Wonderland
2 O Cheiro do Vento e o Céu Azul
Não sei quanto tempo fiquei inconsciente, só sei que quando acordei a primeira coisa que senti foi incômodo nos meus olhos, afinal há muito eu não via a luz do sol. Percebo alguém sair dos meus arredores com pressa, provavelmente para avisar que eu tinha acordado. Pelo cheiro, eu supus que era a moça que tinha me libertado.
“Tenho que agradecer a ela depois...” Pensei enquanto coçava os olhos e esperava eles se adaptarem ao ambiente, e uma vez que isso aconteceu, pude finalmente ver onde eu estava. Eu estava deitado num colchão improvisado com feno, coberto com um tecido branco de algodão, o chão era de terra batida, e haviam nele algumas mesinhas com coisas que eu suponho serem água e talvez algum medicamento. À frente tinha uma abertura da qual vinha um ar… limpo. Eu respirei fundo. Era frio, mas não o frio congelante do calabouço, era bom. Eu podia também sentir o calor do sol vindo pela tenda, e quis senti-lo diretamente na minha pele novamente. Há coisas simples da vida que não se dá valor até perder, e cara… como eu sentia falta do sol.
Eu me levantei, aproveitando cada movimento livre que eu podia fazer com meus braços e pernas, e sai da tenda. Dois soldados que estavam ali ficaram em guarda, mas eu nem me mexi. Apenas fiquei parado debaixo do sol, enquanto a moça vinha com mais alguém até mim. Ela tinha a pele bem morena e cabelos cacheados presos no alto da cabeça, com mechas mais claras na frente, que emolduravam seu rosto redondo. Vestia uma armadura branca com detalhes espinhosos nas ombreiras e ornamentos em preto pelo metal. Seu rosto era composto por bochechas bem redondinhas, lábios grossos e olhos pretos bem redondos.
— Senhorita. Muito obrigado por ter me tirado daquele lugar imundo. Sinto que estou em dívida, então diga-me se posso ajudar em alguma coisa.
O homem que estava com ela pigarrou. Pareceu incomodado com o fato de ter me dirigido a ela primeiro, então juntando isso ao fato de que ele usava uma armadura mais bonita, supus que ele era seu superior. Ela era também branca, mas tinha muito mais detalhes, e algumas flores em ouro. Ele parece mais alguém nativo desse país, com uma pele branca e cabelo castanho, com um rosto… comum, acho.
— A sargento Clarcke fez algo que era do dever dela, não ache que foi grande coisa. Mas também fez algo que não estava no protocolo. Espero que a razão para isso tenha algum fundamento.
— Ah, claro. Eu sei sim onde ele se esconde. Podemos conversar sobre isso andando, por favor? Passei muito tempo preso, e se pudermos dar uma volta, eu agradeceria muito, senhor…?
— Tenente Isaac. — ele diz enquanto toma postura ereta e segurando a bainha da espada — E o que me garante que você não vai fugir?
— Senhor. — faço uma pausa enquanto olho em seus olhos — Eu não tenho pra onde ir. E nada mais justo do que me unir àqueles que me salvaram. Se me aceitarem, claro.
Ele me olha por um momento, depois olha para a sargento, e depois de uma pequena discussão que eles acreditavam estar baixa o suficiente para que eu não ouvisse, eles decidem atender meu pedido. Era interessante que mesmo sem terem dito nada muito específico, soube na hora que apesar do motivo principal ser a guerra e as informações que eu tinha, eles tinham outros interesses e perguntas.
Começamos a caminhar pelo acampamento e depois nos arredores. Há tempos não via tanta gente. Eles bebiam, conversavam e treinavam. Apesar de ser uma guerra, me parecia um ambiente onde todos se davam bem, o que era bom para o desempenho em batalha, porque eles tinham um propósito e amavam seu país. Pude sentir isso sem dificuldade, assim como senti muitos olhares curiosos e julgadores sobre mim. Foi aí que percebi que meu corpo tinha mudado bastante, eu estava muito magro e pálido. Meu cabelo tinha crescido horrores e ficado com mechas brancas. Eu também tinha uma barba muito incômoda que certamente tiraria assim que pudesse. Mas… não sei, tinha mais alguma coisa em mim que eu não estava vendo, e acho que só um espelho diria o que é. Apesar desse pequeno incômodo, fiz questão de ignorá-los para aproveitar o vento e observar o céu azul, enquanto era severamente interrogado.
— Primeiramente gostaríamos de saber o seu nome. — diz o tenente, que deixa claro com sua postura que é ele quem vai conduzir a conversa, o que me deixa um pouco incomodado, afinal, a sargento me parecia mais gentil, mas eu não estava em posição de reclamar.
— Senhor, o nome que me foi dado ao nascer foi usado por pessoas que hoje repudio. Pessoas que me escolheram como sacrifício e me jogaram numa masmorra sem chance de volta por motivos fúteis. — paro por um segundo. A memória é muito dolorosa. — Eu gostaria que ele fosse apagado. Aceito qualquer nome ou apelido que queiram me dar, eu não ligo mais.
