Words unsaid
2 Reencontrar
Notas iniciais
– Eu havia me esquecido de como essa cidade é quente essa época do ano.
Suzuno Fuusuke chutava suas malas para debaixo da cama, lançando um olhar desanimado para a janela, de onde o sol entrava sem piedade.
– Me pergunto se foi uma boa ideia ter vindo para cá...
Touchi Shuuji levou as mãos a cabeça e suspirou. Fazia anos que não via seu antigo capitão, mesmo assim, não conseguiu negar seu pedido. Ele ainda devia um favor ou outro a esse cara confuso, que vivia indeciso. Mesmo com a distancia, eles ainda tinham uma boa comunicação nos últimos meses, nenhum deles ao menos sabe dizer quando começaram a conversar, porem, Touchi acabava dando conselhos ao outro, que passava por uma época meio rebelde.
– Você pode ficar quanto tempo quiser – falou o rapaz, meio tímido – meu antigo “companheiro” – fez sinal de aspas – se mudou há um tempo, acho que não tem problema você dormir na cama dele. Duvido que venha reclamar.
– Obrigado – Suzuno passou as mãos pelos lençóis, e se sentiu aliviado ao sentir o cheiro de recémtrocado – desculpe ter vindo tão de repente...
– Sem problemas, eu sei que você queria voltar pra cá há um tempo, não me importo em dar uma força.
Touchi mostrou o armário e a cômoda em que o outro poderia guardar suas coisas, e o resto da casa. Era um lugar meio grande para apenas um estudante morar sozinho, e estava bem ajeitado. Suzuno não se sentia realmente desconfortável em ficar um tempo ali, mesmo que de favor. Ele já havia feito isso um numero considerável de vezes em sua vida de “mochileiro”. No inicio, ele se incomodava, mas agora, ele dizia a si mesmo que não ajudaria em nada se importar com isso, que as pessoas que o acolhiam não foram obrigadas a fazer isso, e que ele só precisava não dar realmente trabalho a ninguém.
A verdade, é que o rapaz não tinha ideia do que queria da vida. Mudou-se para uma cidade no interior, pensando que poderia ter uma vida mais tranquila, mas logo se cansou a vida monotoma e da falta de opções que ele sentia ter em um lugar tão pequeno. Acabou migrando para outro estado, um pouco mais ao sul do país, conheceu umas pessoas interessantes e morou um tempo em uma espécie de republica, começou a estudar administração, porem, achou entediante. Teve que ir embora por causa de algumas intrigas entre membros e largou tudo, acabou voltando para o sudeste.
Começou a trabalhar em uma loja de roupas consideravelmente grande, em uma cidade próxima a sua natal. Chegou a fazer um teste para coordenador, mas como não tinha um diploma, acabou não podendo passar. Começou a estudar letras, e se envolveu com um musico, que acabou não dando certo. Deixou tudo quando perdeu o emprego, se mudou novamente e acabou esbarrando com Afuro Terumi por acaso, que acabou o ajudando. Moraram juntos um tempo, e Suzuno acabou bancando modelo algumas vezes, porém, acabava sempre tendo que trabalhar em alguma coisa consideravelmente desagradável, como no Mac Donald’s. Mas, depois de um tempo o amigo acabou entrando em um relacionamento serio, e Suzuno passou a se sentir um incomodo para o outro, resolveu voltar para onde nasceu. Pensou em entrar em contato com Hiroto, mas achou melhor que sua chegada não fosse tão “chamativa”, e Touchi acabou aparecendo, e o ajudando.
E essa foi a historia que ele contou para alguns antigos colegas quando Touchi o levou para o centro. Apesar da cidade grande, o rapaz sempre acabava frequentando os mesmos lugares, assim como os amigos. Não era difícil para ele encontrar um conhecido. E como sempre teve as mesmas amizades, não foi difícil achar alguém que se lembrasse do quase albino.
– Você esta tão diferente! – falou Rhionne, ao arrastar os rapazes a uma lanchonete no shopping – Quero dizer, não sei, a aparecia é quase a mesma, mas ao mesmo tempo ,tão diferente...
Suzuno fingiu um sorriso.
– Obrigado...
– Você desapareceu tão de repente! É um pouco estranho agora... Parece que ontem mesmo a gente ainda estava estudando juntos, e agora... – a garota continuou, fitando o olhar para os próprios pés, encolhendo os ombros.
– Eu estava procurando por algo novo... Mas acho que não tinha nada para mim encontrar – respondeu Suzuno, soando meio dramático.
– Ele vai passar um tempo na minha casa – comentou Touchi – pode ir visitar a gente quando quiser, Rhionne.
A garota deu um sorrisinho. Suzuno nem lembrava de seu rosto realmente, ela parecia uma espécie de estranha para ele naquele momento.
