Winter In London

19 Capítulo 19 – Aquilo que é meu!


Notas iniciais
Ah! Finalmente o resgate! Parece que o nosso detetive preferido está totalmente a salvo... Será?

A madeira velha, podre e arruinada pelos cupins não fez mais do que assustá-los e dar tempo para que Gregor escapasse. Sherlock tratou de afastar a viga partida e os outros pedaços de madeira, ao mesmo tempo em que percebia a movimentação atrás de si. A polícia finalmente havia chegado! Afastou o último pedaço de madeira que restava sobre Mildred.

– Está bem? — perguntou apanhando um canivete no bolso e desatando a amarra que ainda prendia os pulsos dela. Em resposta ela se encolheu de dor. — Venha... — apanhou-a nos braços como se ela fosse uma criança e a carregaria por quanto tempo fosse necessário, não fosse a chegada dos paramédicos.

– Tudo bem! Cuidamos dela!

Sherlock resistiu um pouco em soltá-la. Pouco importava que ele fosse paramédico, médico ou o Santo Papa, não se sentia confortável com a ideia de outra pessoa carregando-a. Percebeu que também estava sendo levado até a ambulância e achou irrelevante dizer que estava bem. Queria mesmo estar por perto...

Receberam os primeiros atendimentos e a atenção do detetive estava toda voltava para o que acontecia a ela. Entendeu que ela estava fraca, debilitada e desidratada, mas felizmente não tinha nenhum ferimento sério. Ele mesmo, é claro, também não estava ferido, tinha apenas alguns arranhões pela queda da viga do teto. Foram deixados ali, sentados na parte de trás do carro de resgate com cobertores laranjas nos ombros.

Ela inclinou-se e recostou a cabeça no ombro dele. Ele manteve-se impassível. Ensaiou dizer algo meia dúzia de vezes, mas sentia que as palavras morriam antes mesmo que chegassem aos lábios. Estava genuinamente feliz por ela estar a salvo, por estar ali com ele, mas não sabia como expressar aquilo. Avistou Lestrade e John se aproximando de onde estava. Era a oportunidade que esperava para se livrar da situação incômoda. Lamentou mentalmente por não conseguir expressar seu verdadeiro estado de espírito enquanto afastava-se dela com cuidado.

– Graças a Deus, você está bem! — exclamou o inspetor.

Sherlock ensaiou um meio sorriso que mais pareceu uma careta e começou a explicar o que havia acontecido e como tinham escapado, quando John percebeu o olhar atento e entristecido de Mildred dirigido para onde estavam. Caminhou lentamente na direção dela, fazendo com que ela desviasse o olhar. Mas era tarde! Ele já havia percebido!

– Uma dupla e tanto... — comentou com um sorriso.

– Ahn? — ela devolveu com um fio de voz cansada.

– Vocês dois... — indicando Sherlock com um aceno.

– Ah! — suspirando. — Anos de convivência, você sabe... — ela murmurou.

– Fico feliz em vê-la!

– Aproveite bem... — esfregando os pulsos doloridos. — Pode ser a última vez...

– O que quer dizer? — devolveu John intrigado.

– Vou voltar para os Estados Unidos, para Atlanta. — fitando o detetive por um instante. — Não há mais nada em Londres para mim... — suspirando.

– Voltar? — franzindo o cenho. — Mas e quanto a Sherlock?

– Ele é seu, doutor! — disse ironicamente. — Faça bom proveito! — dando um sorriso sem graça. — Além disso, talvez seja melhor que eu me case com Johnatan... — percebeu a expressão de surpresa de John. — É... meu noivo, Johnatan! — suspirando novamente.

O médico fitou-a por algum tempo e depois olhou o amigo. Sabia o que ela estava sentindo. Sabia como era estar lá e não ser percebido... Não tinha como dizer a ela aquilo que pensava. Sherlock se importava com ela e se soubesse daquilo, tinha certeza que faria algo que a impediria de partir. Estendeu os braços e abraçou-a carinhosamente.

– Espero que tenha boa sorte...

Naquele mesmo instante Sherlock desviava sua atenção para onde Mildred estava. O abraço entre ela e John demorou alguns segundos e antes de se afastar, o médico ainda afagou o rosto dela e deu-lhe um beijo na bochecha. Voltou de cabeça baixa para onde o amigo estava. Lestrade tinha se juntado aos demais homens da Scotland Yard na tentativa de captura de Gregor Smith.

– Parecia que era a ultima vez que se viam... — disparou Sherlock assim que John parou perto dele.

– O que? — será que agora o amigo dera para ler pensamentos?

– O modo como a abraçou... — resmungou Sherlock, torcendo os lábios.

–Talvez seja mesmo... — disse suspirando e dando de ombros.

– O que quer dizer? — retrucou o detetive apertando os olhos.

– Eu não creio que deva...

– John!

– Sério! Não é problema meu! — gesticulando.

– John! Por favor! — a súplica saiu picotada, difícil.

– Certo! — talvez estivesse indo longe demais, mas não ia deixar tudo como estava. — Ela disse que vai voltar para Atlanta e se casar com Jonathan!

– E por que ela faria um absurdo desses? — desdenhou o outro.

–Talvez não seja tão absurdo... — erguendo uma sobrancelha. -Talvez ela queira se sentir amada...quem sabe?

– Ela não pode. — resmungou.

