Winter In London

22 Capítulo 22 – Mensagens para você!


Notas iniciais
Temos que ver Molly! Como será que a nossa mocinha vai reagir a presença de Mildred Arnet?

– Temos que ver Molly! — resmungou Mildred imitando a voz do detetive.

– O que está fazendo? — questionou Sherlock observando-a.

– Estou admirada! Que eu soubesse você não tinha amigos, muito menos amigas... — fazendo uma careta.

– Ah! Compreendo! — com um ar debochado.

– Não compreende coisa nenhuma! — retrucou Mildred.

–Ciúmes? — ele perguntou divertido.

– Não tenho ideia do que está falando...

Aquela era a parte divertida em tudo aquilo. Não se importava em falar daquelas coisas com ela. Embora se incomodasse em senti-las, não se sentia intimidado se tivesse que assumir esses sentimentos para ela. Ela lhe dava vontade de rir o tempo todo. Era a isso que chamavam de felicidade? Era de fato um sentimento caloroso que parecia preencher todo o seu interior sem deixar espaço para qualquer outra coisa. Era isso o que ele não podia permitir. Mas sempre havia tempo para que se divertisse com a personalidade sanguínea de Mildred.

– Qual era a natureza do seu relacionamento com Jonhatan? — disparou.

– Não quer saber isso. — ela disse simplesmente.

– Sim, eu quero! Faz parte disso, não faz? — fazendo uma careta curiosa.

– Ok! — ela devolveu com um sorriso maldoso. — Eu digo, se me disser qual era a natureza do seu relacionamento com Irene...

– Quem? — levantando uma sobrancelha e franzindo a testa.

– Irene Adler! — devolveu com certo desgosto.

– Ah... — ele lembrava quem era.

– Não respondeu... — insistiu Mildred concentrada nos olhos dele.

– Não há resposta

– Aham! — cruzando os braços e apertando os olhos.

– Ciúmes? — perguntou com um sorriso vitorioso.

– Não. Não tenho esse tipo de sentimento...

– Ora! E o que é isso? Segurança?

– Não é isso. — sorrindo. — Meu namorado é o homem mais insensível da terra! Estou perfeitamente segura, por que ele é incapaz de sentir simpatia por um filhote de gato!- ele deu um sorriso torto: agora ela era a vitoriosa.

Não demoraram em saber onde Molly estava. A expectativa de entrar no necrotério afastou completamente da mente de Mildred qualquer suspeita que pudesse ter levantado antes. Sequer deu maior atenção a garota de jaleco branco que surgiu no meio das mesas de metal quando Sherlock empurrou a porta.

– Olá Molly! — ele cumprimentou-a com um sorriso. — Precisamos conversar sobre a sua segurança!

– Minha... O quê? — ao contrário de Mildred, Molly notara a presença de outra mulher naquele ambiente.

– Sua segurança! — ele repetiu. — Receio que possa estar correndo perigo! — mas Molly estava muito mais preocupada com os curiosos olhos esverdeados que passeavam por ali com um sorriso.

– Ela... — apontando para Mildred sem conseguir formular uma pergunta clara.

– Mildred! — esclareceu o detetive. — Quase esqueci que não se conheciam de fato!

– Sua irmã?

– Não somos irmãos! — responderam os dois ao mesmo tempo deixando Molly um pouco chocada.

– Tem lido os jornais? — perguntou Mildred afastando-se do corpo que estava observando até então. — Ficamos bem famosos ultimamente.

– Mildred! — resmungou o outro.

– O que é? Se é para ser segredo, avise a imprensa primeiro, meu querido! — sorrindo. — E não haja como se não soubesse que ela tem um claro interesse romântico na sua pessoa! — encarando-o com a testa enrugada.

– Não dê atenção a ela, Molly! — suspirando e voltando-se para a outra. — Ela é um pouco entusiasmada demais!

– Ok. Entendi! — disse Mildred fazendo uma careta. — Vou deixar os pombinhos a sós. — dando as costas. — Mas que fique claro que eu sei atirar facas e sei onde você mora, Molly Hooper! — saindo.

– O que ela... — Molly tartamudeou e Sherlock tentou esconder um sorriso.

– Não ligue! É apenas ciúmes infantil! Sua segurança é mais importante.

– Ciúmes? — repetiu Molly. — E por que ela teria ciúmes?

– Por que insistem em se interessar por assuntos sem a menor importância quando suas vidas estão correndo risco? — devolveu Sherlock atônito.

– Não é um assunto sem importância! — defendeu-se Molly.

Não era! Havia perdido as contas de quantos anos fazia que admirava aquele homem e o observara proteger-se dentro de uma dura armadura de frieza e perfeição. No entanto, naqueles segundos em que ele estivera perto daquela garota de corpo franzino e olhar tranquilo, ele tinha expressado um contentamento muito maior do que ela já o vira ter em qualquer outro momento. Não era coisa que se dissesse com palavras, nem mesmo com sorrisos, ela algo que ele trazia no olhar... Portanto tinha muita importância saber o que estava acontecendo.

