Winter In London
10 Capítulo 10 - Vésperas
Notas iniciais
– Se eu ao menos pudesse entender o que há entre vocês...
– Você sabe o que há... – dando um meio sorriso esquisito. – Só é como todos e teima em não enxergar o óbvio. – esfregando a base do nariz com as pontas dos dedos.
Oh! Deus! Do que ele estava falando? O que era óbvio? Como ele podia manter aquela calma? John estava sentindo-se cansado e frustrado. Tinha a impressão que aquela mulher, aquela “criança”, não era nada daquilo que parecia ser. Apenas não sabia porquê! Por que Sherlock parecia tão distante? Por que iam a uma recepção? Por que ele precisava de um smoking e, mais importante: o que Mildred tinha a ver com tudo aquilo?
Se prestasse realmente atenção John perceberia que não havia nenhuma calma ou tranquilidade. Sherlock continuava esfregando a região entre os olhos. Estava preocupado e com dor de cabeça. Preocupado por que achava que Mycroft era um perfeito idiota e ao mesmo tempo, brilhante. Recusaria o simples roubo do que quer que fosse, mesmo que o assaltante fosse o mais procurado pela Interpol... Mas jamais recusaria proteger Mildred e ainda ter a oportunidade voltar a “brincar” com ela. Percebeu que John continuava observando-o como se seu rosto estivesse ficando verde.
– Houve um roubo. Mycroft pediu a Mildred que recuperasse o objeto roubado.
– E o que você tem a ver com isso? – questionou John franzindo a testa.
– Ele a pôs em risco. Sabia que eu não recusaria...
– Protegê-la? E desde quando você se importa em salvar a vida de alguém? – questionou de pronto. Sherlock apenas suspirou e olhou para John com uma expressão completamente sem emoção. – Desde que seja Mildred... É isso?
– Não posso evitar. – foi tudo o que disse.
– E o que Mycroft pretende?
– Não faço a menor ideia... – devolveu com um sorriso frustrado. – Já tem um traje?
– Não... Mas posso providenciar. – ainda confuso.
– Faça isso... – fechando os olhos e escorregando na poltrona.
– Sente-se bem?
–Não... – resmungou. – Não se preocupe. Apenas não se surpreenda com nada que vá ver ou ouvir... – suspirando.
– Eu deveria me preocupar com isso?
– É apenas um aviso... – com um sorriso estranho. – Afinal é algo que você nunca viu acontecer antes.
– E exatamente o que eu não vi acontecer?
– Nunca me viu perder controle... – murmurou.
John engoliu em seco. Ainda havia uma dúzia de interrogações na sua mente, mas percebeu que não adiantaria despejar questionamentos naquele momento. Talvez fosse melhor apenas providenciar o smoking e deixar que as coisas seguissem seu próprio rumo. Fosse o que fosse ele descobriria na noite seguinte. Antes que saísse, ouviu o sinal de mensagem do celular do outro e o viu sorrir para o telefone. Definitivamente ele desconhecia aquele sorriso.
“Meu irmão me deixou preocupada. Você está bem?”
Ela realmente esperava uma resposta para aquela mensagem? Era um mau hábito adquirido há muito tempo e que só tinha parado depois da desastrosa ultima visita dela a Londres. Não era que ele tivesse parado de escrever mensagens para ela, apenas tinha parado de envia-las... Perguntou-se se ela podia de algum modo saber sobre isso? Mas o estrago já estava feito! Em uns poucos dias em contato com aquela criatura ele estava totalmente dominado outra vez... Como impedir que aquilo sobrepujasse tudo o que levara tanto tempo e empenho para construir?
“Entediado. SH”
Ela riu sonoramente da resposta. Se ele não dividisse um apartamento com outra pessoa, ela teria um punhado de sugestões para acabar com aquilo... Quando o reencontrou duvidou um pouco que ele ainda estivesse disposto a jogar aquele jogo. Mas ele se mostrara bastante animado. Honestamente, depois de tudo o que tinha ouvido, acreditava que ela própria era uma fase superada na vida dele. Mas alguma coisa lhe dizia que a coisa não era tão simples. Ela tinha brincado com fogo por que já estava chamuscada o bastante, mas nunca compreendera direito por que ele se deixara arrastar para aquela fogueira.
“Ainda tem um chicote?”
