ao vê-lo, se aproximando do carro.
O gerente viu os dois amigos se abraçarem apertado e, mesmo que se sentisse bem por aquilo, ainda restava um aperto no peito. Guilherme também surgia, abrindo um sorriso ao ver o estagiário, ignorando sua presença.
Era como se Gregório não fosse mais bem-vindo ali, então encarou-os mais uma vez antes de ir embora, não sentindo-se apenas envergonhado, como sozinho. A partir daquele momento não teria mais ninguém ao seu lado e era aquilo o que merecia.
O gerente chegou em casa e aprofundou-se em amargor. Não poderia nem mesmo compartilhar a tristeza com seus pais, pois se dissesse o que havia acontecido, com certeza ficariam do lado de Guilherme, inclusive, não sabia como o irmão tinha conseguido guardar segredo deles sobre o ocorrido.
Por um momento pensou em férias, mas caso ficasse em casa atolado em sua solidão, provavelmente não teria bons resultados, pensando que a melhor coisa para si, naquele momento, era voltar a focar em seu trabalho, era a única coisa que sabia fazer verdadeiramente bem e onde não estragaria tudo.
Estava perdido em seus pensamentos quando recebeu uma ligação do mesmo número de mais cedo. E sem suspense, atendeu:
— Alô?
— Oi, Greg, aqui é o Max de novo, aonde você está?
— Em casa, por quê?
— Acho bom, espero que não esteja nem cogitando a possibilidade de ir à delegacia. — O supervisor informou. — Eu o levei para o hospital, o Otávio levou doze mordidas graves, sem contar os outros ferimentos. Ele vai ficar internado por um bom tempo, isso se sobreviver.
— Eu não tenho pena dele, Max, hoje só provou o monstro que ele é, o Otávio merece coisa pior... — Respondeu seriamente. — E é o Francisco que vai decidir se vai denunciá-lo, ou não, ele é quem mais sofreu com tudo isso. E eu vou apoiá-lo se ele o fizer.
— Você tá cansado de saber que o Otávio tem muita influência nas delegacias daqui, além dos amigos. Isso é só um conselho. — O supervisor indicou. — Enfim, era só isso que eu tinha pra te dizer.
— Ah, Max! — Chamou-o, antes que desligasse.
— Pois não? — Respondeu, curioso.
— Não importa se você está do lado dele... Mas obrigado por ter me avisado mais cedo. Algo pior teria acontecido sem você.
Um silêncio se fez do outro lado da linha, levando o gerente a conferir se a ligação tinha sido encerrada, mas continuava lá. Quando pôs novamente o celular junto à orelha, ouviu um suspiro hesitante.
— Não sei em quem eu estava pensando quando fiz aquilo, mas é seguro dizer que eu não estou do lado do Otávio. E pra nossa segurança, é melhor que nenhum de nós esteja, daqui pra frente.
Gregório não soube como responder e ouviu o sinal que indicava o fim da chamada.
•••
Após a comoção de sua chegada, Francisco pôde entrar em casa e explicar aos amigos com calma o que tinha acontecido. Tomou um banho para se livrar do pijama sujo e se trocou, com os amigos o esperando na sala.
Depois disso, a primeira coisa que precisava fazer, era falar com sua mãe, que já tinha sido informada que ele havia voltado, mas que ainda estava desesperada para falar com o seu menino. Pegou seu celular e fez a ligação, ouvindo os berros da mulher, inventando uma desculpa qualquer por ter sumido e tendo que controlar a angústia dela prometendo que a visitaria logo.
— Fran, por que não contou a verdade pra sua mãe? — Augusto quis saber ao vê-lo desligar a chamada. — Uma hora ou outra ela vai ficar sabendo, principalmente porque você vai denunciar esse cara.
— Não. Eu não vou. — Francisco falou seriamente, deixando o celular de lado. — Ele ameaçou a minha família, eu não posso arriscar… Além do mais, o importante é que eu estou bem.
— E o que mais o Otávio te disse? — Guilherme também perguntou, curioso.
— Ele quer que eu fique longe do Greg, isso é fácil. — Riu, erguendo os ombros.
