Winterfall
6 Epílogo
Notas iniciais
Seis anos depois
O grito de dor ecoou mais uma vez pelos cômodos silenciosos da grande residência.
O dono dos sapatos lustrosos que transitavam inquietos pelo salão principal, exibiu um sulco fundo entre as sobrancelhas quando o som alcançou seus tímpanos.
— Por favor, não aguento mais ouvir seus passos inquietos – a ruiva entrou no salão suspirando teatralmente antes de exibir um sorriso de compaixão para o homem visivelmente perturbado, com um Q de irritação em seu semblante.
Sasuke nada disse, apenas deu as costas para a mulher, focando seu olhar na chuva que escorria pelas vidraças que exibiam a escuridão da noite já alta.
O som da chuva se misturou com outro grito e ele buscou inspirar fundo de olhos fechados para buscar a serenidade.
O turbilhão dentro de si estava se tornando enlouquecedor e a distância exigida em nada ajudava...
Seis anos antes, em 1853, Sasuke partiu de Winterfall como havia dito na noite anterior.
A neblina ainda ocultava partes do campo e o sol ainda não havia vingado o seu lugar no céu quando os sapatos alcançaram o cascalho da entrada.
Estava frio e um xale cobria Sakura, mesmo assim, o homem podia ver a ponta do nariz afilado vermelho pela temperatura.
Por mais que fosse uma despedida silenciosa e presa às formalidades da boa conduta, nenhum dos dois poderia dizer que os olhos não diziam tanto quanto suas bocas.
Ele viu os verdes brilharem com um desejo oculto para que ficasse, mas ambos sabiam que por mais que desejassem, a partida dele era inevitável, não apenas pelos seus negócios em Bath, mas pelo tempo que ambos precisariam para digerir o que havia ocorrido entre aquelas quatro paredes.
Nenhum deles sentia arrependimento. Confusão talvez, mas arrependimento, por mais que soubessem que esse sentimento seria o ideal para o momento, não alcançava nenhum daqueles dois; e eles descobriram o pensamento do outro quando seus olhares se encontraram depois de tudo – quando suas pernas e corpos estavam entrelaçados e as falanges percorriam com curiosidade o corpo nu do outro. Não disseram nada naquele momento, apenas ficaram em silêncio, deixando os olhares dizerem tudo naquele quarto escuro até a última vela se apagar e nem os olhos serem mais visíveis, no entanto, o corpo, a presença, a respiração, não deixava que se enganassem pensando que tudo foi uma ilusão.
Enquanto estava na carruagem, sentindo o sacolejar, se distanciando cada vez mais daquela residência de ar georgiano que já tanto testemunhou, ele sabia que Sakura ainda estaria na frente da residência vendo-o partir.
Um suspiro saiu dos seus lábios quando a cabeça pendeu para trás e na privacidade daquele transporte, Sasuke se permitiu fechar os olhos, pois todas as vezes que ele fechava os olhos, o Baronete se lembrava com perfeição dos toques, da maciez da pele, dos cabelos, do som sôfrego dito em segredo em seu ouvido ou da ardência infringida contra a sua costa larga enquanto consumava. O cheiro ainda impregnado em si não ajudava a esquecer, mas ao reabrir os olhos para o teto sacolejante, Sasuke percebeu que não queria esquecer e que seu retorno à Winterfall era inevitável; apenas precisava acertar tudo em Bath antes de se dar ao luxo de visitar sua cunhada mais uma vez.
Este foi seu pensamento nos primeiros dias e a certeza de que em breve receberia alguma notícia de Winterfall junto com as contabilidades que tinha que assinar – já que deixou tudo aos cuidados de Sakura com o porém de que priorizasse a sua saúde antes dos negócios – foi o seu bálsamo para continuar em frente, no entanto, ao fim da primeira semana, nada veio.
Suportou mais alguns dias naquele silêncio desconfortante do seu quarto a noite ou nos problemas que pareciam demandar mais tempo do seu patrão do que ele imaginava no princípio, até que numa tarde, quando retornava para casa caminhando pela calçada, ele viu a sua vizinha interesseira e a filha, paradas em frente à sua residência, conversando com alguém perto de uma pomposa carruagem.
Os passos pararam ao reconhecer a carruagem da Baronetesa de Winterfall e por um momento ele tentou crer que se tratava apenas de uma entrega de documentos, mas os olhos verdes que se voltaram para si, não deixou motivo para dúvidas.
— Baronete – foi cordial com um sorriso que era uma incógnita.
Com algumas apresentações formais e decerto, demoradas para os seus gostos, ele conseguiu levá-la para dentro, junto com a sua empregada, enquanto o cocheiro ia deixar a carruagem no devido lugar.
Deu-lhe o melhor quarto de visita, apresentou pessoalmente todos os empregados e todos os cômodos dos ricos três andares que era aquela construção de casas coladas em uma das principais ruas da cidade. Foi apenas quando estavam na biblioteca particular daquele Baronete, que a mulher quebrou o silêncio de frases voltadas apenas para a apreciação da decoração.
— Resolvi aceitar seu convite para vim a Bath – justificou sua vinda repentina. – Faz muito tempo que não venho a esta cidade – observou o trânsito de pessoas através das vidraças.
— Veio em ótimo momento. Está em alta temporada.
— Desculpe-me por não o avisar com antecedência sobre a minha vinda – foi sincera. – Diga-me se for incômodo, se esta for a verdade, irei alugar um apartamento para mim.
— És a minha família, não és? – Fitou os olhos verdes com seriedade, não esperando uma resposta de fato. – Então esta casa é tão minha quanto sua, senhora – repetiu o que Sakura havia dito uma vez para si. – Fico feliz por ter aceito o meu convite.