Era uma pergunta tão atrevida! Tão típica dela! Ela era entusiasmada e divertida, desde que se pudesse compreender do que ela estava falando. Dificilmente era direta no que dizia. Mas tinham convivido tempo suficiente para que ele entendesse até mesmo suas reticências. Ela tinha alguma ideia dos motivos que o faziam aceitar aquela brincadeira perigosa? Era um jogo excitante! Sempre fora! Ficavam rodeando um ao outro até ver qual dos dois se deixava apanhar primeiro. Era uma perseguição especialmente saborosa por se tratar de alguém que conhecia quase todos os seus segredos.
“Ainda tem um par de algemas?”
A ausência da assinatura era um sinal de rendição. Significava que ele estava sendo direto, que estava participando do jogo. Não conseguia imaginar como é que ninguém percebia o homem por trás daquela mascara de passividade e frieza. Não que ele tivesse os mesmos interesses dos demais. Ela sabia que eram outras forças que o moviam... Mesmo assim era de uma força e energia invejável! Mesmo que significasse apenas uma fuga para o tédio vertiginoso.
“Vai ter que usar a imaginação...”
Ah! Lá estava a hesitação. Significava que ele tinha ganhado aquela pequena disputa. Ela não sabia como continuar. Na verdade, se ela tivesse dado mais um passo em frente seria ele a não saber mais para onde ir. Sentiu-se aliviado! Temia o impulso de levantar da poltrona, apanhar um táxi e ir bater na porta dela... Um impulso que estava refreando havia quatro dias. Nunca imaginou que pudesse sentir falta de alguém daquele modo, tão concreto... Doía estar longe sabendo que podia encontra-la quando quisesse. Doía fisicamente.
“Só até amanhã. Purpura ainda é a sua cor? SH”
Ah! A superioridade dos vitoriosos. Ele sabia usá-la como ninguém. Ainda que se sentisse um fantoche nas mãos dele em 90% do tempo, era ao fim de pequenas jogadas como aquela que se sentia mais dominada. Aquilo não era sobre sedução, era um desafio. Era sobre o estranho fascínio que despertavam um no outro e que acabava levando a outro nível. Claro que ela tinha sentimentos envolvidos naquilo, mas quem se importava com isso, desde que o jogo fosse jogado?
“Espere para ver!”
Que tipo de coisa era aquela? Ela tinha escrito três palavras simples e agora parecia que além de sua mente ter disparado, o sangue em suas veias estava correndo muito mais depressa. Agora estava com um problema sério. Ia perder o controle em pouco tempo se não encontrasse qualquer coisa para ocupar a mente. Chegou a sobressaltar-se quando seu celular vibrou.
“Dália Negra. Tente esse!”
Era aquele tipo de conexão que o intrigava. Largou telefone e caminhou até sua estante aonde havia uma série de papéis de crimes nunca solucionados. Mildred conhecia a maioria deles, em parte por que ela mesma enviara alguns daqueles para que ele “se distraísse” quando as coisas andassem muito tediosas. Puxou a pilha de papéis e não demorou a encontrar os que se referiam ao assassinato de Elizabeth Short, uma aspirante a atriz de Hollywood. Deixou-se absorver completamente pelas anotações...
Perdera completamente a noção do tempo desde a última mensagem de texto. Tinha mergulhado totalmente no universo nebuloso daquele assassinato sem solução. Quando ouviu o barulho da porta se abrindo, percebeu quanto tempo havia se passado. Pelo som dos passos e pelo barulho de roçar de algo plástico percebeu que se tratava de John que estava de volta e com o traje para a recepção. Mau sinal. Percebeu que sua concentração acabava de escapar por uma fração de segundo...
Voltou a se concentrar e por mais algumas horas, esteve revisitando cada detalhe daquele caso. Lamentava não ter tido a oportunidade de investiga-lo a época em que acontecera... Claro que tinha seis ou sete hipóteses que explicariam muito bem os acontecimentos, mas sem todos os detalhes não podia lançar nenhuma solução definitiva. Só percebeu o quando os ombros estavam tensos e doloridos quando afastou os olhos das anotações e recortes e olhou na direção da sala.
– Ah! Está vivo! – disparou John quando percebeu que era observado. – Estou pelo menos há duas horas tentando falar com você!
– Eu estava envolvido em...
–Um caso antigo. Eu vi!
– É...
