Winter Soldier - Retomando o Passado
3 Nova Missão
Notas iniciais
Nas trincheiras o calor das explosões e o cheiro dos cadáveres chegava até nós como a anunciação do próprio inferno. Já estávamos quase sem água e a comida tinha acabado havia dois dias, eu não consigo dormir, eu sei que estamos cercados. Ainda bem que eu apresentei aquela garota pro Steve, ele não ia gostar de ficar sozinho.
Atado a uma cadeira, eu acordei com o chacoalhar de um homem grande e bruto. Ele me desamarrou e me puxou da cadeira, ele pegou no meu rosto e me olhou, minha visão estava embaçada, eu não morri? Ele me colocou de pé e eu me apoiei em seu ombro, o calor sufocante no ar só podia indicar fogo, a fumaça me fez tossir compulsivamente. Olhei para o lado depois de esfregar os olhos “Pensei que você fosse menor”.
Eu pendia de um pedaço de ferro num trem em alta velocidade enquanto ele passava em cima de uma ponte. Olhei para baixo e me deparei, em pânico, com o abismo que havia debaixo de mim. Rajadas de vento me balançavam muito forte, eu me agarrei com todas as minhas forças no pedaço de metal, gritando por ajuda. Uma mão envolta numa luva azul tentou me alcançar “Bucky!!” ele gritava, esticando ainda mais o braço, eu tentei alcançar de volta, mas logo me agarrava de novo ao ferro, eu vou cair. Minha mão deslizou, ouvi dois gritos enquanto deslizava para o fundo das montanhas cobertas de neve, um deles era meu.
O ar frio queima o meu peito, não consigo ver mais do que sombras. A dor no meu braço esquerdo é agonizante, luto para me mexer mais não consigo, sinto como se estivesse recebendo milhares de facadas ao mesmo tempo, cada movimento dói e eu não consigo gritar. “Apague as memórias dele” diz uma voz ao fundo, quase imperceptível, mas ao mesmo tempo dura. O choque que recebo me faz trincar os dentes tão forte que arranco um pedaço da minha língua, eu apago.
Acordo bem quando os primeiros raios da manhã penetram a veneziana, encharcado de suor, eu não respiro direito, o ar trava na minha garganta e não importa quanto eu inspire, meus pulmões anseiam por mais. Movo meus olhos pelo quarto ainda escuro, elétricos, mas a confirmação de que foi tudo um sonho não me acalma nem um pouco. Eu me lembro. Steve Rogers, o super soldado, o pequeno Steve, meu... meu melhor amigo. Levanto da cama tão rápido que o impulso do meu braço quebra uma parte da cabeceira da cama. Como eu pude esquecer?? Então, esses últimos dias voltaram a mim como um soco, eu levantei minha arma pra ele, eu não... eu não sabia quem eu era, é claro que ele não ia lutar contra mim, como eu pude? Já estava ajoelhado no chão, pedindo perdão para alguém que não estava lá. Ele não está aqui, por que eu não paro de pedir desculpas? Como se eu fosse capaz de me perdoar.
Visto meu casaco e saio batendo a porta, eu me sinto terrível na verdade, mas a energia que corre pelo meu corpo me faz ir atrás dele, cada parte de mim gritando ‘Vai atrás dele’. Eu com certeza tenho muita coisa pra explicar. Entro no Hall já de chave em mãos, a bancada está vazia, me virava para procurar a recepcionista quando senti uma pressão muito forte no meu ombro machucado e meu braço foi torcido para trás das minhas costas, fui empurrado para a parede e me choquei com um baque.
“Você se move e eu te mato. Eu estou aqui pra te ajudar. Combinado?” Soltei um grunhido de dor que se assemelhava a uma confirmação, e me soltaram. Me virei e a vi, a companheira do Steve, ela vestia uma jaqueta preta de couro na qual pendiam seus cachos ruivos, ela trazia uma faca de exército na cintura. A observo e penso cuidadosamente no que falar, a ela eu também devo desculpas.
“Olha...” ela não me deixou terminar, levantou uma parte de sua jaqueta mostrando uma cicatriz, parece a perfuração de uma bala.
“Fabricação soviética” ela disse, a forma de estrela da cicatriz me parece familiar... “Foi você” ela baixou a jaqueta e se distanciou alguns metros, se apoiando no balcão atrás dela. Eu não sei o que dizer.
“Eu não me lembro disso” digo lentamente, revirando quaisquer memórias que estejam inteiras na minha cabeça, mas está tudo tão instável.
“Eu sei. Vim te trazer algumas coisas” ela chutou uma mala preta que estava no chão perto do balcão “Você vai precisar de dinheiro e documentos novos pra sumir direito, está tudo aqui” ela pegou a mala e a esticou para mim, olhando para o chão como se não quisesse me encarar. Eu não pego a mala.