— Isso é o que você diz, mas a senha do seu celular diz outra coisa. — Augusto satirizou, em voz baixa.
— O quê? — O estudante encarou o amigo.
— Nada, nada… Mas então, o que é que você quer comer? Me fala, que eu faço! Você deve estar morrendo de fome! — Augusto mudou de assunto, sorrindo para disfarçar.
•••
Seis dias depois, sexta-feira, vinte e seis de maio.
— Eles disseram que a gente já pode ir até lá pegar os exames. — Guilherme falou ao namorado, após uma ligação do laboratório.
— Por que eles simplesmente não disponibilizam os exames pela internet? — Augusto reclamou. — Eu vou ter um treco assim.
— Eu não sei, só espero que não tenha dado nada errado, como da outra vez.
— Vou me arrumar e aí nós já vamos. — O loiro falou, indo trocar de roupa.
Foram à clínica juntos, esperançosos, animados para ver seus resultados. Não esperaram muito para pegar seus papéis, mesmo assim, o pouco tempo na sala de espera pareceu infinito para ambos, que mal se aguentaram quando os envelopes chegaram às suas mãos.
Caminharam para fora dali, já abrindo a embalagem para poder saber o que tanto aguardavam, lendo as folhas antes mesmo que chegassem ao carro. Augusto abaixou o papel, vendo seu exame antes, esperando o caçula terminar de ler o dele, para em seguida vê-lo sorrir.
— Negativo. — Guilherme afirmou, com o namorado confirmando que o dele tinha dado o mesmo.
Não se contiveram e se abraçaram no estacionamento, emocionados. Riam e enxugavam as lágrimas um do outro, contentes como crianças. Estavam mais aliviados, mas não totalmente. A apreensão do retorno ao doutor ainda não os deixava em paz.
Já haviam agendado a consulta e seguiram ao consultório com o coração em mãos. Estavam ansiosos por terem que enfrentar a sala de espera novamente, procurando as melhores poltronas para se acomodarem. Guilherme não pôde deixar de perceber que Augusto se contorceu um pouco em busca de uma posição confortável para sentar.
— Qual o problema? — Questionou.
— Tem doído um pouco quando eu sento. Ficou pior desde ontem. — Informou o namorado.
— Calma, a gente vai descobrir do que se trata, pelo menos já excluímos algumas possibilidades. — Guilherme tentou acalmá-lo, se esforçando para não demonstrar nervosismo.
Após alguns minutos de espera, os dois finalmente foram chamados para se encaminharem ao consultório, sendo levados ao médico especialista, que os esperava na porta.
— Bom dia, cavalheiros. — Saudou.
— Bom dia, doutor, como vão as coisas? — Cumprimentou Guilherme, com Augusto permanecendo em silêncio.
— Tudo ótimo. E com vocês? Me contem as novidades. — O urologista questionou, guiando-os às poltronas, acomodando-se do outro lado da mesa.
Guilherme foi quem ficou calado desta vez, esperando que Augusto contasse o que estava sentindo. Demorou um pouco até que o loiro se tocasse, ficando levemente constrangido, então, primeiro entregou seus exames ao médico, que abriu-os e passou os olhos pelo papel.
— Recentemente, eu tenho sentido um pouco de dor ao sentar, mas principalmente em superfícies duras. — Contou. — É difícil achar uma posição confortável.
— Se não é nenhuma IST, como estou vendo aqui e também anteriormente excluímos a possibilidade de um câncer colo-retal, o que é ótimo, podemos ficar tranquilos, mas ainda assim, eu acho que a notícia pode ser um pouco preocupante. — O médico admitiu, fechando a caderneta de exames. — Provavelmente, você está com hemorróidas.
Augusto e Guilherme se encararam por alguns instantes, absorvendo a informação com uma leve tensão entre si. E então Guilherme começou a rir.
— O que é tão engraçado? — Questionou o médico, notando que Augusto estava igualmente confuso.
— Me desculpem, mas... Não consigo acreditar que essa preocupação toda foi por causa de uma simples hemorróida. — Afirmou Guilherme, acalmando o riso e respirando fundo.
