Wolfpire.
9 Capítulo 9 — Visão Vampírica: A Reunião
COMO EU TINHA PREVISTO: MEU IRMÃO NÃO CORRIA TÃO RÁPIDO COMO eu.
Por um minuto eu pensei que Kevin não iria conseguir me acompanhar, então o peguei no colo em um movimento rápido que ele mal percebeu, prendi a respiração, e continuei correndo. Bem, não faria diferença para eu respirar ou não, mas era completamente frustrante ficar sem o olfato. Ainda correndo, quando chegamos bem longe, passei Kevin para o chão e continuei a segurar em sua mão.
― Para onde estamos indo? ― perguntou ele.
― Não tenho ideia ― respondi. O que era total e absoluta verdade.
Eu não sabia qual era o rumo de nossa corrida, eu só queria tirar meu irmão de perigo. Por mim, eu ainda poderia continuar naquele lugar e lutar contra aquelas criaturas com o meu clã com facilidade, mas eu não podia, sequer, arriscar a vida de Kevin.
De repente, senti uma dor absurda na cabeça e aquilo me fez parar de correr instantaneamente. Senti Kevin parar ao meu lado. A dor era tão grande que me fez ficar de joelhos, por uma mão na testa e socar o chão.
― Ernie? ― ouvi Kevin me chamar. ― O que está acontecendo?
Mas eu não respondi, a dor era muito forte para eu conseguir dizer alguma coisa.
― Ernie! ― disse ele mais alto, mas eu também não o respondi.
Senti suas mãos em mim, mas eu lhe afastei com um empurro e não sabia onde ele tinha parado, mas também não me importava naquele momento; aquela dor era completamente agonizante ao ponto de ignorar Kevin.
Com as duas mãos na cabeça e com um grito de agonia, a dor começou a passar. Mas ela trouxe algo com ela. Era como se eu conseguisse ouvir as vozes de todos do meu clã em minha cabeça; como se estivessem em minha mente.
O que está acontecendo?, pensei e ouvi a voz de Adrian, Alexia, Joe e Jason perguntarem a mesma coisa ao mesmo tempo que eu.
Eu pedi para que Dave fizesse isso, disse a voz de Paul. Uma forma de sabermos como estamos e onde estamos. Acalmem-se.
Como quer que a gente mantenha a calma causando-nos dor, Paul?, perguntou Alexia com raiva.
Tem noção de quanta dor sentimos?, perguntou Adrian.
Isso não foi nada interessante, disse Jason.
Essa dor foi absurda, Paul!, explodiu Joe.
Quietos!, silenciou-nos Paul e todos nos calamos.
―Ernie? ― perguntou Kevin ajoelhado ao meu lado.
Mas fiz gesto de silêncio para ele e ele calou-se.
Onde estão?, perguntou Paul.
Olhei ao redor de onde eu estava e eu só consegui encontrar mais florestas e um rio corrente ao meu lado direito. Era fácil reconhecer aquele local.
Estou perto da casa que a gente fica, disse eu.
Estou próximo de você, Ernie, disse Adrian.
Adrian, vá se encontrar com Ernie, disse Paul. O reste faça o mesmo e esperem-me onde Ernie está. Não levem os lobos ao nosso esconderijo.
Mas e se aquilo que produziu o som na floresta vier atrás de nós...
Eu disse não, Ernie, disse Paul seco me interrompendo e eu não consegui argumentar com ele. Aquele comando do chefe era pior do que eu pensava. Eu queria argumentar, mas eu sabia que poderia arcar com a minha própria vida ― se eu ainda a tivesse.
Estou chegando dentro de alguns minutos, disse Paul. E o mais importante, ele fez uma pausa e eu senti a agonia de todos para saber o restante do que ele tinha dito. Não deixem que eles saibam desse lance da mente, entenderam?
Sim, dissemos em uníssono.
Assim que ele disse aquilo, as vozes sumiram de minha cabeça.
Olhei para meu irmão e ele estava com a cara cheia de preocupação. Eu nunca tinha visto Kevin daquela forma desde que eu tinha quebrado o braço há cinco anos atrás. Ele era o único em casa e brincávamos no quintal de nossa casa. Ele quem tinha me levado para o hospital e tudo mais. Mas isso é outra história, longa e chata, que não precisa ser contada.
