Winter
7 Capítulo 7 – Curando as feridas
Capítulo 7 – Curando as feridas
– Já está bom, Joan... – ele reclamava pela quinta vez enquanto ela tratava seus machucados.
Haviam tido outra pequena discussão que chegava a ser cômica. Sherlock insistia que seus machucados não eram dignos de preocupação e Joan praticamente o obrigara a deixá-la cuidar dele enquanto Kitty tomava banho. Sherlock tinha hematomas em um dos ombros, no peito, no abdômen, em um lado da testa e Joan tinha certeza que vira um corte em sua perna esquerda. Por sorte nenhum era sério e desapareceriam logo.
Depois do ocorrido haviam tomado meia hora com os primeiros socorros e mais cinquenta minutos na delegacia, entre depoimentos e outros coisas. Deixaram o local e seguiram para casa, onde tomaram banho e trocaram de roupa.
– Estou aceso demais com esse caso e com o fim que teve. Podemos os dois ficar mais tranquilos agora. Kitty e sua família também – ele falava energicamente.
Joan sorriu enquanto aplicava gel em seu ombro, ele nunca deixaria de parecer uma criança de cinco anos às vezes.
– Isso não é desculpa pra não se cuidar quando estiver machucado.
Ela riu quando Sherlock fez uma careta, e interrompeu brevemente seus cuidados para beijá-lo na testa, fazendo sua expressão suavizar.
– Deixa eu ver sua perna. Não faça essa cara, eu sei que tem um corte na sua perna esquerda. O sapato de Gruner te atingiu com força lá. E não me venha de novo com aquela história da dor ajudar a te manter acordado.
– Não preciso mais tanto dela. Você faz isso muito melhor.
Joan sentiu o rosto esquentar e corar diante do sorriso dele e concentrou-se em cuidar do machucado na perna do detetive.
– Depois de tantos anos e até de estramos casados você ainda se embaraça com essas coisas... – ele brincou.
Ela apenas riu em silêncio.
– Eu estava completamente errado sobre tudo que eu disse daquela vez sobre Irene...
Por um segundo, Joan interrompeu o que fazia diante do assunto que sabia que era desagradável para os dois.
– Quando descobri que ela nunca existiu... Minha mente ficou turva por um tempo, mas então consegui me equilibrar e percebi o que você significava pra mim... Especialmente depois que Mycroft jogou na minha cara.
Agora Joan havia parado totalmente o que fazia e o encarava com seriedade.
– Eu disse que Irene ofuscava todo o seu gênero, porém alguém que nunca existiu não tem esse poder. Mas você tem.
– O mesmo vale pra você... – ela sorriu, levantando-se para beijá-lo.
Aproveitando-se da situação, Sherlock a abraçou e a puxou para deitar-se ao seu lado, intensificando o contato e o prolongando até ficarem sem ar e se separarem ofegantes.
– Ainda não terminei meus cuidados.
– Prefiro outros cuidados... – ele respondeu a beijando de novo.
– Depois – ela sorriu – Tenho certeza que você não vai gostar de ter uma infecção na perna.
Rindo da cara de desânimo dele, Joan sentou-se novamente e o convenceu a deixa-la terminar o que fazia, colocando um curativo sobre o ferimento e ajudando-o a vestir sua camisa depois. Tinham acabado de sair do quarto quando encontraram Kitty no corredor.
– Eu vou lá embaixo fazer chá e torradas – Sherlock anunciou deixando Joan e Kitty sozinhas e descendo as escadas.
As duas foram para o antigo quarto de Joan, que agora pertencia à Kitty. Joan fechou a porta e sentou-se na cama ao lado da ruiva.
– Kitty...
– Não vá me pedir desculpas de novo, por favor, Joan... Todos nós sabemos que Gruner é o único culpado.
– Tudo bem, esse assunto tá encerrado. Mas quero que me deixe cuidar de você.
– Tudo bem.
– Está doendo muito?
– Ardendo.
– Talvez doa quando eu limpar. Mesmo que você já tenha lavado, vou usar água oxigenada.
Kitty assentiu enquanto estendia suas pernas na cama e puxava as pernas da calça até os joelhos. Ela fechou os olhos para suportar a dor quando Joan aplicou o medicamento sobre os machucados, mas segundos depois a dor cessou. Em seguida a chinesa cuidou dos poucos arranhões em seu rosto e braços e aplicou gel nos hematomas que encontrou.
– Posso ver o que Gruner te causou? – A ex-médica perguntou num tom mais baixo, temendo interiormente reavivar tudo que acontecera naquela manhã.
A ruiva levantou a blusa suficiente para Joan ver os danos causados pelas unhas de Gruner. Felizmente não eram tão graves quanto ela havia pensado ao ver pela primeira vez. O tecido arruinado da roupa devia ter recebido a maior parte do estrago.