“Eu vou atrás dele” eu digo, e isso a faz levantar os olhos.
“Olha, eu sei que você está confuso mas, por favor, ele não precisa sofrer mais” Eu paro de respirar por uma instante quando um nome surge na minha cabeça.
“Eu e lembro, Natasha...” Eu disse o nome dela? Agora era me olha em choque, sua respiração treme.
Estamos dentro de um ringue, meu braço dói demais e ela está na minha frente em posição de defesa, neva do lado de fora do balcão em Kiev. Ela lança um chute e eu me desvio dele, eu uso meu braço mecânico para tentar desferir um soco em sua têmpora, mas ela o agarra e o torce, ela me acerta na sobrancelha com o cotovelo. Já no vestiário, eu limpo o sangue da minha bochecha e ela limpa o suor do pescoço com uma tolha.
“Você está melhorando” ela disse, sentando no banco.
“Ainda tenho um longo caminho pela frente” meu braço precisava de melhorias urgentes contra o frio, mecho meus dedos um pouco duros demais. Eu me sento ao seu lado enquanto ela está terminando de limpar os cabelos, ela os afasta do rosto e se inclina para me dar um longo beijo, sinto o cheiro fresco de carvalho que ela exala.
“Logo estaremos trabalhando juntos” ela sorri.
Minha cabeça clareou um pouco da névoa pela qual ela estava tomada, me reclinei para buscar apoio na parede, Natasha largou a bolsa e me lançou um olhar de dor.
“James, por favor...” ela sussurrou
“Eu me lembro de você, estávamos juntos enquanto me treinavam, que merda aconteceu lá, Natasha?” chego mais perto dela, o bastante para perceber que o cheiro de carvalho tinha mudado para um perfume mais doce “Eu preciso saber”. Ela me encarou por alguns instantes antes de começar a falar.
“Você foi apresentado a mim apenas como Winter Soldier, nunca mencionaram seu nome verdadeiro” ela sentou no balcão, novamente ela estava olhando para o chão e sua voz assumiu um tom de culpa “Eu também nunca perguntei. Ficamos lado a lado durante muito tempo, Barnes, mas depois de saber tudo o que você fez...”
“Me fizeram” a interrompi “Eles destruíram a minha cabeça pedaço por pedaço com os choques deles” a lembrança da dor fez tremer meus lábios “Eu não tinha ideia do que eu estava fazendo, para quem eu estava trabalhando, quem eu estava machucando...” fiz uma pausa “... de quem eu era.” Não sei se ela acredita ou não, mas depois de alguns segundos ela desceu do balcão e assentiu com a cabeça.
“Você tem que mostrar isso a eles, não foi brincadeira o que você fez nesse período, você tirou muitas vidas” ela indica a mala em cima do balcão.
“Eu tenho um longo caminho pela frente, eu sei” pego a mala “Mas eu vou consertar tudo”
“Então vá atrás dele” ela se virou para a porta e disse uma última frase, não consigo dizer se seu tom de voz era de tristeza ou pena “Boa sorte, Barnes.” E foi embora levando aquele cheiro doce com ela.
Me viro para o balcão e deixo a chave do quarto em cima do tampo de madeira. Não vou me dar ao trabalho de procurar pela recepcionista, Natasha só me encontrou porque tem muitos olhos espalhados pelos lugares. Espero que não seja assim com quem quer a minha cabeça também.
Jogo a mala no porta-malas do carro e a abro para dar uma olhada, em baixo de um bolo de notas de 50 e vários passaportes falsos, havia um kit de reparo para usar no meu braço e um arquivo classificado como secreto pelo carimbo vermelho em sua capa, o seguro nas mãos e o abro.
O arquivo continha toda a trajetória do Capitão América desde o projeto da criação do super soldado até sua recente filiação com a S.H.I.E.L.D. Várias fotos ilustravam o arquivo, eu as observo cuidadosamente uma por uma, esperando que ela me lembrem coisas enterradas bem no fundo a minha mente. Na verdade, eu acho que ela me fazem sentir bem, como se eu não estivesse sozinho. Paro em uma foto que reúne Steve e vários companheiros do batalhão no qual estávamos, incluindo... eu. O cabelo curto, a face iluminada e sorridente diante da câmera se diferencia muito da que eu vi estampada no espelho do banheiro noite passada, incrível ele ter me reconhecido. Tiro aquela foto do meio dos papéis, fecho o porta-malas e a coloco no bolso do meu casaco. Colocando aquele arquivo junto das minhas coisas, acho que Natasha esperava que eu não sumisse, mas que eu reconhecesse quem eu realmente era naquelas fotos, e voltasse. O que com certeza ela não esperava é que eu já tivesse tomado uma decisão.
Dou a partida no carro e volto à estrada, pegando um desvio que me direciona novamente à Washington.
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