Notas iniciais
Spin-Off de “I know it’s hurting you, but it’s killing me”. Não é necessário lê-la para entender essa fic, mas seria bem interessante para você conhecer esse Draco Malfoy que é completamente apaixonado por Hermione Granger.

Frequentemente eu pensava no quão azarado eu era, por mais que os comentários à meu respeito fossem justamente o oposto. Muitos falavam que eu era sortudo por ter nascido em berço de ouro e por carregar com maestria o sobrenome da minha família.

Mal sabiam eles, que no fundo, eu repugnava com todas as forças e lastimava incansavelmente à Merlin por ter nascido um Malfoy.

Tudo seria diferente se por exemplo, eu fosse um Weasley e pudesse viver livremente, podendo tomar as minhas próprias decisões sozinho, sem enfrentar a fúria abominável do meu pai e a pressão incessante em ser um intolerante sangue-puro.

Ser um Weasley na verdade seria a solução para todos os meus problemas. Eu poderia conversar abertamente sem me preocupar com as minhas palavras, poderia ser menos arrogante e largar a postura de bad boy. Mas principalmente, poderia ser agraciado pela companhia dela sem ser tomado por olhares de espanto, ou pior, julgadores.

Já fazia um bom tempo que Hermione não respondia às minhas provocações. Sendo mais preciso, o belíssimo soco que ela desferiu contra mim no terceiro ano foi a nossa última interação, desde então, ela passou a ignorar a minha existência por completo.

Ainda me lembrava daquele dia como se fosse ontem. Quase deixei que os meus sentimentos pela castanha fossem descobertos pelos meus patéticos amigos, e me puni internamente pelo resto do ano ao notar que eu não estava mais conseguindo esconder o que eu realmente sentia pela nascida trouxa.

Pobre Draco, foi se apaixonar justamente por Hermione Granger? Seria cômico se não fosse trágico.

Eu já martelava esse questionamento na minha cabeça a um bom tempo e não notei quando a aula de McGonagall chegou ao fim, apenas senti um cutucão forte nas minhas costas.

— Draco! Eu estou falando com você! – Pansy conseguia ser extremamente irritante quando queria.

Virei-me para encará-la e encontrei um par de olhos furiosos em minha direção.

— O que foi? – a minha voz exalava desinteresse e eu sabia que isso não passaria batido por ela.

— Espero que você melhore essa sua cara no baile, quero me divertir e não aguentar um garoto carrancudo a noite inteira! – em um ato repentino, Pansy jogou seu material que ainda estava em cima da mesa para dentro de sua mala saindo logo em seguida.

Suspirei fundo ao observar aquela cena dramática. Ela era uma típica Sonserina, fazia jus à casa que pertencia.

Isso me fez pensar no porquê raios a convidei para ir ao Baile de Inverno comigo.

Eu não tinha outra escolha. Hermione com certeza iria acompanhada de Potter ou Weasley, e é claro que nunca, em sã consciência, a convidaria para esse evento. Só de imaginar o rebuliço que isso causaria caso por algum milagre ela aceitasse ir comigo, me causava uma vontade tremenda de rir, mas também uma pontada de tristeza.

Quando imaginava essas situações hipotéticas e completamente insanas, eu pensava no quão infeliz a minha vida seria até o dia em que a castanha saísse da minha cabeça. Ultimamente essas ideias malucas pairavam com mais frequência na minha mente e algo me dizia que logo eu poderia cometer uma besteira.

Era melhor eu arranjar uma maneira de esquecê-la.

O baile aconteceria no dia seguinte e eu não podia estar menos empolgado para isso. É claro que eu iria, não poderia deixar de ir porque eu tinha certeza que a senhora Narcisa perderia os cabelos de tanta raiva que viria a sentir. Sua empolgação podia ser percebida nas simples cartas que ela me enviava frequentemente, inclusive, o meu traje a rigor foi um dos primeiros a chegar em Hogwarts, tamanha a ansiedade da senhora Malfoy.

Mas eu só conseguia pensar em uma coisa: Hermione, essa garota não saia dos meus pensamentos.

(...)

— O que achou? Estou bonita? – Pansy exibia o seu vestido decotado e justo para mim com um olhar desejoso, talvez ela esperasse que alguma coisa fluísse entre nós essa noite.