― Você está bem? ― perguntou ele.
Assenti para ele e tentei me colocar de pé, mas não consegui de início. Uma tontura me impediu de me colocar de pé, mas Kevin me segurou antes que eu pudesse cair.
― Você está bem mesmo? ― perguntou ele novamente.
Chacoalhei a cabeça.
― Sim, estou ― afirmei.
― Venha, precisamos correr...
― Não ― o interrompi. ― Meus amigos estão chegando.
Ele franziu a testa para mim.
― Seus amigos? ― debochou, ele.
― Você tem seu bando e eu o meu ― o repreendi de má vontade.
Ele deu de ombros.
― Como sabe que seus amigos estão chegando? ― ele fez aspas no ar.
― Será que dá para parar de fazer perguntas? ― perguntei com certa raiva. ― Consigo ouvir passos ― menti. ― Você não?
Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas foi impedido, por minha sorte e felicidade, pela chegada de Adrian e um dos gêmeos, o Aiden. Eles dois vinham correndo, mas ao chegarem perto de nós, passaram a andar. Adrian veio para perto de mim e Aiden foi para perto de Kevin e começaram a conversar.
― Ei, você está bem? ― perguntou Adrian.
― Sim, estou. E você? ― perguntei. ― Alguém veio atrás de você?
― Não, mas estou tenso ― ele deu uma risada nervosa. ― Nunca encontrei ninguém em nosso caminho que pudesse fazer isso conosco.
― O que isso significa?
― Temos problemas. Pode ter certeza disso.
Eu gostava de Adrian. Ele era o único que era realmente gente boa comigo a não ser o estranho do Paul. Desde que Paul tinha designado Adrian para me vigiar quando estivesse fora da casa abandonada, eu senti uma amizade crescendo entre mim e ele. E isso era bom. Pelo menos alguém com quem conversar dentro daquele maldito clã, pensei.
Não se passaram dois minutos e Alexia e Isaac. Como Aiden, Isaac foi para perto dele e de meu irmão. Logo em seguida Jason chegou Scott e depois foi a vez de Joe chegar com Ethan. Os lobisomens mantiveram distância de nós e meu clã ficou reunido. O fedor dos lobisomens era tão insuportável que eu fui obrigado a parar de respirar ― eu não fui o único, meu clã inteiro parou de respirar, era notável.
Agora podemos conversar dessa maneira?, perguntei mentalmente para eles os olhando.
Todos assentiram discretamente.
Isso é incrível, disse Adrian.
Não tanto assim, queixou-se Jason.
Na verdade não é, disse Joe.
É, é um pouco, sim, disse Alexia.
O que está acontecendo?, quis saber.
Mas a resposta para a minha pergunta foi completamente interrompida com a chegada de Paul, Peter e Dave. Paul tinha rasgados em sua roupa e Peter a mesma coisa Os dois pareciam que tinha travado uma pequena luta, mas eles quem tinham sofrido os danos. Dave era o único que ainda parecia intacto. Os lobisomens e o meu clã nos movemos para perto deles.
― Foi uma emboscada... ― disse Peter ofegante.
― Pegaram o Derek ― disse Paul.
Os lobisomens, inclusive meu irmão, rosnaram em reprovação olhando em direção a Paul. Instantaneamente, meu clã inteiro, inclusive eu, ficamos à frente de Paul e rosnamos de volta para os lobisomens. Eles eram criaturas inacreditáveis (no sentido de ser chato). Eles fizeram ronda em Peter e mostraram as garras, presas e seus olhos mudaram de cor. Meu clã e eu ficamos em posição de defesa e encarando os fedorentos à nossa frente.
Eu me contento com Ethan, disse Joe em minha mente.
Eu fico com Aiden, disse Adrian.
Deixem Scott para mim, disse Jason.
Isaac é meu, disse Alexia com mais fúria que todos.
Não sou de brigas, mas consigo abater meu irmão facilmente, eu acho, disse eu. Deixe-o comigo.
