Wool-Gathering
1 Capítulo Único
Seus músculos contraídos doíam. Suas pernas estavam dormentes e seus olhos ferviam como brasas. Estava esgotado, mas não com sono. Não descansaria em paz até dar resolução à todas aquelas questões inacabadas.
Damien e seu desejo de encontrar o segundo hacker do dia do assalto ao Hotel Merlaut apenas atrasa os planos de Aiden. A conclusão do mistério acerca do mandante da morte de Lena e das ameaças à sua família seria uma investigação linear se não fossem os empecilhos tornando suas missões dispersas. O que seu antigo mentor realmente pretende em encontrar o segundo hacker? Vingar sua perna? Vingar a vergonha de ter levado uma surra e perdido tudo o que tinha?
E depois? Depois de conseguir o quer quer, como Damien vai seguir o resto de sua vida?
No exato momento em que raptou Nicky, Damien cavou sua própria cova. Está consciente que Aiden irá fazer de tudo para matá-lo quando resgatar a irmãzinha querida. Damien anseia tanto sua vingança que vai correr esse risco.
E nisso, ele e Aiden são iguais. Sofreram em diferentes proporções, compartilhando um mesmo ideal: vingança, com foco completo sobre este objetivo. Se assim não fosse, Aiden não mais estaria mantendo Maurice preso, mesmo depois de saber de sua história.
Damien está desgraçando outras vidas em nome da própria — nisso, não há muita diferença entre eles, também.
Só que Aiden é orgulhoso demais. Uma garotinha de seis anos é mais importante que a vida de outro filho da puta qualquer.
Aiden Pearce está sem teto desde o dia onde rastreou aquele maldito IP no Owl Motel. Hoje foi um dia, apesar de cansativo, sem qualquer progresso na investigação do Caso Lena. Entrou em área restrita e foi descoberto. O cansaço vem de seu esforço imposto na fuga do local. Rosnou de raiva, sentado numa cadeira frente à extensa mesa de monitores do Bunker, onde irá passar a noite. Avistaram o Vigilante, então vão dobrar a segurança. A próxima tentativa de invasão será mais complicada. Mil vezes mais. E ele precisa se infiltrar e coletar os dado necessários, ou ficará parado no tempo.
Não importa. Fracassos não o param. Pelo contrário; o motivam. Foco, Aiden. Mantenha o foco. Posso tentar de novo agora mesmo. - Mentalizava, passando por cima de todo aquele stress e dores. — Ou talvez... Pesquisar mais uma coisa ou outra. Procurar por pessoas importantes ou pontos altos na área... Analisar melhor a planta, ver o perfil dos funcionários a fundo... Sei que irá ajudar em algo.
Piscou com pesar. Aiden acomodou-se no assento. Passava a estender a mão até um dos teclados, como estopim de suas buscas, quando uma mão repleta de tatuagens, tomando rumos pela extensão do resto do braço, o impediu de prosseguir. A mesma mulher que o ajudou a encontrar a área de seu objetivo. E o ajudou a escapar de lá.
Ela segurava o pulso de Aiden com firmeza. Nem percebeu quando ela chegou sorrateiramente — ele, que está sempre atento com sua visão periférica invejável. O hacker viu-se obrigado a olhar naqueles olhos azuis, quase transparentes feito cristais de tão... Claros.
– O que vai fazer? — Clara perguntou, sem indícios de humor vocais. — Correção: o que pensa que vai fazer?
– Buscas. Talvez eu possa encontrar...
– Não. — o interrompeu — Não força a barra, ta legal? Quero te ajudar. Quero chegar ao fim disso tanto quanto você. Te dou todo o apoio. Mas, se exigir mais que seu corpo pode oferecer, vai acabar se matando. Se desgastar assim é burrice. Desnecessário, Aiden.
Aiden ficou em silêncio, encarando o chão. Clara largou seu pulso. Estava esperando que ele a afrontasse, provando estar em sua razão, como sempre faz; mas não. Aiden pareceu realmente abalado. Ter fracassado hoje é o de menos, caso possa parar para pensar que Aiden ainda está muito longe de conseguir o que deseja. Clara sentiu-se um tanto dura com ele. Isso é uma merda.
É da família dele que tudo se trata e ela é peça exclusiva desse puzzle terrível. Por quanto tempo esconderia isso? A verdade está próxima. A cada segundo.
– Apenas... Descanse. Está bem? — captou a atenção dele com dois tapinhas no ombro. — Prossiga amanhã. Tente sair um pouco do foco. Uma boa noite de sono... Distrair-se de vez em quando... Traz melhores resultados. Acredite em mim.