Não. Era uma grotesca mentira! Estivera todo o tempo tentando juntar as peças daquele assassinato, mas desde que John cruzara a porta trazendo o traje que ele podia ver pendurado num canto da sala agora, uma parte da sua mente tomou outro caminho, sem sua permissão. O traje lembrou-o imediatamente do caso em que fora forçado a se envolver, o que o fez pensar na recepção do dia seguinte, o que o levou a pensar em Mildred Arnet... Um beco se saída que aprisionou uma parte de seus pensamentos antes e agora começava a estender-se para a totalidade de sua mente.
– Algum problema? – perguntou John ao perceber uma expressão carrancuda no rosto do outro.
– Nenhum...
John estava comendo comida chinesa, naquelas caixinhas de papel. Ele viu o saco sobre a mesa na sala com parte do conteúdo ainda intocado. Aproximou-se e constatou que John comprar o jantar para os dois. Retirou a caixa de dentro do saco, apanhou os hashi e sentou-se em sua poltrona. Não estava exatamente com fome. Aquela inquietação no estomago era bem outra coisa. Por alguns segundos deteve-se concentrado no rosto de seu amigo. Ele tinha alguma ideia do que se passava em seu espirito naquele momento?
– Sem fome?
– Hã? – só então percebeu que estava imóvel, com a comida a meio caminho da boca. – Estava pensando...
– Em que?
– Algumas coisas... – ah! Não! John! Você não iria querer saber em que ele estava pensando.
– Pode me dizer alguma coisa sobre o que faremos amanhã a noite?
Procurou mastigar o que tinha na boca, embora parecesse que tudo tinha se transformado em uma massa de palha sem gosto. Não conseguia pensar racionalmente sobre aquilo! Sempre que tentava, via sua mente se perder em divagações absurdas que iam desde o vestido que ela usaria até lembranças distorcidas da infância e das visitas que ela costumava lhe fazer. Precisava encontrar um meio de alinhar seus pensamentos outra vez. Por que agora parecia uma coisa tão complicada?
– Iremos a uma recepção na residência de Gregor Smith. Pela natureza de seus negócios, imagino que temos que recuperar algo que foi subtraído de seu dono. – pareceu excelente, embora não tivesse conseguido erguer os olhos uma vez sequer.
– Gregor Smith? Nunca ouvi falar.
– Digamos que ele seja um negociador.
– Contrabandista? – dividindo-se entre a conversa e a comida.
– Isso também. Dizem também que é um assassino frio, sádico e sem piedade com inimigos... – imediatamente lembrou-se de Mycroft e amaldiçoou-o mentalmente por envolver Mildred com aquele tipo de gente.
– Ah! Entendi agora por que parece tão apreensivo...
– Não estou. – devolveu. – O perigo não me deixa apreensivo, me deixa ansioso... – largando a caixa sobre a mesa novamente e juntando as mãos abaixo do queixo.
– Não parece ansioso... Parece perturbado... – arrependeu-se no mesmo instante e concentrou-se apenas em sua comida.
– Já disse que não posso evitar... – resmungou, desviando o olhar para a janela.
– Então isso tudo se refere a você e ela?- encorajado pela resposta anterior.
– De certo modo, sim.
– Então é isso que o está perturbando?
– Sim.
John terminou sua comida e concentrou-se no rosto do outro. Parecia que uma nuvem negra pairava sobre aquela cabeça. Queria perguntar diretamente qual era afinal a natureza da relação dele com aquela mulher, mas sabia que sua pergunta seria ignorada, ou ainda pior, tomada por ofensiva. Não queria isso! Não depois de tanto tempo! Mas precisava aproveitar aquele momento e se esforçou em encontrar um modo menos agressivos de abordar o assunto. Seu raciocínio foi interrompido quando percebeu que o outro apanhava o telefone.
Franziu a testa. Ele parecia estar lendo alguma coisa, mas ele não ouvira nenhum alerta de mensagem... Será que o outro havia silenciado os alertas? E por que faria isso? Lembrou-se subitamente da carta. Será que ainda estava no bolso do casaco? Qual poderia ser o erro que ele cometera? Voltou a olhar para o rosto dele e percebeu que a nuvem parecia ter se dissipado, embora ainda restasse alguma tensão.
– Mensagem? – arriscou. Nenhuma resposta.
“Boa noite. Espero que os seus sonhos o deixem dormir. Até amanhã.”
