Eu – Porta-te bem. – Beijei-lhe a bochecha fria e sorri ao vê-lo acomodar-se.
Voltei a sair do quarto. Caminhei até onde estavam os meus pais. Espreitei. Dormiam agarrados. Conseguia ver os seus corpos através do reflexo da lua. Esbocei um sorriso de sofrimento. Peguei na minha mala e saí apressadamente de casa antes que me pudesse arrepender.
Fui até ao encontro de Ryan que me esperava na esquina, estava no carro. Entrei olhando em frente.
Ryan – O que foi? Não queres ir? – Virou a minha cara de forma a ficar frente a frente com a sua.
Eu – Quero. – Sorri forçadamente.
Ryan – Ally…
Eu – Eu quero estar contigo. – Beijei-o.
Ryan – E se –
Eu – Onde é que é mesmo para irmos? – Sorri.
Ryan – Eu tenho um amigo, melhor é amigo do meu pai, ele vive em Frankfurt. – Informou enquanto conduzia.
Eu – Ele não vai dizer ao teu pai?
Ryan – É de confiança. – Acariciou-me o rosto enquanto olhava a estrada.
Eu – Tudo bem – Encostei a cabeça ao vidro da janela do carro e olhei a sua condução.
Ryan – Queres que eu meta música? – Ligou o rádio.
Eu – Tanto faz. – Encolhi os ombros continuando a olhá-lo.
Silêncio. Ele parecia demasiado concentrado na condução. Estava a ficar com sono. Há horas que não dormia e o que dormia era demasiado pouco.
Ryan- Puxa o banco para trás. – Pediu. – Dormes melhor. – Continuando hipnotizado na sua condução.
Não respondi. Continuei a observá-lo já com os olhos semicerrados.
Eu – Oh Ryan. – Desliguei o rádio. – Chega de rock por um tempo. – Bufei acomodando-me no assento.
Adormeci. Dormi por tento indeterminado.
Os raios de sol penetravam o quarto através das frechas das persianas. Virei-me para o lado oposto, Mike dormia de costas para mim. Sentei-me na cama, um quarto em tons beges. Decoração bordou e preta. Estaríamos já em casa do tal Georg?
Eu – Ryan… — Passei a mão pelos seus cabelos entrelaçando os dedos nos mesmos. – Amor… — Aproximei a boca do seu ouvido.- Ryanzinho..- beijei os labios dele.
Ryan- Vais acordar-me sempre assim?
Eu- Depende!
Ryan- De quê?
Eu- Da minha disposição!
Ryan- Má!- deitou-me a lingua de fora.
Eu- Estamos em casa do tal Georg?
Ryan- Sim!
Eu- Vamos cá ficar durante quanto tempo?
Ryan- Não sei, queria acabar o meu curso!
Eu- Vais pedir transferência?
Ryan- Sim! Mas até lá tenho que trabalhar, não podemos viver sempre às custas dos outros!
Eu- Acho que tens razão!- dei-lhe um beijo.
Ryan- A partir de agora, vamos fazer tudo juntos, construir a nossa vida!
Eu- Sempre unidos, o suporte um do outro, os melhores amigos de cada um!- ele beijou-me com carinho, vindo pôr-se em cima de mim.- Vamos hoje procurar emprego!
Ryan- Tu não vais trabalhar!
Eu- Pensas pagar tu só com um ordenado?
Ryan- E ias trabalhar a onde?
Eu- Nem que seja em cima de um balcão ou ao lado de um varão!
Ryan- Ally! É que nem sonhes!- olhava-me com olhar assustado.
Eu- É um emprego como os outros! Eu até sou gira e tal!
Ryan- Tu és linda, mas só minha!- beijou-me o pescoço.
Eu- Eu estava a brincar, parvinho, não ia chegar a esse ponto!
Ryan – Nem eu ia deixar. – Beijou-me o pescoço. – Só tens direito a fazer coisas inapropriadas apenas para a minha pessoa.
Eu – Ryan. –
Ryan – És minha namorada. – Disse olhando-me sério. – Não estou a brincar.
Eu – Mas eu estava. – Beijei-o.
Ouvimos um barulho vindo do outro lado da porta. Ryan saiu de cima de mim e levantou-se.
Ryan– Deve ser o Georg. – Levantei-me também.
Vesti as calças e segui-o até à saída.
Ryan – Georg! – Chamou gritando.
- Olá! – Um homem moreno com os olhos verdes surgiu repentinamente à nossa frente. – Dormiram bem? Eu tive de sair porque fui fazer umas coisas sabes.
