Winter Love
1 One Short
Notas iniciais
O vento batia contra a pele da garota, que já tinha as bochechas coradas por conta do frio intenso. O inverno não era bem a estação favorita de Merida, mas ela tinha de se contentar com isso. Nem tudo é como queremos, certo? Bom, isto é outra coisa que Merida não gosta. Tudo seria tão mais simples se fosse do jeito dela...
Ela esfregou os braços e entrou em casa. Em outra época do ano ela iria preferir sair com os amigos, andar a cavalo ou mesmo ficar na varanda de casa, mas o inverno tornava isso um tanto quanto impossível.
"Argh!" Merida resmungou ao passar pela porta.
"Eu disse que estava frio demais" sua mãe, Elinor, fez questão de lembrar. Ela era um exemplo de autoridade e disciplina, e fazia de tudo para que a filha também fosse assim. Mais uma coisa que a ruiva não gostava.
"Não começa, rainha Elinor"
Rainha Elinor, apelido pelo qual Merida chama a mãe. Afinal, ela se porta como uma rainha, por que não ser chamada assim?
Merida subiu as escadas e se trancou no quarto, arrancando aquela montanha de casacos e cachecóis e ligando o climatizador. O inverno intenso da Irlanda pede medidas desesperadas, oras. Talvez nem tão desesperadas assim, mas necessárias. Jogou-se na cama e ligou o notebook; pelo jeito, ele seria seu companheiro até o fim do período de neve. Após passar algum tempo observando a página inicial do Google pensando no que iria fazer, decidiu abrir o Facebook. Geralmente ela iria passar o inverno todo fazendo maratona de séries, mas ela meio que já havia assistido todas as que lhe interessavam no momento, e só restaram as que costumava chamar “entretenimento fraco para adolescentes sem cérebro”.
A internet também não estava dando certo. Sentia um tédio só! Não estava para assistir filmes, não agora, além do mais ela tinha certeza de que passaria horas lendo sinopses no catálogo da Netflix e no fim acabaria optando por assistir ao filme “Lucy” mais uma vez. Foi então que ela se lembrou que seu melhor amigo estava pelas bandas. Seria ele o motivo? Até que nesse últimos anos Merida sentia-se diferente perto dele. Toda vez que Rapunzel ou Jack tentavam empurrá-la para cima do garoto, a ruiva se enchia de vergonha e chegava a esquecer de como se pronunciam as palavras mais simples corretamente — outra coisa que Merida não gostava. Por outro lado, ela acreditava que era errado sentir algo diferente por ele. Melhores amigos não deveriam gostar um do outro, ou pior: namorar. Geralmente isso só dá em merda e ainda acaba com a amizade, pelo menos nas mil e uma séries que já assistiu.
Jogou-se para trás em sua cama e olhou para o teto de barriga para cima. Isso era ridículo. Ele já namorava alguém, a uma tal loira que ela não suportava. Astrid Hofferson. Aquela nojenta metida à rica que sempre se jogava para cima dos garotos. Merida ainda se lembrava de quando ela deu em cima de Jack, namorado de Rapunzel, de quem a Hofferson quase levou uma surra. Apesar de querer muito que a amiga arrancasse os fios oxigenados daquela cabeça oca, a ruiva tomou a decisão de acalmar Rapunzel. Senão, ia virar caso de polícia... Bom, vendo que não obteve sucesso com o albino mais desejado daquele colégio, aquele ser desprovido de massa cefálica decidiu que seu alvo seria Hiccup, o mais novo capitão do time de futebol e seu melhor amigo. Com certeza, em todas as vezes que ele se pegavam na sua frente, Merida tinha vontade de colocar pra fora não só o almoço, mas uma ceia de natal inteira.