— Não é nenhum bicho de sete cabeças, mas simples não é bem a palavra correta, muitos subestimam e ignoram os tratamentos corretos. — O urologista corrigiu. — Trata-se de uma inflamação nos vasos do canal anal, mais especificamente de veias. Apesar de existirem muitos remédios que prometem "acabar com as hemorróidas", eles apenas atenuam os sintomas. O tratamento definitivo é feito cirurgicamente.
— Cirurgia? — Questionou o rapaz, agora completamente sério.
— Não é de alto risco e eu posso recomendar a vocês uma cirurgiã altamente qualificada e que poderá fazê-la o mais rápido possível. — Declarou. — Mas, caso queiram pensar um pouco mais, posso receitar uma pomada para aliviar a dor enquanto isso. Até lá, viagens de carro ou de avião que exijam muito tempo sentado são totalmente contra indicadas. — Foi ditando enquanto escrevia. — E relações anais são totalmente descartáveis.
— Qual é o nome da cirurgiã? — Perguntou Guilherme apressadamente, fazendo as bochechas de Augusto queimarem de constrangimento.
•••
Otávio pediu um táxi, saindo do hospital debilitado, com os braços e pernas envoltos em curativos por conta dos pontos ainda não cicatrizados. Entrou no veículo com dificuldade para sentar, com seu corpo todo dolorido, dando o endereço da chácara ao motorista.
Durante o caminho todo, tentou entrar em contato com Maximiliano, mesmo que o supervisor não respondesse suas mensagens, não desistiria de tentar entrar em contato com ele, precisava da ajuda dele como nunca.
Ao olhar para a sua lista de contatos, leu o nome de Gregório e instintivamente quis ligar para ele. Se sentia péssimo, aqueles dias solitários no hospital tinham lhe feito refletir sobre quais estavam sendo as suas prioridades e que tipo de ser humano era.
Chegando em sua propriedade, pagou o motorista e desceu, levando o pouco das suas coisas que estavam consigo. Caminhou vagarosamente até a casa, respeitando o ritmo que seu corpo deixava, não querendo forçar os pontos. O simples fato de ter que repousar por pelo menos mais uma semana inteira já lhe deixava entediado.
Deixou suas coisas de lado ao entrar, querendo encontrar alguém, andando pelos cômodos. Não achou Max e nenhum funcionário estava por perto, nem mesmo os caseiros. Suspirou, estava cansado de se sentir sozinho, só tendo uma pessoa em mente naquele instante.
Pegou a chave de sua caminhonete e mesmo estando proibido daquilo e nem sabendo como faria para dirigir, foi ao seu carro, passando o trajeto todo dirigindo com cuidado para não forçar seus pontos. O caminho foi difícil, mas o pior era não saber o que diria assim que encontrasse quem procurava. Sabia que o que tinha feito não tinha perdão, mas mesmo assim, quis arriscar, afinal, ele era a pessoa que queria para o resto de sua vida.
Chegando, tocou o interfone e esperou ser recebido, temendo não ser atendido. Para sua surpresa, ele apareceu, abrindo o portão, cruzando os braços em seguida. Agora Maximiliano o encarava em silêncio, esperando para descobrir o que ele tinha a dizer:
— Oi. — Otávio falou, abrindo um sorriso desengonçado.
— Oi? — O supervisor inquiriu, exibindo sua expressão de desânimo. — Só tem isso a me dizer?
— Por que eu não te vi mais? Eu fiquei todos esses dias sozinho no hospital, tentei falar pra você que eu ia sair hoje, mas você não atendia e nem via as mensagens. — Otávio afirmou, entristecido.
— Eu preciso mesmo responder? Depois da última situação em que "foi tudo minha culpa", eu não estava disposto a trazer mais infortúnio. — Declarou com ódio, controlando a própria vontade de chorar.
— Isso... Você sabe que não é verdade, não é? — Deu um passo para a frente, sentindo dor no corpo todo. — Eu falei da boca pra fora… Eu estava com raiva naquele dia, não era sério.
— Não interessa, chega um ponto que a gente cansa. — Max suspirou, olhando para o homem enfaixado em todas as regiões expostas.
— Nada foi culpa sua, nada… — Tentou tocá-lo, mas o supervisor afastou sua mão. — Foi tudo culpa minha.
