Woods Of Desolation

2 Uma rosa para os mortos


Dois anos depois.

– Você só pode estar brincando. Sua voz ecoo pelo salão do museu, Crystal nunca foi uma das pessoas mais discretas que conhecera, mas ainda assim a única a quem confiava meus segredos.

– Dá, por favor, para você falar mais baixo? Não estamos sozinhos.

Seus pequenos olhos castanhos claros vasculhou todo o local, os quadros postos a uma distância mínima um dos outros, com pequenos jarros com flores brancas postas em cima pilastras em um tom bege. A exposição beirava a insanidade, rodeado de branco ficar muito tempo ali clareava tanto à mente que chegava a me perguntar às vezes se não estava ficando louco. Annie gostava disso, o tanto que uma cor pode representar a mente de alguém. Para mim, ela era louca também.

– Está me dizendo que um deles vai estar aqui hoje? – Agora, sua voz não passa de um sussurro quase inaudível.

Balancei a cabeça. Um dos cinco, Alexander, ou o que chamava de “morte latente”. Annie sempre dizia que era ridículo essas denominações que atribuía a eles, mas era algo impossível para mim. O Alexander é um pintor nato, diversos dos quadros pendurados nessa parede branca lúcida era dele. Quadros da morte, retratos de, em sua maioria, mulheres em êxtase ao se deparar com a morte. A interpretação que dará a cada quadro era a que o êxtase experimentado por todas essas moças era o reflexo do seu próprio, elas não gozavam da sua vida indo embora, muito pelo contrário, desesperavam-se e lutavam contra como demonstrava a linguagem corporal, porem o rosto era claramente a representação da morte depositando o prazer em apoderar-se de um corpo. Cada um seguia ordem cronológica e alfabética o nome do primeiro: “85, Angelita.” 85 era na verdade o ano de 1385, Angelita uma das suas ex amantes. Levei aproximadamente cinco anos para decifrar esse quadro, por pura sorte e ironia, Alexander além de pintor era um adepto a “diários” onde relatava lembranças de sua vida passada. Tive acesso em uma das vezes em que fizera a revista na casa em que ele ficava enquanto viajava a trabalho. Se ele chegou a notar a ausência de um dos cadernos, eu não sei.

– Alexander, o pintor de vários desses quadros que estamos vendo. Ele vai estar aqui hoje. Seu rosto iluminou-se de compreensão, suas sobrancelhas formando uma fina linha, com um olhar acusador fitou-me.

– Você só me trouxe aqui para isso. Não acredito! – caminhou em direção à saída da sala em que estávamos. – E eu pensando que estava fazendo isso por mim, mas que grande besteira. Você sempre me usa para seus propósitos ridículos. 17 anos, sabe o que é isso? Você já está há 17 anos nisso. Nem amava tanto nossa família assim, não fazia a questão de saber como eles estavam. Basta disso para mim.

Sumiu de vista, após alguns segundos fui atrás dela, perguntava a mim mesmo se a realmente usara como uma desculpa, embora no fundo já soubesse a resposta. Os corredores estavam dispostos no mesmo esquema, paredes brancas e o contraste dos quadros cheio de cores quase não davam para não parar e olhar. Queria apenas fazer o que precisava e sair dali.

Contava os passos até alcançar minha pequena, porém não muito jovem irmã, seus cabelos de um negro profundo e curtos a altura do ombro balançavam com o andar firme e agressivo. Era uma garota notável, baixa e com curvas, deixava-me com ciúmes a cada olhar de cada marmanjo que a olhasse. Como se minha irmã, a única que sobreviveu de toda minha família, fosse só mais uma sem valor algum.

– Crystal, pare só um instante.

– O que é?

– Eu não vim aqui só por isso, vim por você também.

– Vá se ferrar, Félix.

Por um breve momento parei. Atrás de Crystal havia um homem, alto e magro, seus olhos de um verde vivido e intenso fitava a nós dois, seu cabelo na mesma altura que o de minha irmã, jogados para um lado. Parecia um modelo, mas sabia exatamente o que era. Sorria jovialmente sem formar nem uma ruga ou cova sequer em seu rosto perfeito e branco. Era ele.

– Crystal...

– O que...

Inclinei a sobrancelha indicando que havia algo atrás dela para se olhar e em como sempre, indiscretamente virou-se. Alexander se dispôs a andar, suave e rapidamente quase não ouvia o som de seus passos, ao passar por um dos jarros, retirou uma única flor branca e continuou andando até chegar a nós.

– Senhorita. Inclinou-se para ela em um rudimentar cumprimento cavalheiro, entregou-lhe a flor e depois olhou fixamente para mim. Sem falar ou fazer menção de qualquer movimento. Apenas me olhou.

– Angelita é um dos meus quadros favoritos, e o seu Sr. Anselmo?

Aturdido olhei para os lados não havia ninguém além de nos três ali, sem entender a sua pergunta apenas franzi o cenho. Apontou para o meu lado esquerdo, o quadro angelita estava bem ali, uma moça de cabelos ruivos caídos por suas costas enquanto olhava para o céu, nua. Não tinha palavras. Tudo aquilo parecia irreal demais, um deles na minha frente perguntando-me qual de suas obras era a minha favorita.

– Ninguém entendia essa numeração que sempre dou a meus quadros, até alguém encontrar um dos meus livros. Há informações muito preciosas nele, entende Sr Anselmo? – Voltou a me observar. O medo pulsava em todo meu corpo. O que estava acontecendo? Minha cabeça rodava. — O que está acontecendo... Oh, acho que não nos conhecemos. Sou Alexander, o autor desses quadros embora ache que o senhor me conheça. E muito bem.

– Félix, o que...

– E a senhorita... Crystal não é mesmo?

– Sim.

– É um belo nome. Conhecia uma bela moça, assim como você, chamada Crystal. Sua cabeça foi arrancada com apenas um golpe de espada.

E apontou para o quadro no lado contrário ao de Angelita. Com um sorriso que me fez estremecer mais, fez um leve movimento e saiu do local. Deixa-nos com sua única lembrança irreal que estivera ali, a flor branca.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.