Witch Hunt - One Shot
1 Único - Floresce como rosas
Caminhando em um tapete amarelo-avermelhado feito pelo outono, a pequena Kaai Yuki contava nos dedos o número de folhas que as árvores deixavam cair. E, quando seus pequenos dedinhos acabavam, ela tornava a recomeçar do zero. Não tinha culpa, ela só aprendera a contar até onze, mas Kaai Yuki não possuía onze dedos em suas mãozinhas.
A pequena apreciava o aroma adocicado que as singelas folhas exalavam. De hora em hora, segurava a barra do vestido de uma forma graciosa, imaginando como seria diferente sua vida, se tivesse nascido em uma família mais afortunada. Seus pensamentos ambiciosos foram interrompidos por um som curiosamente familiar. Outra vez naquela tarde os sinos da igreja badalaram. Kaai Yuki só poderia pensar que algo realmente importante estava acontecendo, mas se era importante, provavelmente sua família humilde não era bem-vinda. Mesmo assim, a pequena não pode conter a sua curiosidade.
Já em frente à igreja, escondida em alguns arbustos, a pequenina pode ver. Havia um grande aglomerado de crianças naquele lugar, todas riam, como se estivessem se divertindo muitíssimo, e a menina Kaai Yuki não queria ficar de fora. Talvez se misturando a multidão, ninguém a reconheceria.
A pequena empurrou as crianças mais velhas para ver melhor o que acontecia no centro da pequena roda que havia se formado nesse meio tempo. Ela soltou um suspiro de alívio quando finalmente alcançou seu objetivo. No centro da roda haviam duas pessoas, aos olhos da pequena Kaai Yuki, não eram adultos e nem crianças, mas ambos brincavam com os menores como se tivessem um grande sentimento afetivo por eles. Um garoto e uma garota. A menina não pode esconder a surpresa quando notou o quão semelhantes ambos eram. O garoto cutucou a garota quando pousou os olhos na pequena Kaai Yuki, e esta que outrora rodopiava um menino de seis anos, colocou a criança no chão, e ambos vieram em sua direção, repetindo os mesmos movimentos um do outro, como que sincronizados.
— Kagamine Rin e Kagamine Len — Os dois disseram em uníssono — Prazer.
Eles fizeram uma pequena reverencia e estenderam as mãos para cumprimentar a pequenina. Kaai Yuki achara que aquele era o gesto mais gentil que ela havia presenciado. Ninguém nunca a tratara daquela forma tão cortês.
— Ka-Kaai Yuki.- A pequena gaguejou apertando a mão dos gêmeos, ela mal acreditara que gaguejara o próprio nome.
Os dois mais velhos sorriram e analisaram a menina desde a ponta dos pés, até os fios negros de cabelo. Naquele momento, a pequena sentiu vergonha pelo vestido encardido, as meias rasgadas, os sapatos opacos e gastos e a cabeleira ensebada e grudenta. Entretanto os dois que a examinaram não pareceram se importar com as condições de Kaai Yuki.
—Desculpe, mas quantos anos vocês tem?- A menina indagou ainda meio tímida.
— Quatorze. -Ambos repetiram juntos.
Kaai Yuki matutou por algum tempo. Quatorze?! Ela desconhecia aquele número, seria este o que vinha após o onze? A pequena tentou contar nos dedos, mas definitivamente não tinha quatorze dedos.
Os mais velhos riram da reação da menina e então estenderam suas mãos à ela. Com as duas mãos a garota fez dez e, com apenas uma, o garoto fez quatro.
— Quatorze. — Eles novamente repetiram, cessando de vez a dúvida da confusa menina.
Novamente os sinos da igreja badalaram, e subitamente os gêmeos pararam de sorrir, dando lugar a uma expressão estranhamente melancólica.