— Só vai embora… — Encarou-o, tentando não se deixar levar pela expressão de cachorro abandonado do outro. — Eu fiquei muito magoado.
— Eu sei que eu não sou de pedir perdão, mas eu nunca estive tão arrependido. Por favor, Max… Eu fiz besteira. — Admitiu o outro, coçando o olho para disfarçar uma lágrima que teimava em escapar por ali.
— E olha o quanto demorou para você perceber isso. — Max acusou.
— Todos esses dias... Sozinho. Ninguém estava lá comigo, nem você. — Relatou, enxugando uma lágrima do lado esquerdo da bochecha. — Foi aí que eu percebi que você sempre esteve comigo, mesmo que não concordasse com nada que eu decidia fazer.
Não havia raiva no tom de Otávio, parecia mais uma constatação dolorosa, que fez com que o interior de Maximiliano amolecesse um pouco de todo o rancor que sentiu na última semana.
— Todo mundo tem um limite, Otávio. — Max afirmou. — Eu não aguentava mais ver você se matando por alguém que não te ama e que você sabe muito bem que não daria certo, principalmente depois do que você decidiu fazer. Você foi longe demais, sabe disso, não sabe?
— Eu sei... E eu sei mais ainda que fiquei seis dias naquele hospital esperando que alguém aparecesse. No começo, eu não sabia quem, algumas vezes me forçava a pensar no Gregório. Só que depois eu percebi que... Era você a primeira pessoa que passava pela minha mente quando eu olhava para a porta aberta. — O empresário declarou, parando de enxugar as lágrimas que caíam por seu rosto. — Era por você que eu perguntava quando as enfermeiras entravam para ver os curativos. Consegue me imaginar? Feito uma criança perguntando "o Max não veio hoje?". Doía quando elas diziam "sinto muito, não recebemos nenhum Max".
— Achei que não quisesse mais me ver. — Afirmou Maximiliano, sensibilizado pelo que via. Não recordava de sequer uma vez em seu tempo juntos em que Otávio tivesse chorado.
— Eu nunca soube o que eu realmente queria. — Otávio disse, encarando-o profundamente nos olhos. — Por que eu queria tanto o Gregório? Eu sou algum tipo de psicopata obcecado, não sou?
— Não sou eu quem pode te dizer essas coisas, Otávio. — O supervisor sentiu seus olhos arderem com a formação de algumas lágrimas e respirou fundo para controlá-las.
— Só tem uma coisa que eu quero agora... — O empresário enxugou mais uma vez o rosto, tomando cuidado com as feridas nas mãos. — Que você me perdoe. Você era o único que estava lá comigo a todo momento e eu nunca percebi. Você merecia mais que isso. E eu posso ser cara de pau por isso, mas eu gostaria de uma segunda chance com você.
— Não é bem a segunda. — Max bufou, tentando não deixar que as lágrimas saíssem junto com as palavras. — E não sei o que me garante que não vai mais haver Gregório entre nós.
— Só a minha palavra. Eu quero ser seu, sem Gregório ou estagiário para nos atrapalhar. — Prometeu.
— Eu sempre quis o melhor pra você, Otávio.
— Você é o melhor. — Otávio, mesmo com dificuldade, começou a dobrar os joelhos e Maximiliano se apressou em contê-lo, segurando em seus ombros, impedindo que ele caísse. — Eu fico de joelhos, se for preciso. Só quero que confie em mim mais uma vez.
— Preciso que jure pra mim que dessa vez vamos ser só nós dois.
— Eu juro. E se eu deixar alguma coisa nos atrapalhar mais uma vez, eu mesmo me jogo naquele canil de novo. — Declarou o empresário.
Max o conhecia o suficiente para saber que aquilo não era brincadeira. Apenas o abraçou e sentiu-o acomodar a cabeça em seu ombro, como uma criança que procura um colo confortável para descansar.
— Obrigado. — Otávio sussurrou.
— Eu te amo. — Max declarou, respirando fundo mediante a expectativa da reação de Otávio.
Braços cuidadosos e doloridos apertaram seus ombros e ele se sentiu relaxado ao ouvir a tão sonhada resposta:
— Eu também te amo.