Já estávamos postos na entrada do salão principal, esperando pacientemente os campeões chegarem com seus respectivos pares para iniciar o baile.

Muita coisa se passava pela minha cabeça naquele momento. Eu havia visto Potter e Weasley acompanhados das gêmeas Patil, mas não encontrei Hermione em lugar algum. Será que ela não viria ao baile? Minhas esperanças de vê-la trajada em um vestido de gala se foram?

— Draco! – mais uma vez Pansy tentou chamar a minha atenção.

Recorri para o melhor sorriso que eu poderia dar à ela naquele momento, para tentar disfarçar a minha distração e deixá-la satisfeita comigo.

— Está linda – respondi tendo a certeza que aquele elogio a faria sossegar pelo resto da noite.

Um brilho surgiu em seu olhar e pela primeira vez em muito tempo, ela retribuiu o elogio com um sorriso cativante. Pansy, quando não estava mal humorada o suficiente para estressar todos ao seu redor, podia transparecer uma doçura capaz de deixar qualquer garoto apaixonado.

Pena que o meu coração já tinha dona e eu não conseguia enxergá-la dessa forma mais.

Como se a minha consciência pudesse adivinhar o que eu estava prestes a ver, meus olhos focaram na garota mais linda de Hogwarts – e possivelmente do mundo inteiro – no instante seguinte.

Hermione descia as escadas graciosamente, trajada em um vestido rosa antigo que delineava perfeitamente suas curvas e a deixava – caso fosse possível – ainda mais linda. Seus cabelos cacheados estavam presos em um belo penteado e em seu rosto, uma singela maquiagem realçava a sua beleza.

O sorriso que ela exibia seria capaz de trazer a paz mundial. Eu só conseguia imaginar na sorte que o seu par teria de poder apreciar a sua companhia pelo resto da noite.

Ao vê-la com Viktor Krum, um pontada de inveja atravessou o meu peito, fazendo-me praguejar o búlgaro até a décima geração.

Calma, Draco, ainda tem a noite inteira pela frente.

— Vamos? – dei o braço à Pansy quando notei que os campeões já se dirigiam ao salão.

Nunca na minha vida eu imaginei a tortura que passaria naquele baile. Hermione não largava Viktor nem por um segundo e os dois pareciam se divertir como dois adolescentes apaixonados, enquanto eu, continuava ao lado de Pansy, tentando atuar da melhor maneira possível. Não queria que ninguém notasse o meu péssimo humor, já estava difícil esconder os meus sentimentos pela Grifinória.

— Por que é que você tá toda hora olhando pra lá, ein? – Pansy me perguntou acordando-me dos meus devaneios.

Estávamos sentados, observando o grande salão principal que estava apinhado de alunos dançando alegremente ao som de As Esquisitonas.

— Não é nada... Só estou pensando na vida – respondi sem conseguir disfarçar o desânimo no meu tom de voz.

— Está pensando em me convidar para dançar? – seu olhar era sugestivo, e em seguida sua mão direita pousou levemente em minha coxa, dando um pequeno apertão ali.

Com um pouco de delicadeza que ainda existia dentro de mim, retirei a mão da garota e passei a encarar seus orbes negros.

— Não estou com muita vontade, Pansy... – resolvi ser sincero, não queria prendê-la a noite inteira comigo. Talvez assim ela até se animasse para encontrar algum outro garoto que exercesse o papel de acompanhante melhor que eu.

Seus ombros murcharam no mesmo instante em que ouviu minhas palavras e sem me responder, levantou-se do lugar que estava acomodada e seguiu até a pista de dança, onde alguns alunos da Sonserina se divertiam como se aquela fosse a última noite de suas vidas.

A animação podia ser sentida do local em que eu estava sentado e isso apenas ajudou para que a minha infelicidade aumentasse.

Decidi dar mais uma olhada em Hermione, a última e agora podia vê-la conversando abertamente com seus amigos patéticos.
Bom, era isso, não é mesmo? A noite havia acabado para Draco Malfoy, não fazia sentido algum continuar sentado naquele lugar, esperando que um milagre acontecesse e por um acaso do destino a castanha resolvesse doar um pouquinho de sua atenção para mim.

Por que ela faria isso, Draco? Você sempre foi um otário com ela.