Havia uma remota possibilidade de dormir antes de ela ter enviado aquela mensagem, que agora tinha se esgotado completamente. Queria discutir o que fariam e como, mas era um hábito perdido há tanto tempo... Já tinha algum tempo que se ficassem próximos por muito tempo um do outro apenas conseguiam discutir e jogar aquele jogo perigoso. O celular vibrou outra vez.
“Dê um beijo de boa noite em John por mim”
– Parece que fez uma nova amiga... – resmungou olhando o visor. Sabia que o comentário tinha soado ácido demais, mas saíra sem que ele pensasse.
– O que? Quem é? Do que está falando? – Sherlock apenas estendeu o telefone ao médico. – É ela?
– Sim! É ela.
– Ela é muito... – achou que precisava tomar algum cuidado com o que diria. – Gentil... – sorrindo.
– Algumas vezes...
– Vocês... – era o momento que esperava. – Eram unidos quando crianças?
– Unidos? Ela colou em mim desde que pôs o primeiro pé naquela casa. Acho que podemos dizer que sim... – voltando a juntar as mãos.
– E você?
– No principio ela era terrivelmente incômoda... – os olhos passearam por toda a sala e voltaram a se perder pela janela. – Mas depois percebi que era a única criança capaz de me compreender.
– E alguém é realmente capaz disso? – a comida tinha acabado. Agora todo ele estava concentrado naquele dialogo.
– Sim. – respondeu simplesmente. Mas o olhar de John tinha se tornado mais que questionador, parecia que ele estava sentindo alguma dor física. Suspirou. – Oh! John! Não há um modo de explicar isso!
– Apenas tente... – desafiou John cruzando os braços.
– Quando nossas mentes trabalham juntas agem como uma máquina perfeita! Uma combinação perfeita! – com um sorriso estranho.
– Isso é fascinante! – estava sendo honesto. Nunca ouvira coisa semelhante!
– Oh! Por que estamos falando disso? –levantando-se subitamente e andando pela sala.
– Parece desconfortável com o assunto...
– Excelente observação! Sim!
– Por que? Por que ela o incomoda tanto? Cresceram juntos! Passaram todo esse tempo juntos! – esperou uma resposta que não veio. – Imagino que seja como... você e Mycroft, não?
– Oh! Não! Não! John! Não a compare com ele! – fazendo uma careta de desconforto.
– Então são mais próximos? – Sherlock assentiu com a cabeça e John percebeu que ele andava um pouco mais depressa. – Criaram um laço de amizade...
– Um laço... – repetiu parando subitamente. – Podemos dizer desse jeito...
– Olhe para você! – disparou espantado.
– O que há? O que houve?
– Está agitado, ofegante... Isso apenas por que não gosta de falar sobre ela?
– Nunca falei sobre ela. — justificou voltando a sentar-se, juntando as mãos e inspirando profundamente. – Exceto com Mycroft...
– Não quis perturbar... – resmungou John levantando-se e recolhendo as caixas e todo o resto. Caminhou lentamente até a cozinha. Era frustrante, embora de algum modo, esclarecedor. – Mas você parece se preocupar, imaginei que houvesse um motivo...
Enquanto abria a lixeira e jogava tudo fora, pensou que talvez fosse melhor conversar com ela. Não era simples curiosidade! Tratava-se de alguma coisa que desconhecia completamente. E ele pensava que conhecesse bem Sherlock! Frio, arrogante, rude... Mas desde que aquela mulher surgira, parece que tudo o que conhecia não se aplicava mais. Devia haver algum motivo oculto que não estava conseguindo entender... Algum motivo além daquela estupidez que continuava voltando a sua mente o tempo todo...
– Mildred é especial. – disse de repente. — Ela tem uma mente fantástica, brilhante e completamente aberta! Livre de falsas morais e pudores. Sem regras ou limites!
John parou entre a cozinha e a sala e observou. Ele estava imóvel, em pé diante da porta do seu quarto, tinha uma das mãos apoiada na parede e falava com uma voz baixa, grave e pausada. Sua respiração estava lenta e pesada.
– Com ela eu poderia descer aos confins dos infernos e apertar as mãos do próprio demônio! Ela faria o caminho de ida e volta com um sorriso nos lábios... – voltou-se e John viu um sorriso assustador em seu rosto. — Ela tem o poder de libertar a minha mente, John! É o meu pior vício... – girando nos calcanhares e entrando no quarto. John permaneceu onde estava, boquiaberto...
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