Wonderland

4 De Volta ao Lar - parte 2


Notas iniciais
Voltei depois de um tempo uwu

Depois que planejei minha rota, comecei entrando pela área de serviço. Não tinha nenhum guarda ali, eles estavam em sua maioria na parte de fora da casa e perto do rei. Passei pela lavanderia e segui para a cozinha, e parei ali por um momento. Havia alguém ali. Eu esperei que essa pessoa passasse por mim e a segurei pelas costas com minhas mãos tapando sua boca para que não gritasse. Quando a vi na luz, reconheci quem era.

— Milady, não se desespere, e me escute bem. — ela pareceu reconhecer a minha voz e se virou para olhar para mim com surpresa e eu mantive minha mão tapando sua boca — Não grite, ou terei que agir.

— O que… aconteceu lá? — ela sussurra. Ela se solta e olha para mim de cima a baixo, como se não me reconhecesse. Talvez ela nunca sequer soubesse como era mesmo o meu rosto, de tão escuro que era lá embaixo. O coração dela ainda batia rápido, mas ela já não sentia mais a necessidade de gritar. Talvez quisesse mesmo fugir.

— Não tenho tempo para explicar, mas posso dizer uma coisa: se você quer viver, vá ao estábulo. Chegarei lá em pouco tempo.

— … O que você fez?

— Eu não fiz nada, estou apenas obedecendo ordens, mas vale a desobediência. Sua gentileza te salvou. Pegue o que puder e vá.

Eu virei as costas e segui para dentro da mansão aproveitando os pontos escuros. Era necessário chegar ao primeiro andar e entrar no quarto que era logo abaixo aos aposentos do rei… ou pelo menos onde costumavam ser. O andar de baixo foi fácil, mas ao subir as escadas tive que lidar com um total de cinco guardas. “Apesar de achar que está escondido, ele encheu o lugar de guardas. Covarde.”, eu repetia isso em minha mente a cada guarda que passava, mas consegui usar um momento de distração entre eles e passar para o quarto. Entrar nele foi fácil, não estava trancado e também não tinha ninguém lá.

Uma vez lá dentro, senti a presença do meu alvo no quarto de cima, e me preparei para chegar lá pela janela. Esperei o momento certo para fazer isso, afinal, não poderia ser visto por nenhum soldado de fora. Me pendurei na varanda e subi, me deparando com um quarto enorme, com itens luxuosos, uma cama gigantesca, bastante comida e vinho e um guarda-roupas cheio de mantos com fios de ouro. Era para onde ia o dinheiro dos impostos… incrível. O povo faminto e esse lunático fazendo o que bem queria com o reino. Imagino se sentirão falta dele, se haverá alguma revolta quando a Casa das Rosas assumir o governo, e pensando no quão esquecível ele é, atirei uma flecha em seu peito e uma em sua cabeça, e cortei a cabeça com a faca. Ele morreu enquanto dormia, infelizmente, mas espero que tenha sentido alguma dor.

— Como era que você me chamava, mesmo? Verme de caixão?

Eu cuspi em seu corpo enquanto usava os lençóis de sua cama para fazer uma bolsa improvisada para transportar sua cabeça, aproveitei e limpei a lâmina. Também embolsei algumas jóias e sacos de ouro que estavam dando sopa. Desci pela janela mesmo e usei a floresta novamente, mas dessa vez para chegar até a sala da guarda, que também ficava aos fundos da casa. Eu tinha… assuntos inacabados por ali, e quando entrei pela janela, lá estava o desgraçado. Por alguma razão ele estava acordado, e não deu nenhum alarde quando entrei.

— Sabe… — ele diz enquanto termina uma garrafa de vinho — De certa forma eu sabia que você apareceria. Você foi o mais perto que tivemos de um resultado positivo.

Eu lembro dos meus companheiros de cela. A maioria perdeu a sanidade, a consciência e em alguns casos, sua integridade física como ser humano. A sargento Clarcke tinha me garantido que respeitaram o fato de que eram pessoas e foram queimados num funeral com autoridade religiosa, e isso me acalmava um pouco. Mas ainda assim, nada daquilo deveria ter acontecido.

— Eu não vim para conversar sobre sua insanidade. — falei antes que ele dissesse alguma coisa desnecessária — Eu quero saber onde eles estão. E aconselho responder.

