Wintershock
17 Vislumbres e pesadelos
Notas iniciais

Era oito e meia da manhã do dia seguinte... E em meio a tantos prédios residenciais, havia um perto do local onde Darcy morava que estava abandonado e Bucky às vezes adentrava ao local para observar a movimentação, pois tinha de ser extremamente cauteloso por conta do que podia ter restado da HYDRA, e do governo americano que provavelmente estava a sua procura.
O local era estratégico. Havia apenas uma câmera de monitoramento e esta não podia mostrar muitos detalhes da rua, por causa do ângulo.
O soldado analisava minuciosamente tudo à sua volta. Estava sempre em alerta e pronto para abater qualquer um que chegasse perto.
Só abaixava a guarda para Darcy.
Naquele dia, especificamente, a garota voltava de Willowdale e notava que a mesma estava acompanhada de duas pessoas.
Conseguiu deixar o prédio sem que ninguém percebesse, e quando a Darcy ligou para avisar, ele já havia saído.
De longe e do alto do prédio abandonado, James observava tudo de longe.
A estudante abriu a janela e olhou para os dois lados da rua, como se estivesse procurando por ele.
Ela manteve a janela e a sacada do apartamento abertas.
Dali, ele pôde avistar as duas pessoas que a acompanhavam.
Um senhor, branco, alto e uma mulher de cabelos castanhos e compridos, da mesma altura de Darcy.
Supôs que ambos fossem Erik Selvig e Jane Foster, os superiores dela.
Não sabia muito sobre os dois. Apenas que tiveram um papel essencial num evento estranho em Londres.
Depois de permanecer um tempo ali, resolveu descer para uma das salas do prédio abandonado.
A porta estava trancada, mas ele tinha seus truques para entrar.
Quando fechou a porta atrás de si, andou para um cômodo do local em que resolveu deixar as armas que estavam consigo no dia em que encontrou com Darcy em Washington DC.
Uma pistola e um sniper rifle.
Havia pouca munição em ambas as armas, mas era tudo o que tinha sobrado de quando deixou Washington.
Bucky caminhou até a janela do prédio e posicionou o rifle na base. Havia uma mira e ele podia visualizar muito bem um alvo e abatê-lo, mesmo naquela distância.
O soldado mirou até a janela do apartamento de Darcy e centralizou o ponto exato onde ela estava.
Conseguia observar os gestos dela pela mira, mas não tinha ideia do que estava falando.
Após um longo tempo, a garota saiu do seu campo de visão e ele deduziu que os três estavam saindo do prédio.
Foi então que a estudante se despediu de seus superiores e os dois finalmente foram embora.
A garota olhou para todos os cantos e James já sabia que ela procurava por ele. Então por ora, poderia retornar e deixaria suas armas ali, escondidas num assoalho falso que servia de quando usaria aquelas armas, mas caso precisasse, elas ficariam ali, escondidas taticamente.
E em meio as armas, ele também mantinha uma mochila, com alguns acessórios estratégicos.
Uma corda com 30 metros, um binóculo, luvas, joelheiras, o colete a prova de balas de seu traje como Soldado Invernal e também sua máscara.
Mas havia outra coisa que decidiu carregar e isto era algo mais simples...
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Um caderno com todas as memórias que recuperou ao longo dos últimos dias que saiu de Washington com Darcy...
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Bucky passou a escrever todas as memórias naquele caderno... Lembranças fragmentadas de diversos lugares e épocas diferentes...
Cenas fora de contexto, que não faziam o menor sentido, mas que poderiam ser esclarecidas ao longo do tempo.
Dentre elas, a imagem da mulher que lutou ao lado de Steve na ponte.
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Imagens da Viúva Negra em um ambiente escuro em tons avermelhados...
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Eles estavam lutando e em um momento, se recordou de ter cercado a ruiva, através de uma chave de braço...
Ele também se recordou que aquela mulher era uma bailarina...
E também uma ilustre lutadora, que possuía diversas habilidades que nenhum outro soldado tinha.