Era curioso o fato de o Haddock ter se tornado capitão do time. Apesar de alto, era um garoto franzino e até meio nerd, o completo oposto do estereótipo que se espera que um bom jogador de futebol seja. No entanto, lá estava ele: magrelo, nerd e um puta meia de armação camisa 10. O destaque no meio-campo lhe consagrou o título de capitão e, agora, sua missão era orientar os outros jogadores — de onde veio o apelido “treinador de dragões”, dado pela amiga.
O assobio do Whatsapp, avisando sobre uma nova mensagem recebida, fez com que Merida desviasse a atenção do filme que passava no notebook em seu colo. Esticou o braço preguiçosamente e tateou a cama até encontrar seu celular e apanhá-lo. Ela desbloqueou a tela e abriu o aplicativo, dando de cara com a mensagem justamente de quem não havia saído de sua cabeça até o momento.
Treinador de dragões:
Pode me encontrar?
Rida:
Hoje? Nesse frio? Só se for algo MUITO importante.
Treinador de Dragões:
Sério, Rida. Eu preciso da sua ajuda.
Aquela mensagem fez o coração da garota disparar. Ela leu e releu aquelas duas frases, tão simples, mas também tão impactantes.
Rida:
Okay -.-' O que foi?
Treinador de dragões:
Não dá pra falar por aqui. Pode me encontrar? Por favor, faz um esforcinho...
Merida pensou por um momento. Aquilo deveria ser sério mesmo.
Rida:
Tudo bem. Onde e quando?
❆ ❆ ❆
Merida desceu do ônibus vermelho e se dirigiu ligeiramente, a passos firmes e com o corpo encolhido, até pequeno parque. Logo avistou os portões azuis cobertos de neve — assim como toda a cidade de Dublin —, e ao seu lado, Hiccup. O garoto se balançava e esfregava os braços para espantar o frio. Assim que o moreno a avistou, abriu um sorriso de lado. Ah, aqueles dentinhos separados, as sardas, as covinhas... Espera! Que raios ela já estava pensando? Na-na-ni-na-não! Foco Merida, foco.
"Hm, hey" ela o cumprimentou ao chegar.
"Hey" ele respondeu e apontou com a cabeça para o parque "Vamos entrar?"
A ruiva assentiu e os dois entraram, caminhando lado a lado.
"Então, por que precisa da minha ajuda?"
Hiccup suspirou e pensou um pouco antes de responder:
"Astrid e eu terminamos."
Assim. Simplesmente.
Uma parte de Merida queria gritar "AEEEOH, ENFIM VOCÊ PAROU DE SER TROUXA!!!". Outra parte queria sorrir de orelha a orelha, sem sentir o mínimo remorso por estar feliz em saber que o relacionamento de seu melhor amigo chegou ao fim. Contudo, Dunbroch teve a sensatez de se conter e dar a única resposta possível.
"Ah... Sinto muito"
O tom levemente triste em sua voz, com o propósito de demonstrar empatia, e a expressão de compaixão eram o combo perfeito. Hollywood está me perdendo, pensou. Não que não se importasse com os sentimentos do amigo, é claro que sim. Mas ela queria vê-lo bem e com alguém que o fizesse feliz, não com uma babaca aproveitadora, possessiva e narcisista.
"Não sinta. Astrid é uma vadia, melhor que ela fique longe de mim"
Merida deixou um risinho escapar "Eu sou meio suspeita pra falar, todo mundo sabe que eu nunca gostei dela, mas concordo. Como posso te ajudar?"
"Você me conhece melhor que ninguém, Rida, melhor que eu mesmo até. Deve ter alguma ideia de como me ajudar a esquecer"
Ela assentiu com a cabeça. Sabia exatamente como agradá-lo! Alguns doces, chocolate quente e filmes de ação e tudo voltaria ao normal no coraçãozinho de Hiccup. Num movimento brusco, Merida tomou o braço do amigo e o puxou para fora do parque.
"Vem comigo!"