Ryan– Na boa. Esta é a Ally. –Apontou para mim.
Eu – Olá.
Georg – Olá. Só pude ver-te em ‘Bela Adormecida’. – Gozou. – Tens bom gosto Ryan. – Deu-lhe uma palmada nas costas. – Andas a aprender com o tio Georg. – Riu-se.
Ryan – Oh sim. – Ironizou sorridente. – Isto fica só entre nós. – Esclareceu.
Georg – Sabes Ryan, acho que o que estás a fazer não está certo. –Olhei Ryan em suplicio. – Mas… não entendo o porquê da oposição do vosso namoro.
Eu — Nem nós.

[ -isa ]
Bill – Onde é que vais?
Eu – Vou sair. – Respondi. – Selena! Ryan! – Chamei abotoando os botões do casaco.
Julia – Já vão sair? – Colocou por fim mais torradas em cima da mesa.
Eu – Vamos. – Peguei na mala. – Selena! – Gritei de novo.
Selena- Já cá estou. – Saiu do quarto compondo-se.
Bill – O teu irmão?
Selena– Sei lá. – Encolheu os ombros e sentou-se.
Eu – Eu não tenho tempo. – Dei um a Selena e à minha mãe. – Desces já comigo? – Olhei para Bill que terminava o café.
Bill – Vou. – Levantou-se. – Leva a Selena à escola?
Julia – Levo sim.
Eu – Acorda o Ryan por favor. – Bill abriu a porta e saímos.
Bill – Queres que te leve? – Destrancou o carro.
Eu – Não. – Entrei para dentro do meu carro e coloquei o cinto.
Bill – Isa. – Abriu a porta.
Eu – O que é?
Bill – Não gosto… da situação em que estamos.
Eu – Oh Bill. Eu tenho de ir. – Puxei-o pelo queixo e beijei-lhe os lábios ao de leve. – Bom trabalho. – Ele fechou a porta. Segui até à clínica aconselhada por Olga.
Estacionei o carro no parque de estacionamento e entrei na clínica.
- Bom dia. – A recepcionista cumprimentou com um sorriso nos lábios.
Eu – Bom dia. O meu nome é Isa Kaulitz, uma amiga minha ligou para marcar uma consulta para mim. – A senhora assentiu, procurou nos ficheiros do computador e voltou a olhar-me.
- É só aguardar uns 5 minutos que o doutor já a chama.
«doutor?»
Eu – Ok, obrigada. – Sentei-me.
Olga tinha-me dito que era uma amiga, não um amigo. Suspirei.
Ryan – Oh mãe…
Eu – Mas… que notas são estas Ryan? – Abanei os testes que tinha na mão. – Nem uma positiva! – Reclamei.
Ryan – Eu não percebo nada disso. – Desculpou-se olhando-me com um sorriso travesso nos lábios.
Eu – E continuas como se nada fosse?
Ryan – Não vou chorar por causa da porcaria de uns testes. São só testes. – Encolheu os ombros e voltou ao seu jogo.
Eu – Desliga a playstation enquanto uma pessoa está a falar contigo.
Ele obedeceu e olhou-me aborrecido.
Ryan – O que foi agora?
Eu – Oh Ryan. – Agachei-me junto de si. – Isto assim não pode continuar. Está bem que podes-te divertir e tal, mas a escola está em primeiro lugar. Tu precisas de te preparar para o teu futuro.
– Suspirou – Não querias ser algo em grande?
Ryan – Advogado. – Olhei-o petrificada. – Eu quero ser advogado. – Repetiu.
Eu – Então.. er… — Passei a mão pelos seus cabelos desalinhados. – Para seres advogado tens de estudar muito e não tirar estas notas que estás a tirar Ryan.

- Então pensava que era uma amiga da Olga? – Riu-se.
Eu – Ela disse-me que era uma amiga.
- Se dissesse que era uma amigo, vinha?
Eu – Não sei.
- Stefan Kießling – Estendeu-me a mão. – O seu psicólogo.
Eu – Isa Kaulitz. – Aceitei o seu cumprimento. – A sua paciente. – Sorri.
Stefan – A tua. – Emendou. – Vai-me conhecer a partir de agora como o teu ‘melhor amigo’.
Eu – Então, formalidades à parte.
Stefan – Podes-te deitar ali. – Apontou para o sofá. – É melhor.
Obedeci. Coloquei as mãos sobre a barriga e olhei o tecto. Estava incomodada, como iria eu falar sobre a minha vida a um estranho?