•••
Já de volta à casa do namorado, Guilherme desligou a chamada em que estava no celular, ainda sem conseguir processar a informação recebida.
— Quem era, Gui? — Augusto perguntou, notando a preocupação dele.
— Rosa, a nossa governanta. Ela disse que está preocupada, falou que o Greg está comendo pouco esses dias. — Guilherme respondeu, refletindo no que ouviu. — É ela quem faz a comida e percebe quando alguém andou mexendo na cozinha.
— Você ainda não tá falando com ele? — Augusto quis saber.
— Não… — Guilherme constrangeu-se. — A última vez que falei com ele foi no dia do sumiço do Francisco. Eu nem sei o que ele anda fazendo, ele também tentou parar de ligar e mandar mensagem.
— Você devia ter respondido ele, poxa. — Augusto revelou. — Ele deve estar mal com tudo isso, além de que ele fica sozinho lá, né?
— Bom, a Rosa falou pra eu ir ver como ele está, disse que os horários às vezes não coincidem e ela não consegue falar direito com ele, então quer saber o que tá acontecendo pra ele não estar comendo. — O mais novo informou.
— Às vezes ele está comendo fora, vai saber. — O namorado sugeriu.
— Conhecendo o Greg, ele não trocaria a comida da Rosa por nenhum restaurante. — Informou o blogueiro, contrariado. — Vou dar uma passada lá pra pegar minhas coisas mais tarde, aí aproveito e vejo o que está acontecendo. Só não quero acreditar que ele esteja sofrendo por causa daquele traste do Otávio de novo... Era a única coisa que deixava ele assim antigamente.
— Gui, eu sei que o que o Greg fez foi pesado, mas... Tenta conversar com ele mais uma vez, seu irmão não era assim. — Augusto pediu, preocupado não só com Gregório, mas também com a relação dos dois.
Guilherme sempre deixou claro que eram melhores amigos, então não podiam deixar tudo isso acabar por causa de um desastre, principalmente quando a maior parte das coisas já estavam resolvidas. Nunca antes ficaram tantos dias sem se falar e sentiam falta um do outro.
Como combinado, no final da tarde, Guilherme foi para a casa do irmão, usando a própria chave para entrar. Entrou e viu que tudo estava silencioso, mas sabia que o irmão estava ali por ver o carro dele na garagem.
Antes de ir ao quarto, foi até a cozinha para verificar as informações que Rosa tinha passado. Lasanha à bolonhesa, purê de batata e arroz com brócolis estavam perfeitamente intocados em cima do fogão, cobertos com filme plástico.
Guilherme foi então em busca de Gregório, encontrando-o no escritório.
Ao ver o irmão, os olhos do gerente se iluminaram e rapidamente ele soltou a caneta que estava usando para assinar um papel, ficando de pé prontamente. Os cabelos castanhos dele estavam bagunçados, bolsas escuras e profundas marcavam o redor de seus olhos e o branco que cercava o verde de suas íris estava completamente avermelhado. Até mesmo a barba, geralmente feita e bem cuidada, estava com o tamanho acima do normal.
— Gui! Você está bem? — Perguntou, sem qualquer enrolação.
— Oi… Tô bem. — Respondeu, notando a aparência do irmão, um pouco assustado. — E você?
— Tô bem, também. — Gregório abriu um sorriso não muito convincente. — Não sabia que você vinha.
— Ah, só vim buscar umas coisas e deixar as roupas sujas para me manter mais tempo no Augusto. — Não era totalmente mentira, mas não queria falar que o motivo de estar ali era para vê-lo.
— E está tudo bem com ele?
— Ah, mais ou menos, nossos exames saíram hoje, está tudo certo com o nosso sangue, nós estamos limpos. Mas ele vai precisar passar por uma cirurgia. — Guilherme explicou, rapidamente. — No cu, pra ajudar.
— O quê? — Gregório indagou, sem entender.
— Ele está com uma hemorroida terrível, depois de amanhã já é a cirurgia.
— É sério?!
— É, então ele vai precisar muito de mim. — Falou, sem saber como continuar o assunto.
