Winter
8 Capítulo 8 – Tudo mudou... Pra muito melhor
Capítulo 8 – Tudo mudou... Pra muito melhor
Joan despertou completamente ao sentir Sherlock beijando seu rosto e abriu os olhos para vê-lo, encontrando os olhos azuis a encarando. Sherlock estava vestido em suas roupas habituais, deixando evidente que estava acordado há pelo menos meia hora.
– Tem alguém lá embaixo.
Joan o olhou assustada, não entendendo de imediato.
– Calma... É só alguém na porta. Nosso carteiro sequestrado. Já entrei em contato com os policiais que Gregson colocou na nossa porta, não há perigo.
– Devo falar com ele também.
– Não se preocupe, fique aqui com Kitty, nós o visitaremos na agência depois. Kitty também quer falar com ele. E aproveitaremos pra premiá-lo com um novo par de sapatos, já que perdeu os dele em toda essa confusão.
– Certo – ela respondeu ainda meio sonolenta enquanto Sherlock saía do quarto – Você ainda deve estar muito cansada – falou para uma Kitty adormecida.
A garota começou a despertar minutos depois, mas nem se mexeu, há muito tempo não se sentia tão segura enquanto dormia. Abriu os olhos claros e não reconheceu o lugar a princípio, então começou a lembrar-se do dia anterior. As lembranças de que estava machucada também trouxeram a dor de volta, mas bem menos intensa que antes. Sentia Joan abraça-la e pelo movimento atrás de si, soube que a chinesa estava acordada. A mão delicada da oriental afagou seus cabelos e Kitty sentiu-se acolhida como nem se lembrava de um dia ter sido.
– Bom dia – disse à Joan.
– Bom dia. Como se sente?
Kitty virou-se e abraçou a amiga, deixando-a um tanto surpresa, mas não o suficiente para não retribuí-la. Joan beijou a testa da garota e a confortou.
– Está com medo?
– Não exatamente, sei que ele se foi. Mas Gruner era um... Há muitos outros lá fora. Sei que não posso deixar isso me amedrontar pra sempre, mas...
– Sim, o mundo é perigoso. Eu não tinha nada a ver com tudo aquilo e ainda assim fui sequestrada por causa do envolvimento de alguém que eu e Sherlock conhecíamos.
– Ficou com medo?
– Sim. Quando desmaiei eu achei que ia morrer. Quando acordei pensei que podia nunca mais sair dali nem ver Sherlock de novo. Me controlei ao máximo pra não dar aos criminosos vontade ou motivos pra acabar comigo, mas isso não garantia nada. Me mantiveram viva porque eu era uma moeda de troca. Ainda assim mandaram me matar quando conseguiram o que queriam. Oshomens de Mycroft chegaram nesse momento e mataram meus raptores. Quando voltei pra casa Sherlock cuidou de mim a noite toda, mesmo depois de termos brigado. Ele disse que eu tive pesadelos por quatro noites, mas ficou acordado esses dias todos até que eu conseguisse dormir bem. Eu fiquei com medo por um tempo. Tinha muita coisa acontecendo, nós dois estávamos com nossas vidas viradas de cabeça pra baixo, foi quando nos separamos. O medo que você sente agora, Kitty... É perfeitamente normal. Isso vai passar, seus sonhos à noite também vão ficar mais tranquilos. Eu e Sherlock vamos intensificar seus treinamentos, especialmente o de defesa pessoal, vamos fortalecer nossas medidas de segurança. Vai ficar tudo bem – sorriu para a jovem e afagou seu rosto.
– Obrigada, Joan... Quando você foi embora, e Sherlock foi pra Londres... Acha que fizeram a coisa certa?
– Por que está perguntando isso?
– É que em uma das vezes que fui vê-lo o encontrei chorando, muito. Ele nunca quis dizer porquê e tentou disfarçar quando abriu a porta pra mim, mas depois que chegamos aqui, ele me falou de você, e eu conheci você, eu entendi o que tinha acontecido.
Joan assumiu uma expressão de tristeza, depois de felicidade. Já vira Sherlock chorar, mas não assim.
– Obrigada por me contar isso. Ele também chorou quando você foi embora. Mas só eu sei disso.
A garota sorriu ao saber, também havia chorado muito antes de partir.
– Eu tentei bloquear qualquer saudade do sobrado ou dele, tentei dizer pra mim mesma que finalmente eu teria paz, mas isso não durou nem uma semana. Eu comecei a sentir falta dele me acordando, se preocupando, fazendo bagunça na casa, me protegendo... Senti falta de alguém pra conversar. Tentei passar tempo com algumas amigas, conversava ocasionalmente com Bell ou Gregson, então percebi que não era a mesma coisa. Foi horrível passar oito meses assim. Tudo que aconteceu é uma história muito complexa. Nós dois cometes erros, nos machucamos muito. Em algum momento ele vai te contar. Mas no final das contas, tudo isso deu em coisas muito boas. Não sinto medo de dizer que minha vida é feliz agora.
– Temos trabalho hoje?
– Nem pensar, você precisa de alguns dias. O capitão nos dispensou.