Mas enquanto se recordava daquela cena, outras começaram a surgir... E dentre elas, uma cena onde atirou nos pneus de um carro, que poucos segundos depois caiu de um penhasco...
A mesma mulher que enfrentara na ponte com Steve, estava ali e segurando um homem... Que não se recordava quem era.
E então, Bucky atirou no tal homem, através dela...
Não conseguia entender por quê, mas sabia que era uma missão designada e extremamente importante.
O soldado chacoalhou a cabeça, um pouco tonto e confuso pelas recentes lembranças, mas no ímpeto de voltar à realidade, olhou para a janela novamente e percebeu que Darcy ainda estava ali, procurando por ele...
Rapidamente, se retirou dali e se dirigiu para onde a estudante estava.
A garota apenas viu Bucky cruzando a esquina de sua rua e então acenou para ele.
Era um pouco estranho encontrar com Bucky depois de ter lido livros sobre seus atos heroicos e visto diversas fotos de como o soldado era na década de 40.
Darcy não conseguiu olhar nos olhos dele e nem mesmo ela entendia o porquê.
Teria de esperar o dia passar e torcer para que tudo voltasse ao normal, afinal...
Não podia permanecer entorpecida por causa de suas fotos como sargento James Buchanan Barnes.
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Os dois voltaram para o apartamento e Bucky observou Darcy em sua frente, na sala, anotando algumas coisas em uma agenda.
A luz do sol da manhã batia em seus cabelos através da janela aberta...
Seus longos cachos eram acariciados pelo toque da brisa suave...
A luminária da escrivaninha estava acesa ao lado de uma das prateleiras repleta de livros, iluminando levemente ao redor...
Jornais, um livro de capa preta, vários papeis de carta e margaridas incrivelmente amarelas dentro de um vaso de cristal, se remexiam delicadamente com o soprar do vento...
O aroma do chá de amora podia ser sentido...
Era um ambiente tão pacífico... E James às vezes se sentia descolado de tudo aquilo... Da casa de uma estudante universitária que vivia uma vida normal...
— Hey, me desculpe por ter te avisado de última hora que o Erik e a Jane vinham. Foi tudo muito repentino. – Ela iniciou uma conversa, se explicando, mas ainda sem olhar nos olhos do soldado.
— Tudo bem... – Retorquiu pacificamente, embora suas recentes memórias tivessem lhe deixado um pouco desconfortável.
— E você está bem? Conseguiu dormir? – Ela o indagou, curvando a cabeça e...
Bucky percebeu manchas um pouco roxeadas e esverdeadas em torno de seu pescoço...
O Soldado estreitou o olhar, fitando o local com extrema discrição, para que a garota não percebesse...
Se perguntou se aquelas manchas estavam ali por conta do aperto que sua mão de metal acabou fazendo no pescoço dela, da vez em que perdeu o controle de sua mente e ela interviu...
— Sim... Com um pouco de dificuldade... – Ele respondeu discretamente a pergunta sobre seu sono, porém, ainda analisando o pescoço feminino.
— Eu não imagino como isso deve ser, afinal, eu tenho sono pesado, e o mundo pode estar acabando, que eu vou morrer dormindo, hahaha!
O tom de voz dela era de pura animação.
Ele podia perceber que Darcy tinha um entusiasmo natural e uma vontade gigante de viver... Ela esbanjava uma energia aconchegante e quente... Algo que ele não tinha e talvez nunca pudesse ter.
Mas não poderia se perdoar se ele a tivesse machucado... não tinha certeza se aquelas manchas foram consequências do dia em que perdeu o controle.
Teria de investigar...
— Você precisa se animar! Tem que aproveitar a sua vida, agora que saiu das garras da HYDRA! – A garota interrompeu seus pensamentos, com a típica agitação em sua voz.
— Você faz parecer tão fácil... – O tom frio e habitual de Bucky era notável. Ainda não confiava em si mesmo.
