Os dias correram como marasmo. Luna não mais voltara à sala de Snape. Nas aulas, ela apenas ouvia e fazia as atividades. Costumava ficar horas olhando para o professor, triste, sem que ele a visse. Quando ele virava, ela voltava para o caderno. Tentava ao máximo disfarçar perto das meninas qualquer coisa. Já tinham se passado duas semanas desde o ocorrido. Muito tempo.

Ela não conseguia se esquecer do que acontecera, daquela última noite. Nos últimos dias, frequentava a biblioteca ainda mais assiduamente, em busca de informações. Havia uma seção mais isolada com livros do gênero. A vida para adolescentes bruxos, sentimentos, relacionamentos, reprodução, sexo. Luna lia tudo avidamente, procurando assimilar tudo o que uma mulher precisava compreender daquelas coisas. Ela sabia bem que não era aquilo que definia uma mulher, uma bruxa, e sim seu caráter, sua força, seus feitos. E isso ela já possuía desde sempre. Sempre foi estimulada pelos pais, e ultimamente pelo pai, a ser livre, a buscar seu lugar do jeito que era. Mas ela precisava entender aquilo que Snape lhe dissera. Ela precisava saber o que era ser mulher para um homem, e não uma garotinha.

Snape provavelmente era um homem para uma mulher. Ela passara muito tempo avaliando o professor, nos quatro anos em que fora dele aluna. Observava seu andar, seu falar, seu mexer, seu ouvir, seu sentar. Ela podia ver que debaixo das vestes não existia um menino escondido e sim um homem, forte, com corpo, carne, membros preparados. Claro que ela não era idiota, entendia o que era sexo, mas vendo Severus Snape ela podia compreender o que aconteceria, como se daria a atração. Ela se sentia imensamente atraída por aquele homem. Pelo seu cheiro, pelo cabelo, o qual ela sempre quis tocar, pelo que estaria debaixo de todas aquelas vestes. Mas ela nunca realizara sinceramente o porquê de sentir tudo aquilo.

Sentada em uma das mesas, não viu quando Gina chegou e se sentou perto dela.

— Sabia que estaria aqui, Loony, parece que se mudou pra cá, rs.

— Quase, rs, quase. Gosto de ler sobre coisas novas. A propósito...

— O quê? Vai me dizer por qual motivo anda tristinha?

— Não ando tristinha, Ginny. Quero perguntar sobre amores proibidos.

A ruivinha abriu os olhos até quase pularem da órbita:

— LUNAAA! Não me diga que-

— Psssst, sua louca! Não grita! Calma! Eu estava lendo sobre isso agorinha só, calma.

— Tem certeza?

— Claro que tenho. — ela disfarçou — se você tivesse um amor proibido iria atrás dele? O que faria?

— Bem... Ai, Loony, que pergunta. Eu iria sim, se fosse possível. Num sentido de não ser alguém famoso ou comprometido, sabe?

— Sei sim.

— Se fosse alguém difícil de conquistar, mas acessível, eu iria atrás sim, claro.

— É. Isso parece bom. — Luna sorriu sonolenta.

"Isso vai ser mais difícil que eu imaginava", pensou.

Snape passou todos aqueles dias observando Luna pelo canto dos olhos. Ela evitava qualquer contato visual com ele. As poucas vezes em que cruzaram o olhar ela desviou rapidamente. Não estivera mais na sala, nem mesmo depois do prazo que ele dera. Ele também não a avisara sobre voltar. Estavam como estranhos. E um mês já tinha passado.

Também não a vira mais com Harry ou nenhum outro rapaz. Mal a via nos corredores, com as amigas. A natureza evanescente que imperava nela, com sua palidez, seus cabelos, os passos leves e flutuantes de fada, parecia ter se manifestado por completo até em sua forma de agir. Ela evanescia até mesmo durante as aulas, imersa em seu universo próprio. Mas ao contrário de outras vezes, ela estava triste, não mais sonhadora. Estava pesada.

Ele sabia o porquê. E queria poder fazer esse porquê se tornar um motivo de brilho.

