With A Little Help From My Friends
4 Uns vão outros ficam
Notas iniciais
3 de Maio de 1950
John, Paul e George conheciam-se agora à pouco mais de nove meses e tinham-se tornado muito próximos. Agora os três eram os donos e senhores do orfanato, pelo menos daqueles que eram mais novos que eles. Não aprontavam nada como John e Stuart faziam, do género de bater nos novatos, mas ainda assim eram terríveis.
Paul e George que estavam perto do topo na lista de candidatos a adoção começaram a ser postos de lado por South. Ele ainda disse a Sally que os separasse de John, porque dizia que aqueles miúdos ganhavam dele má influência, mas a mulher simplesmente ignorou. Ela sabia que os três eram traquinas, mas que eram crianças maravilhosas que só sabiam estar juntas. Para tudo. Não só para as balbúrdias e partidas, mas estavam lá sempre uns para os outros.
Pete nunca se habituou a conviver com Paul e George pois o seu lugar como grande amigo de John já estava perdido. Ele gostava que as coisas fossem como quando eram com o Stuart. Só ele, o John e o Stuart, mas agora, mesmo continuando andando com eles uma vez entre outra, ele próprio formou o seu grupinho com outros rapazes. E tal como John, ele era o líder deles, por isso, ele já não se importava quase nada com John, Paul ou George.
Durante os nove meses que passaram, John completara a sua primeira década de vida, Pete fizera nove anos e George sete, ingressando na escola. Theodore O’Riley dava aulas no orfanato às pequenas crianças, pelo menos até elas completarem a primeira fase do Ensino Fundamental. Depois frequentavam a escola tal como todas as outras. South optou por este método já que tinha no orfanato cerca de trinta crianças e quase metade delas tinha entre seis e dez anos de idade.
Alguns residentes deixaram o orfanato e agora poucos entravam já que a segunda maior guerra que o mundo viu tinha acabado à cinco anos e assim o número de crianças de rua começou a diminuir. South tomou a decisão de mandar alguns infantes para outros orfanatos. Mas há duas semanas entrou um novo residente. Não sabiam muito sobre ele porque ele não falava com os outros e andava sempre zangado. Quando falava respondia em maus modos e então as outras crianças deixaram de tentar sequer falar com ele.
Alguns rapazes jogavam à bola no pátio e o rapaz dos seus dez anos continuava sentado nos degraus bem ao lado de Gertrude, mas não falando com ela, vendo os outros brincar.
–Vai para lá catraio! – A mulher incentivou.
Antes de responder o garoto tossiu de forma seca e rouca, tal e qual como a mulher sentada ao lado dele tossia, só que ela já completamente corroída pelo tabaco. – Não posso. Ainda estou a recuperar de uma pleurite.
–Soa a coisa má. – Ela respondeu, acendendo um cigarro, mas afastando o fumo. Ela não era mulher de muita instrução e quando o garoto lhe disse aquela doença, que ela nunca tinha ouvido falar, ela ficou um bocado assustada e tentou não prejudicar o rapaz.
–Fez-me ficar no hospital por três anos. – O rosto do rapaz depois encheu-se de rancor quando disse. – E os meus pais não queriam um filho doente então deixaram-me lá sozinho.
–Ah, esquece lá isso agora e vai ter com os outros. Vais ver que isso até cura!
Ele ficou hesitante em ir e ao longe vinha John a correr trazendo a bola que tinha ido parar à área arborizada nas traseiras do orfanato. Ele chutou-a e o jogo entre eles começou outra vez. George, sendo dos mais pequenos no jogo, correu desesperado na esperança de dar um chuto na bola. E foi quando se deparou sozinho com a bola na sua posse.
–Acerta-lhe George! – Paul berrou. – Anda lá, o Josh não vai defender!
George puxou o pé atrás e colocou toda a sua força naquele pontapé. Só que ao concentrar-se na força, não se concentrou na pontaria e a bola foi bater em cheio na cabeça do rapaz sentado nos degraus. Todos pararam enquanto George caminhava para ele. No mínimo o rapaz pegaria nele pelos colarinhos da camisola e jogá-lo-ia longe, por isso John e Paul observavam atentamente, prontos para intervir se necessário.