— Viver nesse mundo é tão efêmero quanto piscar... Pense nisso.
O soldado invejava a forma como ela enxergava o mundo. Era tudo tão rápido e simples, mas... As coisas não funcionavam dessa forma para ele.
— Quantos anos você acha que vou fazer? – A indagou, repentinamente.
— Hmmm... 97, certo?
Ele estranhou. Como ela poderia responder aquilo tão facilmente? O quanto Darcy sabia sobre ele? Ela tinha conseguido seus arquivos, mas será que analisou tudo tão detalhadamente? Era um tanto estranho, porém, ignoraria por ora.
— Exato... Não foi efêmero no sentido literal...
— E daí?
— Passei décadas congelado... A sensação foi efêmera, mas recobrar a consciência depois de todos esses anos, com tantos eventos importantes ao redor do mundo acontecendo e... ter ficado esse tempo dentro de uma câmara criogênica... Não é algo fácil de assimilar depois de tudo...
— Qualquer um se sentiria assim, mas agora que você está de volta, precisa fazer a sua vida valer a pena e você tem todo o tempo do mundo pra decidir.
— Eu não posso ficar aqui por muito tempo... já te disse antes...
— Você pode ter a aparência de um homem no auge da idade, mas tem a alma de um senhor idoso...! Relaxa! Será que não pode haver uma sincronia do seu corpo com sua mente? Porque eu diria que é um baita desperdício... – A garota afirmava descaradamente, se referindo à aparência do sargento.
— Você ainda é muito jovem... Não devia fazer esse tipo de comentário para um homem mais velho.
Darcy parou imediatamente o que estava fazendo, lançou um olhar desacreditado para o mesmo e permaneceu encarando-o, perplexa.
Incomodado, Bucky apenas a encarou de volta.
— Por que está me olhando dessa forma?
— Por que você está falando como se realmente fosse um senhor de 97 anos, e claramente você não é!
— Lewis... Você sabe que sou de outra época... Eu não vou simplesmente mudar o que sou na essência... Pelo menos o pouco que descobri ser sobre o Sargento Barnes...
— Diga o que quiser, porque pra mim você é só um soldado de... 27 anos... Mas não importa que na identidade tenha 97...
— Isso não é estranho pra você?
— Não. Nem um pouco. – A estudante afirmava, despreocupadamente.
Abismado, Bucky não entendia seu raciocínio.
— Você não se importa que eu seja muito mais velho? – A pergunta inocente a pegou de surpresa, e ela o fitou, se perdendo no azul pálido e tênue de seus olhos...
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— Eu sempre tive uma queda por caras mais velhos...— E um sorriso terno e sincero, floresceu em seus lábios.
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Os olhos dela pareciam quebrar as paredes que ele ergueu para que não descobrisse seus pensamentos.
Mas Darcy não era invasiva e não o forçava a absolutamente nada.
E ele se sentia tranquilo pela postura dela.
— Você é uma garota estranha...
— Sou sim. Sou uma espécie de bagunça, que se arrumar desarruma. – Retorquia, enquanto seguia anotando em sua agenda coisas que ele não tinha ideia.
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Ele a deixou sozinha, e então a garota tirou da mochila, vários documentos que recolheu sobre o passado do Sargento, quando esteve na biblioteca da universidade de Culver.
Fotos, livros, jornais e até mesmo alguns vídeos.
A estudante aproveitou que ficaria sozinha, e analisou todo o material, mais uma vez.
A vida do Sargento James Buchanan Barnes era realmente... fascinante... Um típico homem, no auge da juventude... forte, corajoso, galanteador...
Ele era um soldado muito bonito... Suas fotos mostravam isso. Aquele corte de cabelo masculino, típico dos anos 40, ficava bem nele...
Darcy não conseguia despregar os olhos de todas aquelas fotos de novo... como na biblioteca da universidade... e se alguém a visse fazendo aquilo, diria que estava apaixonada por ele...