O sorriso de Sakura, por mais breve que fosse, era verdadeiro e Sasuke dedicou o restante do seu dia a ela. Era acolhedor ouvir o som das botinas seguindo ao seu lado, a voz feminina o atualizando sobre todos no jantar ou as discussões sobre os negócios que um dia foram de Itachi na biblioteca. Concordavam em alguns pontos, mas em outros discutiam, debatiam sobre pensadores, economistas e até matemáticos para basear suas posições. Não foram uma, duas ou três vezes em que um deles se ergueu para pegar algum livro e mostrar o seu ponto. Sasuke era um clássico, firme nas bases de Oxford, enquanto Sakura era uma revolucionária, com um olhar sempre a frente.
Em certo momento, enquanto a mulher lia com ênfase um trecho de um livro, ele se pegou imaginando que Sakura seria uma aluna difícil de se lidar em Oxford. Ela seria o perfil de estudante que questionaria tudo o que o professor ditasse como verdade, talvez até adentrasse e liderasse grupos revolucionários, tão diferente de como ele foi no passado, com todos os seus problemas familiares e jeito soturno.
Assim que terminou de ler com o colo já vermelho pelo calor da discussão foi que Sakura viu o olhar perdido e o sorriso de canto do homem.
— No que o senhor está pensando? – Questionou com curiosidade, o que só o fez rir pelo nariz.
— Sua curiosidade é espantosa.
Sakura bufou com o enunciado, se erguendo para devolver o livro ao seu devido lugar, mas a mão em seu pulso pediu em silêncio para que ficasse.
— Apenas estava imaginando o tipo de estudante que a senhora seria em Oxford.
Os verdes se tornaram evidentes com o dito, não esperava por aquilo, mas com postura, questionou:
— E qual seria?
— Irritante – um lampejo de raiva cintilou pelas esmeraldas antes dele continuar soltando o pulso feminino –, mas brilhantemente dedicada.
Sasuke conseguiu uma proeza naquela noite, deixar Sakura sem palavras.
Entorpecida, ela se ateve à tarefa de devolver o livro para a estante, escondendo o rosto quente do homem. Não queria que a vissem com um sorriso tolo devido ao elogio que a reconhecia como uma igual.
Era verdade que nunca estudaria em Oxford, que nunca teria as mesmas chances que um homem, que foi criada apenas para ser a senhora de um lar e mãe de futuros herdeiros, mas receber o reconhecimento daquele homem que um dia foi um grande desafio para si, foi uma das suas melhores conquistas e naquele momento, ela sentiu suas forças reavivadas para continuar com o caloroso debate, mas assim que retornou para o Baronete, ele anunciou que já era tarde e ela concordou que sim.
Sua empregada ajudou com a troca de vestes e em desfazer o penteado. Sakura estava sem sono, por isso a dispensou enquanto continuava a pentear os cabelos de frente para a penteadeira.
Sua mente divagava até o momento que dois toques pediram permissão para entrar. Foi com surpresa que ela viu seu cunhado com roupas mais leves entrar no seu quarto.
— Algum problema, meu senhor? – Questionou se levantando com postura, mesmo que estivesse sem o robe e aquilo a fizesse se sentir exposta.
— Apenas vim questionar se estava bem instalada.
— Sim – ela sorriu de forma larga. – Estou muito mais que bem instalada – riu um pouco antes do silêncio recair sobre os dois e a permanência masculina ser o sinônimo de que queria compartilhar mais alguma coisa.
— Eu... – tentou dizer com as mãos inquietas, mas desistiu quebrando a distância para puxar o rosto feminino para si.
A surpresa foi rápida, logo substituída pela correspondência e pelas mãos subindo pelos bíceps em direção à nuca masculina, o ponto de sensibilidade de Sasuke que ela descobriu da outra vez.
A resposta foi instantânea com o aperto dos braços masculinos ao seu redor.
Era errado? Perigoso? Arriscado? Talvez, mas isso pouco importou quando ela se sentiu ser deitada sobre a cama e o ver retirar a camisa ainda com o peito arfando.
Sakura arfou com a visão do homem iluminado parcamente. Sentiu o desejo de tocá-lo, de sentir a textura quente e firme do seu peito com rasos pelos negros como se nunca tivesse conhecido antes.
Ele é tão bonito. Sua mente divagou quando sua mão se esticou para tocá-lo, mas não precisou tanto, pois Sasuke mergulhou seu corpo de encontro ao dela, descendo a boca do seu pescoço até o colo que já se tornava rubro.
Senti-la mais uma vez se tornou uma droga que não poderia postergar por mais tempo e esta parecia ser a verdade para a mulher também, pois seu corpo se curvava para as mãos masculinas conseguirem retirar a sua peça de roupa.
Amaram-se sem culpa, sem depois, sem promessas, sem amanhã. Amaram-se até se satisfazerem e apenas o início do amanhecer o fazer voltar para o seu quarto antes que algum empregado os flagrassem deitados na mesma cama.
Talvez a situação em que estavam começando a se envolver devesse atrapalhá-los no bom convívio como parentes, mas de forma incomum descobriram que o que ocorria durante a noite e o dia, parecia apenas se fortalecer como um elo inquebrável.
Sasuke passou a se dividir entre as tarefas do trabalho e a dedicação à sua cunhada.
Passou a acompanhá-la nos passeios matinais ao balneário, às compras, as campinas verdejantes. Passou até mesmo a levá-la para os eventos da sociedade que na solidão da sua vivência em Bath, já não sentia vontade de vivenciar.
