Winter In London
1 Capítulo 1 - Não sou seu irmão!
Notas iniciais
Ela saiu do quarto arrastando as pantufas de pelúcia. Odiava aquele trabalho. Odiava acordar cedo! Mas se o trabalho não o fizesse, Londres o faria. A cidade acordava assim que a luz despontava e ia dormir muito depois que a lua já tinha tomado o lugar do sol no céu. Chovia e estava frio. Um típico dia de inverno londrino.
Ligou a cafeteira e acendeu um cigarro. Mataria alguém se não pudesse fumar em seu próprio apartamento. Soltou uma enorme nuvem de fumaça no ar e pareceu muito contente com isso. Até voltar-se e encarar a sala. Estava tudo mergulhado em caos desde que ele pusera o primeiro pé para dentro do lugar. Agora ela estava acordada, preparando-se para ir trabalhar e ele parecia um bebê, encolhido no sofá. Torceu os lábios e caminhou a passos pesados na direção dele.
- Hei! – puxando o lençol que o cobria. – Levanta daí, meu querido.
- Para quê? – resmungou encolhendo-se.
- Por que não gosto de homens nus no meu sofá pela manhã. – servindo café em duas xícaras. – Ainda não perdeu esse hábito? Revela muito sobre você.
- Se não gosta, não olhe...
- É o meu sofá! – apanhando o açúcar. – Duas colheres, não é? Vamos! Seja humano por cinco minutos e tome café comigo!
- Hun... Não!
- Estão falando sobre você no jornal, de novo! – declarou atirando o jornal sobre ele.
- Chato!
- Ah! Qual é? – ela irritou-se, largou a xícara e foi até o sofá. – Seja bonzinho ou serei obrigada a usar meus dons... – envolvendo-o com os braços.
- Em pé! – ele gritou, ficando em pé e enrolando-se no lençol em um segundo.
- belo reflexo! – ela riu. – Bom dia, Sherlock!
- Bom dia, Mildred. – de má vontade.
- Aqui! Café! – oferecendo uma xícara que ele apanhou logo. – Cigarros... – apontando o balcão, onde ele se apoiou, largou a xícara e apanhou um cigarro do maço. – Fogo? – ele se inclinou. – Mudez... Logo cedo. E você nem está pensando. – sorriu com o canto da boca. – Já disse que fica sexy, fumando, enrolado no lençol, assim, na minha cozinha logo cedo pela manhã?
- Por que me acordou Arnet? – devolveu com uma expressão nada amistosa.
- Proíbo que seja tão formal! Não comigo! Não aqui! – erguendo o indicador. – Chamo Molly e mando-a achar outro canto pra enfiar o detetive morto.
- Certo. Mildred... – com um sorriso sem graça. – Agora, por que me acordou?
- Por que sexo com você é impensável... Mas gosto de ver você nu! – ela declarou divertida, ele deu as costas suspirando. – É uma piada, Sherlock! – ela praticamente gritou. – Por Deus! Você me conhece desde criança e ainda assim não se habitua?
- Há um bom motivo para que fossemos afastados...
- Você ser insuportável? Não estou contanto isso. – sorrindo.
- Por que Mycroft abriu sua masmorra? – retrucou apertando os olhos.
- Por que fiz 21 anos e seria crime se ele me mantivesse em cárcere privado! – ainda sorrindo. – Por que você não pode ser um irmão bom pra mim?
- Porque... – suspirando. – Eu não sou seu irmão!
- Detalhes... – ela resmungou saindo da cozinha. – Mycroft é.
- Não, ele não é!
- Ok! Mas fui criada com vocês... – encarando-o. – Aja como um irmão! – gritou ao rosto dele.
- Não sou ser irmão! – protestou outra vez.
- Certo! Certo! – concordou suspirando e voltando para a cozinha.
Mildred surgira do nada na vida de Mycroft e Sherlock quando este ultimo ainda era criança. Tinha oito anos quando Mycroft trouxe aquela criança barulhenta para dentro de casa. "Nossa irmã!" foi tudo o que lhe disseram a respeito daquele bebê que mal tinha aprendido a andar sobre as próprias pernas. Como não sabia como lidar com ela, a única coisa que fazia era tagarelar horas a fio sobre suas teorias e "investigações". Naquela época Mildred era uma excelente ouvinte!
Com o passar dos anos, ela se tornara a sombra de Sherlock. Por mais que ele quisesse se livrar daquela companhia desagradável e impertinente, para onde quer que ele fosse ela arranjava um jeito de ir junto, e quando não podia, ela o seguia. Precisava admitir que ela fosse muito mais inteligente que a maioria das crianças, especialmente as meninas! Mas não queria aquela criatura presa em seus pulsos a cada passo que desse!