Ele queria fazê-la resplandecer ainda mais. O amor consegue fazer coisas ainda melhores do que maquiagem nas mulheres. Ele queria poder fazê-la sentir amor, desejo, paixão, força, prazer, tudo que ele pudesse. Ele queria poder ao menos tocar nela mais uma vez. Sentir seu calor, seu perfume, ver seus olhos como ele os vira naquela noite. Queria sentir a cascata de cachos loiros esparramar-se por seu rosto, seu peito, seus braços. Queria ouvi-la sussurrar seu nome e gritá-lo, quando fosse a hora. Gritar de prazer, arfar, curvar-se debaixo do peso de seu corpo. Queria que ela estivesse sobre ele, cavalgando-o, dominando-o, fazendo-o sentir-se homem outra vez. Mais uma vez.

Era completamente bobo pensar que apenas massageando o pescoço de Luna ele pudesse ter sentido tantas coisas. Ele quase não se conteve. Saiu antes dela, para que ela não visse o volume em sua calça. Não visse seus olhos ainda mais escuros, as pupilas dilatadas. Merlin sabia o quanto ele gemera sozinho naquela noite. O quanto sussurara o nome da Lovegood enquanto sozinho resolvia suas necessidades. Merlin sabia. E não tinha a mínima pena dele.

Aquilo valia a pena?

Valia a pena desejar tanto uma adolescente?

Ele tinha quase três vezes a idade dela. Daqui há uns anos, ela se formaria, conheceria novos bruxos, se apaixonaria. Homens jovens que a pudessem satisfazer na cama e na vida. E ele ficaria ali, sozinho, como sempre esteve. Sombrio, rabugento, solteirão, sozinho.

Valia a pena?

Ele já havia bebido três doses de whisky de fogo. Não poderia beber mais. Esparramado na poltrona de seu quarto, ele lamuriava baixinho. Será que ele deveria arriscar?

Dumbledore o conhecia como ninguém. Sabia o que ele sentia e muitas vezes antes dele mesmo. Ele não se opôs. Nem Minerva. Mas não poderia colocar sua reputação a perder. Não que um Comensal da Morte valesse muito, mas ali ele era ao menos respeitado. Dumbledore não podia ajudá-lo daquela vez.

Um mês.

Um mês havia se passado desde a última vez em que Luna trocara palavras com Snape.

Ela caminhava pelo lado de fora da escola. Fazia sol, mas estava também frio e ventando. Era seu clima predileto, mas também trazia muitas recordações. Boas. Ruins. Péssimas. Por quantas vezes ela deitara ali, em alguma parte gramada, com o livro de Poções, para memorizá-las. Quantas vezes acabou ali adormecendo e pensando no professor Snape. Quantas vezes ele mesmo não a vira ali, e a mandava de volta para o castelo, nunca de maneira ríspida?

Luna continuou caminhando. Vinha pensando diariamente sobre Severus, e sobre o que faria quanto a ele. Continuaria ignorando até passar? Tentaria? Ficaria quieta? De repente, lembrou-se de sua mãe. Tantos anos, e ela ainda a sentia ali, tão perto, tão doce.

"—Cansei de tentar, mamãe. Essa planta não vai crescer nunca!

— Claro que vai, Luna. Mas você precisa de paciência, meu amor.

— Eu tenho muita! Tem duas semanas que estou regando essa mandrágora e ela não cresce!

A mãe de Luna e pegou nos braços e sentou-a em seu colo.

— Luna, duas semanas é muito pouco tempo. A planta é um ser vivo, é um bebê, que precisa de cuidado e de tempo. Você já foi um bebê e levou tempo para crescer.

Luna olhava as próprias mãos, a plantinha e sua mãe. Tinha sete anos.

— As melhores coisas da vida são plantadas, regadas e cultivadas por muito tempo antes que possamos conseguir alguma coisa por meio delas. E não podemos desistir nunca. Se queremos de verdade, mesmo difícil, não podemos desistir.

Os olhinhos de Luna brilhavam. A mãe era tão linda quando dizia aquelas coisas todas.

— Na sua vida, Luna, você vai encontrar coisas impossíveis. Mas com seu coração poderá torná-las possível. Mas nunca desista, minha Lua. Nunca desista."

Relembrar a mãe e não tê-la por perto era tão mais difícil do que qualquer coisa. Ela sempre dizia que Luna nunca deveria desistir de nada, que nunca se achasse boba, que fosse atrás dos sonhos mesmos que parecessem bobos. O que ela diria naquele momento? Será que aprovaria?

"Não desista, Luna. Não desista."

E ela resolveu insistir.