A minha derrota já havia sido anunciada desde o momento em que a vi acompanhada de Viktor Krum, então o melhor caminho que eu poderia tomar agora, era o do meu dormitório.

Resolvi sair o mais rápido possível do salão principal no intuito de evitar que Blásio ou Goyle me chamassem perguntando o porquê daquilo. Não estava nem um pouco a fim de ter que lidar com esses questionamentos, justamente por não estar conseguindo manter o meu disfarce.

Antes de rumar até o dormitório da Sonserina, porém, me encontrei parado no meio de um corredor que levava até os jardins de Hogwarts e me perguntei se a luz do luar não poderia me ajudar de forma mais clara a pensar sobre a minha vida, ao invés das paredes frias do meu quarto.

Talvez sim, numa dessas Merlin decide aparecer por ali e me livrar do fardo de ser um Malfoy, me transformando em um bruxo comum que nenhuma pessoa prestaria atenção. Não custava sonhar um pouco, eu acho.

Como eu imaginava, o local estava minuciosamente decorado com pequenos objetos que remetiam ao Baile de Inverno. Um trabalho impecável de Dumbledore e McGonagall, eles pareciam as pessoas mais empolgadas de Hogwarts com o evento.

Uma pena que eu não fui agraciado com toda essa empolgação.

Decidi que a melhor opção seria sentar no banco menos iluminado, a escuridão poderia me fazer pensar e quem sabe até mesmo tirar de uma vez por todas a castanha da minha cabeça.

— Eu só queria que as coisas fossem um pouco menos complicadas. – murmurei para mim mesmo enquanto observava a beleza estonteante da lua naquela noite.

Estava tão linda quanto ela... maldita garota que insistia em ocupar meus pensamentos!

Já fazia alguns minutos que eu estava sentado sob a égide do luar, quando ouvi passos se aproximando.

Eu não entendo! Por que é que ele me trata dessa forma? É impossível entender esse cabeça-oca! – eram lamentos de uma garota e aquela voz não me soou nada estranha.

Hermione.

Ela caminhava lentamente até um banco um pouco afastado do meu, com os olhos cheios de lágrimas, soluçando copiosamente.

Tenho que confessar que os dedos da minha mão direita se fecharam instantaneamente ao imaginar quem poderia ter feito a castanha chorar, mas me contive para não denunciar a minha presença. Naquela hora eu agradeci por estar sentado no canto mais escuro daquele local, não queria que ela me visse ali observando-a enquanto vivia aquele momento íntimo.

O choro de Hermione se tornou mais intenso e percebi por meio de suas palavras desconexas que ela proferia vez ou outra, que o Weasley era o motivo de seu choro.

Maldito Weasley!

Vê-la se debulhando em lágrimas daquela forma me causou uma dor incômoda no peito e uma vontade tremenda de abraçá-la para transmitir o conforto que ela precisava.

Antes que eu pudesse perceber, eu fiz a primeira besteira daquela noite:

— Pare de chorar! Por favor, eu imploro... – exclamei colocando as mãos na boca no instante seguinte.

Draco, pelo amor de Merlin, como você é burro!

Hermione se assustou com as minhas palavras e finalmente trouxe seus lindos olhos castanhos até mim.

— Desculpe, eu não... – percebi seus olhos se estreitarem um pouco, talvez no intuito de tentar reconhecer a pessoa louca que chamou a sua atenção. – Malfoy?!

Hermione foi de uma garota triste e cabisbaixa, para uma garota que exalava raiva em menos de meio segundo. Esse era o meu poder sobre ela. Eu podia ser irritante a ponto de mudar o seu humor mais rápido do que qualquer outra pessoa nesse mundo.

– O que você está fazendo aí? Está me observando desde a hora que eu cheguei? – o seu tom de voz era ríspido, mas em seus olhos algumas lágrimas ainda deslizavam. – Está sentindo falta de levar um soco nessa sua cara de doninha irritante? – após dizer isso, a castanha se levantou com violência e caminhou em passos largos e firmes até o local em que eu estava.

A minha noite já havia valido à pena por ter conseguido chamar a atenção da garota que tanto protagonizava os meus sonhos. Se ela me desse outro soco agora, provavelmente eu me sentiria o bruxo mais sortudo de Hogwarts por ser o único capaz de irritar a sabe-tudo à esse ponto.