Levou-a aos teatros onde na escuridão e privacidade do camarote fazia-os cochichar sobre a história transcorrida ou Sasuke segurar a mão feminina com força sem que alguém estivesse por perto para incriminá-lo como impróprio.
Foram aos Salões onde Sakura se mostrou mais uma vez como uma presença inolvidável. Homens a cortejavam, mulheres a invejavam ou desejavam serem suas amigas, mas Sakura era cética, e gostava de manter como amigos apenas os seus verdadeiros nos condados próximos de Winterfall.
Foi um tempo em que Sakura se sentiu verdadeiramente feliz e até mesmo esbanjava largos sorrisos para Sasuke que se dedicava a observar todos. Sakura até mesmo se divertia e conseguia identificar o olhar de desgosto toda vez que algum pai ou mãe discretamente ofertavam a filha para o novo Baronete, no entanto, ela sempre ia ao seu socorro conseguindo tirá-lo com alguma desculpa ou apenas com a sua bela presença que fazia a mocinha se retirar.
Aquela relação não passou despercebida pelos demais. Achavam-nos um casal muito bonito, mas a mulher velha demais para ser desposada, além das vestes denunciarem que era uma rica viúva, mesmo assim, os membros da família Uchiha não passaram despercebidos e em três semanas se tornaram um dos assuntos prediletos dos chás das cinco de Bath, principalmente em se tratando de um homem tão soturno como o Baronete que nunca havia sido visto acompanhando tão assiduamente uma dama da sociedade.
Talvez aquilo devesse incomodá-la, mas quando Sakura sentia um braço forte rondando sua cintura na cama, ela simplesmente se esquecia de tudo...
— O que está lendo? – Questionou se acomodando melhor ao corpo feminino. Não pedia mais permissão para entrar a noite, dando-o a oportunidade de entrar sorrateiramente e se esgueirar pela cama que conhecia tão bem para abraçá-la. Por vezes se perguntou porque não se mudavam de vez para o seu quarto ao invés de ficarem indo para o quarto do outro quando a noite caia. Sua cama era maior, mais confortável e por mais que aquele lugar devesse permanecer imaculado como um recanto do matrimônio, ele não se importou de arrastá-la mais de uma vez para lá e até mesmo refletiu sobre como as cores suaves daquela mulher contrastavam tão bem com o enxoval de tons escuros do seu quarto.
Cada vez mais a ideia de desposar alguma mulher ficava mais distante dos seus pensamentos mesmo com os ditames da sociedade.
— Um romance – acordou para a voz suave enquanto ele apoiava a cabeça e reconhecia um enredo que sua mãe gostava.
— Uma história de amor? – Questionou-a surpreso. Já estava acostumado a vê-la com grandes livros acadêmicos, sempre interessada por aprender mais.
— Não posso gostar de romances de diversos gêneros? – Brincou sorrindo.
— É claro que pode, Sakura – ele beijou o ombro desnudo pela roupa de dormir, antes de se aconchegar melhor e envolve-la com mais propriedade. – Apenas fiquei surpreso pelo seu lado feminino na literatura – brincou, fazendo a mulher depositar um tapa no braço masculino antes de rir se deixando ser abraçada.
Continuou com a leitura até perceber que a respiração de Sasuke estava pesada no seu pescoço. Ele estava dormindo e aquilo a surpreendeu.
Deixou a leitura de lado para observá-lo por cima do ombro.
As bolsas escuras nos seus olhos denunciavam que teve um dia cansativo no trabalho e tudo que almejava era dormir, mesmo assim, após todos os dias em que Sasuke ou ela buscavam os braços do outro, não houve um dia em que apenas se deitassem para dormir juntos, nem mesmo quando era casada com Itachi; cada um tinha seu quarto e só buscavam o outro para a convenção de buscar um herdeiro.
Era a primeira vez que dormia junto com um homem sem uma entrega de corpos e isso a fez sorrir para o homem que havia ido até ali para dormir abraçado a ela.
Ficou algum tempo acordada, desenhando cada detalhe do rosto masculino antes de adormecer nos braços de Sasuke.
O dia seguinte prometeu ser melhor do que o anterior. Sasuke acordou descansado e com cheiro feminino ao seu redor. Resolveu não acordar a mulher, pois parecia estar em um sono profundo, por isso, com um beijo na cabeça, ele se despediu e foi fazer suas tarefas diárias. Saiu cedo para o trabalho e passou a manhã inteira em uma reunião de negócios, foi só pela tarde que voltou para casa, no entanto, a carruagem da Baronetesa na porta de casa foi um anúncio de que algo estava errado.
Mal teve tempo de escutar sua governanta informar que a Baronetesa havia passado mal pela manhã enquanto subia as escadas com pressa para alcançar o quarto de Sakura em um rompante. No entanto, as malas fechadas sobre a cama o deixaram sem reação.
Um olhar para a empregada a fez sair em completo silêncio, foi com postura que a mulher se posicionou diante do Baronete estático.
— Irei partir para Winterfall.
— Disse que ficaria aqui por cinco semanas, ainda estamos entrando na quarta – tentou se manter sério, mas a velocidade com que as palavras saíam denunciaram que ele não estava disposto a deixá-la ir sem uma boa explicação. – Disseram-me que passou mal. Não deve partir agora. Devemos chamar um médico ao invés de fazer uma longa viagem.
— Eu já chamei, Sasuke – o chamou pelo nome, um privilégio que se deram para quando estivessem a sós. – Eu estou grávida.
A sentença o desarmou. A incredulidade se espalhando pelas feições sempre tão sérias.