– Eu irei sim! Podíamos reunir toda equipe novamente um dia!
Suzuno fez uma leve careta e olhou para o outro rapaz.
– Ótima ideia – falou com certo sarcasmo.
Touchi sorriu sem jeito e se levantou.
– Bem, agora nós temos que ir – falou, fazendo um gesto discreto para Suzuno – só queria mostrar ao Suzuno que as coisas não mudaram tanto por aqui.
– É verdade... – falou a garota, parecendo meio desapontada – espero poder ver você novamente em breve.
Fuusuke se levantou e se despediu da garota. Ele não se sentia tão animado em reencontrar todos seus antigos colegas. Não que os odiasse, simplesmente não sentia nada muito grande em relação a maioria. Chegava a ser desconfortável, principalmente com alguém que ele sempre tentou fugir.
– Desculpe – falou Touchi, quando pegaram o elevador – eu não sabia que se sentiria meio... sei lá.
– Tudo bem, não foi tão ruim – deu de ombros – poderia ter sido pior, bem pior...
– Bem pior?
– Sim, a gente poderia ter esbarrado com alguma pessoa bem mais irritante, que teria feito um escândalo ou algo assim...
– Hahaha, tipo quem?
Touchi mal havia fechado a boca quando a porta do elevador se abriu. Suzuno avançou em direção a saída, mas uma voz familiar o chamou de volta.
Um grito consideravelmente escandaloso, seguido pelo som de passos rápidos, correndo, em sua direção, o fazendo congelar.
– SUZUNO! – berrou Hiroto, correndo em direção ao amigo, esbarrando em um casal que andava como uma lesma em seu caminho – Eu não acredito!
O ruivo nem esperou uma reação do outro para lhe dar um abraço apertado, atraindo olhares curiosos. Mesmo uma tarde de domingo, havia um movimento considerável no shopping, mesmo sendo o menor da cidade.
– H-H-Hiroto – Suzuno tossiu, tentando escapar dos braços do amigo – Meu deus!
Touchi queria rir, mas achou melhor virar o rosto.
– PORQUE VOCÊ NÃO DISSE QUE VIRIA PRA CA? – reclamou Hiroto, soltando Suzuno, fazendo uma expressão engraçada de raiva – Como se atreve a voltar e ficar escondido da gente! Quanto tempo você esta aqui?
Suzuno suspirou, tentando disfarçar a vergonha que estava sentindo, e a raiva por ser tão boca-aberta.
– Eu cheguei ontem, ia avisar você...
– Seu mentiroso! – Hiroto o fitou.
– Eu só queria evitar justamente esse tipo de coisa! – reclamou o outro, cruzando os braços.
Porem, Hiroto apenas riu um pouco e bateu em seu ombro. Mesmo com alguns problemas que tiveram no passado, ainda haviam sido bons amigos... Quase irmãos. Mesmo que Suzuno e Nagumo não parecessem demonstrar muito corresponder essa afeição, ele sabia que os dois sentiam o mesmo, até mesmo por Osamu.
– Ai meu deus, eu tenho que avisar ao Haru! – exclamou, agarrando o celular com um sorriso meio perverso.
– Hã? Pra que? Porque? – Suzuno pareceu irritado.
– Oxê, porque sim! – Riu o outro, mas alem de discar o numero,agarrou o braço do amigo novamente – Aliais, tive uma ideia melhor.
– O que??
– Me desculpe, rapaz que eu não lembro o nome – falou Hiroto, se dirigindo a Touchi – mas eu vou roubar meu irmãozinho aqui um pouco, espero que não seja namorado dele.
– N-não, eu não sou – falou Touchi, meio confuso.
– Que bom!
–-
– Eu quero ver a cara dele quando te ver!
Hiroto sorriu, e arrastou Suzuno até seu carro, onde Midorikawa esperava bufando no banco da frente.
– Que porra é essa? – perguntou o rapaz, prendendo os cabelos esverdeados e franzindo a testa – Porque demorou tanto?
– Antes de brigar, olhe quem eu trouxe.
Midori apertou os olhos para o loiro, e por um instante, os outros juraram que ele ia sorrir, ao invés disso, ele virou a cara irritado.
– Era só o que faltava – falou.
Hiroto sorriu novamente, quase chutando Suzuno para dentro do carro.
– Agora vamos reunir o “quarteto fantástico” – brincou ele, enquanto ia para o volante.
Os outros dois ficaram emburrados, mas o ruivo não sentiu realmente que a aura estava ruim. Talvez ele houvesse ficado um pouco mais idiota com a idade, ele não ligava, só pensou consigo mesmo que, se havia alguém que pudesse tirar seu outro amigo da fossa, essa pessoa só podia ser Suzuno Fuusuke.
De que maneira o albino faria isso, nem ele mesmo tinha certeza.
Fale com o autor