— Então é isso? Você aguentou por causa deles?

— Seu experimento acabou, então pare de me analizar. Onde eles estão?

— Na verdade, ele só começou. — ele ri — Mas acho que não viverei para saber o que você tem de diferente… Bom, seu “amigo” desapareceu com seu irmão. Aparentemente eles aproveitaram o escândalo que você fez quando foi pego e fugiram. Sua mãe foi queimada viva numa caça às bruxas que teve na região depois de… você. Seu pai não aguentou a dor e cortou os pulsos.

Eu fiquei em silêncio, olhando para ele. Procurando qualquer indício de mentira, sendo em sua voz, no rosto, e até nos batimentos cardíacos que eu ouvia muito bem. Tirei minha lâmina da bainha e avancei. Ele não se mexeu, apenas me deu o pescoço e disse antes de morrer:

— Ah, o meu sucesso...

Naquele momento tirei um peso das minhas costas. Era uma vingança? Sim, mas se eu deixasse aquele homem vivo eu não só viveria inquieto por ele não ter punição, como também com receio de que ele quisesse terminar o que começou e mais gente ia acabar como eu… até porque há coisas que não se deseja nem ao seu pior inimigo. Sabendo como é o outro lado, cortei sua língua e furei seus olhos. Ele chegaria no pós-vida cego e mudo, e não vai dar ideia errada para mais ninguém.

Depois de matá-lo eu limpo a lâmina, pego a espada dele e sigo rumo até o estábulo, onde encontro a moça gentil escondida atrás de uma árvore ao lado da construção, com roupas de viagem e uma pequena bolsa tiracolo que imagino conter os pertences dela. Eu me aproximo e entrego a espada.

— Não importa se você vem comigo ou vai seguir seu caminho. Vá em segurança.

— Eu… tenho uma irmã. Eu vou ficar com ela. — ela avista sangue pingando no chão e fica ainda mais assustada. — Isso…?!

— Não tem nada a ver com você. Vem pegar um cavalo.

Eu entro devagar no estábulo e comecei a amansar dois dos melhores cavalos que achei. Pego duas celas e coloco nos animais. Ela reluta em aceitar minha ajuda, mas a aceita. A ensino como montar e indico a direção onde está a cidade que ela procura, além de ensinar coisas básicas sobre viagem a cavalo.

— Tente cavalgar até a primeira cidade que achar e pague estalagem para você e estábulo para o cavalo. — eu entrego parte do ouro que roubei para ela — Descanse por um dia inteiro, compre mantimentos e uma capa e saia de manhã no dia seguinte. Jamais viaje à noite. Se precisar acampar, faça uma vistoria na área, e nunca acampe perto da estrada. A fogueira tem que ser sempre pequena, só o suficiente para aquecer ou cozinhar. Use a capa para se aquecer e andar sem chamar muita atenção.

— Eu… estou com um pouco de medo. Nunca estive sozinha.

— Os deuses estão com você. Tenho certeza de que vai achar sua irmã. Pense nisso como uma grande aventura dessas que se lê em livros.

— Mas… o que está acontecendo? — percebo seus olhos lacrimejando — Porque eu?

— Você tem bom coração, não merece ver o que vai acontecer aqui. Agora vá.

Ela sai no cavalo meio desengonçada, mas sem correr risco de cair. Eu vou com ela por uma certa distância e depois desvio o caminho até o acampamento. Consegui dar a volta na cidade sem complicações, e quando cheguei na floresta, desci do cavalo e segui à pé, com ele ao lado. Ainda faltavam algumas horas para o nascer do sol quando cheguei ao acampamento e os primeiros soldados que me viram saíram avisando o restante que eu estava voltando. Muitos se amontoaram em torno de mim, esperando para ver como eu tinha conseguido cumprir a missão, o que tinha acontecido, se tinha mais alguma informação, mas esperei a sargento chegar junto com os outros superiores, e quando chegaram, só desenrolei a cabeça e deixei eles verem. Você já ouviu um batalhão gritar em euforia? Podia jurar que senti o chão vibrar. Percebi que a partir dali, eu seria alguma espécie de herói de guerra.

Notas finais
Depois dessa segunda parte, tem uma terceira e aí movemos para outro capítulo ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.