— Eu sempre imaginei que eu não pudesse ter filhos – abriu as mãos explicando para o homem incapaz de falar. – Quando me casei com seu irmão e não engravidei, busquei a ajuda do Doutor Morgan e ele me explicou que talvez a dificuldade de gerar uma criança fosse devido a doença de Itachi, por algum tempo eu acreditei e pedi que algum milagre ocorresse até eu descobrir que Itachi tinha uma filha – o semblante de tornou sério. – Naquele momento eu acreditei que eu era o problema, que eu não poderia ter filhos e eu sempre quis ter filhos. Eu nem ao menos me preocupei com a possibilidade de engravidar quando me envolvi com você, mas veja só Sasuke – pôs as mãos sobre o ventre ainda sem sinais de gravidez. – Eu estou grávida, Sasuke! E provavelmente data das nossas primeiras vezes juntos.
"Eu não vou exigir nada de você. Eu não quero atrapalhar um possível casamento que talvez você tenha. Não foi intencional, mas a verdade é que eu quero essa criança Sasuke e eu preciso voltar à Winterfall e ter uma gestação tranquila, algo que eu não poderei ter em Bath."
— Eu não pretendo me casar – foi tudo o que disse em um tom baixo ainda olhando fixamente para as mãos unidas sobre o ventre.
— Mas um dia vai querer e sinto que sua esposa não será feliz convivendo com a mulher que te deu um filho bastardo – disse com um sorriso triste relembrando a própria história.
O passo que quebrou a distância entre eles antes das mãos masculinas segurarem o rosto fino foi a primeira reação que ele teve após a notícia.
— Esse filho também é meu, então eu também irei criá-lo. Não foi um deslize só seu, eu deveria ter imaginado que isso poderia acontecer.
Sakura sorriu, um sorriso triste, mas que demonstrava alívio. Poderia não demonstrar, mas por dentro estava receosa pela reação dele e o apoio a aliviava.
Fechou os olhos quando uma lágrima teimou em cair, tentou evitar, mas quando Sasuke beijou a sua testa e a abraçou com carinho, os tais hormônios de gravidez vingaram o seu título fazendo-a chorar ininterruptamente nos braços do seu cunhado.
Tantas possibilidades pelo futuro. Poderia dizer que era um fruto de Itachi já que sua viuvez era recente, mas com o assumir de Sasuke escancararia ao mundo os pecadores que eram.
Um irmão se deitando com a viúva enquanto o elo em comum nem ao menos havia esfriado no túmulo.
Seriam marcados para sempre e tudo o que ela desejava era que seu pequeno bebê não sofresse com esse maldito mundo pois ele não tinha culpa pelo descuido dos pais. O melhor seria enterrar mais um segredo dentro das paredes impetuosas de Winterfall. E foi o que fizeram naquela mesma tarde quando a Baronetesa partiu e Sasuke não pôde acompanhá-la devido aos problemas que ainda tinha para resolver em Bath.
Nunca sua insônia foi tão acentuada como naquele anoitecer.
O silêncio que preenchia a casa e que o fazia ser capaz de ouvir o tique-taque do antigo relógio do primeiro andar, foi a sua companhia naquela cama vazia do quarto de Sakura.
Imaginou que o cheiro dela ainda impregnado naqueles lençóis o fariam pensar melhor sobre tudo, porém, tudo o que teve foi mais um vislumbre de que estava sozinho e até mesmo a sua respiração se tornava alta naquele silêncio.
Duas semanas, esse foi o tempo em que conseguiu organizar tudo para partir para Winterfall e tornar aquela residência seu centro de negócios.
Era verdade que vez ou outra teria que retornar à Bath ou viajar para mais distante, talvez para Londres, mas esses detalhes se tornavam insignificantes com a certeza de que poderia passar a maior parte da gestação em Winterfall ao lado de Sakura como prometido, e foi isso o que fez.
Partiu cedo e decidiu não fazer paradas como de costume. Com o máximo que uma carruagem e quatro cavalos poderiam oferecer, ele chegou na impetuosa residência quando a noite estava alta.
Com uma breve troca de olhares com a governanta, ele sabia que todos os empregados já tinham conhecimento do ocorrido. Evitou pensar naquilo por hora e se ateve a seguir para o caminho indicado.
Foi sorrateiro que ele abriu a porta do quarto infantil que agora era ocupado por sua sobrinha.
Sakura estava de costa para si, mas a voz melodiosa que lia uma história infantil perpetuava no recinto.
O homem permaneceu em silêncio, observando como Sakura podia ser tão carinhosa com uma criança que adormecia em seus braços. Ali ele se lembrou de como ela queria ter aquela criança que estava em seu ventre mesmo que isso implicasse consequências no futuro de ambos.
Sakura, por mais forte e independente que fosse, tinha um jeito genuíno para a maternidade, e ele admitia que ela seria uma ótima mãe para o seu filho, assim como a antiga Baronetesa foi para os seus dois meninos.
Um beijo de boa noite foi a despedida da mulher que estancou ao ver o seu cunhado parado na entrada.
— Perdão. Não havia percebido a sua presença, Baronete – fez uma mesura cortês, mas Sasuke negou as formalidades chamando-a pelo nome:
— Sakura, podemos conversar?
Ela assentiu antes de conduzi-lo ao seu próprio quarto. Agradeceu por nenhuma das suas empregadas está por ali flagrando-os. Não os culpava por ainda estarem tentando se acostumar com a ideia de que sua senhora estava grávida do irmão do seu falecido marido.
Sentou com elegância na borda da cama esperando-o dizer o que tanto queria.
Sasuke suspirou com a aparente distância que ela botava entre os dois.
