Wonderland
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordei com o sol bem forte em meu rosto. Era um dia ensolarado e fazia calor. Tirei na hora o cobertor velho que havia achado na noite anterior de cima de mim e me sentei. Estava com fome. Por sorte, tinha um pouco de biscoito na minha mochila. Então comi. Não tinha como saber a hora, mas será que aquele homem generoso de ontem teria passado aqui e eu estava dormindo?
A quem eu quero enganar? Por que eu penso nele? É claro que ele não veio. Se não veio ontem, quando disse que vinha, por que viria hoje?
Parece que por coisa do destino, justamente na hora em que eu estava pensando nisso, eu o avistei sair da padaria, como havia acontecido no dia anterior. Ele veio até mim.
– Bom dia, menininha.
– Bom dia. – respondi. Tinha que ser educada com ele, afinal ele foi legal comigo. – Olha, desculpa perguntar mas, porque você não veio aqui ontem, como tinha dito? – Por algum motivo eu me importava, e eu nunca me importei com ninguém. Isso me assusta.
– Ah, então…me desculpe. Eu tive que sair cedo do trabalho e depois tive problemas em casa, então não pude. Mas você ficou bem aqui, não ficou? – perguntou
– É, digamos que sim. Aquele dinheiro que você me deu, rendeu um hambúrguer bem gostoso. Obrigada. – falei.
– Que bom, fico feliz em saber disso. Olha, hoje eu realmente vou passar aqui, ok? Prometo. – disse ele.
– Tudo bem, não é como se você fosse obrigado a isso. Você já fez muito por mim, obrigada. Passe se quiser. – falei
– Ok. Eu tenho que ir agora, até mais. – falou ele.
– Até. – respondi, com um sorriso frouxo.
Depois que ele se foi, resolvi colocar minha mochila nas costas e ir dar uma volta. Fui andando sem rumo até que encontrei um parque enorme e bonito. Resolvi entrar. Me sentei na sombra de uma árvore. Corria um vento gostoso e era bem sossegado.
De repente, vi uma bola rolando na minha direção. Achei estranho. Foi quando uma menina apareceu e eu já estava com a bola nos meus braços.
– Oi, então..essa bola é minha. – falou ela.
– Ah, tudo bem. Eu já imaginava que fosse de alguém, por isso peguei. Quando a pessoa viesse, a bola não teria ido mais longe. – falei, sincera.
– Nossa, que gentil da sua parte. Obrigada. – falou, com um sorriso.
– Imagina. – falei.
– Qual é seu nome? – perguntou a garota.
– Alice…e o seu?
– Cat.
– Que nome bonito. – falei
– Obrigada.
“Cat, você está falando com crianças de rua? Ficou louca menina? Vão roubar sua bola! Volte aqui já!” Disse uma voz que ouvimos. Deveria ser a mãe dela, nos vendo de longe.
– Desculpe, mas eu preciso ir. Obrigada por guardar minha bola, até mais. – disse ela, parecendo constrangida pelo que sua mãe havia dito.
– Tudo bem…não foi nada. Até.
Passei praticamente o dia inteiro naquele parque. Sabe, as vezes é tão solitário fugir. Lá no orfanato ninguém falava comigo do mesmo jeito, porém eu me sentia parte daquilo. Sempre vivi ali. Mas nas ruas é diferente. Nas ruas ninguém realmente liga. Ninguém olha na sua cara, e quando notam que você existe é pra te acusar de marginal ou drogado, te tratar mal. Apenas o homem da padaria e Cat haviam sido legais comigo até então.
Naquela noite, o homem da padaria havia ido me ver. Ele pagou um jantar pra mim, eu fiquei feliz. Mas ficava pensando…porque ele iria querer me ajudar tanto assim? Ele nem me conhece. Ele certamente tinha uma família para sustentar. Eu não queria estar tirando comida dos filhos dele pra que ele me desse uma coisa ou outra.
Bom, acho que estou pensando demais, como sempre. Se ele está me dando essas coisas é porque deve sobrar pra ele.
No dia seguinte, eu vi o homem na padaria –como sempre- e depois fui ao parque. E Cat estava lá novamente.
– Oi Alice. – disse ela, com um sorriso.
– Oi. – respondi com meu sorriso frouxo.
– Hoje vai ser mais tranquilo para que a gente converse. Minha mãe veio com uma amiga dela, nem vai notar onde eu estou.
– Que bom, eu acho. Só não arrume problemas com ela. – falei.
– Tudo bem. – falou.
– Então…você mora por aqui? – perguntei.
– Moro, moro a duas quadras daqui. Bom, na verdade eu morava. Mas minha mãe e meu pai tiveram uma briga na terça e agora estamos morando com a minha avó, que é um pouco mais longe, mas ainda é por aqui. – disse ela.
– Sinto muito pela briga dos seus pais. – disse.
– Eu também. Eu adoro meu pai. – ela disse, parecendo triste.
– Não fica assim não, vai dar tudo certo. – falei, colocando uma mão no ombro dela.
– Obrigada, Alice. – ela disse, sorrindo pra mim. – Mas e você...fugiu recentemente dos seus pais? Onde você morava antes? – perguntou.
– Bom, na verdade o que acontece é que eu morava em um orfanato, desde que me entendo por gente. Mas eu não gostava de lá, porque todas as pessoas iam pra lá por uns cinco, seis meses e depois eram adotadas. E isso me dava a impressão de que se eu me apegasse a alguém, eu ia ser abandonada sempre, igual ao que os meus pais fizeram comigo. Então eu nunca tive amigos lá. Além de tudo tinha uma cuidadora que se achava a rainha. Ela mandava a gente limpar o orfanato, quando era ela que deveria fazer isso. Então eu achei que fugindo eu ia viver melhor, em paz. – falei.
– Entendi…mas e seus pais biológicos? Nunca quis saber deles? – perguntou.
– Não. Acho que se quando eles me abandonaram eles não me queriam mais, não vão querer agora. – falei.
– Ah sim. Sinto muito ta? Você é uma garota muito legal, vai ser adotada. – falou.
– Obrigada, Cat. Você é muito legal também. – respondi, com um sorriso sincero. – Quantos anos você tem?
– 13. E você?
– 15.
– Ah sim. Bom Alice, acho que minha mãe já está voltando. Mas olha, se cuida viu? Eu prometo que volto aqui um dia sem ela para a gente tomar um sorvete e jogar bola. – disse ela, sorrindo.
– Valeu. – respondi, dando uma risadinha depois.
E então Cat foi embora. Eu estava adorando aquela garota.
Mais tarde, eu estava pensando na conversa que tinha tido com ela. Ela mencionou que os pais dela tinham tido uma briga na terça. E foi na terça que o homem da padaria não veio me ver, dizendo que teve problemas em casa. Será que ele é o pai dela? Bom, acho que não, to imaginando demais. São pequenas as chances. Só espero que eu possa ver mais a Cat. Acho que agora, pela primeira vez, eu tinha uma amiga.
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