Eu não me reconheci. Como eu podia dizer isso de meu próprio irmão? Eu nunca briguei com Kevin de sair aos socos, tapas e etc. ― mesmo ele dando muitas e muitas razões para querer brigar com ele. Nem mesmo eu tinha essa intenção com Matt e Matt era três vezes pior que Kevin.
Eu não queria atacar meu irmão, mas o instinto falava maior. Eu sabia que era totalmente errado atacar aquele ser do meu próprio sangue, mas o instinto de proteger o chefe de meu clã era muito maior; era como se fosse meu dever protegê-lo de qualquer perigo, mesmo que eu pagasse com a minha própria vida.
― Parem com isso ― repreendeu-nos Paul, calmo, porém com seu maldito comando sobre nós. Não podíamos fazer nada a não ser relaxar os músculos e sair da posição de defesa.
― Vocês também ― disse Peter e se colocou à frente dos lobisomens. ― Temos que conversar. Você, ele e eu ― ele apontou para Paul, depois para Dave e por último para si mesmo.
― Concordo. Vamos para a casa em que ficamos. Fica há alguns metros daqui.
― Ótimo. Vamos.
Dizendo aquilo, Paul, Dave e nosso clã foram andando na frente, enquanto os lobisomens ficavam na retaguarda. Eu não gostei muito da ideia de levar os lobisomens para o nosso esconderijo. Não parecia ser certo.
Andando mais rápido, consegui ficar ao lado de Paul.
― Você tem certeza disso? ― perguntei baixinho a ele.
Paul bufou.
― Eles não podem nos machucar ―ele me olhou e deu uma piscadela para mim. ― Somos mais fortes que eles.
Não sei o porquê, mas aquilo me fez sorrir e ele sorriu para mim de volta.
― Mas continuo achando errado...
― Tente se acalmar ― cortou-me ele. ― Ainda mais, nós temos o Dave. Eles não podem contra nós.
Assenti para ele e continuamos a caminhar com o restante de nosso clã.
E a caminhada não foi tão longa.
A casa estava do jeito que tínhamos deixado, é claro. A pequena ponte de madeira sobre um rio que circulava aos arredores da casa ainda estava lá e provavelmente aquele campo de força também. Seria engraçado ver a reação dos lobisomens quando tentassem passar pelo campo de força; essa eu queria ver.
Meu clã tomou a frente junto com Dave e passamos sem perigo pela ponte, chegamos à outra margem do rio sem que nenhum choque nos atingisse. Mas quando os lobisomens tentaram passar pela ponte, ouviu-se um estrondo forte e gritos de dor logo em seguida. Eu sabia que eles tinham sentido a mesma coisa que eu tinha sentido antes; aquela maldita corrente elétrica que penetrava por todo o sistema nervoso misturada com um empurrão era horrível de se sentir. Eu não desejaria aquilo para... bem, para mim novamente.
― Mas que droga é essa? ― explodiu um dos gêmeos, que eu não sabia qual era.
― Eles estão tentando nos matar! ― alertou o outro gêmeo.
― Mas o quê... ― disse Scott se levantando com a ajuda de Isaac e Kevin.
Ouvi a risada de todo o meu clã e a não pude deixar de rir também. Meu irmão me fitou furiosamente, mas eu só consegui dar um sorrisinho abusado para ele de volta. Parecia que Kevin não me assustava mais. Eu sabia que eu era capaz de derrubá-lo em qualquer situação. Era bom me sentir assim: mais audacioso.
― Eu devia suspeitar ― gargalhou Peter. Ele se levantou e se aproximou novamente da ponte. ― Campo de força?
Paul, que estava do meu lado, deu de ombros.
― Questão de segurança, velho amigo ― disse Paul sorrindo.
Peter apontou para Dave.
― Obra de Dave? ― arriscou ele.
Paul confirmou com a cabeça.
― Acertou. Dave, faça-os entrar, por favor? ― disse Paul educadamente a Dave.
Dave, que estava com um sorriso no rosto, assentiu para Paul, parou de sorrir e fechou os olhos.
No segundo depois, ele apenas abriu os olhos, fitou os lobisomens e disse:
― Podem passar.