– Oh! Ok! — suspirou dando-se por vencido. — Mildred não é minha irmã. Somos amantes desde que ela tinha quinze anos. Ela ia embora. Eu pedi que ficasse. — disse num fôlego só. — E estamos... — olhando seriamente para Molly. — Bem, estamos juntos. Agora... Preciso que preste atenção no que eu tenho para...

– Como assim: estão juntos? — incrédula. — Você disse amantes? — alarmada.

– É sério? É mesmo sério? — impaciente. — Quer dizer, você pode cair morta daqui a algumas horas e está mais preocupada com a minha namorada? — a frase inteira saiu de sua impaciência, sem que ele pensasse nas palavras. Ele mesmo admirou-se ao ouvir-se pronunciar aquela palavra.

– Está certo! Você tem razão! — rendeu-se Molly.

Mas a frase não lhe saiu do pensamento. Minha namorada. Foi uma frase honesta e impaciente, ele não tivera nenhuma intenção de dizer aquilo. Isso fazia tudo ficar ainda mais verdadeiro. No meio segundo em que levou para guardar seus sentimentos e aquela informação desagradável, percebeu que ele espiava por cima do próprio ombro, na direção da porta. Só o vira procurar John com os olhos daquela maneira. Sentia-se vencida de uma forma cruel. Sentiu-se derrotada.

– … e então, há a possibilidade de estar em risco, neste exato momento! — Sherlock concluiu.

– E o que eu devo fazer? — devolveu Molly desanimada e um pouco preocupada pelo que ele acabava de dizer.

– É melhor... — suspendeu a frase ao mesmo tempo que seu olhar percebeu que Mildred voltava para o necrotério.

– Abaixem! Agora! — ela gritou gesticulando.

Os três se jogaram no chão ao mesmo tempo, meio segundo antes de as janelas explodirem em milhares de cacos de vidro que voaram para o interior. Mildred rastejou para baixo de uma das mesas de metal e cobriu a cabeça com as mãos. Uma saraivada de balas atravessou as janelas quebradas. Sherlock olhou Molly encolhida embaixo de uma mesa, abraçando os joelhos e percebeu que perdera Mildred de vista.

Aquilo parecia interminável. Mildred fechou os olhos e desejou que tudo acabasse, que pudesse sair dali. Em meio a sua meditação, sentiu um toque gelado em sua nuca. Sherlock tinha se esgueirado por baixo das mesas de autópsia e alcançado-a. Sem dizer qualquer coisa ele segurou-a contra si e colocou a mão de forma protetora em sua cabeça. Ela abraçou-o agradecida.

Assim que os tiros cessaram Molly ergueu-se. Sentiu os joelhos tremerem, mas estava preocupada. No meio da confusão o detetive tinha se afastado dela... E se estivesse ferido? E se tivesse sido atingido? Estremeceu somente com aquele pensamento. Precisava encontrá-lo! Avistou os cachos curtos e começou a abrir um sorriso ao contornar uma das mesas. Mas seu sorriso se desmanchou no instante seguinte.

O detetive abraçava aquela garota estranha com força, como se não fosse soltá-la nunca mais. Ela estava aninhada nos braços dele, de maneira familiar e confortável, como se aquele fosse seu refúgio natural. Olhando aquela cena, quase era possível tomar aquele homem por alguém comum... Alguém que tinha sentimentos. Molly deu um passo para trás. Aquilo era muito maior do que ela podia imaginar. Percebeu que ele se inclinava e beijava a testa dela com carinho. Deu mais um passo para trás e finalmente deu as costas para eles.

– Acabou! — ele murmurou perto da orelha dela. Os dois se levantaram devagar. — Tudo bem?

– Onde está a garota? Ela está bem? — agitou-se Mildred espiando por cima dos ombros dele.

– Sim... Ela está bem! — disse Sherlock sorrindo.

– Temos que tirá-la daqui! Imediatamente!

– Às suas ordens, minha senhora! — ele assentiu sorrindo.

Mildred era desse jeito. Profundamente humana. E imensamente diferente dele. Ela simpatizava com as pessoas e compartilhava de seus sentimentos. Desde que criança sempre fora empática, magnética, amistosa. Sentiu-se agradecido por ela estar de volta em sua vida. Era como se sua própria alma tivesse voltado a viver em seu corpo.

Molly engoliu em seco. Havia naquele homem um sentimento que jamais tinha presenciado. A necessidade da aprovação daquela que ainda segurava como se temesse perdê-la. Não podia sentir nada além de encantamento diante daquilo. Era algo contra o que não podia lutar. Um sentimento devidamente enraizado e sedimentado no fundo do espírito dele. Sorriu, por fim, dando por vencida, mas sem nenhum sentimento de derrota.

Os dois se aproximaram e Mildred tocou o ombro de Molly. As duas se olharam brevemente e sorriram uma para a outra. No instante seguinte um som estranho arrepiou a ambas. Sherlock vasculhou os bolsos e mostrou o telefone com um sorriso cínico. Mildred torceu os lábios e conduziu Molly para a saída!