As duas levantaram-se, arrumaram a cama e trocaram de roupa.
– Devia ligar pra sua mãe.
– Não sei se quero que ela saiba do que houve. Convivemos bem, mas nunca fomos muito próximas.
– Nós percebemos. Quando chegou aqui você era rebelde e inexperiente. Isso denuncia que mesmo tendo uma mãe que se preocupa com você, não são próximas o suficiente pra te ajudar com essas coisas. Mesmo assim, ela tem o direito de saber quando coisas assim acontecerem.
– Ela vai querer que eu pare e volte. Eu não vou fazer isso e nós vamos brigar. Sei que ela não vai culpar vocês dois, mas...
– Não precisa ser agora, mas pense nisso.
Nesse momento Sherlock bateu na porta do quarto.
– Entra – Joan falou.
– Ned está bem melhor e vai continuar fazendo entregas por aqui – o consultor falou animadamente ao entrar no quarto – Iremos vê-lo depois em seu trabalho. Ele perguntou por vocês duas e desejou melhoras para todos nós.
– Isso é ótimo – Joan lhe disse.
– Vamos lá pra baixo. Vocês duas devem comer alguma coisa. Eu fiz o café.
******
Meses depois...
Sherlock colocou Clye em cima da mesa e o bichinho passou a caminhar em suas passadas lentas por entre os objetos metálicos enquanto o detetive sentou-se junto as duas mulheres.
– Finalmente estamos arrombando esses cadeados – Joan comentou.
– Sim, alguma hora tinham que ser arrombados. Lembrem-se que os codificados são abertos de uma maneira um pouco diferente – ele explicou.
– Não diga que vai começar a me acorrentar com cadeados codificados – Kitty falou temerosa.
– Ainda não... Tenho que testar isso em mim primeiro. E nada de treinamentos pesados pra você por mais algum tempo.
Joan olhou de um para o outro e sorriu. Eram muito parecidos.
– Kitty... E a sua mãe? Você andou falando com ela depois da sua cirurgia? Andaram brigando de novo?
– Quando aquele miserável me levou, ela ficou mais brava por eu ter esperado um mês pra contar o que aconteceu. Também ficou brava por todo o resto, mas isso é normal. Tenho certeza que ela pensou em me pedir pra voltar e parar com tudo isso, mas desistiu. Eu não iria mesmo. E quando veio me ver tivemos bons dias pra conversar. Está tudo bem.
– Como estão suas costas hoje? Deve estar cansada de me ouvir perguntando. Mas como eu lhe disse, a recuperação total desse procedimento pode durar meses. E o seu foi quase de grande porte.
– Não estão mais doloridas há tempos. Me sinto normal de novo.
Meses atrás a garota finalmente havia se livrado das terríveis cicatrizes que marcavam suas costas. Joan cuidara dela cada dia em sua recuperação.
– Sua mãe é uma ótima pessoa – Sherlock comentou enquanto analisava um cadeado – Mesmo que você mantenha um oceano entre você e ela, bem com Joan faz com sua família, é evidente que as duas têm uma boa convivência. Apesar de, também como acontece com Joan, ela ser uma pessoa convencional, o que você não é, se tornou investigadora para punir quem lhe feriu, mas também compartilha de nossa paixão pelo excêntrico.
Kitty refletiu por alguns instantes e em silêncio acenou positivamente com a cabeça, mais para si mesma do que para os dois. Sherlock estava certo. De repente os dois se atentaram à ações alteradas de Joan. Ela tinha um dos cadeados nas mãos, mas só o segurava. Seu rosto havia ficado pálido e seu olhar um tanto perdido. Ela devolveu o cadeado à mesa e levantou-se, bem devagar e cuidadosamente, parecendo estar com dificuldade para se firmar de pé.
– Eu volto daqui a pouco – falou, caminhando para as escadas.
Sherlock e Kitty se entreolharam preocupados e com suspeitas em seus olhos. O consultor levantou-se e praticamente correu para amparar a chinesa e evitar que caísse enquanto subia. Seguiu com ela até o banheiro do andar de cima, murmurando para Kitty esperar e continuar sua tarefa com os cadeados. Os dois entraram e Sherlock fechou a porta. Pôs as mãos na cintura de Joan, a segurando pelas costas e tentou observar seu rosto. Sem seus saltos ela ficava ainda menor, chegava apenas a seu ombro. Isso era uma das coisas que encantava Sherlock, mas deixou sua admiração de lado ao ver que ela ainda não estava bem.
– Você precisa vomitar?
Ela levou um tempo para responder após tomar algumas respirações.
– Não sei dizer... Parece que é só a vontade.
Sherlock permitiu que ela se virasse para ele e repousasse em seu peito. Os dois se abraçaram e ele a balançou bem de leve, apenas para relaxá-la, não querendo piorar seu enjoo.
– Querida, você está grávida. Não tinha percebido?
– Estava suspeitando... Queria ter certeza.
– Quando pretendia falar sobre isso?
– Hoje à noite. Especialmente depois desse mal estar. Apesar de que assim que desconfiei há dois dias supus que você já soubesse.