– Você não entende, Clara. — alterou um pouco a voz — "Descansar" é algo que não existe mais pra mim. Toda vez que durmo, o mesmo pesadelo da morte de Lena. Há quase um ano inteiro, o mesmo pesadelo. Nada me faz dormir bem, então de nada adianta dormir. Vou acordar no mesmo estado deplorável. Você não pode me entender, porque não sabe com exatidão o que estou passando.
Clara, mentalmente, lamentou por ele. Depois, por si. Está tão enganado...
Compartilham dores semelhantes. Culpas semelhantes. Prevê sua morte quando Damien descobrir que ela é o segundo hacker. Quando tudo acabar, será caçada. Mas precisa ajudar Aiden o quanto puder. Precisa tirar o sofrimento dele. A culpa ficará eternamente sobre seus ombros se não o fizer.
Ele tem que descansar. Precisa descansar. É muito fácil notar sua dor. Física e psicológica. Aiden, além de orgulhoso, é teimoso. Até demais. Clara lembra exatamente do 'sacrifício' que foi para ele admitir que precisa de ajuda. Da ajuda dela. Ele precisa de ajuda agora, também. Ele admitiria isso? Não. Nunca. Mas Clara sabe.
Poderia tentar algo. Algo que o acalme. Que outra alternativa teria ela?
Receosa, temendo a reação do parceiro de trabalho, abruptamente o envolveu num abraço solidário, de livre e espontânea vontade. Havia uma aceitação profunda de afeto enquanto envolto nos braços suaves de Clara. Inicialmente, Aiden permaneceu estático. Uma surpresa, seguida de um transe pelo primeiro contato físico com ela voltado para o carinho. Todo o corpo dele relaxava; seus músculos quase não doíam mais.
Não ousaria relutar mais. Retribuiu o abraço, compartilhando todo o calor. O aroma doce de Clara o impregnava. Ela dava graças pela reação positiva. Estaria Aiden fragilizado o bastante para aceitar o abraço assim, tão rápido, de bom grado?
Contato mais forte que esse, apenas quando ele conheceu a real identidade de BadBoy17. Clara Lille, 28 anos, afiliada ao DedSec, tatuadora nas horas vagas. A empurrou, invadiu seu espaço pessoal e agarrou seu ombro. Mas aquilo foi para intimidá-la. Este abraço é muito diferente. Aiden precisava muito disso e nem fazia ideia.
Ele acha Clara atraente. É inegável. Várias e várias vezes um clima pairava.
Esses pouco raros momentos não duravam muito. Aiden não permitia. Não era momento de se envolver. Ele tem outras prioridades. Foco em Lena e em Nicky, acima de qualquer outra coisa. Estar focado não significa que não goste de Clara. E ela o compreende.
E ela gosta dele.
Por que não? Por que não nesse momento? Apenas nesse momento e, quem sabe, isso sirva de algo quando tudo terminar.
Abraçou-a mais forte, causando maior aproximação. Clara viu-se sentada confortavelmente em seu colo quando foi com cuidado posta lá. Sem segundas intenções. Um momento tão inocente quanto possível, para desfrutar. Ambos sentiam-se em paz, depois de tanto tempo. A confiança dela elevou-se; ousou acariciar a face de Aiden e beijá-lo no rosto durante o abraço. Aiden retribuiu mais além, com um beijo rápido nos lábios. Compartilharam um olhar amável enquanto ainda mantinham as faces próximas. Então, Aiden a fez repousar a cabeça em seu ombro e adormeceu, com Clara velando seu sono em seus braços, até juntar-se a ele no pleno descanso.
Se Aiden teve sonhos ou pesadelos naquela noite, não se lembra. Uma noite de sono tranquila, depois de tantos longos meses. Durante aquele sono, inconscientemente, apertava mais Clara sobre seu peito.
Os dois seguiram o resto dos seguintes dias normalmente. Nenhum outro contato físico ou comentários sobre o ocorrido. Aiden restabeleceu seu foco, não tentou nada a mais, e Clara também não insistiu. Ele busca vingança, não um romance. Mas... se pegava vez ou outra admirando Clara, com falta de seu amor. Controlava o desejo de tomá-la nos braços quando a via. Ela sempre melhorava seu humor com o dom de fazê-lo repousar e de despertá-lo.
Ainda há assuntos pendentes. Pretende terminar logo com isso para chegar até a garota com piercings no rosto.
Um bom vigilante não se distrai por muito tempo de seu trabalho. Assim como uma raposa ágil não se afasta por muito tempo de sua presa.
Fale com o autor