Winter In London
4 Capítulo 4 - Vício
Notas iniciais
Nos dias de hoje...
Mildred andou pelas ruas sem rumo. Queria se perder. Não queria voltar para aquele apartamento, não com aquele monte de pensamentos perturbando-a. Sentiu-se estúpida. Não conseguiria simplesmente se perder em Londres! Tinha um maldito mapa da cidade na cabeça, não importava em quantos becos becos escuros se enfiasse. Acabou indo parar diante do 221 B, na Baker Street. Sentiu-se ridícula, mesmo assim pensou que não seria uma idéia tão ruim entrar e ver como John estava.
Odiava o lugar onde trabalhava! Odiava ser recepcionista em uma clinica! Odiava aquele médico idiota e obtuso! Odiava Londres! E odiava Sherlock acima de tudo! Por que, de todos os lugares, tinha que ter ido parar justamente lá? Correu escadas acima, segurando a respiração, bateu na porta com violência.
John estava sentado em sua poltrona, como de costume, cansado. Acabara de voltar de um novo emprego. Algo rotineiro e repetitivo, nada glamoroso. As batidas na porta o arrancaram de seu momento, assustando-o primeiro e depois o deixando confuso. Por um instante breve podia jurar que sabia quem encontraria ao abrir a porta. Sacudiu a cabeça com violência. Era uma estupidez. Em seus pensamentos, sequer percebeu quando ficou em pé e abriu a porta.
– Mildred! – era definitivamente uma surpresa, mas justificava a sensação familiar que sentira.
– John... – respirando depressa. – Eu posso?
– Claro! – ele deu um passo para o lado.
John franziu a testa quando ela passou andando apressada por ele. Parecia anos mais velha e cansada que da última vez que a vira. E embora estivesse visivelmente cansada e de algum modo perturbada, havia em seus olhos uma chama que ele não havia visto da primeira vez.
– E então? Algum problema? – questionou John sentando-se e indicando a ela a poltrona.
– John... – ela iniciou ignorando a pergunta. – O que faria se descobrisse que ele ainda está vivo?
John saltou. Não era algo em que nunca tivesse pensado, mas não esperava uma pergunta como aquela. Os olhos dela estavam atentos e agitados exatamente como os dele quando precisava analisar inúmeras possibilidades simultaneamente. Engoliu em seco.
– Seria um milagre se... – engasgando. – Eu...
– Não John! Sei exatamente o que você sentiria... – sacudindo a cabeça. – Perguntei como reagiria. Você seria capaz de perdoá-lo? — John ameaçou abrir os lábios , mas ela levantou-se de repente. – Obvio que sim! Obvio que sim! Você mataria para que isso fosse verdade! – franzindo a testa.
– Um fato. – concordou John sem encontrar outras palavras.
– Você sabe que ele teria motivos para...
– Fingir-se de morto? – completou. – Uma dúzia deles...
– Acredita em milagres John? – perguntou encarando-o.
Ele não respondeu. Ficaram assim, olhando um para o outro sem uma palavra pronunciada. John quase pode sentir-se como quando passava horas naquela sala, enquanto Sherlock pensava. E agora lá estava aquela jovem, completamente imóvel, numa concentração absurda! Deixou tudo como estava. Preferiu apenas aguardar.
– Preciso ir... – ela disse depois de mais de meia hora.
– Você está bem?
– Estou! Estou! Volto logo... – espichando-se e beijando-o na bochecha.
Não tinha jeito, tinha? Ela sabia o que aconteceria se permitisse que ele permanecesse em seu apartamento. Era um risco muito grande. Sempre soubera disso. Por isso os EUA pareciam uma opção tão atraente... A um oceano de distância daquele vicio! Mesmo assim, ela tinha pego o avião duas ou três vezes, embora só tivesse tido coragem de se aproximar uma vez... Numa estúpida noite de inverno, debaixo de uma tempestade infernal.
"Na sua porta, embaixo da chuva. M."
Era tudo o que a mensagem de texto dizia. Sherlock saltou da poltrona. Estava no meio de um caso de desaparecimento. Uma garotinha simplesmente sumira em um passeio no parque e ele não conseguia fazer com que as pistas fizessem sentido. Havia horas que estava sentado, de roupão, naquela sala escura e enfumaçada. Mesmo assim a mensagem o sacudira. Saiu sem fechar a porta do apartamento ou calçar os chinelos.
Ela estava lá, de fato. Em frente a porta do edifício. Ensopada... Tinha mais de dois anos que não se viam. Ela havia crescido, os cabelos estavam mais compridos e mais escuros... Mas eram os mesmos olhos, sempre os mesmos olhos. Apressou-se e abriu a porta.
"Mildred!"
"Olá Sher..."