O jeito que encontrou para se livrar da pequena Mildred foi ensiná-la a observar e deduzir e dar a ela o maior número de mistérios possíveis para que solucionasse! Funcionou bem por um ou dois meses. Ela também era uma pupila sempre sem precedentes! Aprendia com uma rapidez assustadora. No fim acabou se acostumando com a menina!
Foi um choque quando Mycroft anunciou que iria enviá-la para um internato! Ela só tinha treze anos! Por que precisavam isolá-la do mundo daquele jeito? Os seus inúmeros protesto não obtiveram sucesso! Lembrava com nitidez do diálogo, do lado de fora da casa, quando os tutores da escola vieram apanhá-la.
"Por quê Mycroft? Por quê ela tem que ir?"
"Acho que precisam de outras companhias. Vocês dois!"
"Mas ela é a melhor! A mais inteligente! E eu..." lembrava-se de ter engasgado com as lágrimas e com os pensamentos.
"É exatamente esse o ponto!" quando Mycroft disse aquilo a expressão em seu rosto estava séria e uma sobrancelha estava erguida e Sherlock já era adulto o suficiente para entender o que aquilo significava.
"Por Deus! Ela só uma criança!"
"Mas não será uma criança para sempre. Ela está crescendo..." Mycroft o deixou encostado ao muro de pedra sem ação.
Ele faria vinte anos em breve. Ele não estava pensando em absurdos, mas não queria se separar da sua única amiga. Afinal de contas, Mildred era única que o compreendia. Ele poderia falar por horas com ela sem ser interrompido por observações estúpidas! Ou então podia fazer silêncio absoluto! Ela acompanhava seu raciocínio! Ela entendia o que ele dizia e até o que ele não dizia. Mycroft era um idiota!
Mas agora, ali daquele sofá recém saído da loja, olhando aquela jovem agitada na cozinha, fazia algum sentido a prevenção do irmão. Não tinha certeza se as coisas estariam tão em paz se eles não tivessem sido separados enquanto ela ainda era uma pré-adolescente... Exceto pelo fato de que agora, não sentia de forma alguma que ela fosse sua irmã. Aliás, aquele pensamento o incomodava profundamente. Suspirou longa e profundamente, enxotando as lembranças e os pensamentos.
- Pela coroa! – gritou Mildred. – Você vai morrer de novo?
- Cale a boca, criança! – retrucou em meio tom.
- Voltou a me chamar assim? – franzindo a testa.
E não era o que ela era? Ah! Não era! Mas a voz continuava sendo infantil e irritante. E ela continuava sendo implicante como uma criança pequena. Às vezes, tinha que admitir, tinha vontade de bater nela com a vara do violino! Ela seria sempre a sua criança...
- E não é o que você é? – devolveu apertando os olhos.
- Sher... Se eu não amasse você eu atiraria uma faca no seu peito! E sabe que sou boa em atirar facas! – sabia! Ele mesmo tinha ensinado!
- Traga os jornais quando voltar... – voltando a deitar-se no sofá e encolher-se.
- E agora me ignora!
- Tchau Mildred! – sem se mover.
- Tchau Sher! – ela respondeu. – Tente não morrer de novo! – saindo e batendo a porta.
Ele então voltou a cabeça e olhou para a porta fechada. Tinha dois dias que voltara para Londres e acabara sendo abrigado por ela... Dois dias em que dormia naquele confortável sofá novo. Não imaginava que seria tão complicado! Mas o que esperava? Fazia anos que não via Mildred! Esquecera completamente que agora ela não seria mais a ávida aprendiz de dez anos de idade que se maravilhava com tudo o que ele lhe dissesse. Não era que a ignorasse de propósito! Estava apenas evitando pensar naquela dúzia de coisas que o estavam perturbado desde que se reencontraram na estação de trem.
Ela encostou as costas na parede assim que saiu do apartamento. Mycroft ia pagar caro por ter enfiado Sherlock outra vez em sua vida! Ela não pedira tantas vezes para que ele não fizesse isso? Aquela criatura gelada e sem sentimentos a perturbava! Ela dissera a Mycroft! Por isso ele a mandara para o colégio interno! E por que tinha medo que um dos dois acabasse passando dos limites... E agora ele estava lá, outra vez!
Ele sequer imaginava o quanto lhe custava alterar a voz e o comportamento o tempo todo. Era melhor assim! Ele ainda a via como uma menininha de doze anos... Mas ela não tinha mais doze anos! Mas ela não seria capaz de mudar o que ele era... Nem queria que fosse assim. Suspirou, tirando os sapatos de salto de dentro da bolsa. Como podia simplesmente confessar? Não! Era impensável! Calçou os sapatos, guardando os tênis dentro da bolsa e saiu.
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