Onde estava aquela Sakura entregue de Bath? Que ria livremente quando comentavam sobre algum episódio engraçado que flagravam nos Salões Superiores? Onde estava a mulher que até mesmo tomava a atitude de procurá-lo em seu quarto antes de se entregar? Onde estava a mulher com quem ele cruzava os braços e passeava pelo Balneário quase todos os dias?
Ela estava ali, a resposta veio fácil à sua mente, apenas não sabe como reagir em tal situação. Sorriu cumplice, antes de sentar ao lado e abraçá-la em uma tentativa de demonstrar que estava ali para ela.
A tensão se dissipou aos poucos e a mulher se deixou relaxar em meios aos braços que agora tão bem conhecia.
— Ficarei em Winterfall – foi tudo o que disse naquela noite antes de permanecerem no silêncio aconchegante.
Não se entregaram como das outras vezes, apenas permaneceram juntos e adormeceram nos braços um do outro.
Sasuke cumpriu a sua promessa. Ficou ao lado de Sakura por oito meses, raras vezes viajava e quando a gestação se tornava avançada, teve que cuidar dos negócios do irmão também para que a Baronetesa tivesse o descanso que o médico lhe indicava.
Era cansativo os dias cuidando dos dois negócios, residências, empregados, uma sobrinha bastarda e uma mulher grávida, mas todas as noites quando ele se dirigia para o quarto de Sakura, ele redescobria que tudo valia a pena.
Naquele momento ele percebia que preferia o caos da sua vida em Winterfall do que a solidão em Bath.
Toda a sua abdicação e cuidados voltados para Sakura, resultou em um choro forte que perpetuou pelas paredes de Winterfall.
Era um dia claro de primavera. O dia parecia transparecer os sentimentos que transbordavam de dentro daquele aposento.
As lágrimas cristalinas desenhavam o rosto suado e descabelado da Baronetesa que não conseguia desviar os olhos brilhantes e o grande sorriso da parteira Tsunade que anunciava ser uma menina.
— Minha menina – foi tudo o que Sakura disse ao sentir pela primeira vez aquele pequeno embrulho chorão em seus braços.
— Sarada – foi o que ele conseguiu dizer ao lado da mulher que acabava de dar a luz à sua primogênita.
— Ela parece tanto com o senhor – a Baronetesa, mesmo com as bolsas escuras que denunciavam o seu cansaço depois de uma noite de trabalho de parto, riu da situação.
Mesmo em caos, Sasuke a achou tão bonita segurando sua pequena filha de encontro ao peito coberto pelo fino vestido branco suado. Tudo o que conseguiu fazer foi depositar um beijo na testa larga e sussurrar no seu ouvido:
— Obrigado, Sakura.
O momento teve que ser interrompido para que Sarada fosse levada para ser limpa, enquanto a parteira dava ordens para que Sakura descansasse. Era verdade que ela estava exausta, mas ela queria seu pequeno bebê de volta.
O Baronete prometeu que a traria de volta e que quando a mulher acordasse, Sarada estaria ao seu lado, só assim para a mulher difícil se deixar vencer pela exaustão.
Sakura dormiu por horas. Horas que o homem não saiu do seu lado e que viu até mesmo as empregadas lhe banharem na cama.
Sarada retornou nesse meio tempo e pela primeira vez, na privacidade de um quarto, ele a pegou no colo, ainda um pouco incerto de como pegar, mas com a certeza de que não a deixaria se machucar por nada no mundo.
Aquela criança era tão pequena, tão delicada, que ele desejou nunca mais a soltar.
Naquele ínterim, ele a ninou, mostrou suas terras através das janelas e contou onde ele preferia brincar quando criança. Por mais que o rostinho redondo estivesse adormecido, ele não deixou de prometer lhe mostrar um dia o lago que tinha ali por perto.
Ele foi capaz de sentir tudo, menos o arrependimento de ter aquele ser em seus braços, mesmo que o próprio clérigo tenha ficado horrorizado ao saber que sua adorada Sakura estava grávida do cunhado.
Para ter Sarada mais uma vez em seus braços, ele pecaria tudo mais uma vez.
Foi naquele momento que ele tomou a sua decisão.
Não demorou mais que um quarto de hora para Sakura despertar e ter Sarada de volta aos seus braços.
Entre sorrisos e olhos brilhantes, ele a interrompeu com um pedido curto:
— Casa comigo.
Toda a felicidade no rosto de Sakura se tornou puro choque. Ela não negava que estava incrédula com o pedido inesperado.
Era verdade que durante a gestação acabaram retornando ao caso e já estavam juntos há quase um ano, mesmo assim, nada a prepararia para receber um pedido de casamento de Sasuke.
Talvez num passado distante se o destino não fosse tão cruel consigo e pusesse Sasuke na sua vida antes de Itachi, ela dissesse mil vezes "sim" depois de viver impasses e o amor resplandecesse após tantos desentendimentos entre aqueles dois polos opostos que o magnetismo cismava em unir, mas o pedido a deixou ciente de que as marcas do último casamento ainda não haviam cicatrizado.
Foi naquele silêncio prolongado que Sasuke compreendeu que Sakura se tornou uma mulher cética sobre casamentos.
— Não precisa responder por hora – beijou a tez antes de sorrir como raras vezes sorria –. Eu sei esperar.
Ela agradeceu com o olhar antes de voltar a acariciar o rostinho da sua filha na companhia do homem que aos poucos semeava, à sua forma, a felicidade no peito daquela senhora que muito já havia sofrido.
Como ambos sabiam, os meses que se transcorreram não foram fáceis. As más línguas não deixavam de existir.
As histórias já eram intensas devido a morada fixa do Baronete em Winterfall, tanto em Bath quanto nos condados, mas assim que Sarada nasceu, as histórias se tornaram mais intragáveis.
