Wolverine e os X-Men: Passado a Limpo

3 Capítulo 3 - De Olhos Abertos


Bobby e Kitty tinham muito entrosamento que já caminhava além dos limites do envolvimento. Tamanha a repercussão da amizade entre os dois jovens na mansão, Logan estava de olhos abertos, acompanhando de perto o comportamento de Bobby. Logan conhecia Rogue perfeitamente para saber que um só deslize do garoto do gelo não seria suportado pela frágil "guria".

Nos piores momentos de vulnerabilidade de Rogue, vulgo Marie intimamente para ele, Logan estava presente e lhe fez promessas de que cuidaria dela. Ele nunca havia feito promessas a ninguém. Nem mesmo à Jean. Wolverine não se comprometia com ninguém.

Já Bobby soava para ele como um mero garoto exibido e incapaz de sustentar um relacionamento tão diferente com Marie. Para além disso, Logan sentia uma repulsa interior por Bobby um tanto quanto irracional e visceral. Mas os limites da boa convivência, sobretudo na escola para superdotados, não poderia permitir um embate entre os dois, até mesmo pela posição que cada um ocupava dentro da instituição, um aluno e o outro professor.

Bobby voltava de uma aula de química quando esbarrou com Logan no corredor.

Logan: — E aí, picolé de chuchu, por que Rogue não está com você?

Bobby: — Ela não estava muito bem e decidiu não assistir à aula.

Logan: — E o que ela tem? Tá doente?

Bobby: — Não. Talvez apenas um mal estar.

Logan: — Bom, é o seguinte cara, eu tenho visto você e Kitty o tempo todo nas dependências da mansão, se divertindo, conversando e trocando sorrisos. E não sou apenas eu que estou observando isso. Todos estão vendo e tem comentado sobre isso! Primeiro: espero que isso não tenha chegado até Rogue. Segundo: Se já chegou até ela, espero que você tenha hombridade suficiente para resolver o problema sem prejudicá-la. Marie é muito especial para mim e eu não vou permitir que nenhum moleque brinque com os sentimentos dela, ainda mais debaixo do meu próprio nariz! Entendido?

Bobby: — Logan, você me incomoda. Essa sua superproteção em relação à Rogue desde que nos conhecemos é sufocante! Por que você não vai cuidar da sua vida? Me deixe em paz! Aliás, nos deixe em paz!

Logan (irritado): — Eu não estou nem aí pra você ou pro que você pensa, meleque! Mas Rogue é meu assunto. Não queira ter a mim como inimigo!

Depois da ameaça de Logan, os dois saíram para lados diferentes.

Rogue estava em seu quarto, pensativa e cabisbaixa quando ouviu alguém bater à porta. Era Logan com seu costumeiro charuto.

Rogue: — Logan? Que bom vê-lo! Aconteceu alguma coisa?

Logan (apreensivo): — Sim, guria. Creio que aconteceu alguma coisa...com você. O que houve? Por que você não foi à aula hoje? Aliás, desde quando você está aqui trancada neste quarto? Você está bem?

Rogue (encabulada): — Eu...eu não me senti bem. Preferi ficar aqui até melhorar.

Logan: — Você já conversou com Hank? Foi ao ambulatório?

Rogue: — Não, não. Deve ser apenas uma indisposição...coisas de garotas.

Logan: — Hum...sei...e, por acaso, essas "coisas de garotas" atendem por Bobby?

Rogue (disfarçando): — Hã? Não entendi o que você quis dizer com isso, Logan. Algum problema com Bobby?

Logan: — Guria, você sabe que pode se abrir comigo. E eu não nasci ontem, aliás, nem sei quando nasci — Rogue sorri — então, me diga, o que está te fazendo mal? Desde que te conheci vi sua transformação. Você era mais alegre e agora não vejo mais aquela alegria em seus olhos. Eu me achava um privilegiado porque cada vez que eu chegava à mansão você vinha correndo me ver e agora que estou o tempo todo aqui só tenho lhe visto assim.

Logan falava calmamente com Marie. Seu tom de voz era mais baixo e aveludado. Olhava para Marie com doçura e sobrancelhas descansadas.

Vez enquando ele lançava uma piada, um comentário bem-humorado para tentar aliviar a tensão de sua amiga.

Era notável a transformação de Logan quando estava com Marie. Longe de se parecer com o temido Wolverine ou mesmo aquele Logan ácido e carrancudo. Com Marie, era possível vê-lo sorrir. Sua linguagem corporal era completamente diferente. Sem recuos ou movimentos ofensivos. Era como se ele se esquecesse por alguns instantes de quem era ele. Rogue era um antídoto para o temperamento turbulento e tempestuoso de Wolverine.

Rogue: — Talvez você não me conheça tão bem quanto eu conheço você depois daquele incidente no seu quarto. Eu tenho suas memórias em minha cabeça, você sabe. Mas você sabe bem como me sinto por causa dos meus poderes. De todos os poderes que já conheci dos mutantes, por que justo comigo foi acontecer o pior de todos eles? Por que eu tenho que viver nessa espécie de clausura que me impede de ter um simples contato com os demais? De fato eu me sinto excluída e impotente. E não estou sabendo lidar com isso.

Logan: — E o picolé ambulante? O que ele tem a ver com isso?

Rogue: — Não culpe o Bobby, Logan. A culpa é minha!

Logan: — Cubinho de açúcar, — essa era a forma mais carinhosa da qual Logan se referia a Marie — todos nós temos limitações e superdotações. Todos somos suor e glória. Mas eu entendo sua fraqueza. Bom, por hoje, descanse e fique em paz. Eu estou aqui se precisar. Amanhã quero vê-la sorrindo de novo. Que tal uma distração?

Rogue (sorrindo): — Claro, vou adorar!

A porta se fechou e Marie pareceu ganhar vida novamente.

Para Marie Logan era um sopro de felicidade. Por muito tempo, depois que se conheceram, ela o tinha como prioridade em sua vida e seus sentimentos se confundiam entre uma relação paternal com Logan e uma relação de afeto extremamente profunda, uma conexão mágica e intensa como num romance. Mas após Bobby, seus sentimentos foram canalizados para aquela novidade cortês, generosa e gentil.

Logan era a referência mais familiar que Marie poderia ter. Ela o compreendia como ninguém. Ela tinha em sua mente as memórias atormentadoras de Logan, de seu passado, suas angústias, esperanças e frustrações. Marie era um arquivo pessoal de Logan e tanto ela quanto ele sentiam-se confortáveis com esse fato que os fazia mais próximos e, de certa forma, comprometidos um com o outro. Era uma relação complexa e cheia de sentimentos implícitos.

Naquele dia este foi o último contato que ambos tiveram entre si.

Logan, porém, foi ao encontro de Ororo para compartilhar com ela a situação da jovem mutante. Era preciso estar alerta, pois os jovens costumam agir primeiro e pensar depois. E ele temia que Rogue buscasse, além dos muros do instituto Xavier, uma possível solução para o seu maior dilema.