Winter In London
9 Capítulo 9 - Cilada
Notas iniciais
Mildred estava amarrando os tênis pela terceira vez. O que havia de errado com aqueles malditos cadarços que não paravam atados? Estalou o pescoço e voltou a correr. O celular vibrou no bolso do abrigo de malha e ela apanhou-o sem parar.
"Foi uma sugestão? SH"
Ela sorriu. Ficava feliz quando ele respondia suas mensagens, mesmo sabendo que não passaria daquilo. Se começasse com aquele jogo não ia mais conseguir parar! Especialmente por que era adulta agora! Não havia nenhuma porta trancada que a impedisse! Não havia nenhuma vigilância! Nem mesmo Mycroft e sua super-proteção podiam impedi-la. Mal tinha completado o pensamento percebeu que um homem de boa aparência corria ao seu lado diminuiu o ritmo até finalmente parar.
Terno bem cortado, mãos delicadas. Desarmado. Cabelo bem penteado e pele bem tratada. Sem marcas de sol. Foi o que ela pode ver no meio tempo em que apoiou as mãos nos joelhos e recuperou o fôlego. Sorriu. Era tão óbvio que era chato.
- Se Mycroft quiser conversar comigo, que vá ao meu apartamento ou use o telefone... Não sou Sherlock, nem John. – no instante seguinte a porta de um suntuoso carro de luxo com vidros escuros se abriu alguns metros a sua frente. Mildred rolou os olhos e caminhou até lá, dobrando-se e olhando para dentro do veículo.
- Olá minha querida! – cantarolou Mycroft.
- Ah! Você está aí! – resmungou. – O que quer?
- Pode entrar? Posso deixá-la em qualquer lugar que desejar! – com um sorriso malicioso.
- Não... – entrando no carro. – Não onde eu gostaria...
- Não me diga... – devolveu desviando o olhar.
- Prefiro não falar disso com você... – suspirando.
- Apenas não gosto de ver o efeito que tem sobre você... – encrespando a testa. – Sempre tão corajosa e tão decidida e, no entanto...
- O que quer? – ela atravessou com energia.
- Quero que me deixe cuidar de você... outra vez! – olhando-a com certa ternura. – Já que decidiu ficar em Londres, contra a minha vontade...
- Você não quer cuidar de mim! Quer me vigiar!
- Não é verdade! Quero estar por perto! Você não precisa se desgastar naquele emprego horroroso!
- Diga de uma vez o que quer de verdade... – retrucou.
- Apenas cuidar de você... – suspirando. – Estou sendo honesto aqui. Sei que não irá embora, por que é como uma mariposa: atraída pela luz mesmo sabendo que pode arder até a morte se aproximar-se demais. – olhando-a seriamente. – É minha irmã e eu me preocupo com você!
- Como se eu fosse acreditar... – suspirando.
- Certo. Proponho um acordo!
- Esse é o Mycroft Holmes que eu conheço e amo! – sorrindo. – Qual é a cilada?
- Não é cilada alguma... – apoiando ambas as mãos sobre os joelhos. – Quero que recupere algo para mim. – estendendo uma foto a ela.
- Uma jóia?
- É uma história complicada, mas trata-se de um problema diplomático com Ashanti...
- Gana? – surpresa. – E o que... – revirando os olhos. – Ah! Deixa pra lá!
- Foi roubada! – ajeitando as mangas do casaco. – Já ouviu falar de Gregor Smith?
- Sim! Negociante de jóias, artes e antiguidades para a aristocracia mundial. Os muito ricos que não tem onde enfiar todo o dinheiro que têm e se digladiam para ver quem compra a bugiganga mais estupidamente inútil e cara.
- Ele está em Londres. – tirando algo do bolso interno do casaco. – Haverá uma recepção em sua residência em East Sussex...
- E isso na sua mão é?
- Convites... Para a recepção. É bastante... restrita.
- Dois convites? – franzindo a testa.
- Sim... – entregando-os a ela. – Ouça. — retomou com um sorriso torto. — Algum motivo especial para que você continue essa farsa de boa moça? Preciso da versão original da minha irmã nisso... – com um sorriso malicioso.
- Se eu entendi direito você está querendo um pouco mais que isso... – apertando os olhos enquanto encarava Mycroft.
- Está certa! – coçando o queixo. – Estou preocupado com...
- Não! Negativo! Sem chance! – energicamente. — Não vou apresentar de mulher fatal na presença dele! Nem por um decreto real, Mycroft Holmes! – ficando subitamente vermelha.
- Isso é estranho... – resmungou. – Por que a julgar pelas marcas nos pulsos dele eu podia jurar que... – ela arregalou os olhos encolheu-se no banco, escondendo o rosto entre os braços. – Não me diga que se envergonha?
