"[20-01-2014] Querido Diário,

Hoje eu vi 'ela' de novo. 'Ela' parece tão real. Mamãe está brava comigo e me pôs de castigo porque perguntei sobre 'ela'.

Não entendi o porque disso, mas mamãe chorou muito e papai bebeu até desmaiar, mamãe chamou a ambulância e eles foram para o hospital. Acho que só voltam amanhã porque já está muito tarde e eles ainda não voltaram.

'Ela disse que vai ficar tudo bem, disse que papai vai melhorar e que é melhor não falar 'dela' pra mamãe por um tempo."

"[25-01-2014] Querido Diário,

Aconteceram poucas coisas significativas nesses últimos dias.

Vou começar com as coisas boas: Tio Bill veio nos visitar, ele é médico. Carlinhos pergutou o que ele fazia no hospital e ele respondeu que cuidava da cabeça das pessoas. Acho que é só uma forma bonitinha de dizer que ele trabalha em um hospital psiquiátrico e cuida de pessoas com distúrbios mentais.

E sexta-feira é a estreia da nova temporada daquela série que eu gosto.

As coisas ruins: A prima Mary vai se casar; isso seria uma coisa boa, se ela não estivesse se casando com aquele cara estranho. Eu acho que ele bate nela, mas ela diz que não, e que ele ama ela. Também acho que ela está gravida mas não tenho muita certeza se é dele o bebê...

Ontem no Colégio Roman disse que eu era estranha e feia. Disse que meu cabelo parece ter sido sujo com sangue (que ele particularmente especificou de onde vinha, mas eu prefiro não falar), disse que ter olhos de duas cores diferentes é feio e estranho e eu devia andar com óculos escuros. Eu fiquei um pouco triste com isso, mas 'ela' me disse para não ficar e que nós tinhamos olhos lindo e por isso ele tinha inveja."

"[30-03-2014] Querido Diário,

As coisas andam complicadas.

Papai e Tio Bill brigaram, ouvi quase tudo. Tio Bill disse que eu tinha que ir, que eu precisava de ajuda. Papai não deixou, então mamãe disse para Tio Bill ir embora e disse que ia conversar com papai.

Eu sei porque isso esta acontecendo.

A alguns dias, eu disse a mamãe sobre 'ela', que ela era a minha irmã, a irmã que não conseguiu nascer, que ela amava a mamãe e que queria poder abraça-lá. Mamãe brigou comigo e começou a chorar.Algumas horas depois mamãe veio falar comigo, perguntou quem havia me contado sobre 'ela', falei que 'ela' mesma tinha me contado, e que conversava com ela a quase um ano, mas antes só a via pela casa, ou brincava com ela quando éramos crianças. Mamãe suspirou profundamente e me olhou firme, pedindo que eu contasse tudo que sabia sobre 'ela', tudo que 'ela' tinha me dito. Então eu contei tudo o que pude me lembrar. Ela chorou e contou tudo ao papai, ele falou com o Tio Bill e ele veio me examinar.

Fizemos algumas sessões chatas onde eu tinha que contar sobre Clarisse (eu dei um nome a ela, porque ela disse que mamãe nunca teve a chance de lhe dar um nome).

Umas 2 semanas depois eu tive que tomar uns remédios estranhos.

Tio Bill disse que serviam para fazer eu parar de ter alucinações com minha irmã Clarisse.

Clarisse perguntou qual era o gosto dos remédios, eu respondi que tinham gosto de ferrugem e limão, e que eles me deixam meio tonta. Ela perguntou se podia experimentar, eu dei uma a ela e depois de algumas tentativas ela conseguiu segurar a pilula, mas a pilula passou direto por sua boca, e caiu na cama bem embaixo de onde Clarisse estava sentada, então eu brinquei dizendo que o remedio era 'via oral' e não 'supositorio', e nós rimos.

Mamãe ouviu eu 'falando sozinha' e disse ao Tio Bill que os remédios não funcionavam, e chorou outra vez; foi aí que papai e tio Bill começaram a discutir.

Essas foram as 10 semanas mais longas e chatas da minha vida."

"Querido Diário,

Mamãe e papai tomaram uma decisão sobre mim.

Eu vou ter que ir com o tio Bill para o Hospital Psiquiátrico Santa Misericórdia, fica na cidade vizinha.

Eu realmente não quero ir.

Clarisse falou que isso era tudo culpa dela e pediu desculpas mas eu disse que não era nada disso, e que ia ficar tudo bem enquanto estivermos juntas.

Eu não posso levar muitas coisas comigo, e tambem acho que não vou conseguir escrever muito enquanto estiver lá.Bem, pelo menos nos filmes, eles não deixam os pacientes usarem lápis, caneta ou coisas assim porque eles podia tentar se machucar ou machucar outras pessoas com isso. Tomara que me deixem usar giz de cera para que eu possa desenhar ou eu vou realmente enlouquecer..."

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Lizzy arrumava sua mala, se preparando para partir, isso era tão estranho para ela quanto para sua irmã.

O Hospital Psiquiátrico Santa Misericórdia era enorme, e nada aconchegante. Com celas frias e vazias em sua maioria; quartos brancos acorchoados do teto ao chão; outros quartos brancos quase comuns se não fossem a presença de barras nas janelas, portas automáticas que só abriam com um crachá de segurança. Mobiliado rudemente com uma pequena escrivaninha e uma cama de ferro dura e feia, ambos brancos também.

Lizzy coloca sua mala que acabara de ser revistada de lado, senta na cama, e observa enquanto um funcionário trancava a porta. Mas ela não estava preocupada, ou com medo.

Clarisse e Lizzy não planejavam ficar por lá durante muito tempo, na verdade, ao amanhecer, elas já estariam longe, muito, muito longe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.