Without You
3 *Flashback #3*
Notas iniciais
Peguei o primeiro avião que consegui naquele dia, para o Japão. Já fazia muito tempo em que eu havia estado lá, mas naquele momento eu me amaldiçoava por ter partido. Meus olhos estavam secos e as lágrimas já não desciam mais.
Quando cheguei lá, a primeira pessoa que vi foi o Yoshiki. Apesar de toda a confusão, ele foi me buscar no aeroporto. Parecia que não dormia há anos. Eu provavelmente também estava com a aparência terrível. Ele dirigiu em silêncio, apenas quebrando-o para me dizer que tudo ficaria bem... Mas o tom da sua voz e o olhar em seus olhos diziam o contrário e senti vontade de chorar novamente, apesar das lágrimas já não brotarem em meus olhos.
*Flashback #3* — Oito anos antes da perda.
Apesar de saber apenas o nome dele e tê-lo visto apenas naquela noite, passei um mês inteiro pensando nele. Até voltei algumas vezes ao bar onde nos conhecemos, na esperança de encontrá-lo lá, mas não o vi sequer uma vez.
Eu estava frustrada, porque naquele dia ele pediu o meu telefone... E eu me esqueci da regrinha básica que diz: “Eles NÃO vão ligar”. Passei dias encarando o telefone, esperando que ele tocasse. Nada.
Então, um dia eu cheguei do trabalho, — eu era uma professora de artes na época – tomei um banho e lancei um olhar de desprezo ao telefone, como se o aparelho fosse a razão de todos os meus problemas... E ele tocou em resposta. Encarei o objeto, chocada, achando que talvez fosse uma ilusão, e quando tocou de novo, corri e atendi...
...mas não era ele.
Sinceramente, tive vontade de arremessar o aparelho nas profundezas do inferno, mas apenas atendi. Era meu ex-marido. Surpresa... Ele estava me chamando para sair. Eu estava tão decepcionada e sozinha que, no momento de fraqueza, acabei aceitando.
E lá nós estávamos, eu e meu ex, em um clube. Eu me sentia nauseada. Ele repetia o quão estava arrependido; que sentia muito por tudo, que me queria de volta... E eu apenas fingia ouvi-lo, enquanto bebia o máximo que eu conseguia. Depois de um tempo, senti uma das suas mãos em minha coxa e a outra no meu rosto, me puxando para um beijo.
Permaneci ali, sendo beijada e fechei meus olhos, pensando naquele desconhecido... Mas não era ele que me beijava e não parecia certo. Interrompi o beijo e desviei meu olhar em direção ao palco, onde logo uma banda começaria a tocar. Desejei que eles começassem o quanto antes, para que eu não tivesse que olhar para o meu ex. Ele pareceu entender o recado, pois não falou mais comigo.
Depois de uns trinta minutos, a banda subiu ao palco e eu engasguei: O homem no qual eu havia passado o mês inteiro pensando estava lá, na minha frente, com uma guitarra em suas mãos e ainda mais bonito do que eu recordava.
Meu coração batia tão forte que juro que eu podia ouvi-lo em meio ao som alto do rock sendo tocado pela banda; Mas, por mais que eu o encarasse o desconhecido não olhava pra mim. Levantei, esquecendo completamente do meu ex e andando até a frente do palco para que ele pudesse me ver...
Ele me viu, mas apenas me encarou indiferente e desviou o olhar, concentrando-se na sua guitarra... E assim como eu ouvi meu coração batendo forte, pude ouvi-lo partindo em pedaços, enquanto eu dava um passo para trás, seguido de outro, até que me virei e andei de volta ao bar, desolada.
Eu devia ter saído daquele lugar. Devia ter corrido, mas tudo o que consegui fazer foi sentar de novo ao lado do meu ex e pedir outra bebida. Senti meus olhos se encherem de lágrimas que eu me recusei a deixar caírem, ao passo que bebia um drink atrás do outro. Antes que pudesse perceber fiquei bêbada e até preocupei o meu ex, que tentou me fazer parar. Eu não me importei, estava muito bêbada e magoada pra me importar.
Ouvi a banda terminar e vi pelo canto dos olhos enquanto eles saiam do palco. Um DJ os substituiu e gradativamente as pessoas começaram a sair. Continuei bebendo e meu ex levantou, me segurando pelo braço e dizendo que já era suficiente e que nós já iríamos embora. Depois de discutirmos, ele acabou indo embora e me deixando no bar.
Naquele dia eu fui a última a sair do bar, totalmente bêbada e depois de contar minha vida inteira para dois garçons diferentes. Quando saí do clube, vi que ele estava lá fora, encostado em uma parede com os braços cruzados, olhando sério para mim.
Senti as batidas do coração acelerando de novo, mas mesmo bêbada eu estava tão magoada que desviei o olhar e passei por ele, deixando-o pra trás. Porém, enquanto continuava andando, senti a sua mão em meu pulso, me parando e virando para encará-lo.
Mau coração parecia estar em um caos; eu estava exausta e só tinha vontade de sair dali o quanto antes, me jogar na cama, dormir e esquecer pra sempre dos homens. Mas não, ele tinha que ter esperado e me parado, e me encarava com aqueles olhos lindos, com uma expressão fria.
“O que você quer?” perguntei bêbada, tentando me soltar da sua mão.
“Porque está brincando comigo?” ele perguntou, sério, me fazendo encará-lo.
“Brincando? O que...” o olhei em descrença “Não faço idéia do que você está falando... Me solta!”
“Aquele cara... Eu vi vocês se beijando.” Ele explicou, olhando-me amargurado “E depois você ainda fez questão de ir até o palco, para garantir que eu visse.”
“O que... N-não!” Eu tentei explicar “Você entendeu errado, eu... ele estava...”
“Acho que eu vi o suficiente.” Ele continuou, me soltando. “Vocês pareciam bem próximos. Tudo bem se vai ficar com ele, mas porque o trouxe logo pra cá?”
Olhei para o rosto bonito que agora se fechava em uma expressão zangada. Senti a frustração do mês inteiro aflorar ao perceber o quão injusta era a situação.
“Eu não sabia que você estava aqui, tá bom?! Foi ele quem me trouxe pra cá!” gritei já sentindo as lágrimas brotarem em meus olhos.
“Tá, que seja. Porque não foi embora com ele, de uma vez?”
“Seu idiota! Se você me queria tanto assim, porque não me ligou antes como você disse que iria ligar?!” Esbravejei, batendo em seu peito, empurrando-o.
Ele apenas me encarou surpreso, tentando encontrar uma resposta que não veio.
“Eu esperei! Por um mês inteiro! Seu idiota!” Gritei, chorando. “Mas não, você me deixou plantada. Foi ele que ligou! Até meu ex-marido é mais homem do que você!” Acusei embriagada, me virando novamente para ir embora. O senti me puxar pelo pulso de novo.
“Eu... eu quis ligar...”
“Mas não ligou, certo? Me solta!” eu disse, me livrando do seu alcance. “Vocês... vocês são todos iguais.” Disse amargurada, andando para longe e deixando-o para trás, secretamente esperando que ele me seguisse. Mas ele não o fez.
*Fim do flashback #3*
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