Ela lembrava perfeitamente do modo como ele puxara seu braço e a empurrara escadas acima. Tinha sido a última vez que ela fizera aquela loucura... Lembrava do dia amanhecendo... Não conseguira pregar os olhos... Lembrava de estar em pé diante do quadro cheio de indicações e anotações, enquanto ele permanecia imóvel naquela poltrona. Lembrava de ter sussurrado sua dedução dentro da orelha dele.
"Mas é óbvio" ele saltara da poltrona e olhara para o quadro com um sorriso. A frase seguinte, porém, apagou qualquer vestígio de alegria que pudesse ter surgido. "Não pode continuar fazendo isso..."
Ela pensara em uma dúzia de respostas. Em que ele estava pensando? Mas o que ela iria argumentar? Eram uma parceria sem precedentes, mas ele sabia disso. Mas ele tinha razão. Era um vicio perigoso para ser mantido. Ela não disse nada. Apenas foi embora e não voltou mais.
Envolta em seus pensamentos, percebeu que estava de volta ao seu apartamento. Escolheu subir as escadas. Era mais lento e daria mais tempo para acomodar seus pensamentos e emoções. Ao dar com a sua porta, abriu-a devagar...
– Voltei! — anunciou Mildred para um apartamento silencioso e escuro.
As janelas estavam abertas e um vento frio soprou pela sala. Suspirou. O chuveiro estava desligado. O sofá impecavelmente arrumado. Franziu a testa e apertou os olhos. Fechou os vidros das janelas e perdeu o olhar um instante pelo lado de fora. Ele estava ali. Estava no seu quarto, provavelmente estendido na sua poltrona de leitura, suspirando e mergulhado em tédio profundo. Tirou o casaco, descalçou os tênis e seguiu para o quarto.
– O que está... — engasgou com as palavras, não esperava a cena que encontrou.
Ele estava de fato em seu quarto, mas não ocupava a poltrona, estava sentado em sua escrivaninha com sua caixa de fotografias aberta ao seu lado e diante de si, o bonito caderno de capa de tecido florido e paginas perfumadas... O diário que só parara de escrever tinha pouco mais de três anos. Qualquer mulher ficaria furiosa, saltaria sobre o caderno e o arrancaria das mãos do violador de segredos. Mas o que adiantava? O que ele não lesse naquelas páginas podia ler nos olhos dela, no modo como suspirava ou como apertava as mãos uma contra a outra. Era uma estupidez pensar que ele não soubesse.
– Quando pensava em me dizer? — disparou Sherlock sem aviso.
– Dizer-lhe? — piscando confusa. — Dizer-lhe o que?
– Que pretende me mandar embora...Não é o que pretende? — sem olhar para ela.
– Estava lendo o meu diário... Por que?
– Tédio! — respondeu sem emoção.
– E desde quando minhas intimidades representam alguma distração?
– Ao menos não são as intimidades de uma pessoa comum, ordinária, simples...
– Hum... — resmungou andando devagar até ele. — Eu posso? — esticando um braço na direção do caderno.
– Por favor! — ele devolveu, desta vez olhando para o rosto dela, sem sorrir.
Encararam-se num silêncio profundo por longos minutos. Ao mesmo tempo que não tirava os olhos do rosto dela, Sherlock pode perceber o leve tremor em suas mãos, enquanto segurava o caderno, a respiração agitada e contida a custo, uma agitação incomum dos pés e pernas. Até os olhos dela tremiam e no entanto, a um observador descuidado ela pareceria completamente imóvel e sem emoção. Tinha certeza que ela ia começar a chorar a qualquer momento.
Embora fizesse muito esforço para reter suas emoções, Mildred buscou saber com o que estava lidando ali. Uma coisa era jogar, brincar de gato e rato com Sherlock quando ele estava de excelente humor, precisando de estimulo ou apenas de companhia, outra coisa, muito diferente era manifestar seus sentimentos diante dele. Especialmente quando esses sentimentos diziam respeito ao próprio. Ele tinha aquela expressão ambigua de concentração e desinteresse; os olhos semi cerrado, as sobrancelhas meio arqueadas, uma ponta de sorriso no canto dos lábios, as mãos juntas diante do rosto. Maldito rosto indecifravel!
Queria tanto ter tido a oportunidade de tê-lo visto na presença de Adler... Simplesmente não tinha parâmetro para julgar as manifestações dele agora. Sabia que ele estava pensando nas coisas que supostamente havia encontrado no diário. Sabia que ele estava sendo invadido por uma série de lembranças enquanto pensava. Sabia que ele a analisava ao mesmo tempo em que calculava qual seria a atitude certa a tomar. O que não sabia era que tipo de emoção estava escondida atrás daqueles ombros levemente arqueados e daquela respiração insignificantemente ofegante. Era normal que seu maxilar estivesse tão rigido? Parecia que tinha todos os musculos da face tensos... Que tipo de reação era aquela? Conformou-se de que não sabia interpretar aquelas emoções, sequer sabia que emoções eram aquelas.