Era verdade que não diziam na frente dos nobres moradores de Winterfall, mas Sasuke não era surdo; sua sagacidade foi o que o levou para aquele ponto mesmo depois do seu pai perder tudo. Devido a tudo isso, Sakura decidiu permanecer isolada em Winterfall. Aquelas paredes que um dia testemunharam sua humilhação, foram os espectadores do seu erguer.
Como uma casa de boneca, Winterfall se tornou o oásis daqueles dois. Ali eles puderam ser eles mesmos, isolados do mundo que apontava dedos acusadores aos Uchihas, enquanto esse próprio mundo não via suas próprias falhas e desventuras, sua falta de amor em seu próprio lar...
É claro que Sakura não se esconderia como um rato medroso na toca. Com os meses transcorrendo, ela pôde voltar para os negócios revitalizada, além de abrilhantar nos jantares e bailes que seus poucos e fieis amigos sempre produziam.
Ah como Karin adorava ninar sua afilhada e dizer que suas filhas seriam grandes amigas no futuro. Ah como Mr. Uzumaki gostava de convidar o Baronete para as saídas entre os amigos, uma noite só para cavalheiros.
Por mais promíscuos e pecadores que Sakura e Sasuke fossem taxados na sociedade, havia algo na Inglaterra que imperava acima da mais vil das intenções: título, posses e dinheiro.
Mesmo que eles não se vangloriassem por tais aquisições, foram esses benefícios que os ajudaram a enfrentar o mundo fora de Winterfall, assim como dentro entre os empregados que levaram algum tempo para digerir que mesmo não sendo o mais adequado, aquela situação trazia felicidade para os seus senhores sempre tão bons consigo.
Apesar dos percalços, Sasuke não poderia negar que aqueles meses foram os melhores da sua vida. Sarada sempre preenchia os espaços com uma risada feliz e banguela, conquistando a todos ao seu redor. Sakura ria cada vez mais ao seu lado, seja durante o dia ou durante a noite em que ambos dividiam o mesmo leito. Até mesmo Yumi, a filha de Itachi com Izumi, passou a não ver Sasuke como um homem mal, mas sim como um tio soturno que amava a mulher que cuidava de si. Yumi era gentil e por mais que sentisse falta da sua mãe e ainda levasse alguns anos para descobrir a verdade sobre o seu nascimento, demonstrava sinais de que se tornaria uma jovem dama, sendo dedicada a tudo o que Sakura e sua preceptora a ensinavam sobre prendas.
Tudo estava perfeito até o dia em que Sasuke estava brincando com Sarada no jardim, essa ainda com seus passos incertos sempre tentando correr atrás da sua irmã e do seu pai, quando Sakura desmaiou em meio às rosas e tulipas.
Naquela mesma tarde, Sakura descobriu que estava na sua segunda gestação apesar de todos os cuidados e chás para não engravidar.
Apesar de tudo, ela se sentiu feliz, mas a felicidade alimentada com a ideia de mais uma criança para abrilhantar Winterfall partiu da mesma forma que a dor chegou algumas semanas depois quando Sakura acordou com os lençóis manchados de sangue numa madrugada fria – rápida e impactante.
Sasuke nunca se esqueceria do grito de horror que o despertou naquela noite ao descobrir que seu filho havia sido tirado de si e nem ao menos teria a oportunidade de conhecer o seu rosto. Sentiu a dor de Sakura, acalentou e enxugou suas lágrimas de quem não era capaz de acreditar no que seus olhos viam.
Sasuke prometeu quatro, cinco ou quantos filhos ela desejasse enquanto as empregadas retiravam os lençóis com olhares tristes; apesar das palavras de conforto ambos sabiam que nenhum filho é capaz de substituir um já esperado e amado pelos seus pais. Para sempre aquele aborto seria uma dor presente no passado do casal.
A melancolia tomou conta daquela mulher por quase duas semanas até a noite de insônia em que se voltou para o Baronete que acariciava seus cabelos com delicadeza e proferiu a verdade incontestável após quase dois anos juntos:
— Eu o amo, Sasuke.
Houve um leve repuxar de canto nos lábios masculinos que deixaram em evidência as linhas de expressão da idade. As falanges masculinas desenharam os lábios entreabertos antes de sussurrar:
— Eu também a amo, Sakura. – Foi tudo o que precisou dizer antes dos lábios se tocarem com carinho e as mãos percorrerem o corpo do outro de forma lenta, conhecendo mais uma vez o já conhecido.
Foi a primeira vez que se amaram depois da perda. Não se amaram com luxúria, desespero ou anseio para satisfazer a carne, amaram-se lentamente, sem pressa, apreciando cada toque, cada olhar, cada beijo ou carinho ofertado para o outro. Amaram-se sabendo que tudo aquilo era amor e que mais uma vez as palavras de Shisui estavam certas, os Uchihas amam demais. Ambos amavam demais, estavam entregues demais, e por mais que uma vez Sasuke tenha dito que o amor era como um veneno e corroía o homem e sua razão, naquela noite ele descobria que o amor poderia destruí-lo, mas ele também era capaz de erguer o homem, colocá-lo no mais alto altar da plenitude e felicidade. E daquele lugar ele não queria sair, além de admitir que vale a pena sofrer com a montanha-russa que era o amor.
Viver sem amor não é vida, é apenas uma existência...
E Sakura decidiu dar mais uma chance para a vida quando em meio a consumação, ela sussurrou "Eu aceito". Não precisou de mais palavras para entender que ela aceitava casar consigo.