Mas tudo o que a mesma queria era apenas deixar todo aquele material ali, para ele.
Era um tanto estranho ver todas aquelas fotos e saber que James estava ali, com ela... Um choque de realidade parecia lhe eletrocutar quando pensava que dividiam o mesmo apartamento.
E também...
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Tinha a estranha sensação de ter sonhado com ele há dois dias... Mas não conseguia se recordar do sonho...
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Sem perceber, seu telefone tocou, lhe tirando daqueles devaneios no mesmo instante.
Seu novo toque agora era...
O refrão de The Evil that men do – Iron Maiden.
Uma mudança radical, se assim pudesse julgar.
A vontade agora não era de dançar, mas sim de banguear.
Céus... Ela era idiota por colocar um toque daqueles? Qual seria a próxima vontade quando seu telefone tocasse? Pegar uma vassoura e fazer de guitarra?
No visor da tela... Kimberly Campbell.
— Alô, Kim...?
— Darcy, como estão as coisas? A gente vai sair esse fim de semana?— Sua melhor amiga estava um tanto empolgada para sair e leva-la consigo para chaparem.
— Hmm... Acho que não... estou super desanimada...
— O QUÊ!? MAS VOCÊ PROMETEU SAIR COMIGO!!!
— Bem... minha vida anda tão corrida... não tenho dormido direito por causa do TCC...
— Pare de inventar histórias! Nós vamos sair sim! Eu te pego às oito!— A loira se encontrava virada no Jiraya, completamente hell in fire por levar diversos “NÃO” de sua amiga desde que a mesma voltou de Washington e passou a dividir seu apartamento com Bucky Barnes.
Quem aquele soldado de meia pataca pensava que era? Ela não estava disposta a dividir sua amiga com ele.
— Mas Kim-
— Sem desculpas, Darcy! Ou vou contar para os seus pais que você está dormindo com um espião nazista!
— O-O QUÊ!? TÁ MALUCA!!?
— ESTÁ AVISADA! PASSAR BEM!
*Beeep*
E então, Kim desligou na cara de Darcy, deixando-a no vácuo.
— Eu mereço...
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Na madrugada daquele mesmo dia, o clima ainda estava um tanto gélido. O vento oscilava lá fora, assobiando levemente por trás das vidraças da janela.
Darcy se encontrava em sua cama, tendo um pesadelo sobre os últimos livros que leu sobre comunismo.
Várias pessoas em um campo de trabalho forçado da União Soviética...
O Gulag...
O frio infernal, as condições de trabalho extremas, a fome, os abusos por parte dos guardas, as mortes causadas por doenças e os terríveis suicídios, cuja narração foi feita por um ex-prisioneiro e descritas com perfeição e detalhes em um livro, lhe aterrorizou a ponto de se mexer de um lado para o outro na cama.
O pesadelo era completamente desconexo. Havia cenas em que tudo estava pintado de vermelho... Que mais parecia sangue...
A estrela que representava a URSS... O símbolo da foice e o martelo... Episódios de coisas que leu e que mais pareciam um filme retrô, com toques de vintage e formas psicodélicas... Se estivesse acordada, diria que tais imagens tivessem saído exatamente da Deep Web.
E então, a garota finalmente acordou, assustada.
Seus olhos se arregalaram e percorreram desesperados por todos os cantos de seu quarto.
Sua respiração estava pesada...
— Céus... Que raios de pesadelo foi esse!? – A estudante dizia enquanto tentava assimilar a realidade à sua volta.
Chacoalhou a cabeça, afastou seu edredom, levantou rapidamente da cama e logo foi para a cozinha, procurando por água.
Em rápidos passos, com muito medo das imagens de seu pesadelo, Darcy praticamente voou na direção da geladeira para pegar a jarra de água e-
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— AAAAAAAAAAAAAAH!
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Seu grito foi tão alto que fez com a jarra de vidro com água caísse no chão e os vizinhos da frente ligassem a luz e abrissem a janela, preocupados com o estardalhaço.