- Tenho vergonha de você! Fala como se fosse alguma depravação! – disse sem se mover. A voz saiu abafada.
- Tratando-se dos dois eu realmente devia pensar em outra possibilidade?
- É incrível como quando é do seu interesse você de repente começa a falar... – ela resmungou.
- Ele respondeu? – apontado para o celular ainda na mão dela.
- Ah! – erguendo a cabeça. – Esteve na Baker Street?
- Acha que me preocupei por algum pressentimento fraterno? – irônico.
- É tão sério? – contraindo o rosto.
- Ainda não sei como você faz isso... Mas sim, é importante! – distraindo-se olhando através da janela por um instante. – Soube que faz algum tempo que não visita a escola em Durham...
- Sinto muito... Não tive tempo para ir com tudo o que aconteceu. – suspirou.
- Tudo bem... Você é uma pessoa difícil de ser esquecida para qualquer Holmes... – sorrindo.
- Hei! Não fale como se eu tivesse deixado de ser uma... – dando uma batida de leve na divisória que os separava do motorista. – Aqui está bom! – o carro parou. – Você sabe bem que eu mantive o sobrenome, só acrescentei o meu próprio. Eu vou à recepção e recupero a jóia. Mas não posso garantir que ele vá se interessar. Se for sério como você diz...
- Cuide de ir à recepção... – apanhando o telefone. – Eu cuido do estímulo necessário...
- E o que ganho nisso? – abrindo a porta do quarto.
- Eu vou fingir que desconheço suas relações não convencionais com...
- Okay! – atravessou saltando do carro. – Aceito. – e desapareceu na calçada no instante seguinte.
John ficou por algum tempo sentado na sala com seus pensamentos. Estava definitivamente confuso agora. Suas suspeitas não pareciam estar equivocadas, o problema é que tudo aquilo não fazia nenhum sentido! Andou até a porta do quarto e voltou uma dúzia de vezes. Aquela conversa não tinha terminado! Ouviu o telefone tocando e percebeu que o outro o havia deixado sobre a mesa de centro. Era Mycroft.
Apanhou o telefone, mas por algum motivo, que ele mesmo desconheceu, não teve coragem de atender a ligação. Seguiu caminhando até a porta. Ia bater, mas percebeu que no meio tempo em que tinha ido apanhar o telefone o outro a tinha aberto. Empurrou a porta devagar e entrou. Seu amigo estava espichado sobre o colchão com um braço sobre os olhos.
- Mycroft?
- Parece que sim... – respondeu o médico.
- Pode fazer o favor de falar com ele?
- Claro. – era mais gentileza do que já ouvira em toda sua convivência com Sherlock. Atendeu a chamada. – Alô?
- Dr. Watson, eu presumo... – disse a voz metalizada pelo aparelho. — Preciso falar com meu irmão, mesmo que ele esteja preparando-se para se jogar pela janela... – John segurou um riso nervoso.
- Sherlock, ele quer falar com você... – o outro sequer se moveu.
- Diga a ele que serei breve... – emendou Mycroft. John não disse coisa alguma, apenas estendeu o telefone ao outro e moveu os lábios em um “por favor” silencioso.
Em outros tempos, provavelmente Sherlock simplesmente levantaria da cama, caminharia até a sala e se poria a tocar notas agudas e agitadas, produzindo algo como um rosnado musical em seu violino e ignorando completamente a ligação. Mas fosse por algum sentimento de culpa pela prolongada mentira que contara a todos, fosse por aquele estado estranho em que se encontrava, o detetive apenas estendeu o braço e apanhou o telefone com um suspiro que John reconheceu como entediado.
- O que é que você quer agora?
- Pedir um favor... – iniciou Mycroft com um tom melodioso. – Acabei de enviar meu segundo melhor homem em uma missão.
- Hã? – franzindo a testa. – Explique-se Mycroft!
- Eu preciso recuperar um objeto importante. Imaginei que você estaria muito abatido para fazer-me esse pequeno favor, mas agora, pensando bem, talvez seja preciso... Talvez seja arriscado.
- Quem você mandou? De quem você está falando?
Oh! Como era fácil! Pensou o detetive. Mycroft era idiota, mas naquele ponto o conhecia com uma propriedade que ninguém mais tinha. Por que ele sabia, não sabia? Passou uma mão pelo rosto sentindo-se subitamente cansado. Sabia, mesmo antes de o irmão começar a falar que era uma armadilha, uma para a qual não teria fuga. Fazia tanto tempo que quase tinha esquecido o quanto aquilo modificava seu comportamento. Sentiu-se um completo idiota.
- Não se agite, já que sua saúde anda tão abalada...
- Se estivesse preocupado com a minha saúde não tentaria me chantagear!