Quando a primavera retornou, Sarada fez seu primeiro aniversário. Com a abertura dos botões das flores, tudo pareceu voltar aos seus eixos, a única irritação de Sasuke era o clérigo que se negava a ser o responsável pelo casamento daqueles dois pecadores.
O Baronete quis buscar um clérigo em qualquer outro condado, mas compreendia a ligação que Sakura tinha com aquela Igreja e suas contribuições.
Era até motivo de piada entre os amigos que o noivo estava com mais pressa de se casar do que a noiva. Sakura sempre gargalhava quando Mr. Hozuki dizia tais ultrajes.
Bath ficou em alvoroço com a notícia de que o Baronete iria se casar. As mocinhas choraram, as senhoras profanaram, enquanto os senhores lamentaram a perda de tão bom negócio, mas Sasuke foi abalado por outra notícia, a terceira gravidez de Sakura.
Aquilo foi motivo mais do que suficiente para começar a usar até dos dizeres bíblicos para justificar que eles mereciam casar com a benção de um clérigo.
Sasuke correu risco de ser excomungado caso continuasse a ir na Igreja proferir impropérios e ameaças caso aquele clérigo não realizasse o casamento, mas aquele senhor religioso não chegou a tanto, pois quando sua visita matinal parou de vim à casa de Deus, ele buscou as paredes de Winterfall, descobrindo que a Baronetesa havia adquirido uma grave infecção, deixando-a acamada e a gravidez em risco.
Doutor Morgan não fingia as feições preocupadas e gordurentas. O aborto prévio era um cuidado a mais para se ter nas futuras gestações por mais que naquela época fosse algo comum, mas uma infecção que provocava febres altas e até mesmo convulsões, era algo muito mais preocupante.
Foi naquele tempo triste que o clérigo flagrou o Baronete que não acreditava em Deus, rezar ao lado do leito da noiva pálida e tão mais magra com uma barriga já evidente, nem parecendo que um dia foi a sagaz Baronetesa que todos aclamavam.
O fungar e o "por favor" baixo repetido por um homem desesperado, deixou claro para o clérigo que Sasuke amava aquela mulher mais do que tudo e a perda seria um caminho sem volta assim como foi para o pai daquele Baronete.
Um toque no ombro largo anunciando sua presença, além do olhar firme do religioso foi o suficiente para dizer que ele realizaria a cerimônia.
Algumas semanas foram precisas para Sakura ter forças para ir ao próprio casamento no salão principal da residência.
Uma cerimônia íntima, aberta apenas para os amigos próximos selou para sempre a união daqueles dois que um dia se taxaram como tão insuportáveis. Era até risório pensar em tal blasfêmia enquanto depositava um beijo rápido nos lábios da sua agora esposa.
O momento feliz teve seu teor de melancolia, pois o pior poderia ter passado, mas os riscos continuariam até a hora do parto.
E que hora do parto...
Enquanto o nascimento de Sarada foi a perfeição com um ameno dia primaveril. O nascimento prematuro de Satoshi foi como a nevasca mais fria que assolou a Inglaterra naquelas últimas décadas.
Nunca impropérios rechearam tanto em um quarto como naquela noite fria em que Sasuke gritava para Tsunade ou Doutor Morgan fizessem alguma coisa quando Sakura por vezes perdia a consciência e não conseguia mais continuar com aquilo.
O médico se encolhia com a fúria raras vezes demonstrada por um homem sempre de porte fino, enquanto a mulher que trazia tantas crianças ao mundo rebatia cada ofensa.
Em meio à confusão daquela noite, nasceu o primeiro filho homem de Sasuke e Sakura, além do alerta firme de Tsunade para que os dois não tivessem mais nenhum filho, pois as gestações só piorariam dali para frente e Sakura quase faleceu naquela noite.
Sakura agradeceu o conselho e disse que fariam como ordenado. Procurariam meios para não engravidar. A promessa vingou por algum tempo até ser anunciado a quarta gestação de Sakura...
— Papa! – A voz infantil o trouxe para o presente, fazendo com que os olhos negros do Baronete se encontrassem com os preocupados da sua primogênita. – Por que a mama está gritando tanto? Estão fazendo mal para a mama?
Sarada, assim como qualquer um dos seus filhos, tinha a capacidade de tocar aquele coração tão sensato de Sasuke, ainda mais quando um deles se agarrava nas suas calças com os olhos brilhando devido a algumas lágrimas teimosas que gostariam de cair.
Ele a trouxe para os seus braços – aquela menina de cinco anos que parecia estar crescendo mais rápido do que gostaria – antes de beijar a bochecha rosada da menina para acalentá-la.
— Não, Sarada. Ninguém está machucando a mama, nunca deixaria que fizessem algum mal para ela – explicou enquanto levava a menina de volta para a biblioteca, tendo Mrs. Hozuki acompanhando-os com as mãos sobre o colo.
— Mas ela está gritando – cobriu os ouvidos com inocência fazendo uma cara de desgosto. – Gritamos quando sentimos dor.
— Em breve você verá porque sua mãe está assim e sei que gostará – soou otimista. – Sua mãe está feliz, acredite Sarada.
— Tudo bem, papa— se rendeu contornando com os bracinhos o pescoço do pai, deixando-se levar de volta para onde havia fugido.
Ali naquela sala encontrou Mr. Hozuki com um fumo, enquanto admirava as crianças entretidas com alguns desenhos em uma mesa de centro.
Yumi com seus 11 anos tomava conta dos mais novos, principalmente de Satoshi com 3 anos em seus braços, enquanto o casal de filhos dos Hozuki demonstrava petulância e discordavam sobre seus desenhos.
Sasuke suspirou carregando Sarada de volta para os seus amigos antes de sentar no sofá ali perto, vendo com atenção todos os desenhos que as crianças mostravam para si.