— Vinde a mim todos vós e contemplem essa triste história. — A garota de curtos cabelos loiros, Kagamine Rin, disse.- Tragam seus lenços, eles podem vir a serem útil
As crianças sentaram-se ao redor dos dois, ansiosas para saber o que estava por vir. Assim como Kaai Yuki, que rapidamente encontrou seu lugar bem em frente aos gêmeos.
—Uma vez, há muito, muito tempo, viveu uma jovem bruxa. – O garoto de intensos olhos azuis, Kagamine Len, começou. – Ela veio a apaixonar-se por um príncipe... Assim a história prossegue.
“Uma bruxa?!” Kaai Yuki pensou, ela nunca ouvira uma história em que uma bruxa fosse protagonista. Bruxas eram sempre vilãs nas histórias, responsáveis por impedir que o príncipe e a princesa ficassem juntos, uma bruxa certamente não poderia amar um príncipe. Ainda assim, a pequena Kaai Yuki permanecia imóvel em seu lugar e ela não podia se conter, estava realmente curiosa.
— Megurine Luka era seu nome e um destino trágico era o que a aguardava. – Continuou Kagamine Rin.
— “A magia que para o tempo”, essa era sua maldição, isso foi o que lhe deu um fim. – Completou Kagamine Len.
Megurine Luka observava o céu cinzento com certo pesar. Uma leve brisa, que aos poucos se tornava uma forte ventania, atingia-lhe o rosto sem nenhuma delicadeza. Os cabelos cor salmão dançavam ao som da melodia distante, criada pelos uivos dos ventos que vinham do norte.
— Hoje será mais um dia frio. – A jovem rosada murmurou para si mesma. – Espero que não chova.
E como se os céus ouvissem as lamurias da bruxa, uma fina garoa brotou do céu. E junto com ela, a ventania que foi se fortalecendo mais e mais. E as miúdas gotas que, de tão pequeninas, pareciam flutuar no ar ao invés de espatifarem-se no solo ou quem sabe, nos cabelos salmões da jovem bruxa.
Foi então que subitamente o adorno, acinzentado como o céu naquela manhã, libertou-se e deixou-se ser levado pelo vento, soltando as madeixas rosadas da bruxa, que agora se remexiam freneticamente. E nas mãos dele o adorno pousou, como que chamando a atenção de ambos, um para o outro, e como se enfeitiçado, o príncipe apaixonou-se a primeira vista.
— Qual o teu nome jovem dama?- Ele perguntou.
— Megurine Luka. – Ela respondeu agradecendo-o por capturar o adorno fujão. – E o teu?
— Príncipe Kamui Gakupo III. – Ele sorriu.
— Oh, mil perdões pela informalidade vossa alteza. Eu sou apenas uma viajante de passagem, não tinha ideia de quem eras.
— Não te preocupes com isso. – O príncipe explicou ainda sorridente. – O que faz em tais terras?
E ela lhe contou sua história. E eles conversaram por toda a manhã e um pouco da tarde, sem reparar que ao longe, uma tola de verde, observava todo o desenrolar da cena com o coração partido e um suspiro melancólico, este que escapava por seus lábios de minuto em minuto.
— Ver-te-ei outra vez, Megurine Luka?- O príncipe indagou na hora da partida, esperando ver sua amada outra vez.
— Se é o que desejas vossa alteza. – A bruxa respondeu sorridente.
E os dias se passaram tão rapidamente como o murchar de uma rosa. E o amor do príncipe e da bruxa, só crescia, mais e mais... Assim como o ódio da tola esverdeada. E esta? Ora, pois, a freira não podia amar, essa era sua maldição. E se não podia amar aquele que lhe era precioso, então ninguém mais poderia. Pôs-se a investigar o passado da bruxa e este foi o gatilho para o inicio daquele dia. Aquele mesmo, em que os céus queimaram pela fúria de um anjo.