– É melhor você se deitar.
– Isso vai deixar cicatrizes? – Perguntou enquanto obedecia.
– Não... Apesar de doer tanto e de que vai levar um tempo pra desaparecer, não foi tão sério a ponto de deixar marcas – respondeu, vendo Kitty inspirar fundo quando o medicamento entrou em contato com as feridas.
– Eu andei pensando... Em me livrar dessas marcas nas minhas costas.
Joan concluiu seus cuidados, removeu suas luvas e puxou o tecido de volta sobre os ferimentos da jovem, sentando-se ao lado dela e a encarando.
– Decidiu isso hoje?
– Sim, quando estávamos na delegacia – disse ao se sentar.
– Eu nunca penso muito nelas porque quase nunca as vejo mesmo. Mas agora que tudo terminou... Eu quero apagar o máximo possível de tudo isso. Embora eu nunca vá esquecer completamente. Toda vez que eu vejo essas cicatrizes eu me sinto mal. E hoje quando lutei com aquele monstro, ele olhou as marcas e disse que daria um jeito de fazer outras – falou com dor em sua voz.
Joan a abraçou e passou a afagar os cabelos ruivos. Os olhos de Kitty marejaram e ficaram um tanto vermelhos, mas o contato Joan a acalmou. Ela permaneceu bons minutos em seu abraço e qualquer lágrima desistiu de manchar seu rosto.
– Se é isso que você quer... Estamos aqui pra você. Pra tudo que precisar, Kitty. Mas sugiro que se recupere primeiro, física e emocionalmente.
– Eu sei. Não vou fazer isso agora, daqui uns tempos...
– Pretende mudar seu nome de novo?
– Não. Não tenho motivos pra isso... Como está Sherlock?
Joan riu ao lembrar-se.
– Está bem. Deu um certo trabalho pra me deixar cuidar dos machucados, mas eu acabei vencendo de novo – disse com satisfação ao ver que fizera Kitty sorrir.
Sherlock bateu na porta no minuto seguinte e Joan deixou que ele entrasse com uma bandeja, três xícaras de chá e torradas, que ele colocou sobre a cama, e em seguida tirou Clyde do bolso largo da calça que usava e o deixou andando no chão do quarto. Kitty encontrou um papelzinho enrolado na asa de sua xícara e pensou em qual loucura Sherlock aprontara dessa vez. Ela o desenrolou e riu ao ler “Diga adeus para a dor que passou, o amor não vai deixar ela vir”. Não conseguia ficar de joelhos sem sentir dor, então arrastou-se no colchão até o casal sentado lado a lado e os abraçou pelas costas.
– Sherlock... Joan... Muito obrigada, por tudo. Eu amo vocês dois.
– Também amamos você, Kitty – a chinesa virou-se sorrindo para ela.
– Se depender de nós, logo tudo que aconteceu vai ser só uma lembrança ruim e distante. Estamos aqui pra você – Sherlock lhe disse – Pra tudo que você precisar.
******
Horas mais tarde estavam os três no quarto do casal. Joan se recusara a deixar Kitty dormir sozinha, especialmente ao percebê-la ter pesadelos durante um cochilo mais cedo, e Sherlock não fizera objeções em levar a garota para passar a noite com eles. Kitty era a segunda pessoa que ele mais amava e se importava em todo o mundo depois de Joan.
– Acabou nem olhando seus cadeados novos direito.
– Farei isso depois. Não quero pensar neles por uns dias.
– Entendo... Deite-se logo e vamos dormir, estamos todos exaustos.
Sherlock guardou alguns artigos que estivera lendo e observou Kitty dormindo profundamente. Joan, deitada ao lado dela, deslizava os dedos por seu cabelo na intenção de manter seu sono tranquilo.
– Ela te disse mais alguma coisa hoje?
– Ela quer remover as marcas das costas daqui uns tempos. Quer apagar o máximo possível as lembranças que tem do que aconteceu agora que tudo acabou. Disse que não pretende mudar de nome, nem ir embora de novo. Ela é muito forte. Vai levar um tempo, mas vai ficar bem.
– Vai sim. Nós vamos garantir que que fique – falou, apagando a luz e deitando-se ao lado da esposa debaixo do lençol – Boa noite, amor – disse ao beijá-la demoradamente.
– Boa noite – ela respondeu, confortando-se ao sentir o corpo de Sherlock contra suas costas e sentir o braço dele enlaça-la protetoramente após um afago carinhoso e preocupado nos cabelos ruivos de Kitty.
Joan pôs um braço em volta da cintura da jovem, lembrando-se que sua mãe fazia isso com ela quando ela tinha pesadelos e as duas dormiam juntas. Logo o conforto da segurança do braço de Sherlock em volta dela e a certeza de que os três estavam bem a fizeram adormecer.
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