— MAS QUE PORR-
— Por que você está gritando...?— A típica voz gélida do Soldado Invernal pôde ser ouvida por trás e a estudante ficou petrificada.
— Deus... Eu imploro... TIRE ESSAS MALDITAS IMAGENS DA UNIÃO SOVIÉTICA DA MINHA CABEÇAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
A garota gritou tão alto, mas tão alto, que fez com que Bucky recuasse dois passos para trás.
O sargento ficou assustado, observando Darcy com as duas mãos na cabeça, bagunçando desesperadamente seus cabelos e pulando de um lado para o outro.
— Você está bem...? – Bucky perguntava, no ímpeto de entender porque do nada e aquela hora da madrugada a estudante começou a ter ataques que nunca tinha presenciado na mesma antes.
Havia vários estilhaços de vidro e muita água no chão.
Ela o encarou, totalmente furiosa e com o semblante queimando em cólera.
— A culpa é sua! – Seu dedo indicador, apontava para ele.
— Minha...? – Perdido, não sabia o que dizer.
— Sim! Olhe pra essa maldita estrela no seu braço!!! – Bradava em alto tom e apontando para o braço metálico.
— O que tem a estrela...? – O tom inocente do mesmo, causava ainda mais raiva nela.
— Você acha que eu não sei!? Essa estrela é um dos maiores símbolos comunistas!!! – E então, Darcy começava a bagunçar freneticamente seus cabelos mais uma vez.
Ele não tinha ideia do porquê a garota estava dizendo todas aquelas coisas tão repentinamente. Não entendia qual o contexto.
— E por que todo esse alarde? – Dessa vez, o tom de voz dele havia mudado, e logo a estudante percebeu que não parecia uma pergunta inocente, mas uma chamada para um debate.
— Você quer mesmo que eu cite as milhares de páginas das dezenas de livros, documentários, reportagens e fotos que já li e vi sobre isso? – O olhar de Darcy era de irritação.
— Não... Eu não sei o que você leu, mas não deve ser sobre tudo o que eu sei. – Bucky também parecia bastante convicto.
— Ooh, é mesmo? E o que você sabe? O ponto de vista de um norte-americano que lutou contra os nazistas e logo depois foi escalado pelos Estados Unidos para todas as outras guerras em diversos países durante a guerra fria, ou a imposição de um bando de espiões loucos que apagaram as suas memórias para implantarem as missões deles...?
Darcy o fitava com furor. Seu tom indelicado e suas palavras ríspidas não era habituais e ele não sabia que ela podia agir daquela forma, mesmo depois de ser tão gentil com ele, na maior parte das vezes.
— Você pode estar certa sobre a lavagem cerebral... Mas o seu ponto de vista é baseado apenas na visão ocidental, que os americanos disseminaram todo esse tempo. As coisas não são exatamente como você acha que são. – Redarguiu, ponderado. Ele jamais entraria num debate sobre comunismo e capitalismo com ela. Não queria tomar partido de nada naquele momento de sua vida. Acabara de escapar da HYDRA e estava recuperando suas memórias como James Buchanan Barnes.
A reação de Darcy, mais uma vez, foi inédita.
Ela sorriu, muito maquiavélica e seu riso era regado de deboche.
— Sinto muito, Barnes, mas... Você acha que eu não li nada sobre a visão dos comunistas? Você sabia que os livros que mais li, foram do lado que mais tenho críticas?
— Se conhece tanto o lado que você diverge, deveria saber que o ponto de vista ocidental sobre tudo isso, no geral, é no mínimo, exagerado... – Rebateu, e Bucky sabia que todas as ideias que a KGB implantou em sua mente estavam bem mais sólidas do que as memórias de seu passado como o Sargento James Buchanan Barnes, patriota e melhor amigo do Capitão América.
