Wonderland
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordei em mais um dia insuportável nessa prisão. Mal posso acreditar que vou fugir daqui. Para onde vou eu não sei. Não tenho conhecidos nem dinheiro. Mas qualquer lugar é melhor que esse. Um lugar onde eu esteja sozinha, isolada e em paz. Vou apenas descer para tomar café, pra não fugir com fome. Não que o café horrível daqui vá significar alguma coisa, mas preenche espaço no meu estômago.
Depois do café, voltei ao meu dormitório e arrumei as minhas coisas. Não daria para levar tudo. Não que eu tivesse muita coisa, mas vivo aqui desde sempre, então não são coisas que caibam na minha mochila. Peguei apenas algumas delas, uma garrafa d’agua, uma fruta na cozinha e saí pelos fundos. Quando a maioria das crianças e jovens estavam saindo para a escola, pela porta da frente.
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Já se passava uma semana desde a minha fuga. Passei esses dias fugindo. Não adiantava: onde eu chegava aparecia alguém do orfanato me procurando e eu tinha que despistar. Agora acho que cheguei longe o suficiente para que ninguém me encontre. Estou do outro lado da cidade, o lado rico. É estranho ser de rua aqui, porque quase não vejo ninguém. Será que eles expulsam? Sei lá. Avistei uma padaria e resolvi sentar na parede, num canto. Bem afastada da entrada, para não atrapalhar ninguém.
~Rafael POV~
Era mais uma típica terça-feira. Eu estava tomando café na Bread Station como sempre, antes de ir para o trabalho. Quando saí, me deparei com uma pequena garota, sentada no canto da parede. Toda encolhida. Ela era branquinha, tinha um cabelo sujo, mas dava para notar que era loiro. Não vi seu rosto pois estava com os braços abraçando as pernas e a cabeça baixa. Fiquei a encarando, sem perceber que estava fazendo isso. Até que ela levantou a cabeça.
- Que que é? Perdeu alguma coisa aqui? – disse ela, agressiva.
- Não é isso…você está bem? – perguntei, preocupado.
- To sim, não precisa se preocupar. Ninguém nunca se preocupou. – rebateu, seca.
- Garotinha, você deveria estar na escola. Cadê seus pais? Você fugiu deles? Fugiu de casa?
- Meus pais eu não sei. Mas se você os encontrar, diz que eu estou a 14 anos procurando por eles.
- Ah, entendi. Você é órfã.
- Sim. – respondeu ela. E por um momento eu pude ver tristeza nos olhos dela. Eu conhecia aquela garota de algum lugar, senti isso.
- Olha, eu preciso ir agora, eu estou atrasado para o trabalho. Mas você vai ficar aqui até que horas? – perguntei. Não queria que ela fosse para algum lugar mais perigoso.
- Sei lá. Por um bom tempo. A não ser que o pessoal do orfanato apareça me procurando. Mas eu acho difícil, estou bem distante. Eles já devem ter desistido. – respondeu.
- Então tá. Olha, fique aqui e se cuide, ok? Não se meta em problemas. Mais tarde eu passo aqui. E toma isso. – falei, dando dinheiro pra que ela comesse alguma coisa. – Até mais. – completei, saindo.
Entrei no meu carro e fui á caminho do trabalho. Fiquei o dia inteiro pensando naquela pobre garotinha. É raro ver pessoas de rua desse lado da cidade, ainda mais crianças. Fiquei morrendo de pena, tadinha. Mas eu ia fazer de tudo pra ajudar aquela garota.
~ALICE POV~
Eu não costumo confiar nas pessoas, mas aquele cara foi bem gentil comigo. Não estava acostumada em ter pessoas se preocupando comigo, muito menos alguém que eu não conheço.
Guardei o dinheiro que ele havia me dado e esperei ter fome. Quando isso aconteceu, era mais ou menos horário de almoço. Então comi. Não deu para comprar comida, mas deu para lanchar num fast-food bem legal. Aquele dia não estava sendo dos piores, mas preciso dizer que era difícil ser de rua naquele lado da cidade. Todas aquelas pessoas engomadinhas te olhando o tempo todo, como se você fosse um ET. Algumas até saíam dos lugares quando eu chegava. Mas eu não ia roubar ninguém, sabe? Eu só queria comer.
Depois que comi, voltei para o lugarzinho ao lado da padaria. Fiquei pensando como estaria sendo meu dia se eu não tivesse fugido. Acho que estaria no colégio ainda. Ufa, como é bom não ir ao colégio. O colégio é só mais um lugar cheio de gente que eu odeio.
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Havia chegado a noite. O tal cara não tinha aparecido. Sabia…já ia me iludir. Não devemos mesmo confiar nas pessoas. Pelo menos eu tinha conseguido comer.
Dormi num papelão. Achei por sorte um cobertor velho, jogado perto de onde eu estava. Sério, cobertor velho e papelão era o melhor que eu tinha conseguido desde que fugi. Acho que aquele lugar era mágico.
Antes de dormir eu pensava. Sempre gostei muito de pensar. Ainda mais sobre esse meu nome tão irônico. Alice. É um nome irônico para a vida que eu levo. Será que um dia eu vou encontrar meu “País das Maravilhas” ?. Será que aquele cara vai voltar? São muitas perguntas. Para saber o que vai acontecer amanhã eu preciso ir dormir, então é isso que eu vou fazer. Pelo menos eu encontro meu “País das Maravilhas” nos meus sonhos. Sempre.
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