– Percebi que você anda estranha nas duas últimas semanas. Ainda mais sonolenta, um tanto triste, está atrasada...
Joan o olhou de um jeito engraçado, nem ia perguntar como ele sabia disso. Mas devia saber, Sherlock sempre cuidava muito dela e até a mimava muito em suas indisposições.
– Eu calculei seus momentos de indisposição por mais de um ano – o detetive respondeu diante de seu olhar curioso e viu Joan rir baixinho.
– Você quer mesmo isso, Sherlock? E o risco que nós mesmos vamos representar pra o nosso bebê? – Ela ergueu o olhar para ele, triste e preocupada.
– Joan, como eu não ia querer? Também estou preocupado, assustado, ansioso... Nós vamos pensar em tudo, vamos dar um jeito de proteger nosso filho. Nunca me imaginei sendo pai, mas será uma honra ser pai de um filho seu. E nós dois juntos podemos muito bem dar conta do recado. Você será uma ótima mãe, e eu farei tudo pra aprender a ser o melhor pai que eu puder.
– Com certeza vai ser... Não tem que ter medo. Eu vou estar com você, e vou precisar de você – ela falou acariciando seu rosto com a mão – E já treinamos bastante nos últimos anos. O que você acha que nós somos pra Kitty aqui? Eu acredito que podemos nos considerar mais do que guarda-costas – ela sorriu.
Sherlock não disse mais nada, abraçou-a contra si num aperto reconfortante. Sentiu-a suspirar e levar as mãos para suas costas. O consultor beijou o topo de sua cabeça, mergulhando em seus cabelos negros.
– Vai ficar tudo bem – sussurrou em seu ouvido – Obrigado, Joan. Por tudo.
Ela sorriu e moveu as mãos suavemente nas costas dele, em seguida o enlaçando pelo pescoço e o puxando para um beijo. Sherlock a ergueu do chão e beijou-a intensamente até deixa-la sem ar. Se perderam um no outro e ficaram ali por um tempo que esqueceram-se de calcular. Separaram-se quando seus pulmões imploravam por oxigênio. Sherlock beijou sua testa e a fez se recostar nele de novo, protegendo-a em seu abraço.
– Como está seu mal estar?
– Melhor, mas me sinto um pouco tonta.
– Feche os olhos e relaxe, isso vai passar.
Joan assim o fez enquanto sentia Sherlock se mover lentamente.
– É melhor você se deitar um pouco.
– Quero ficar perto de você. Mas talvez Kitty precise de nós lá embaixo.
– Vou levar você pra o sofá.
Sherlock a segurou firme com um braço e abriu a porta, erguendo-a no colo e a levando para o andar de baixo, onde encontraram Kitty no meio das escadas.
– Fiquei preocupada – ela explicou.
Os dois consultores sorriram para ela.
– Então... – a ruiva começou, querendo confirmar o que ela e Sherlock vinham desconfiando.
– Não fizemos um teste oficial, mas temos certeza agora – Sherlock lhe respondeu enquanto desciam as escadas e ele deitava Joan no sofá – Você vai ter um irmãozinho adotivo, Kitty. Ou uma irmãzinha. Com sorte, quem sabe os dois?
Joan riu.
– Está sonhando mais alto do que eu.
Kitty finalmente absorveu a notícia e abriu um grande sorriso, seguindo para dar um abraço nos dois.
– Eu vou adorar isso.
Passaram o restante da manhã imersos no assunto. Kitty nunca vira Sherlock tão feliz, nem sorrindo daquele jeito. O que Joan fazia com ele era realmente impressionante. Kitty pensou sobre o futuro. Em algum tempo teriam uma criança no sobrado. Uma criança que cresceria. No futuro poderiam ter dois Sherlocks ou duas Joans. Kitty divertiu-se com a possibilidade de duas pessoas com as excentricidades de Sherlock por perto ou duas pessoas com a teimosia de Joan. Ela também pesou nos dias que tinham corrido desde que tudo havia acabado, aquelas lembranças horríveis pareciam cada vez mais distantes, nem mesmo restavam cicatrizes físicas para lembra-la disso. Foi quando finalmente percebeu o quanto sua vida se transformou após conhecer Sherlock e Joan. Ela não era mais a mesma Kitty de sete anos atrás. Era muito melhor. Com marcas eternas em seu coração, algumas péssimas e outras maravilhosas, mas melhor.
– Queremos que ajude a escolher o nome dele ou dela – Joan disse com um sorriso para a garota.
– Creio que Kitty terá boas sugestões pra nós.
– Não sei dizer, mas com certeza não vai ser Clyde segundo.
Joan morreu de rir lembrando-se de quando havia discutido uma vez com Sherlock sobre nomes caso um dia tivessem um filho, e ele havia sugerido, como era de se esperar, nomes excêntricos como Clyde segundo ou Rômulo.
– Eu nunca achei que as coisas fossem mudar a esse ponto na minha vida. Eu só tenho a agradecer a vocês dois. Por tudo.
Fale com o autor