A dupla correu pelas ruas manchadas de neve branquinha, tremendo com o vento gélido que atingia seus rostos, agora avermelhados pelo frio. Foi um alívio quando os dois adentraram a lojinha de conveniências na qual a Dunbroch trabalhava, o ar morno aquecendo seus corpos. Em épocas de nevascas, a loja costumava fechar mais cedo; por sorte, a garota tinha a chave.
"Ok, eu pego os caramelos, marshmallows e jujubas e você pega o chocolate" ela designou as funções.
"Sua intenção é me tornar diabético?"
"Eeei! Não reclama, eu sei que no fundo, no fundo você ta adorando a ideia"
Hiccup balançou a cabeça, dando um meio-sorriso, e foi procurar pelo chocolate.
A ruiva sorriu. Ia ser perfeito! E, depois, talvez eles pudessem ir para a casa dela, assistir um filme e dormir juntos na sala... Hm, lá estava ela, pensando demais de novo. Afastou as ideias ao sacudir a cabeça e foi pegar os doces. Os dois se encontraram no caixa e deixaram o dinheiro na caixa registradora.
"Agora nós vamos pra minha casa e..."
Hiccup a interrompeu: "E passamos horas lendo sinopses no catálogo da Netflix pra no fim assistir Lucy"
"O nosso favorito" ela riu.
O garoto colocou a mão na maçaneta fria e empurrou a porta, que não abriu. Empurrou com mais força; nada. Merida tentou ajudar, em vão.
"Estamos presos" ele disse, por fim.
"Não me diga!" a garota ironizou. Não era sua intenção ser grossa, mas meio que era isso o que acontecia quando ela ficava nervosa; e naquele momento ela estava MUITO nervosa.
"A ideia foi sua!" ele se defendeu
"Eu queria ajudar! Claro, se você não tivesse sido tão tonto a ponto de namorar aquela galinha oxigenada, nós não estaríamos presos aqui"
"Ah, então a culpa é minha?"
"A culpa sempre é sua! Sua e da Astrid! É incrível como, mesmo vocês tendo terminado, ela continua ferrando com a sua vida"
"Eu agradeceria se você parasse de citar a minha ex-namorada a cada cinco palavras"
"O que foi? Não consegue suportar o peso da traição? Você foi trouxa, Hiccup! Foi passado pra trás porque estava 'cego de amor'... Blé!"
"CHEGA!" Hiccup bateu com as mãos no balcão, visivelmente irritado, dando as costas para ela e indo em direção ao outro canto do estabelecimento.
O arrependimento agora invadia o corpo de Merida. Por que ela tinha de ser tão inconsequente? De qualquer forma, ela estava certa e não ia recuar. Não se desculparia enquanto o garoto não se desculpasse. O único problema era que ele também pensava assim.
❆ ❆ ❆
A noite caiu e os melhores-amigos agora-não-tão-amigos ainda estavam presos. Os dois já haviam conseguido comunicar aos pais que estavam bem, apesar de não poderem sair — e pelo jeito continuariam lá por um bom tempo. Pelo menos aqui é quentinho, Merida pensou.
Os dois continuavam em silêncio. Não trocaram uma única palavra desde a briga.
"Tá com fome?" Hiccup perguntou de repente, fazendo-a pular de susto. Ela estava com fome? Deveria responder? Não, claro que não, seu orgulho não deixaria. Mas era o seu melhor amigo...
"Hm... Sim, um pouco"
O mais alto assentiu com a cabeça e olhou ao redor, como se procurasse por assunto nas prateleiras da lojinha. Então ele tirou algumas notas e moedas do bolso da calça.
"Aqui tem algum fogão?"
"Tem um lá dentro... Por quê?"
Ele se levantou e sumiu por entre as prateleiras, voltando alguns minutos depois com leite, açúcar e creme de leite.
"Nós vamos fazer chocolate quente!" ele disse, fazendo Merida sorrir. Droga, Merida, sorrir agora não! Você ‘tá brava, não pode ficar distribuindo sorrisos, mesmo que seja inevitável.