Chantagem? Pensou John. Manteve os olhos atentos ao amigo enquanto a conversa evoluía.. Definitivamente aquele era um dia incomum.
- Não se trata de chantagem, meu caro! Trata-se de uma crise diplomática. Eu precisava de alguém inteligente o bastante para o serviço e você me pareceu impossibilitado...
- Não me diga que você... – interrompendo-se. Sabia que sim!
- Você não me deixou muitas escolhas! Mas veja bem, ela também é minha irmã e não acho coerente atirá-la no covil de lobos com Gregor Smith!
Aí estava! Sherlock conhecia Gregor Smith por sua fama! Era considerado pela classe criminosa por seu sangue frio e o gosto pela extravagância. Um negociador, um trapaceiro, um contrabandista financiado pelos mais ricos entre os mais ricos. Sentou-se sobre o colchão assim que compreendeu a situação completamente.
- Diga o que quer de mim...
- Apenas certifique-se que ela ficará bem, é tudo o que eu peço. – Sherlock não pode ver, mas sabia que seu irmão sorria. – Haverá uma recepção amanhã à noite. Dei os convites a ela...
Não esperou mais nenhuma palavra. Desligou e ficou fitando a tela do telefone por alguns instantes. De repente percebeu o olhar insistente e questionador de John sobre ele e estendeu-lhe o telefone na palma da mão.
- Escreva uma mensagem de texto. – disse juntando os indicadores diante dos lábios.
- O que escrevo? –perguntou o médico prontamente.
- “Baker Street. Amanhã. 20 horas.” Envie para o número que me enviou a última mensagem. – deitando de costas no colchão outra vez.
O que significava aquilo? John digitou a mensagem rapidamente e enviou. Para quem estava enviando aquela mensagem? Por que Mycroft havia ligado? Sua cabeça doía. Sempre fora assim antes... Fitou o outro que embora parecesse extremamente tranquilo e relaxado, tinha qualquer coisa de tenso como um fio esticado até seu limite. O telefone vibrou na mão de John.
- Leia.
- “O traje é de gala. John vai ficar uma graça em um smoking, Garanta que ele vista um!” – surpreso. – Mas, o quê?
- Uma recepção. Amanhã à noite. – estendendo os braços ao longo do corpo. – Tem um smoking?
- Mas afinal... Para quem acabei de enviar uma mensagem? – e que é queria vê-lo em um smoking afinal?
- Mycroft precisava de um favor... – iniciou. – Ouviu falar na redução do número de crimes no estado da Georgia? – disse calmamente.
- Georgia? Estados Unidos? – John não estava entendendo coisa alguma.
- Algumas das minhas fontes disseram que alguém estava fazendo um magnífico trabalho de assessoria. E pelo que apurei, era um trabalho realmente minucioso. Pouquíssimas mentes poderiam realizá-lo.
- E o que isso significa?
- Algumas semanas antes do meu... acidente... recebi uma informação... Mas ninguém sabia dizer seu nome ou como se parecia e então tudo se esclareceu. Só conheço duas mentes capazes de realizar um trabalho como o que estava sendo feito lá... Isso se eu não considerar Mycroft, que embora seja brilhante, é preguiçoso demais para tirar o traseiro de sua cadeira para qualquer coisa... Logicamente só havia uma opção: Mildred.
- E como tem tanta certeza? Você disse que havia duas mentes...
- Sim.
- E quanto a outra opção?
- Eu sou a outra opção, John! – fechando os olhos.
John sentiu-se tonto por um instante. Ele realmente insinuara que Mildred tinha o mesmo poder de dedução que ele? Era humanamente impossível que existissem duas pessoas assim! Claro que sabia que Mycroft era tão brilhante quanto o irmão, mas nesse caso, eram irmãos e havia um importante fator genético envolvido. Poderia acontecer de uma completa estranha ser dotada de uma mente tão privilegiada e ir acabar exatamente no mesmo lugar que aqueles dois?
- Não se trata disso, John! – disparou o outro, quebrando o silêncio e assustando o amigo. – Você não conhece a curiosidade daquela criança... Sempre foi uma criança assustadora. E estou considerando a mim mesmo...
- Sherlock... – resmungou. – É estranho que se refiram a ela como criança quando ela já é uma mulher adulta...
- Isso é verdade. – abrindo os olhos e fitando o teto. – Mas honestamente, não consigo vê-la de outra forma... – viu uma expressão de descrença no rosto do amigo. – E sei o quanto isso pode soar contraditório.
- Se eu ao menos pudesse entender o que há entre vocês...
- Você sabe o que há... – dando um meio sorriso esquisito. – Só é como todos e teima em não enxergar o óbvio. – esfregando a base do nariz com as pontas dos dedos.
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