Winter
3 Capítulo 3 - Promessa
Capítulo 3 – Promessa
Kitty agora tinha as mãos algemadas nas costas e era brutalmente empurrada para algum lugar junto com o carteiro. Ela havia caído mais de uma vez e em todas havia sido quase puxada pelos cabelos para que levantasse. Os joelhos de sua calça já estavam rasgados e manchados de sangue. Sentia sua pele arder bastante quando o vento gelado tocava os joelhos feridos. O casaco protegia seus braços, mas também os sentia doerem. Tentou acalmar-se e olhar em volta, logo percebendo sinais de que estavam se aproximando do Zoológico Bronx, no final dos 107 hectares destinados ao lugar, por onde adentraram uma trilha de terra onde acabava o asfalto e começavam as árvores.
– Por que nos trouxe pra cá? – Kitty perguntou com a voz tremulando, quase num sussurro – Se queria fugir foi uma péssima ideia deixar a van aqui perto.
– É, pode ser que eu não fuja... Mas antes seus amigos vão perder um bom tempo procurando você nesse lugar gigante.
Ela voltou a fitar o chão, sabendo que o zoológico seria apenas uma distração e que se não se livrasse depressa daquelas algemas suas chances de escapar seriam ainda mais impossíveis. O entregador gemia e murmurava coisas inaudíveis, com o rosto retorcido de pavor. Gruner parou quando o zoológico, ainda fechado e deserto àquela hora da manhã, pareceu ficar para trás e com os seguranças tão longe que nunca os ouviriam, o ponto mais longe de tudo que havia ali. Gruner removeu a mordaça do carteiro e o jogou no chão. O pobre homem começou a implorar por sua vida e quase chorava.
– Cale a boca! – Gruner só precisou gritar uma vez para silenciá-lo – Você fica nesse ponto, e mande um recado a Sherlock Holmes e Joan Watson. Diga a eles que Gruner venceu – falando isso deu uma coronhada com a arma na cabeça do funcionário, que imediatamente caiu inconsciente no chão com as mãos ainda amarradas – E você... Achou divertido ter fugido e arrebentado minha mão, não é? Achou divertido ficar brincando de detetive com Holmes e Watson, não foi? Ficou feliz como uma criança quando destruiu meu rosto? – Ele rosnava no ouvido dela enquanto a forçava a manter o rosto perto puxando-a pelo cabelo, tornando inevitável que ela chorasse mais.
– Desgraçado! – Ela conseguiu gritar enquanto ele a empurrava cada vez mais para dentro das árvores que arrodeavam o lugar.
– Pode gritar... – ele riu – Ninguém vai te ouvir. A cada segundo que passa recordo melhor as doces lembranças que tivemos juntos em Londres. E antes que isso tenha algum final nós vamos reviver todas elas, mas dessa vez você não vai correr – falou puxando o spray de pimenta de seu bolso e o atirando em um canto qualquer.
Kitty tentava a todo custo abrir as algemas com um fino clipe de metal que puxara do bolso e retorcera enquanto Gruner agredia o carteiro momentos atrás. Quanto mais andavam menos ela acreditava que alguém viria em socorro a tempo. E tudo que tinha certeza é que preferia morrer a ser violada por Gruner de novo. E esse fosse ser o seu destino, prometeu para si mesma que o levaria junto.
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– Gruner trocou de sapato com o nosso carteiro, por isso os passos diferentes – Sherlock falou.
– Nada faltando na van, todas as entregas e correspondências estão aqui, só está vazia – Gregson informou – Vamos levar vidas percorrendo todo esse lugar, mandei equipes entrarem. Mas acho que Gruner não seria tão imbecil, isso tudo está parecendo uma distração.
– E é uma – Sherlock garantiu – O lugar está praticamente vazio agora, mas os animais certamente dariam sinais de sua presença e um funcionário viria. Gruner parece estar numa missão suicida na qual só quer sua vingança, mesmo que morra ou condene-se a perpétua. Ele precisa se esconder, mas só precisa de tempo suficiente. Não pode estar longe.
– Sherlock! – Joan chamou a alguma distância onde acabava o asfalto e começava uma trilha de terra que se estendia por quilômetros e levava a uma enorme quantidade de árvores que se arrodeavam o zoológico – Há três pegadas diferentes aqui. Kitty, o carteiro e alguém que provavelmente é Gruner.
– Por que ele seria tão óbvio? Provavelmente não ia querer ser encontrado – Bell falou.
– Não tão rápido, mas quer ser encontrado – Sherlock respondeu – Isso não é uma vingança somente contra Kitty. Ele quer se vingar de mim e de Joan também. Nós vamos seguir por aqui – ele apontou.
– Só se uma parte dos caras for atrás da gente – Gregson lhe disse num tom que não permitia ser contestado.
Gregson e Bell seguiram para falar com alguns dos homens e Sherlock virou-se para Joan, tomando seu rosto entre as mãos..
– Joan...
– De jeito nenhum, Sherlock! Eu também vou. A responsabilidade sobre Kitty é nossa. Ela é tão importante pra mim quanto é pra você. Seja o que for que vamos encontrar ou não, eu também devo estar lá.
– Gruner pode querer usar você...
– E se ele tentar? Não foi pra isso que você me treinou todos esses anos? Por que acha que ele não me rendeu, bateu, nem nada pior no dia que machucou meu braço? Ele me ameaçou, eu o ameacei, ele sabe que sei lutar bem, que sei lutar melhor que ele. Por isso eu sei que Kitty tem uma boa chance de segurá-lo por algum tempo muito melhor do que teve sete anos atrás. E temos que aproveitar cada segundo pra encontra-la logo. Eu não vou ficar aqui sem saber o que está acontecendo. Além de estar louca pra quebrar a cara de Gruner eu mesma, eu já lhe disse que também mereço respostas.
– Eu confio em você. E sabia que não aceitaria ficar fora disso. Só ia dizer pra ficar o tempo todo atrás de mim. Eu prometi que não deixaria nada te acontecer e que nunca me perdoaria se acontecesse. Não consegui cumprir essa promessa. E não estou disposto a quebra-la de novo.
– E quando foi que pensou que não me sinto da mesma forma? – Ela falou apenas para ele ouvir e pousou as mãos em seu peito – O que mais quero também é que esteja seguro.
Sherlock fechou a distância entre eles com um beijo calmo, pouco se importando que Gregson, Bell e outros agentes da polícia estivessem olhando. Seus polegares acariciavam o rosto da esposa, fazendo-a suspirar quando se separaram.
– Vamos busca-la logo – ele disse simplesmente.
O casal seguiu Gregson, Bell e alguns policiais, fingindo ignorar os olhares e os sorrisos que os dois amigos tentavam disfarçar. Sherlock vasculhava cada centímetro da trilha de terra, tendo a certeza de Joan nunca estar afastada demais dele e de ninguém pisar no mesmo lugar onde estavam as pegadas.
– Estão escutando? – Bell olhou em volta – Parece alguém chorando. Uma voz masculina. Acho que ele não matou seu carteiro – disse a Sherlock e tomou a frente do grupo.
Andaram por mais alguns metros enquanto a voz desesperada ficava mais forte e encontraram o pobre agente de entregas caído no chão com as mãos amarradas nas costas e um filete de sangue escorrendo da testa, tão apavorado que nenhuma palavra inteira saia de sua boca.
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