– Ele passou o dia recebendo mensagens assim... — resmungou.

O detetive olhou para o telefone e suspirou. Não era hora para aquilo. Ainda não. Precisava colocar Molly em segurança, certificar-se que todos estavam a salvo. Por fim, precisava ter certeza que Mildred estava segura. Só então poderia se preocupar com aquelas mensagens sinistras. Era sempre a mesma coisa e a cada mensagem tinha mais certeza que era mais que uma brincadeira inocente.

Mildred tinha sua própria rede de sem-teto! Sherlock tinha acabado de descobrir isso quando ela sacou seu telefone e convocou alguns deles para que escoltassem Molly até um dos seus próprios locais seguros. O detetive deixou que ela tomasse conta daquela crise. Ela era inteligente, firme, ágil... E ele a admirava profundamente.

Quando Molly estava devidamente encaminhada, Sherlock sentiu uma pontada por ter que desmanchar o sorriso satisfeito no rosto tranquilo de Mildred. Mas já era a hora e seu telefone vibrava enlouquecido. Era John que estava ligando e suspeitava que não havia nenhuma boa notícia naquela ligação.

– Sinto muito interrompê-la, mas... — mostrou o visor do telefone. — Temo...

– Não tema homem! Atenda! — agitou-se a garota.

– John? — questionou o detetive ao desbloquear o telefone.

– Estamos bem! Estamos bem! — apressou-se em dizer o médico. — Houve tiros, mas estamos bem!

– O mesmo por aqui! — resmungou o detetive.

– Mas tenho que ir ao hospital... — murmurou John.

– Foi atingido?

– John? O que houve? — gritou Mildred.

– Não foi nada sério.

– Outro tiro de raspão?- murmurou o detetive com um sorriso torto.

– Isso... — admitiu John, sentindo-se envergonhado.

– Está ficando velho, meu caro!

– Ora, seu... — guardou o palavrão. — Molly está bem?

– Sim, está segura agora!

– E Mildred?

– Vou cuidar disso imediatamente! — desligando em seguida.

– O que foi? John está bem? — perguntou a garota concentrada no rosto dele.

– Sim, está! — suspirou. — O que acha disso? — mostrando o visor a ela.

– É isso que tem recebido o dia inteiro? — perguntou com a testa franzida.

– Sim...

– É código binário? — questionou concentrada.

– Parece que sim... — murmurou.

Mildred concentrou-se na sequencia de zeros e uns que parecia seguir-se infinita.



01110001 01110101 01100101 01101101 00100000 01110000 01110010 01100101 01100011 01101001 01110011 01100001 00100000 01101101 01101111 01110010 01110010 01100101 01110010 00100000 01110000 01100001 01110010 01100001 00100000 01100110 01100001 01111010 01100101 01110010 00100000 01110110 01101111 01100011 11101010 00100000 01100011 01101000 01101111 01110010 01100001 01110010 00111111



–Sher! Isso é...

– Uma ameaça, eu sei! — guardando o telefone. — Queria apenas ter certeza que entende a seriedade do que vou fazer.- andando apressado até a esquina.

– E o que vai fazer? — seguindo-o.

– Vou colocar você em segurança!

– Se pensa que vou deixá-lo sozinho...

– Vou levá-la para Baker Street! — determinou ao mesmo tempo em que um táxi parava.

Mildred emudeceu ainda olhando fixamente para os olhos esverdeados do detetive que pareciam brilhar de uma maneira muito diferente do que estava acostumada a ver. Sentiu que era sacudida por ele e obedeceu a indicação de entrar no veículo estacionado, mas ainda não tinha processado muito bem as últimas palavras dele.

– Disse Baker Street? — murmurou alguns minutos mais tarde.

– Isso!

– Com você?

– Exato!

– E John?

– Sim, creio que ele também vá estar lá... — fazendo uma careta.

Ela silenciou novamente e percebeu que o táxi não estava se afastando de West End e indo na direção do apartamento dela. Ainda estava no meio daquele estranho transe quando subiram as escadas e entraram no apartamento. Enquanto enchia a mochila de roupas, aquilo começou a incomodá-la.

– Por quê? — perguntou encarando o detetive que a aguardava sentado na poltrona.

– Por quê? — franzindo a testa. — O que quer saber?

– Baker Street! Por que Baker Street? Assim eu estarei no olho do furacão...

– Nenhum outro lugar seria mais seguro... — resmungou desviando o olhar.

– Sher... — fechando a mochila. — Sabe que eu sei que isso não é verdade. Eu estaria mais...

– Não disse mais seguro para você! — ficando em pé. — Nenhum outro lugar seria mais seguro para mim!

– Não entendi... — confusa.

– Eu estaria perdido se não visse você a cada minuto e me certificasse de que está a salvo! — saindo imediatamente do quarto.

Mildred sorriu e colocou a mochila nas costas. Era o mais próximo de uma declaração de amor que ele era capaz ... E estava satisfeita com isso!