Words!
1 Um — Ela
Notas iniciais
Words
Capítulo um — Ela
Eu não gosto dos dias chuvosos. Sim, eu posso usar um guarda chuva. Sim, eu posso me proteger com um moletom maior do que eu mesmo... se bem que não é tão difícil assim achar um. Mas não, eu não estou completamente protegido! Ao esperar o sinal abrir, por exemplo, um carro passa correndo de propósito e eu, todo inocente, não percebo a poça d'água em minha frente. Tudo bem, não culpo o motorista. Faria o mesmo se ganhasse um carro. Definitivamente, a primeira coisa que eu faria seria sair em dias chuvosos e molhar alguém.
Agora eu estou indo em direção ao colégio, completamente molhado, no primeiro dia de aula. Eu estudo aqui faz alguns anos e sempre, sempre acontece alguma merda no primeiro dia! Na verdade, todos os dias.
— Licença... — Senti alguém puxar o meu moletom encharcado e, em seguida, uma voz feminina. — Pode me ajudar? Você estuda aqui, certo?
Não, não, eu uso esse uniforme para vender amendoim por aí.
— Ah, não en... — Meu humor não estava dos melhores e eu estava prestes a mandar alguém ir para longe mas, ao virar, vi uma garota. Seus cabelos longos estavam completamente molhados pela chuva e ela sorria, gentilmente. Como alguém sorri depois de levar essa chuva?! Sei lá, ela não gastou tempo passando chapinha, ou qualquer outra coisa? — Sim, eu estudo aqui. Como posso ajudar?
— Sou nova e tenho medo de entrar sozinha, sabe? — Continuou sorrindo. — Principalmente depois de levar uma chuva dessas. As pessoas ririam de mim, não? A propósito, meu nome é Marina.
Seus olhos castanhos ou pretos, não sei, brilhavam e suas palavras soavam tão doces que eu peguei uma cárie só de ouvir sua voz. Ela parece uma boneca.
— Eu sou um idiota, você só passaria mais vergonha. — Respondi. — Mas, de qualquer jeito, pode me acompanhar, se quiser.
— Obrigada! — Se animou.
Só coloquei o pé dentro daquele lugar e caras que eu nunca vi antes vieram me cumprimentar. Quer dizer, cumprimentar ela. Garotas vieram depois e eu apenas sai. Ela é bem bonita, isso é normal. Ouvi um ''Te vejo depois'' da parte dela e eu apenas acenei em resposta.
Bem, foi quase assim quando eu cheguei aqui, algumas meninas pediram para ficar comigo e eu estava parecendo um idiota, querendo escapar dali. Mas...
''Deixem meu amigo em paz, vadias. Vou chamar o diretor para apagar esse fogo de vocês.'' Ele falou, sem qualquer vergonha ou medo. Depois, me puxou daquela rodinha.Mandaram ele se foder, fizeram um clube ''Anti Thiago'' e nunca mais me encheram o saco.
— E aí, seu merda! — Senti alguém apoiar o cotovelo na minha cabeça e eu quase me desequilibrei e cai. Ou seja, eu quase morri.
— Quer me matar?! — Virei e o vi, com seu melhor sorriso e, puta que pariu, por que tão contagiante? Ele usava fones de ouvidos grandes mas estavam pendurados no pescoço. Um moletom, quase igual ao meu só que... bem, seco. Seus cabelos também não estavam molhados e cada dia que passa, aparenta ser mais macio. Esse cara nasceu com sorte, hein?! Não tomou sequer uma gota de chuva.
— Você está ainda mais baixinho. — Me abraçou sem qualquer permissão e bagunçou meus fios pretos que estavam molhados.
— Nós nos vimos ontem! — Me afastei. Até porque o seu perfume é muito forte e isso me trás uma sensação extremamente estranha. — Você comeu meus salgadinhos, assistimos três filmes de terror seguidos e você ficou me assustando. Vai a merda, a propósito.
— Ah, sim... mas, sério cara, parece que você diminuiu ainda mais de ontem para hoje. — Provocou. — Mas seus olhos estão mais azuis, então, agradeça. E, também... — Jogou sua mochila no chão, se abaixou e começou a procurar por algo. Tirou um outro moletom de lá e o estendeu para mim. Se aqui fosse um desenho animado, eu provavelmente teria um grande ponto de interrogação em cima da minha cabeça.
— Por que? — Perguntei. Ele sorriu em resposta.
— Você é o ser mais desajeitado que eu conheço. — Respondeu, simplesmente. — Eu já imaginava que você se molharia, então, trouxe outro. Veste logo, se pegar a merda de um resfriado você não vai conseguir comprar salgadinhos para mim.
Comprar salgadinhos? Esse é o seu motivo?! Mas...