— Se me bater for o suficiente para você parar de chorar, pode me bater – eu levantei colocando-me em sua frente.

Ela parecia não entender absolutamente nada do que eu estava falando, era quase possível visualizar um grande ponto de interrogação em sua testa, e foi difícil não pensar no quão ridículo eu estava sendo naquele momento.

— Não estou entendendo... isso é uma espécie de brincadeira de mau gosto? – seus dedos limparam brevemente as lágrimas que ainda estavam em seu rosto. – Você está tirando sarro de mim, não está? Cadê seus amigos? Estão escondidos vendo tudo? – eu não conseguia desviar os meus olhos dos dela enquanto a ouvia.

Era hipnotizante encará-la, e isso poderia virar um hobby facilmente. A imensidão de seus olhos era o suficiente para que eu me sentisse completamente perdido ao seu lado e quando o primeiro empurrão me atingiu, eu não esbocei nenhuma reação.

— Você deve se achar o máximo, né? Mas na verdade você não é nada, Malfoy! – mais um empurrão, seguido de socos fortes contra o meu peito.

Conforme ela distribuía seus socos em mim, mais lágrimas se formavam em seus olhos e mais vontade eu sentia de abraçá-la para protegê-la do resto do mundo. Hermione estava magoada e o máximo que eu podia fazer por ela, era servir de saco de pancadas para que a castanha pudesse extravasar seus sentimentos.

De repente ela parou e cobriu seu rosto com suas mãos. Mais soluços a atingiram e aquilo foi o estopim para a segunda besteira da noite:

Envolvi meus braços pelo seu corpo pequeno, sentindo o calor do nosso contato e, imediatamente, Hermione desabou. A segurei com firmeza, impedindo que a castanha deslizasse até o chão e como se aquela cena estivesse sendo escrita por Merlin, sua cabeça encontrou conforto em meu peito, onde suas lágrimas começaram a rolar com mais intensidade.

Instintivamente a minha mão direita foi de encontro ao topo de sua cabeça.

— Por que você está fazendo isso? – entre soluços, ela me questionou.

— É complicado demais eu te explicar isso agora... – com certeza aquela cena ficaria gravada na minha memória pelo resto da vida.

Eu simplesmente não conseguia acreditar que estava vivendo um momento tão íntimo com Hermione. Ela não estava mais desferindo socos contra mim, ou até mesmo proferindo xingamentos. Estávamos ali, abraçados, sendo – ainda que indiretamente – o apoio um do outro.

Lentamente a castanha se moveu, passando a encarar meus olhos cinzentos com intensidade.

Seus lábios carnudos, avermelhados por conta do choro, estavam entreabertos e em seu rosto existia uma expressão indecifrável. Mais uma vez eu me encontrei hipnotizado por Hermione e pronto para cometer a terceira besteira da noite:

Encaixei minhas mãos em volta do seu rosto e encurtei a distância de nossas bocas. Esperei por um empurrão ou algo parecido com isso, mas nenhuma reação partiu de Hermione e aquilo foi o suficiente para eu realizar o meu desejo mais profundo.

Selei nossos lábios com delicadeza. Era possível sentir o gosto de suas lágrimas que ainda banhavam o seu rosto, mas que em um momento como àquele, não significavam absolutamente nada.

Senti as mãos pequenas da castanha irem de encontro à minha nuca e um pequeno choque percorreu o meu corpo ao notar que estávamos devidamente conectados.

Timidamente, nossas línguas se encontraram e começaram uma dança sincronizada e perfeita, como se de alguma forma elas já se conhecessem. Percebi os meus pelos se arrepiarem ao senti-la daquele jeito, nem em meus sonhos mais insanos eu me imaginei em uma cena igual à essa.

Beijá-la era viciante e eu não queria que aquilo acabasse.

Não sei precisar exatamente quanto tempo ficamos envolvidos nos braços um do outro, entretanto, mais cedo do que eu queria, a castanha se desvencilhou de mim e com os olhos arregalados, levou sua mão direta até a sua boca.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa à ela, Hermione correu novamente para dentro do castelo, deixando-me completamente desolado nos jardins de Hogwarts.

O que seria de mim depois desse beijo? Eu não sabia, mas tinha certeza de uma coisa: Aquele baile, que havia começado de forma tão trágica para mim, tornou-se o dia mais feliz de toda a minha vida.

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