Peter assentiu para Dave, continuou a andar e, segundos depois, ele estava bem a nossa frente. Os lobisomens ficaram receados de passar, mas bastou Peter alterar um pouco a voz, mandá-los atravessar a ponto e eles assim fizeram. Um por um, eles chegaram perto de nós, todos tremendo de raiva ― exceto Scott e Isaac.
Meu clã ― exceto Paul e Dave ― estava pronto para travar qualquer lutar contra os lobisomens. Eu podia sentir isso. Eu também estava preparando para qualquer surpresa animal que aqueles cães poderiam trazer para nós.
― Acalmem-se ― disse Paul nos olhando com raiva e todos nós do clã relaxamos. ― Isso não é hora para brigas.
― Digo o mesmo para vocês ― disse Peter virado para os lobisomens. ― Não há necessidade disso.
Os lobisomens tentaram relaxar, mas algo me dizia que já estavam prontos para qualquer coisa que acontecesse logo em seguida.
Paul abriu caminho e apontou para a casa abandonada.
― Queiram entrar ― disse ele ―, por favor.
Peter deu uma gargalhada e foi o primeiro a entrar, em seguida dos lobisomens e meu clã com Dave logo em seguida.
― O que era exatamente o que você tinha dito que poderia ser? ― perguntou Peter.
Eu tentei raciocinar direito para entender aquela pergunta. Ele tinha embolado muito. Esquisito. Deve ser coisa de lobo, pensei.
Todos nós, incluindo os lobisomens (meu irmão ao meu lado) e meu clã, estávamos de pé na sala empoeirada que tinha ali dentro daquela casa ao redor de uma mesa. Havia cadeiras, mas somente três pessoas estavam à mesa: Dave, Paul e Peter. Eles tinham começado uma espécie de reunião sobre o acontecido na floresta e eu não tinha opção nenhuma a não ser ficar ali e assistir aquilo.
― Não é uma coisa que eu já tenha presenciado antes ― disse Dave. ― Aquela magia era totalmente diferente da magia que eu estou acostumado a praticar e a conviver.
― Tem que ser alguém igual a você ― disse Paul. ― Não há outra explicação. Você disse que seus amigos feiticeiros estão no Alabama desde 1730.
Dave confirmou com a cabeça.
― Sim, estão ― disse Dave. ― Eu não os deixo sair do Alabama sem a minha permissão. Mas o que eu estou dizendo é que não foi nenhum deles. Se fosse algum deles, eu teria sentido.
― Teria? ― me atrevi a perguntar desdenhando. Todos olharam para mim e Paul me olhou com raiva nos olhos. ― Desculpe.
Todos voltaram à atenção para a mesa.
― Como eu ia dizendo ― continuou Dave ―, eles não saem de Alabama sem minha permissão e eu os teria sentido se fizessem algum feitiço. Não foram eles, tenho certeza.
― Então o que poderia ser? ― perguntou Paul. ― Não é um dos meus, não é um dos seus e nem um dos seus ― ele apontou para Dave e Peter.
― Seja o que for, está com o meu sobrinho ― disse Peter com certa raiva em sua voz. ― Temos que traçar algum plano para ter ele de volta.
Eu não tinha muita certeza, mas eu juro que eles três se olharam de uma maneira tão profunda que eu cheguei a pensar que poderiam estar conversando mentalmente também, mas cheguei a não me importar.
Todos ficaram em um silêncio mortal por uns dois minutos, não se atrevendo a mexer e quase nem respirando ― principalmente com o fedor que os lobisomens traziam com eles; era totalmente repugnante. Totalmente. Eu tentei pensar em que situação aquele tal Derek poderia estar, mas eu tentei não pensar naquilo depois de ter uma pequena imaginação dele sendo completamente mutilado.
Pensar em mutilação me fazia pensar em sangue e pensar em sangue me fazia sentir sede, e eu não queria sentir sede logo agora. Não era seguro lá fora, ao menos não até conseguirmos pegar aquela coisa que tinha raptado o tal Derek.
Depois dos três ficarem em silêncio mortal, os três à mesa ainda fitavam-se a um ao outro sério e disseram em uníssono:
― De acordo.
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