– Ah! Sim! Ela pode! E é o que vai fazer! — assegurou John com convicção.

– Não! Não vai... — levantando a gola do casaco e ameaçando sair de onde estava. John segurou-o pelo braço.

– O que vai fazer?

– Uma coisa … uma idiotice...

– De que tipo? — questionou curioso.

– Da primeira vez, eu não pude fazer nada. Mas desta vez, parece que eu posso... — explicou.

– Do que você está falando? — devolveu John, confuso.

– Quando ela foi embora da primeira vez! — revirando os olhos. — Eu não podia fazer nada! O que eu ia dizer a Mycroft? Não mande embora aquilo que é meu?

– Seu? — repetiu o médico erguendo ambas as sobrancelhas, surpreso.

– Sim, meu!

– E o que, exatamente, é seu?

– Ela... — disse Sherlock, deixando John fica tão chocado que ele acabou soltando-o.

Sherlock andou devagar sem ter a menor ideia do que diria. Seu único pensamento era que ela não podia partir! Não outra vez! E ele sabia que se alguém podia convencê-la a ficar, esse alguém era ele. Não sabia como, mas tinha que fazer alguma coisa. Sentou-se outra vez ao lado dela, onde estivera antes. Esperou, mas desta vez ela não usou seu ombro para descansar. Olhou em volta e acendeu um cigarro oferecendo um a ela, que aceitou em silêncio.

– Soube que pretende ir embora? — disse simplesmente.

– John tem mesmo uma boca maior que ele próprio... — suspirando. — Mas sim, irei assim que acabar com esses depoimentos...

– Soube que pretende se casar? — ele não olhava para ela, continuava olhando para frente.

– E o que tem você com isso? — zangada.

– É verdade? Vai se casar? — insistiu.

– Não é da sua conta! Não é problema seu!

– Você o ama? — soltando uma nuvem de fumaça no ar.

– Isso... — sentiu-se estremecer. — Isso também não é da sua conta! Jonhy é um bom homem...

– Mas você não o ama... — tornou a insistir.

– Ora! Como você pode ter tanta certeza? — devolveu encarando-o.

– Isso quer dizer que deixou de me amar? — finalmente voltando-se e olhando-a nos olhos.

– Mas que arrogância é essa? — encarando-o de olhos arregalados. — Quanta pretensão! De onde sai tanta confiança?

– Quando aconteceu?

– Quando aconteceu? — ela repetiu. — O que aconteceu?

– Quando parou de reagir a mim? — ele pestanejou e ela pode rever com clareza a cena no apartamento. Era isso o que ele queria saber? – E então? É verdade? — sustentou o olhar com firmeza no fundo dos olhos dela.

– É... — disse, sentindo-se derrotada. — Você tem razão. — enchendo os olhos de lágrimas. — Não deixei de amar... Quem eu sempre amei. Não posso deixar de amá-lo. Você tem tudo o que eu admiro, você é tudo o que eu amo... Mas o que eu posso fazer? — sacudindo os ombros. — Não posso competir com a razão, a lógica e a frieza de sentimentos. Não vou ganhar nunca! Não posso competir com o grande Sherlock Holmes e sua ciência da dedução. Eu só estou cansada disso. Você nunca me viu e acho que nunca vai me ver...– as lágrimas escorriam por seu rosto. — Parece uma boa solução! Eu me caso com um bom jovem americano e você continua feliz casado com o seu trabalho. Todos ficam felizes. Não é? — saltou de onde estava chorando. Quis sair de lá, mas percebeu o braço sendo seguro.– O que é? — gritou com o resto de voz que lhe restava. — O que diabos quer de mim? — enxugando o rosto com as costas da mão e chamando a atenção das pessoas mais próximas.

Ele encarou-a com aquele rosto sem nenhuma emoção, enquanto ela engolia os soluços. Ele puxou-a e abraçou-a com força, segurando sua cabeça contra o peito.

– Não diga mais isso na minha frente. Nunca mais diga isso! Nunca mais diga que ama outro homem... — tirou o cobertor das costas dela e afastou-se contemplando o olhar molhado e aturdido que ela dirigia a ele. Então inclinou-se e fez o que, até então, só era feito quando ninguém podia vê-los: beijou-a. – Nunca mais diga uma coisa assim. — repetiu segurando o queixo dela. -Você me pertence! — tirando o casaco e depositando de forma protetora sobre seus ombros. Segurou-a firmemente junto de si antes de sair na direção onde John estava.

– Você viu... — iniciou Lestrade quase em estado de choque.

– Sim! — confirmou John que ainda estava boquiaberto.

Não só os dois, todos que viram a cena pareciam estar em estado de choque e continuavam olhando os dois que caminhavam, como se fossem feitos de fumaça e pudessem desaparecer a qualquer instante. Mycroft um pouco mais distante que os demais, limitou-se a um sorriso discreto e entrou em seguida em um carro escuro que saiu silenciosamente. Sherlock sorriu para John, que parecia estar vendo algum tipo de assombração, e parou ao lado dele.

– Recolha o queixo e vamos jantar. Estou faminto... — e continuou andando para fora do pátio de armazéns.

Notas finais
E não é que o detetive cedeu? Mas e agora? Isso vai virar um relacionamento? E que tipo de relacionamento poderia ser? E quanto a Gregor Smith? Ainda deseja se vingar? Veremos...