Won't you be my valentine?
1 Capítulo 1
Notas iniciais
As paredes eram cinzentas, e os homens e mulheres que guardavam as celas possuíam rostos sem qualquer emoção. A comida do refeitório as impediriam de guardar qualquer pensamento conflitivo com a ordem, pois havia aquele bendito soro da verdade, permitido em prol daquela justiça alienígena. Ainda, haviam aqueles dispositos nos ouvidos para que explodissem seus cérebros ao sinal de desacato.
Aquele era o presídio feminino conhecido como Valentine. Nyaa tinha o que era preciso para se misturar às demais, em razão de antes de destruir o castelo de cartas de seu cotidiano com as próprias mãos, teve um nome descartável e uma história montada para que vivesse em sociedade. Isso era o que a moça afirmava quando lhe questionavam a respeito de sua vida. Ali ninguém sabia sobre a vida das outras, mesmo que a própria Nyaa tivesse sido uma idol no passado.
Ela era mais conhecida pelos seus atos do que qualquer coisa que pudesse sair de seus lábios. Um deles era que interagia com Totoko quando podia. Nesses momentos, Nyaa mexia sem preocupação uma mecha verde de seu cabelo curto antes de puxar a outra para uma dança aleatória no meio da cela meio lotada. Contudo, aquela era uma das meninas que era melhor se ter como inimiga do que como amiga, devido ao seu histórico de atrair grupos mais perigosos.
Nyaa teve mais dificuldades de se acostumar com a atitude fechada da outra para com ela do que se preocupar com que as outras achavam. Entretanto, mesmo com as palavras ácidas de Totoko para que se afastasse, aquela luta, não era como se pudesse se silenciar.
Afinal, iam além de serem colegas de trabalho, também eram de cela, compartilhando de um mesmo destino incerto. Se Totoko não se importava com isso, afinal, fazia um ano que estava ali a mais do que Nyaa, pelo menos, daria algo de si para manter aquele laço.
Ainda que não admitisse, sentia aquele receio de que pudesse se arrepender caso não respeitasse suas próprias vontades, como em outrora as ignorou. Também, não era como se fosse tão bem vista com aquele rabo e orelhas de gato. Caso estivesse trafegando entre os habitantes locais daquele planeta, talvez não fosse grande coisa.
Todavia, estava entre humanas que entendiam que aquilo não era artificial, a única coisa a respeito dela que não ignoravam, pois não permitiam acessórios no presídio. Dessa forma, os dias passavam sem que ela percebesse: da cela, para refeitório, para o pátio, para a cela, para as entrevistas de casamento, que um momento atrás poderia ter amado. Porém, naquelas circunstâncias apenas representava um dos finais ruins que poderia conseguir.
Já que, no fim, havia sido presa apenas com esse objetivo, com as demais não seria diferente. Eles procuraram em seu histórico e acharam um segredo que não gostaria de compartilhar com alguém. Dessa forma, esse havia sido o começo e o fim. O que teriam descoberto de Totoko?
Pelo tempo que passava, não era incomum que Nyaa e Totoko brigassem pela coisa mais trivial possível. A pergunta voltava a sua cabeça, do motivo para Totoko se atraída para aquela prisão, que segredo ela queria proteger, pois isso poderia responder a atitude ainda mais ácida da garota para tudo e para todos. No entanto, logo a realidade voltava a si. O que devia preocupar Nyaa era se manter distante de qualquer holofote que ela uma vez procurou. Isso lhe resultaria em problemas.
Ainda que enfim estivesse acabando por se aproximar de Totoko. Pela primeira vez, elas tinham dançado sem que Totoko lhe pisasse o pé de propósito, o que resultaria em uma dessas brigas em que elas gastavam tempo de suas vidas, quando isso poderia não ser recomendado na situação delas.
Quando chegou sua hora, Nyaa não poderia ter estado mais surpresa, afinal, era muito tarde para qualquer mudança. Todavia, Totoko foi a que mais mudou naquele momento. Ela se colocou de frente a Nyaa e tinha o sorriso mais espontâneo que já tinha visto ela fazer quando estavam ali.
Nyaa a trouxe para si em seus braços, contudo, apenas a tempo de sentir a explosão próxima a sua orelha direita. Não demorou muito para que apagasse como Totoko, mas diferente dessa não para sempre. Não teve tempo para sentir o sangue tingir suas roupas e rosto. Quando acordou não havia mais nenhum sinal da morte de Totoko em si. Estava em uma cela como anteriormente, mas essa tinha a proporção de acomodar no máximo duas pessoas.
O número que tinha nas costas da mão gravado a ferro quente doía como nunca antes, mesmo que há tempo tivesse se tornado uma cicatriz na pele. Assustou-se quando ouviu a única porta do cômodo se abrir, estava pouco tempo acordada e ainda tentando se recuperar do choque de presenciar sua conhecida ter a cabeça explodida na sua frente pelo ato de rebeldia. Provavelmente, era a hora em que a levariam ao seu comprador. Totoko devia saber que sua atitude era inútil para mudar aquilo.
Então, por quê fazer essa loucura? Sua resposta chegou quando duas mulheres surgiram na porta com expressões simpáticas. Elas verificaram os curativos que tinha no lado direito da cabeça, que Nyaa apenas os percebeu arderem naquele momento. No entanto, aquele machucado não doeu mais do que quando soube o motivo de Totoko fazer o que fez. Uma lágrima escorreu de seus olhos ao saber que o segredo de Totoko era o de poder tê-la amado, como parecia que a tinha amado também.
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