— Eu imagino mesmo… — Gregório concordou, ainda atônito pela visão do irmão ali.
— Olha, Greg, eu não vim pra cá só pra pegar as minhas coisas, na verdade, vim pra te perguntar uma coisa. — Guilherme tomou coragem para dizer, encarando-o.
— Pode falar, Gui.
— A Rosa me falou que você não tem comido, o que aconteceu? — O mais novo questionou, duramente, ainda que por dentro se sentisse mal ao ver o estado do irmão.
— Só muito trabalho para adiantar. — Justificou Gregório.
— Adiantar? — Guilherme ergueu uma sobrancelha, se aproximando da mesa para ver os contratos que ele estava assinando. — Dezoito de novembro? Greg!
— Os contratos têm que ser revisados com antecedência, mesmo. E me lembrei que preciso conferir o design dos panfletos de dois clientes ainda hoje. — Relatou, parecendo meio grogue enquanto falava, o que fez outra percepção cair sobre Guilherme.
— Há quanto tempo você não dorme?
— Não sei, acho que cochilei uma hora ontem.
— Uma hora?! Greg, você está se maltratando de novo! — Assustou-se, se aproximando do irmão. — Você tem que dormir!
— Você sabe que eu durmo pouco, tô acostumado… — O gerente tentou se defender. — E eu preciso trabalhar…
— Por favor, me diz que não é por causa do Otávio que você tá assim.
— O quê? Não! — Gregório tentou passar força em sua negação, mas passou também dor através do nó que se desatou em sua garganta e embargou sua voz. — Eu só...
— O quê?
— Tô sentindo muito a sua falta, Gui. — Falou tristemente, com a frase acertando em cheio o peito do irmão.
Antes que Guilherme conseguisse dizer alguma coisa, os braços de Gregório o cercaram e o gerente caiu aos prantos em seus ombros.
— Por favor, me perdoa, Gui. — Apertou o tecido da roupa do irmão em meio ao abraço. — Me perdoa…
Guilherme surpreendeu-se com o gesto repentino, acariciando-o nas costas, ouvindo-o fungar e voltar a dizer:
— Eu nunca quis te machucar… Eu não queria fazer aquilo... No fim eu fui como o Otávio, mas... — Disse entre soluços. — Eu não sei o que deu em mim.
— Calma… — Afagou os cabelos do irmão. — Eu estou aqui… Não quero que chore por isso.
— Ele parecia me amar tanto, mas... — O gerente fungou, com o peito retraindo. — Eu não percebia que não era amor, ele só me causava mais sofrimento.
— Greg... — Guilherme iniciou, sendo interrompido pelo irmão.
— Eu perdi tudo na minha vida por causa dele, tudo! Tudo o que já amei e que me fez feliz! — O choro se intensificou, enquanto o irmão ainda o abraçava. — Só que eu não quero e não posso perder você, Gui, não posso… Eu te imploro, por favor, me perdoa. Me perdoa...
— Shh, calma… Tá tudo bem, Greg. Eu estou aqui, eu prometo. — Falou, tentando conter as próprias lágrimas, enquanto o irmão encharcava seu ombro. — Eu amo você, tá?
O choro finalmente foi fraquejando e Guilherme sentiu o peso de Gregório aumentar sobre si.
— Greg, você não vai dormir no meu ombro, vai? — Perguntou, tentando descontrair o momento, mas o peso inteiro de Gregório caiu sobre ele e Guilherme se assustou, tentando segurá-lo. — Greg? Ei, acorda! Você é pesado!
Ao perceber que o irmão não estava respondendo e nem reagindo, Guilherme entrou em alerta, finalmente notando que ele não estava mais consciente.
— Greg, acorda! — Insistiu, tentando não entrar em desespero, enquanto segurava o corpo do irmão com mal jeito, para tentar deitá-lo no chão. Quando conseguiu descansar a cabeça dele cuidadosamente, pegou o celular, pensando em ligar para Augusto, mas ao invés disso, ligou para o número mais importante na ocasião, ficando impaciente por uma resposta.
— Emergência, em que posso ajudar?
— Preciso de uma ambulância, rápido! Meu irmão desmaiou!
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