— Exagerado...? Sabe o que é exagerado...? Dizer que depois de ler tanto material sobre revolução, comunismo, marxismo, e suas variantes, a visão ocidental é exagero. Se bem sei, no mundo da espionagem, você precisa estudar os principais pontos de seus adversários. E foi o que eu fiz. Estudei muito mais coisa do que você pensa e tirei minhas próprias conclusões. – O semblante de Darcy era de pura cólera. Seu cenho estava franzido e seus lábios estreitados.
Bucky ficou em silêncio e observava o jeito como o cabelo dela estava enrolado, cobrindo parte de seu queixo e repousando na curva de seu pescoço, emoldurando o belo rosto que se encontrava com uma expressão rancorosa.
Os americanos sempre odiaram os soviéticos e seu regime... Capitalismo e comunismo eram tão distintos quanto água e óleo.
Era algo incomum e o Soldado não entendia porque a garota estava agindo daquela forma e aquela hora.
— Você teve um pesadelo?
— Como adivinhou? – Darcy já havia dado as costas pra ele e ido pegar um pano para secar o chão e uma pá para recolher o vidro quebrado.
Havia apenas um abajur aceso e a luz fraca não iluminava nem metade da cozinha.
O braço metálico refletia a luz amarela, fazendo o metal quase parecer dourado.
— E o que você sonhou...? – Contestou, no ímpeto de entender o mau-humor da estudante.
— Sonhei com pessoas presas num GULAG, morrendo aos montes. – Ela dizia, enquanto recolhia os estilhaços de vidro com uma luva.
— Você não acha que o Gulag tenha sido o único lugar em que os soviéticos torturavam inimigos do governo, certo?
— Claro que não. Quando as pessoas não morriam de fome, estavam sendo fuziladas e sendo jogadas em valas. E alguns inimigos que eram presos, eram forçados a confessar seus “crimes” e sentenciados à morte.
A partir daquele momento ele não tinha dúvidas. Darcy sabia de muita coisa sobre a URSS.
— E o que mais você sabe?
— Ah, francamente! Eu não vou ficar aqui dizendo sobre o que quero esquecer! Esse pesadelo mais parecia uma versão piorada daquele jogo Sad Satan! Eu não quero mais falar sobre isso!
— Você quer ajuda?
— Não. Eu já terminei. – E então, a garota jogou os cacos de vidro dentro de uma caixa de papelão ao lado do lixo e tirou as luvas logo em seguida.
Por que você está acordado a essa hora? – A estudante indagou, exprimindo muita irritação, pois deixou a jarra de vidro cair no chão justamente porque se assustou com a presença dele atrás dela.
— Eu... Preferi não dormir hoje...
— Ah sim, você não dorme às vezes... Faz sentido... Mas da próxima vez, por favor, acenda a luz e não se aproxime sorrateiramente como um espião da KGB, caso contrário, vou derrubar a geladeira da próxima vez.
— Me desculpe... – Bucky ainda estava um tanto espantado em como Darcy agia de modo inexplicável em certas ocasiões.
E após longos segundos, ela parou e ficou de frente para James, olhando no fundo de seus olhos.
— Só queria dizer aos espermatozoides que apostaram corrida comigo na hora de fecundar o óvulo, que eles não perderam tanta coisa assim não...
O soldado continuou imóvel, fitando-a um pouco desacreditado com o que acabara de ouvir. Darcy não fazia sentido... Ela era uma incógnita que não conseguia entender e que lhe surpreendia muitas vezes, no mal sentido, principalmente, pois não se recordara de nenhuma mulher que agisse tão excentricamente... E ele tinha certa curiosidade sobre o jeito de ser dela.
— Boa noite. – E então, a estudante caminhou em lentos passos, rumo ao seu quarto.
Não fazia sentido uma americana debater política com um ex-agente nazi-soviético...
Ao perceber que a garota fechou a porta do quarto, ele suspirou um pouco aliviado, porque...
Estava de saída naquele exato momento...
Bucky passou a sair secretamente do apartamento, de vez em quando, sem que a garota soubesse.
Tudo começou quando o soldado encontrou um bar aos arredores que funcionava somente de madrugada.