— É de meu conhecimento que as pessoas presas nesse castelo não eram criminosas. Eu não sei qual a sua história, mas se prefere que ela morra, que assim seja.
— Senhor, ela só vai morrer quando eu me vingar. E, também precisarei de parte dela para explicar como tenho a informação que precisa. Ah! — eu aponto para uma árvore que tinha no topo de um morro — Vamos sentar por ali. Deve ter uma boa vista.
Eu ando devagar e em silêncio até chegarmos lá. Noto que o tenente já está impaciente comigo, e que tanto ele quanto a sargento continuavam de guarda. Ao sentar ao pé da árvore, os convido para fazer o mesmo.
— Eu não vou fugir, não tenho forças para isso. Mas espero recuperá-las até chegarmos na minha cidade natal. É onde ele está.
— Então você o viu lá antes? — o tenente se encosta na árvore enquanto a sargento se senta, ainda distante de mim.
— Não só o vi como também cheguei a trabalhar para ele. Ele tem uma casa de campo lá.
— Vai nos levar até lá?
— Sim.
Ele desencosta da árvore e parou para averiguar a situação. Chamou a sargento para conversar por um momento e chegaram à conclusão de que era arriscado demais, mas que se fosse verdade, era um prato de mão cheia. Por fim, ele se despede, deixando ela para se resolver comigo. Ela parecia frustrada, mas ainda assim voltou a sentar ao pé da árvore e começou a traçar um plano comigo. Ela era diferente das outras moças da região, e digo isso de forma positiva. A pele morena, cabelo bem cacheado e curtinho e uma boca bem grossa combinavam com ela e com sua personalidade aparente. A maioria das moças da região eram brancas de cabelo liso, então supus que ela era do sul.
— Olha, eu tenho muitas perguntas para fazer. — ela bufa — O tenente quer algumas respostas e um trabalho bem feito, então digamos que eu tenho um grande relatório para fazer.
— Eu entendo. Ajudarei na medida do possível.
— Bom… primeiramente eu quero saber como você se recuperou tão rápido do estado em que estava.
— Ah, acredite. Eu também não sei. Não sei nem o que fizeram comigo, aquele rei era um tanto louco. Mas se isso ajuda, eu era um homem saudável.
— Certo… — ela faz uma longa pausa — Mais uma coisa importante. Se você chegou a trabalhar para ele, como acabou preso?
— Ah… — é minha vez de fazer uma longa pausa. Lembranças dolorosas são difíceis de repassar — Ele enlouqueceu depois que o filho morreu e passou a pegar pessoas simples para investir em alguma espécie de experimento. Desses malucos de trazer alguém de volta a vida. As cidades ofereciam pessoas que não gostavam, pobres ou reclusas como “sacrifício”. Eu tive o azar de estar em um dos três grupos.
— E o que você fazia enquanto trabalhava?
— Eu era caçador. Ele gostava de carne de cervo, e eu e meu parceiro éramos os únicos da região que conseguíamos encontrar os maiores e mais gordos. É nisso que eu sou bom. Eu mato. Com rapidez e discrição.
— Bom, vamos supor que ele realmente tenha essa casa de veraneio. O que te faz achar que ele não está em outro lugar.
— … Eu não sobrevivi à toa. — eu faço uma pequena pausa, imaginando se eu deveria mesmo revelar aquilo. Mas era algo que eu poderia contornar — Tinha uma cozinheira. Ela levava comida para o calabouço toda madrugada. Recentemente eu a ouvi dizer que ia para uma vila produtora de rosas, e que rezava para que nós sobrevivêssemos.
Depois disso, foi decidido que parte dos homens iriam comigo e com a sargento, todos sob o comando dela. Ao chegar na cidade, eu teria que entrar na casa de veraneio do rei, matá-lo e levar sua cabeça de volta para o acampamento, para provar minha lealdade ou coisa assim. Eu também teria que fazer mais alguns trabalhos sujos por lá, como reconhecer o local e matar qualquer um cuja falta traria desestabilidade. Mas isso não me importava, o meu objetivo real ali era outro, e acabou que encontrá-los se tornou conveniente para ambos os lados.
Me foram entregues um arco, uma aljava de flechas e duas adagas para que eu começasse a treinar assim que me sentisse mais forte. Fiz questão de retirar aquela barba horrenda e foi quando eu me vi no espelho pela primeira vez. Meus olhos estavam brancos, como se tivesse perdido a visão ou morrido a um tempo, e em conjunto com minha pele pálida, a visão era realmente… inusitada. “É, isso explica muita coisa...”, foi o que pensei enquanto passava a lâmina. O que me surpreendeu foi não ter me importado. Eu até gostei do tamanho do meu cabelo, apesar de gostar mais de quando ele era todo castanho escuro, mas acho que só voltando no tempo ele ficaria assim. Depois de passar um bom tempo me reavaliando e descobrindo como prender o cabelo, vesti as roupas novas e fui ajudar na preparação da jornada.
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