Stefan – Para começar. – Sentou-se no sofá em frente . – Quero que desabafes comigo desde o inicio de tudo.
Eu – De tudo? – Olhei-o em pânico.
Stefan – De tudo. – Repetiu. – Como se desenrolou a tua depressão.
Eu – Depressão?
Stefan – Andas no estado em que estás e vais me dizer que não é depressão? – Sorriu.
Eu – Não sei, podia ser… passageiro.
Stefan – Um passageiro muito longo não achas?
Eu – Talvez. – Voltei a olhar o tecto.
Stefan – Exprime-me os teus sentimentos por palavras.
Eu – Não sei. – Suspirei. – Por vezes penso que não tenho sentimentos. – Admiti.
Stefan – Um ser humano sem sentimentos… — Fez ar pensativo. – Estranho. – Suspirei.
Eu – Ele chama-se Tom. – Eu disse sem qualquer pudor.

Stefan – Quem?
Eu – A causa de eu estar assim. A causa… de toda a minha felicidade e de toda a minha tristeza.
Stefan – Então… o teu marido –
Eu – Ele não é meu marido. – Interrompi. – Foi alguém que… eu nunca esqueci e que agora apareceu de novo.
Stefan – Amor de adolescente presumo.
Eu – De adolescente e de agora. – Encarei-o.
Stefan – Eram felizes?
Eu – Ele… ele abandonou-me por eu ter engravidado. – Senti algo formar-se nos meus olhos. – Ele não quis… o filho e… eu vim embora. – Voltei a olhar em frente limpando as lágrimas que me escorriam pelo rosto. – Eu amo-o. — Solucei. – Incondicionalmente. – Fechei os olhos. – Ele continua comigo nos meus sonhos, na minha mente, no meu coração, no meu dia-a-dia. Ele está comigo. Eu olho para o meu filho e vejo-o.
Stefan – Já experimentaste falar com ele?
Eu – Tem família. – Informei. – E mesmo que não tivesse, eu não ia falar com ele. Não devo. Ele magou-me.
Stefan – Mas tu ama-lo. – Acomodou-se. – Vais deitar tudo a perder por causa do teu orgulho.
Eu – Não. Eu não vou deitar tudo a perder por causa do amor que sinto por ele.
Stefan – E vais sofrer por causa disso?
Eu – Vou. – Sorri de desgosto. – Já é natural.
Stefan – Ele conhece o filho?
Eu – Descobriu à pouco tempo. A filha dele namorava com o Ryan.
Stefan – O Ryan então é o filho de ambos. – Assenti. – Não fez nada ao ver o Ryan?
Eu – Haveria de fazer? É passado Stefan. O passado que está enterrado para ele e para mim continua vivo.
Stefan – Tu não sabes o que ele sente. Não sentes no que ele pensa todos os dias,no que ele vê todos os dias.
Eu – A maneira como ele me olha.
Stefan – Tu foste-te embora Isa. Ele se calhar repensou, se calhar queria a criança e quando soube que tu te foste embora. Começou por criar outro tipo de sentimento em relação a ti.
Eu – Se criou ou não, eu não sei.
Stefan – Que idade tem o Ryan?
Eu – 20 anos.
Stefan – Tu tinhas que idade quando engravidaste?
Eu – 16 anos. – Encolhi-me.
Stefan – Muito bem. 20 anos depois, vocês encontram-se. Não achas que chegou a altura de resolverem as coisas?
Eu – Não sei. Eu não quero prejudicá-lo a nível familiar. Para não dizer que ele está casado com a minha suposta melhor amiga daqueles tempos.
Stefan – Hum… — Arqueou o sobrolho. – Eu também tenho um amigo. – Riu-se – Nessa situação.
Eu – Então já deve compreender o meu estado.
Stefan – Claro que compreendo.
Eu – O teu amigo, fez alguma coisa?
Stefan – Não. – Abanou a cabeça. – Aí está o problema, depois sentem remorsos por nunca terem feito nada. Enganam-se a vocês próprios e aos que vos rodeiam.
Eu – O meu marido sabe perfeitamente que eu não o amo como deveria amar.
Stefan – Acham isso correcto?
Eu – Sabes… — Sentei-me de forma a ficar frente a frente com ele. – Às vezes temos de viver uma mentira para fazermos outras pessoas felizes.
Stefan – Mas, depois quando essas pessoas descobrem que tudo não passou de uma ilusão, vão odiar-vos por isso. – Esclareceu.

Notas finais
COMENTEMMMMMM:DD