Ali, havia todo o tipo de pessoas estranhas... homens e mulheres...
E de alguma forma, muitos tentavam esquecer a tristeza de suas rotinas maçantes.
Alguns fugiam da família, outros do trabalho e outros de problemas do cotidiano, a ponto de se enfiarem em bebidas e até mesmo outras drogas ilícitas, apenas para terem um pouco de paz.
Um dos motivos que lhe fazia parar naquele lugar de tempos em tempos era o fato de ser um local amplo, de dois andares, repleto de pessoas que também queriam esconder suas identidades, desenvolverem algum diálogo casual e livre de coisas que lhes comprometessem, repercutindo em algo que não tinha propósito algum. Era apenas o hoje e o agora.
Havia muitas coisas que prendiam a atenção de James naquele local...
Fliperama, sinuca, jukebox, roleta de drinks, cartas, dominó e até dardos.
Jogar dardos nos alvos era o que mais gostava de fazer, por causa de sua mira excepcional.
De certa forma, aquele local o lembrava das reuniões que costumava ter com seus amigos, em vários bares de Nova York na década de 40, antes da guerra, e depois em Londres, entre suas missões com o Comando Selvagem ao lado de Steve, durante a segunda guerra.
Mas mesmo assim...
Algo que sempre o deixava incomodado era o fato de chamar a atenção de algumas mulheres.
James sempre era um alvo para elas.
Algumas, se aproximavam, estabeleciam contato, desenvolviam um diálogo regado a mistério, atração e lascívia, e por último, tentavam desesperadamente leva-lo para o motel mais próximo, com o único objetivo de terem uma noite de prazer.
Era obvio que recusava todos os convites. Não conseguia confiar em ninguém que não fosse Darcy, mesmo que se sentisse tentado a ceder ao jogo de sedução de algumas delas.
Se recordava que passou por momentos assim ao lado de muitas mulheres de seu passado, embora não soubesse exatamente quantas.
Mas todas eram iguais... sempre atentando apenas para sua aparência e quase nada para seu caráter. As exceções em meio às regras, não seriam encontradas num ambiente como aquele, segundo seu ponto de vista em meio à sociedade de sua época.
Bucky dividia as mulheres em dois grupos, conforme o que tinha em mente, fruto de uma criação e educação conservadora do século 20, aos moldes de uma sociedade nada liberal nos costumes.
Grupo um: mulheres para aventuras momentâneas.
Grupo dois: mulheres para casar.
Havia apenas uma mulher que não se encaixava em nenhum desses dois grupos.
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E ela se chamava Darcy Lewis...
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Darcy era doce, ingênua e extrovertida o suficiente para não se ter um lance casual.
E era louca, ousada e inconsequente demais para se casar.
A estudante era a única mulher na face da terra com quem não se envolveria. Tinha certeza disso... Não porque ela não fosse bonita e interessante, mas porque sua excentricidade passava do normal.
Ainda mais depois do diálogo que tiveram a poucos minutos... mostrando uma Darcy extremamente capitalista e com pavor da antiga União Soviética...
Porém, mesmo se recuperasse sua vida e voltasse a ser um homem comum... a garota estava completamente fora de seu radar...
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Longe dali, no dia seguinte, Steve e Sam andavam por várias cidades, a procura de pistas sobre Bucky.
Dessa vez, a dupla se encontrava numa lanchonete no centro de Harrisburg, capital da Pensilvânia, outro lugar provável que o Soldado Invernal poderia ter passado, caso tivesse se locomovido para os estados vizinhos.
Como sempre, não encontraram nada. Não havia rastros sobre onde seu antigo companheiro podia estar.
Os dois lanchavam no local, que não se encontrava muito movimentado.
— Já estamos nisso há algum tempo e nada... não seria melhor procurarmos outra forma? – Sam sugeria, enquanto filava seu sanduíche.
— Eu não sei... Acho que ele pode ter saído do país... estamos muito longe de encontrar outra forma de achar a localização exata. – Steve replicava, completamente perdido.