— Deixe-me contá-los como tudo aconteceu. – Disse Kagamine Rin. – Foi em dias como esses, dias em que chamas parecem invadir os céus. Essas meus caros, são as chamas da justiça, que naquele fatídico dia, revelaram o segredo da bruxa.
— Uma vez, há muito, muito tempo, viveu uma jovem bruxa. –Disse Kagamine Len– Ela veio a enganar um príncipe... Assim a história prossegue.
O jovem príncipe admirava com inocência as cores variadas das diversas flores e de hora em hora, perdia-se em meio às deliciosas fragrâncias que cada uma exalava. Um presente para sua amada, era isso o que ele queria. Era isso o que pensava quando a tola esverdeada tocou-lhe o braço.
E lá estava ela, Megurine Luka, estampada lindamente em um cartaz de “caça às bruxas”. E o tolo príncipe, enganado pela “serva de Deus”, deixou as rosas de seu amor florescerem murchas e caídas.
Quando o demônio foi amarrado à cruz, a verdade veio à tona. “A magia que para o tempo”. A maldição da imortalidade. A antiga amada agora se transformara em bruxa.
Megurine Luka observava o céu vermelho com pesar. Se orasse quem iria ouvir? Nenhuma mão fora-lhe estendida, nem mesmo a dele. Ouvia “bruxa” sendo gritado cada vez mais alto, gritado através de seus próprios gritos. Se seu amor era uma maldição então nada além de lágrimas ela poderia oferecer, deixem-na ser reduzida a pó, que a luz e o fogo a consumam.
E ao fim, quando as chamas da justiça foram finalmente acendidas, a bruxa revelou-se um anjo e como uma chama ardente e sangrenta, rasgou os céus, deixando para trás o odioso rastro vermelho e uma pena negra para aquele que um dia fora seu amado.
As crianças observavam perplexas aos gêmeos, como se aterrorizadas com o fim da história e o fim da bruxa. Após a caça as bruxas que houvera anos atrás, falar de tal assunto era restritamente proibido e parecia que todos sabiam disso, exceto certa garotinha, que ainda permanecia fascinada pela história.
E pouco a pouco as crianças se foram, menos a pequena Kaai Yuki, que continuava repleta de dúvidas.
— E-e o que houve?- A pequenina indagou para os gêmeos que estavam prontos para se retirarem.
Ambos se entreolharam, e logo após voltaram os olhos azuis para a garotinha envergonhada.
— Como assim o que houve?- Perguntaram em uníssono.
— Com Luka, ela retornou para o príncipe?
— E como poderia? – Rin indagou.
— Fora ele quem a traíra e ele quem a condenara. Ela não poderia mais retornar. – Len completou.
— Entendo. – Kaai Yuki suspirou com ar melancólico. – E a freira? Qual foi seu fim?
— Dizem que ela ainda vaga por ai, agora com uma nova maldição. O arrependimento e a culpa. – Rin respondeu sorrindo. – Mas ei, isso é apenas uma história.
— Eu sei. – Kaai Yuki concordou sorridente.
— Na próxima vez que ouvi-la, por favor, não se esqueça de chorar. – Len falou tristemente.
E antes que a pequena pudesse compreender, uma voz rouca, como a de alguém que tossira por muitos e muitos dias, chamou pelos gêmeos.
— Quantas vezes eu já lhes disse para terminarem as tarefas antes de brincarem?- Uma velha freira esverdeada repreendeu-os forçando uma careta.
—Vovó! – Os gêmeos exclamaram juntos. — Desculpe-nos.
— Eu entendo, mas tem de pararem um pouco com as travessuras, eu já não sou tão nova como antes. – A senhora disse sorridente. –Agora, voltem para dentro, terminem suas tarefas e poderão brincar mais tarde.
Kaai Yuki riu vendo o desenrolar da cena, esperou até que os três retornassem para dentro da igreja antes de seguir seu caminho. E enquanto tornava a contar as folhas que as árvores soltavam, a menina pensou:
“Não. Não é só uma história.”

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