— Não parece muito feliz, Baronete – Mr. Hozuki disse com humor enquanto sua esposa sentava ao seu lado.
Um olhar duro foi tudo o que Sasuke mostrou para aquele jovem senhor cheio de humor.
— Não nos olhe assim como se fôssemos culpados das suas próprias atitudes – a ruiva foi ao socorro do marido.
— Foi sua própria esposa quem requisitou sua saída do quarto – lembrou-lhe o homem de cabelos platinados.
— Para que o parto fosse mais tranquilo que o anterior – completou.
Sasuke suspirou com aqueles dois, por mais que internamente agradecesse por toda a amizade e apoio naqueles momentos, aqueles dois não sabiam ficar calados, sempre destilando a verdade nos seus encontros.
O Baronete compreendia que talvez atrapalhasse o parto que Tsunade mais uma vez executava. A velha loira foi firme com a solicitação de saída do quarto, já que as lembranças do parto de Satoshi estavam vivas na sua mente e na cólera que pintava o seu colo.
Ele não queria sair do lado da esposa, queria ser seu apoio como todas as vezes, mas teve que acatar a ordem quando Sakura pediu o mesmo.
— Está demorando demais – confidenciou.
— Todos os partos são demorados, Baronete – Mr. Hozuki soltou a fumaça do fumo.
— É apenas a ansiedade por ter que permanecer longe. Pelo que me informaram, está transcorrendo mais rápido do que os anteriores – a ruiva tentou interceder pelo homem que parecia perturbado.
— Se acontecer algo, nem ao menos saberei...
— Baronete – Mr. Hozuki começou firme jogando algumas cinzas no cinzeiro –, há uma parteira, um médico e um padre ao lado da Baronetesa nesse exato momento. Creio que ter fé, religião e saberes populares é muito mais do que nós, homens de negócios, podemos ofertar. Se acontecesse algo, o que poderíamos fazer? Desesperarmo-nos.
Sasuke não queria admitir que Mr. Hozuki por vezes tinha razão, no entanto, aquela verdade não acalmou aquele senhor de Winterfall pelas próximas duas horas que permaneceu naquela biblioteca. Nunca se ergueu tão prontamente quando a simples empregada anunciou que estavam o solicitando no quarto da Baronetesa.
Assim que atravessou as grandes portas com passos decididos, estancou ao ouvir o som do choro da criança que era colocada no colo da sua esposa em lágrimas.
Não importava quantas vezes vivessem aquilo, sempre parecia que era a primeira vez que se tornavam pais.
— É um menino, meu amor – Sakura com o rosto pálido disse de forma baixa para o marido que recobrava seus movimentos para se aproximar e ver o rosto do seu mais novo menino. – Mais um que saiu a cara do pai, é tão injusto – brincou fazendo as outras pessoas que assistiam o momento sorrirem.
— Sakio – murmurou baixo enquanto sentava na borda e acariciava o pequeno tufo negro na cabecinha do filho.
— Sa-kio – silabou sorrindo para o embrulho chorão.
Os espectadores resolveram deixá-los à sós por um momento. Todos foram discretos, menos Tsunade que lançou um olhar de advertência que poderia ser claramente traduzido para um: "Espero que esse seja o último".
Um tom rosado de vergonha pintou as bochechas da Baronetesa antes de segredar para o marido:
— Acho melhor evitarmos novas gestações.
Sasuke riu de forma aberta, a forma que ele só se permitia na presença da esposa, antes de voltar a acariciar o rostinho inchado que caia no sono.
— Quantas vezes já falamos isso nesses seis anos, Sakura.
— Perdi a conta querido – ela riu com a situação da forma que suas poucas forças permitiam.
Um olhar foi o suficiente para constatar que sua esposa estava fraca, mesmo assim, os olhos verdes estavam vivos como sempre.
Beijou a tez, agradeceu como todas as vezes antes de dizer que a amava. Pensou que receberia o mesmo em troca, mas o olhar desconfiado de Sakura o alertou para o que vinha a seguir:
— Preparou aqueles contratos que temos que enviar amanhã para o fornecedor?
Sim, ela poderia estar exausta, descabelada, recém-saída do seu terceiro parto, mas nada destruía a Baronetesa de Winterfall.
Sasuke riu, um pouco pelo humor e um pouco pelo desespero de ter passado as últimas horas preocupado com a esposa em um trabalho de parto e ter esquecido de cumprir o seu último pedido quando as contrações começaram. Era um grande negócio que Sakura havia conseguido e ele não deixaria que um pequeno deslize trouxesse a fúria da mulher quando sua nova alegria tinha chegado ao mundo.
— Claro, querida – tentou soar sério, mas seis anos de convivência era o suficiente para ela detectar a mentira no leve desviar do marido.
Sakura deveria ficar brava pelo deslize, mas tudo o que fez foi depositar um selinho nos lábios do amado e prometer:
— Assim que eu acordar, ajudarei no que puder.
O Baronete deveria negar a ajuda, dizer que poderia descansar, que ele cuidaria de tudo, era tudo verdade, mas conhecendo a mulher que o levou ao altar, sabia que seriam palavras ao vento, afinal, além de amantes, eram parceiros de negócios.
— Sonhe com as cláusulas, querida – desejou beijando a testa larga antes de se erguer para chamar as empregadas para limpar Sakio e suspirava com a risada da esposa pelo seu desfortuno de ter que passar a noite escrevendo um contrato para os negócios.
Sorriu por cima do ombro sabendo que tudo valia a pena por aquele sorriso desenhado pelos olhos verdes da sua esposa...

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