— Você sabe que pra termos a localização exata dele, temos que quebrar alguns protocolos, não é...? – O Falcão se referia a uma forma ilegal de se conseguir as pistas que precisavam.
— Não vou usar métodos que contrariem as leis... – O Capitão América não usaria de artifícios ilícitos na busca por seu amigo. Sua conduta ilibada sempre foi o seu norte.
— Bem, então acho que vamos demorar alguns meses, ou talvez anos pra encontra-lo. Mas por mim tudo bem. – Sam dizia, enquanto terminava de tomar seu refrigerante.
Steve lançava um meio sorriso para o seu mais novo e fiel amigo. Mesmo procurando por Bucky, saber que tinha alguém com quem contar, confiável e que passou por experiências semelhantes a ele, era reconfortante.
A pessoa mais próxima que teve em circunstâncias iguais, foi Natasha... Mas a Viúva Negra não era alguém tão transparente como Sam...
— E a Agente Romanoff? Alguma notícia dela?
— Nada. Ela não vai entrar em contato por muito tempo, a menos que algo urgente aconteça. – O loiro redarguia, tranquilamente.
— E quanto ao Fury?
— Muito menos ele.
— Hmm... e os seus companheiros da batalha de Nova York? Algum sinal deles? – Sam se referia ao grupo que salvou a terra em 2012.
— Os Vingadores...? Esse termo foi inventado pelo Fury e o mundo comprou a ideia, nos chamando assim. Não há nada formalizado sobre esse grupo e eu não os vejo há algum tempo.
— Mas uma invasão alienígena não é algo corriqueiro. E se alguma coisa semelhante acontecer de novo no futuro? – Sam contestava, um tanto intrigado.
— Se acontecer... acho que o Stark viria atrás de mim. – Steve sorriu.
Os Vingadores estavam separados desde a batalha de Nova York e ele não tinha ideia de quando se reuniriam outra vez... Mas enquanto pensava sobre aquilo...
Seu telefone vibrou em seu bolso.
Quando retirou o aparelho, a chamada foi identificada.
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No visor... “Maria Hill”.
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O loiro atendeu de imediato.
— Sim, Hill?
— Rogers, onde você está?
— Em uma missão... e você?
— Também estou em uma. Você está disponível?
— Do que se trata? – O Capitão não respondia às perguntas da ex-agente diretamente. Sabia como lidar com questões como aquela, sem que precisasse dizer absolutamente nada a respeito.
— Estou ligando a pedido de Tony, Bruce e Thor. Eles pediram para entrar em contato com você.
— Eles...? Mas por quê? – Steve estranhou. Os três maiores Vingadores da equipe estavam atrás dele?
— Precisam de você. É uma missão muito importante.
— Que missão?
— É sobre-
A voz de Maria Hill foi interrompida e o loiro apenas ouviu alguns ruídos no fundo, dificultando a ligação.
Tudo o que conseguiu entender foi: “Me dá esse telefone aqui.”.
“Você não pode tomar o aparelho da mão dela desse jeito, Tony. Pare de agir como uma criança.”
“Você não pode desligar.”
Sam observava a feição confusa de Steve.
— O que tá pegando? – O falcão o indagava, curioso.
— Não tenho a mínima ideia... – Steve retorquiu, sem saber o que estava acontecendo, até que...
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— E aí, Capicolé? Tudo certo? Aqui é o Tony. Será que você pode nos dar um minuto de seu precioso tempo?
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Stark estava na linha? O que havia de errado?
— Sim... pode falar... – Se encontrava um pouco perplexo, mas não demonstraria. Não falava com o Homem de Ferro a mais de dois anos.
— Precisamos que venha até Nova York, agora. – O bilionário foi direto ao ponto e Steve arqueou uma sobrancelha, indigestamente.
— Por que eu deveria ir até Nova York?
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— Porque descobrimos com quem está o cetro do Loki.
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