Hiccup pagou pelos ingredientes que tinha pegado e acompanhou a menor até uma pequena cozinha atrás do balcão de pãezinhos doces. Juntos, eles prepararam o chocolate e serviram em copos descartáveis que encontraram dentro do armário. Colocaram os marshmallows e beberam o chocolate quente acompanhado de um bolo de limão que encontraram na geladeira.
"Pra ficar perfeito só falta um Lucy maroto" a garota comentou.
"É, não dá pra ter tudo na vida..." os dois riram.
Eles ficaram se encarando por um tempo. Merida observava cada detalhe da face do garoto; os olhos verde-oliva com alguns de seus fios castanhos sobre eles, as sardas se ligando como pontos, a boca fina e ressecada por conta do frio. Ela podia ficar ali, olhando pra ele até que a neve desse lugar ao sol. Infelizmente ela não poderia fazer isso. Hiccup desviou o olhar, fazendo o estômago de Merida revirar-se e suas pernas estremecerem. Um silêncio constrangedor instalou-se entre eles.
"Me desculpa..." ela disse, vencendo o próprio orgulho para cortar o silêncio. "Não queria ter explodido e brigado com você"
"Tudo bem, a culpa também foi minha. Vamos só esquecer, ok?"
"Ok" ela sorriu.
❆ ❆ ❆
A loja de conveniências foi invadida pela luz fraca do sol da manhã. Merida abriu os olhos e encarou o peito alheio, que oscilava serenamente. Ela e Hiccup estavam abraçados?! A garota respirou fundo, tentando entender a situação. Eles ainda estavam vestidos, ok. Um alívio. Ah, claro. Os dois tiveram de dormir na loja porque a neve havia os mantido presos lá.
Ela tentou, em vão, se levantar cuidadosamente para não acordá-lo. O moreno se remexeu e abriu os olhos, que pareciam procurar desesperadamente pelos olhos da ruiva. Assim que seus olhares se encontraram, os dois sorriram, e assim permaneceram por um longo tempo, até que menor se afastou.
"Eu vou ver se já dá pra sair"
Haddock concordou e ela foi. Recolheu os pacotes de jujubas e caramelos esquecidos no chão e caminhou até a porta com um pouco de medo; se a porta se abrisse, ela teria de voltar a dividir Hiccup com o mundo. E, para sua infelicidade, foi o que aconteceu. A porta se abriu, com um pouco de dificuldade, e o vento gélido adentrou cortante no estabelecimento. Merida suspirou.
"Hicc! A porta abriu!"
O moreno veio correndo de encontro a ela, mas parou bruscamente ao sentir a corrente de ar frio. Os dois caminharam para fora e a garota trancou a loja.
"Então..." ele começou, meio sem saber o que dizer. "O que vai fazer agora?"
"Eu... Acho que vou pra minha casa... Você conhece a Rainha Elinor, sempre preocupada"
"É, acho que eu vou pra minha também."
"Ok. Então... Tchau"
"Tchau" o moreno pegou a mão de Merida e puxou-a pra mais perto, abraçando sua cintura e colando seus lábios.
Se ela estava bem? Claro, estava a ponto de desmaiar ali mesmo, mas tudo certo. Por algum milagre, talvez impulso, ficou na ponta dos pés e passou os braços pelos ombros do outro, acariciando sua nuca. O mundo parecia girar. Aos poucos, iam perdendo o fôlego, se é que ele já não havia se esvaido por completo. Então, eles se separaram.
"Uhm..." Merida queria dizer algo, mas as palavras tinham desaparecido.
"Hm... A gente se vê"
"É, ok.” Ela sorriu. “Até qualquer hora"
E assim, foram cada um para um lado. Merida passou o trajeto inteiro, desde a loja até sua casa, admirando a neve sobre as árvores, carros e casas. Era impressão sua ou, de repente, o inverno ficara mais bonito? Parecia ter ganhado um brilho diferente. Talvez ela devesse rever a sua lista de coisas que odiava.
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