— Valeu... — Tirei o meu molhado e vesti o dele em, no máximo, um minuto. Se demorasse mais ele teria visto meu rosto vermelho. Eu não posso culpar o sol porque está chovendo, então... o sol agradece. Ele é sempre o culpado das minhas coradas instantâneas. Tudo bem, eu entendo! Sou irmão mais velho, também levo a culpa de tudo.
— Ah, você sabe? — Levantou. — A menina nova que todos estão paquerando.
— Marina, certo? — Terminei de vestir e caminhamos até o pátio. O sinal vai tocar em instantes. — Ela é bem bonita. Gentil demais, mas... bonita. Eu a vi mais cedo.
— Eu deveria ter contado antes, mas... ela é a garota de quem te falei. — Sorriu. Seus olhos brilhavam e ele falava com toda a certeza.
— Sua amiga de infância?! — Pessoas da china poderiam ouvir o meu grito agora. Mas, também, ele falou muito sobre ela, impossível não ficar surpreso. ''Ela me ajudou!'' ''Ela cozinhava muito bem.'' ''Nós brincávamos todos os dias, antes de eu te conhecer.'' ''A mãe dela se mudou e ela me deixou seu número.'' ''Eu falo com ela todos os dias.'' ''Ela disse que, um dia, viria estudar no mesmo colégio que a gente!'' Um garoto popular entre todas as garotas da escola, o mais falado, não importa se mal ou bem, é apaixonado por outro alguém. O garoto que ignora qualquer outra menina e só fala abertamente comigo, está apaixonado e a garota, agora, estuda aqui.
— Sim. Eu ainda não falei com ela aqui, não a encontrei em nenhum lugar. — Falava e olhava ao redor. — Está tudo bem ela sentar com nós dois no intervalo?
— Sim... ela parece ser legal. — Respondi. Mas, por que estou tão incomodado? Será que é por que, até hoje, ele nunca foi tão intimo de ninguém além de mim? Então, quando uma ''amiga'' aparece, ela pode roubar o meu lugar?! Quer dizer... eu já vi vários casos de amigos que abandonam outros amigos por causa de namorada. Argh, ele pode arrumar outros amigos por ser popular, e eu?! Passarei o resto da minha vida jogando vídeo game sozinho nas aulas...
— Por que está tão desanimado, idiota?! — Me deu um tapa na cabeça para me acordar. — Eu não sou esse tipo de amigo que você está pensando.
— Você leu meus pensamentos?! — Dei um quase grito, outra vez, e todos os que estavam lá ouviram e olharam para nós.
— Sua expressão denuncia. — Me deu um peteleco na testa e saiu na minha frente. — Vou procurar ela, te vejo na sala!
E saiu. Fiquei sozinho esperando alguma coisa emocionante acontecer, como por exemplo uma chuva de meteoros. Uma chuva de meteoros pela manhã seria incrível. Bem, pelo menos aconteceria algo de interessante na minha vida. Por que eu não me apaixonei por alguém ainda?! Ou, talvez, eu estou apaixonado por uma garota e não sei? Eu não entendo os sintomas dessa merda, afinal.
— Olá! Foi você quem me ajudou lá trás, lembra? — A tal da Marina que o Thiago saiu para procurar. — Eu esqueci de perguntar seu nome.
— É Nícolas. — Forcei um sorriso gentil. Com certeza não tem o mesmo efeito que os sorrisos do Thiago transmitem. — Eu sou amigo do seu amigo de infância. Vamos nos dar bem! Ah, ele acabou de sair para te procurar... — Tudo bem, eu tenho que fazer amizade com a futura namorada dele para eu não perder minha amizade com ele.
— O Titi? — Sorriu, animada. — Que bom! Então eu vou ver você bastante. Eu não vi ele ainda... vamos para sala juntos, talvez ele esteja lá.
É impressão minha ou ela está agarrando meu braço?
— Tudo bem, então. — Assim que ela me puxou para subiu o sinal tocou.
Subimos alguns degraus para chegar no nosso andar e, na porta de cada sala, estavam as listas de alunos. Sim, eles não anunciam antes ou deixam no pátio. Como ela mesmo disse, o Thiago nos esperava na porta de alguma sala. Ela me soltou, correu até lá e deu um abraço nele. Bem, então eu devo deixar os dois matarem às saudades, não é? Mesmo que eu esteja me remoendo de ciúmes por dentro.
Li todas às listas e entrei na minha sala. Eu e o Thiago ficamos na mesmo lugar, como sempre. A menina nova, amor de infância ou sei lá o que dele está na sala ao lado, ou seja, ao menos o meu lugar atrás dele ela não vai conseguir roubar. Abaixei a cabeça e esperei o professor aparecer. Ele entrou ao lado do Thiago, que caminhou até mim sorrindo e sentou-se na minha frente, como de costume. Quando o professor não estava olhando ele virou e me entregou um pedaço de papel.
— É o número dela. — Sorriu. — Ela gostou de você.
Mas o quê?!
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