– Quando? — ele meio que sussurrou de repente, sem mover nada além dos lábios.
– Eu não planejei nada... — ela confessou. — Apenas... — o que é que ele queria com aquelas cobranças? Eram cobranças? — Você sabe que não combinamos...
– Sei... — ele concordou acenando a cabeça.
– Sabe o que acontece quando passamos muito tempo juntos... — suspirando.
– Ah! Sim! Eu sei!
– E não parece óbvio então? — sacudindo os ombros.
– Não sei Mildred... — ele devolveu apertando um pouco mais os olhos. — Eu não a via há mais de cinco anos. Não esperava encontrá-la quando retornei, embora fosse uma grande possibilidade. — levantando-se da cadeira e andando em torno dela. — Mas você estava em Atlanta, na Universidade, honestamente não achei que a minha morte fosse suficiente para tirá-la de lá, já que não havia mais retornado desde que partiu... — tomando folêgo. Mildred abriu a boca mais de uma vez ensaiando interrompê-lo, mas não o fez. — Imaginei, honestamente, que estiovesse feliz já que não deu mais noticias desde que se mudou. — parando as costas dela.
– Está sendo injusto comigo! — ela retrucou em um tom de voz sussurrado. — Acha que eu achava divertidas suas mensagens no meio da noite? "Urgente", "Importante"... Eu estava do outro lado do oceano! — ela gritou gesticulando. — Mas você, eu sua profunda arrogância, esquecia-se disso sempre que precisava de algo além de um crânio para lhe ajudar a organizar seus pensamentos.
– Por isso parou de responder? — juntando as mãos novamente diante do rosto.
– Voce não respondia minhas mensagens, por que eu devia responder as suas? — olhando-o seriamente. — Além disso, da última vez que vim a Londres, alguém me mandou embora? Está lembrado, meu caro? — os olhos dele mudaram de foco duas vezes antes de se concentrarem de novo nos dela.
– Pareceu o certo a fazer e era o que você parecia querer...
A boca de Mildred se abriu num misto de espanto e o início de uma resposta que não saiu. Em seguida ela engoliu em seco e caminhou até o closet. Ele cruzou os braços e apoiou-se na parede. Ela jogou as peças de roupa sobre o biombo por trás do qual se ocultava. Ele observava a sombra oscilante se movimentando sem mover um único fio de cabelo do lugar. Ela saiu amarrando as pontas do cinto do roupão de algodão com listras.
– Se vai ficar, feche a porta! — resmungou antes de se jogar na cama.
Ele caminhou devagar até a porta e segurou-a por um instante. Tinha duas escolhas: ficar ou sair. Se saisse saberia que ela não voltaria a lhe dirigir a palavra pelo menos por alguns dias e cinco anos já tinham sido tempo demais; se ficasse, porém, sabia que acabaria preso numa antiga armadilha que ele mesmo armara para si... Encheu os pulmões de ar e soltou lentamente fechando a porta. Ia ficar.
Descalçou os sapatos, tirou o blazer e caminhou até a poltrona de leitura dela, diante da cama onde ela acabara de sentar-se com as pernas cruzadas. Encararam-se outra vez. Ele sabia que não ia durar. Cinco minutos, talvez... Não mais que isso. Geralmente era ele quem insinuava, mas nem estava concentrado em um caso, nem precisava relaxar. Estava entediado, mas naquele momento, não era o tédio que o estava impelindo a inclinar meio corpo para frente na poltrona e erguer uma sobrancelha. Ela conhecia o movimento. Era um convite.
– O que foi? – ela questionou ainda com uma carranca.
– Tédio! Terminei o que tinha para fazer e faz mais de uma semana que nada acontece. – respondeu ajeitando as mangas da camisa, desinteressado.
– Cigarros? Uísque? – sugeriu franzindo a testa.
– Preciso de alguma coisa bem mais forte que isso... – afundando na poltrona.
– E tentou algo mais forte? – perguntou maldosamente.
– Meu pior veneno estava indisponível... – juntando as mãos novamente.
– Pensei que tivesse se livrado desse vicio...
– Ainda sofro de abstinência... – voltando a se recostar na poltrona.
– Sabe que não pode simplesmente pensar que basta você...
– Eu não pensei em coisa alguma... – espichando-se.
– Está aqui há dois dias...
– Eu sei... – fechando os olhos e jogando a cabeça para trás. Ela levantou e andou devagar na direção da poltrona. – Eu não pedi para... – ele iniciou.
– Cale a boca! – debruçando-se sobre as pernas dele. – E mantenha seus dentes longe de mim! – determinou engatinhando na direção dele.
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