–Desculpa. – George disse pegando na bola. – Não fiz por mal.
–Grande chuto, miúdo! – Ele respondeu coçando a cabeça.
–Queres te juntar a nós? Temos um a menos.
Pela primeira que tinha entrado no orfanato o rapaz sorriu e levantou-se. – Quem é da minha equipa?
–Sou eu, — Ele apontou-se e começou a caminhar para o campo improvisado com a bola debaixo do braço, apresentando enquanto apontava. – o John, o Pete e o Paul. Aqueles ali são o Michael, o Cole, o Joshua, o Matthew e o Thomas, mas eles são a outra equipa. Hei, John, já estamos cinco contra cinco!
–Bola minha. – Josh, o guarda-redes da outra equipa, disse e George atirou-lhe a bola.
John estendeu a mão e falou. – Sou John. Bem-vindo à equipa. Espero que faças um bom jogo.
O rapaz deu-lhe um firme aperto de mão e disse confiante. – Richard Starkey. E conta comigo, farei o meu melhor.
John correu para o centro do campo e berrou entusiasmado. — Vamos lá jogar, malta!
Quando chegou a hora de jantar, todos estavam exaustos e esfomeados entrando a correr no salão. Na fila para pegar a comida, George era sempre posto em primeiro, e John deixou que Richard fosse na sua frente.
–Paul! – John berrou em plenos pulmões, vendo que ele não estava por perto. O pequeno era um pouco para o trapalhão e tinha ficado preso pelas presilhas das calças no puxador da porta. Quando se desembaraçou de lá correu e colocou-se entre John e Richard. John tirou o chapéu dando uma bagunçada nos cabelos, dizendo. – Acho que te lembras do Paul furão que se mete em qualquer buraco!
Richard gargalhou comentando. – Como é que me podia esquecer depois de ele se ter metido entre as pernas do guarda-redes e ter marcado um golo?
–Hei, Ritchie, dá-lhe aí uma ajuda. – John deu uma olhada em George que tentava a todos os custos carregar a comida sozinho.
Richard ajudou o pequeno George enquanto John ajudava Paul, que agora dizia dispensar a ajuda dele mas que de vez em quando vinha de manso pedir auxílio. Sentaram-se todos juntos e o novo rapaz acabou por contar porque ali estava. Ele recebeu apoio por parte de John, Paul e George que o animaram e o acolheram no grupo. E a verdade é que se calhar, Gertrude teria razão: aquela correria toda ao ar livre parecia ter feito maravilhas a Richard.
Todo o divertimento, brincadeiras e conversas que estavam naquela sala pararam quando South apareceu na porta e falou bem alto. -Randolph Peter Best.
Pete levantou-se, segurando as lágrimas e caminhando para o diretor. Todos na sala sabiam que aquilo não era bom sinal. Nas últimas semanas, cada vez que um nome era chamado só significava uma coisa: essa pessoa ia embora. Assim que ele foi embora as conversas voltaram, mas agora num tom muito mais baixo.
Com tantas saídas, George tinha até conseguido ficar no quarto com os seus amigos e ainda sem o saber, o beliche de Pete passaria a ser ocupado por Richard. Ele tinha ficando no quarto com outros rapazes, estes já maiores do que ele e isso fazia-o sentir-se intimidado. Ainda por cima, ele era mais pequeno do que um normal miúdo de dez anos, e era doente, logo para os adolescentes, ele era fraco e indefeso, motivo de brincadeira, sendo empurrado e arremessado.
Agora com Pete a deixar Strawberry Field, John tinha perdido qualquer memória do que costumava ter. Deixou de ter Pete e Stuart; deixou de bater nos outros miúdos, não querendo dizer que não se metesse com eles com a ajuda dos seus novos amigos. Mas, sobretudo ele deixou de se sentir triste e desajustado. Para ele, aquele dia foi um ponto de viragem. Tinha agora com ele Paul, George e Richard, e mal eles desconfiavam que se tornariam inseparáveis. Mal eles sabiam que se tornariam irmãos sem laços sanguíneos, mas muito ou talvez até mais unidos do que aqueles que são irmãos verdadeiros.
Notas finais
Comenta aí, nem que seja pela fofurisse do Ringo.
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