Without Love
3 Parte três
Eu estava nervosa. Mais nervosa do que no dia em que me arrependi de ter saído de casa. Não sabia o que fazer.
Caminhei de volta para a sala, em silêncio. Percebi que havia um pequeno bilhete no batente da porta.
“Que comece a caçada.”
Em seguida, ouvi um barulho vindo da cozinha. Eu estava em um jogo. Odiava jogos.
Achei uma carta e um bilhete, os dois em locais diferentes.
“Eu quis me matar milhares de vezes, mas, de alguma forma, ainda estou apaixonada pela vida.”
“Sabe o que é chato? Perceber que tudo que acreditamos é uma verdadeira mentira. Destino, alma gêmea, amor verdadeiro, e todas essas bobagens infantis de conto de fadas. Nada disso é real, mas as pessoas insistem em acreditar.
Todos nós nos sentimos sozinhos em uma hora ou outra. Às vezes por conta de realmente entender e saber aonde quer ir, você precisa se sentir perdido. Não importa o que esteja sentindo, apenas acredite que um dia eu estive aqui.”
Refleti por alguns instantes, mas não consegui fazer nenhum tipo de ligação. Eu estava ficando cada vez mais nervosa. Fui até o armário do banheiro e peguei alguns remédios. Quando estava prestes a bebê-los, vi um pequeno frasco com o que parecia ser água em cima da pia. Trazia outro bilhete.
“Beba-me. Possua todo o meu corpo. Drene meu sangue, faça o que for preciso. Eu daria tudo para ser uma parte de você.”
Eu sabia que não deveria fazer o que fiz, mas senti que se não tivesse bebido o que tinha no frasco, poderia não conseguir terminar essa parte.
– Quer brincar? – Gritei no meio do corredor, mesmo sabendo que não receberia uma resposta. – Já estou em seu jogo, sei disso. Mande mais uma carta!
Como esperado, nenhum ruído. Pensei em correr, sair pela porta da frente, pensei em sumir, pensei em fugir, mas eu estava cansada disso. Estava cansada de ser fraca. Eu senti que estava me aproximando de algo. Fui até meu quarto e peguei novamente o livro com o floco de neve. Abri-o e, de repente, uma pequena folha amassada havia caído.
“O rádio toca canções de amor enquanto o telefone permanece mudo e as paredes seguem paradas e estáticas, e a cerveja é tudo o que há. Aquela música, pra sempre me lembrará de você. Aquele número, sempre me fará sorrir. Não importa quanto o tempo passe. O que as pessoas digam ou o que eu faça. Você pra sempre fará parte do meu livro de histórias. E será um dos capítulos mais lindos. Mas um dos mais tristes também.
Eu sou assim. Uma hora sorrio, noutra sofro. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade. Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo. Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.
E então eu imagino que tenha sido feita para ser sozinha.”
Minha mente desligou-se, ela recusava-se a pensar em qualquer coisa. Decidi que continuaria com tudo. Segui pela sala, procurando mais algum papel, porém não havia nada. Procurei pela cozinha e por todo o meu quarto, sem sucesso. Estava ficando tonta, meus olhos pesavam.
Então, quando estava jogada na cama, inspirei profundamente.
Chanel nº 5.
Corri até o banheiro ao lado do quarto e, antes de abrir a porta, vi mais uma carta no chão, mas essa estava com uma pequena mancha.
“Se você ama uma flor, não a pegue. Porque se você pegá-la, ela morre. E ela era o que você amava. Então se você ama uma flor, deixe-a. O amor não é definido por possessão. Amor é definido por apreciação.
Quando você ama alguém, você não pára. Nunca. Mesmo quando a pessoa revira seus olhos ou te chama de louco. Mesmo assim. Especialmente quando isso acontecer. Você apenas... Você não desiste.
Mas as despedidas mais dolorosas são aquelas que nunca são ditas ou explicadas.”
Meus olhos estavam preenchidos por lágrimas, porém eu não as deixava escorrer. Entrei no banheiro.
– Lembra quando eu falei que morreria antes de você?
Faith. Ela estava sentada em cima da pia, com uma garrafa de vodka em uma das mãos e uma arma na outra.
– Então, eu não estava brincando. Foi uma promessa. Lembra quando eu te chamei de Cats pela primeira vez?
Minhas pernas estavam cada vez mais fracas, sentia cada vez mais vontade de cair.
– Uma promessa é como a coisa mais importante da minha vida. E você quebrou a sua. Você fez tudo isso, Scarlet. A culpa é sua, não minha. – Ela suspirou. – Mas eu não quero te assustar, só quero terminar o meu plano. Passei boa parte da minha vida planejando-o e irei cumpri-lo, de qualquer forma.
Tentei aproximar-me dela, mas a arma que ela carregava estava apontada diretamente para mim. Continuei ouvindo-a, sem abrir minha boca. A voz dela me acalmava, do mesmo jeito que me assustava.
– A propósito, você bebeu veneno. Ou seja, sim, está prestes a morrer. Eu sei exatamente quanto tempo você tem, Cats. E essa será a última vez que alguém te chamará assim. Eu estive o tempo todo com você, mas você me abandonou. Porém não precisa se preocupar, não quero vingança. Eu vou para o inferno, de qualquer jeito. – A risada de Faith ecoou pelo banheiro, atingindo-me em cheio. – E eu até deixaria você ligar para o seu pai e dizer que está cara a cara com o tal assassino misterioso, mas acho que você não tem força suficiente para isso.
Meu pai. Eu sentiria falta dele. Faith. Minha melhor amiga, diante de mim. Eu sentia que meu tempo estava se esgotando e não podia fazer nada. A morte estava em mim. Então, eu comecei a chorar. Chorei como uma criança de seis anos que têm seus livros queimados. Chorei como uma garota de dez anos que têm seus pulsos machucados. Chorei como uma garota de catorze anos que está sozinha. Chorei como uma garota de dezesseis anos que sentia o cheiro da morte. Chorei como uma garota de dezoito anos que tem seu orgulho pisoteado. Chorei como a atual garota de vinte e um anos que tem pouco tempo.
– E, Scarlet, lembra-se de quando eu contei uma das minhas promessas para você? Bem, foi uma das coisas mais estúpidas que já fiz. – Faith jogou a garrafa de vodka que estava quase vazia no chão. A mesma estilhaçou-se ao nosso redor, fazendo um barulho estridente. – Agora, como havia dito, eu matarei tudo aquilo que um dia te fez chorar. Mesmo sem nunca ter usado uma arma de fogo antes. Adeus, Scarlet. Vejo você no inferno.
Eu te amo, pensei. Mas não consegui falar.
E foi assim que minha vida acabou. Vi a escuridão se apossar de mim lentamente. Ouvi o som do tiro, vi o sangue da cabeça de Faith no chão. Vi Faith no chão. E eu? Eu estava morta também. Essa foi a minha curta história. Morta ao lado de uma assassina. Morta ao lado de minha melhor amiga. Morta com uma cobertura de sangue. Morta com um pequeno dilema em minha mente.
Entre duas pessoas, o assassino é aquele que mata mais ou que mata primeiro?
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