Winter
1 Warm.

ESPIRROU ASSIM QUE UM DOS ALVOS FLOCOS TOCOU SEU NARIZ. Realmente, o inverno não era a época favorita de Levy McGarden. Ficava mais preguiçosa e dormia assim que estava o mais quente e confortável possível. E não apenas ela. A Fairy Tail inteira era afetada pelo tempo.
É claro que o sentido de “afetada” não era tão completo quanto deveria. Ainda haviam as brigas e a animação de sempre — graças a idiotas invariáveis como Natsu —, no entanto todos pareciam se cansar mais rápido e ficarem mais... chegados, por assim se dizer.
A azulada sorriu com esse pensamento. Não importa como o tempo estivesse, Fairy Tail sempre seria quente. E, observando as famílias que passeavam ao seu redor, com mães enrolando cachecóis e segurando a mão de seus filhos, mantendo-os aquecidos com sua própria temperatura corporal, percebeu que não eram apenas eles.
Por fim chegou ao seu objetivo, adentrando o grande hall da biblioteca pública de Magnolia. O local estava tão aconchegante que praticamente dormiu em pé ali mesmo, na entrada próxima à porta. Saiu de seu lapso momentâneo e dirigiu-se até a bibliotecária, depositando o livro em frente à moça de estatura larga e lhe lançando um sorriso gentil.
— Ora, Levy-san, é raro vê-la com uma devolução atrasada! — Surpreendeu-se a moça, ajeitando os óculos de tartan.
— É que nunca conseguia lê-lo como gostaria. — Esclareceu. Deixou o sorriso transformar-se de gentil em envergonhado. — Sempre acabava dormindo antes do previsto.
— Oh, sei bem como se sente. Parece que o frio acaba com a animação de todos, embora ache que não tenha um efeito tão grande nos membros da guilda, certo? — Carimbou o cartão de Levy. — No entanto, também tem seus prós. Essa é uma espécie de dádiva dada pelos deuses da leitura. Todos tendem a se concentrar no que leem. — Deu uma piscadela, devolvendo o papel para a respectiva dona.
— Isso antes de o sono os atingir. — Observou a McGarden, fazendo a moça rir.
— Aí, cara Levy, são tragados para dentro de algo muito mais misterioso: os próprios sonhos.
A azulada soltou uma exclamação surpresa com aquele pensamento profundo. Acenou para a moça e virou-se para ir embora, absorta em seus próprios pensamentos.
— Os próprios sonhos, hein? — Murmurou para si mesma, observando sua respiração quente sumir em meio ao ar frio. Seus lábios estenderam-se fracamente, formando um pequeno e compreensivo sorriso.
Observou a cidade que, do ponto aonde se encontrava, dava para ser bem vista. Pôs-se então a pensar no devasto mundo que estendia ali mesmo assim que cada uma daquelas pessoas se colocavam para dormir.
— Um mundo bem vasto, hein? — Balbuciou para si mesma.
— E complexo. — Adicionou uma voz muito bem conhecida por ela.
— Gajeel! — Exclamou ao se virar para o moreno. — O que faz aqui? Pensei que estava na Fairy Tail.
— E estava. — Bufou. — Aparentemente Mira e o Mestre decidiram fazer uma festa do chá ou algo do gênero.
— Algo tão delicado? — Estranhei.
— É. — Pela sua feição dava para perceber que não era muito fã da ideia.
— Mas isso ainda não explica porque está aqui. — Observou a azulada tentando desvendar seu olhar. Conhecia Gajeel melhor que qualquer um para saber que nem sempre tudo o que ele queria dizer era proferido em palavras, e sim em seu olhar.
— Mira viu que estava de saída e me pediu para lhe dar o aviso.
— Oh! É isso mesmo? — Indagou desconfiada. De uma maneira estranha, aos seus olhos ele parecia evasivo demais.
— Por que mentiria? — O estresse já estava começando a tomar conta dele. Lá iam eles de novo...
— Então porque não olha em meus olhos?
— Não consigo me abaixar tanto. — Afirmou debochado.
— Você é mesmo... — Enervou-se, soltando um suspiro logo em seguida. — Ah, está tão frio que não tenho nem ânimo para discutir. Obrigada por avisar. Estou indo agora, então... — Virou-se para ir embora.
— Espera! — Exclamou, assustando-a.
— O que foi? — Perguntou hesitante devido ao susto.
— Er... — Olhou na direção oposta a ela. — Isso... — Remexeu um dos bolsos do enorme casaco, retirando algo rendado de lá. — Também queria devolver isso.
— Meu cachecol... — Balbuciou, reconhecendo aquele pedaço de tecido. — O esqueci na guilda quando saí mais cedo. Por acaso... Veio me devolver isso porque estava preocupado que passasse frio?
— Cla-claro que não! Quem se importaria com algo assim? — Encarou-a. — Só o achei jogado em um canto da guilda quando estava saindo.
— Hum... — Murmurou desacreditada. Havia sentado em um lugar bem longe de onde ele costumava ficar — perto das brigas — e da saída. Era impossível ele tê-lo visto quando saia de lá. E os olhos do moreno apontavam o contrário do que a boca afirmava.
— É verdade!
— Sei, sei... — Abriu um sorriso para ele. — Obrigada por se preocupar, Gajeel!
— Eu... — Desistiu da discussão. Não podia mentir muito tempo para ela. Levy sempre dava um jeito de desvendar o que realmente tinha se passado. E, para ele, esse era um dos charmes que ela carregava. — Vamos voltar logo para a guilda. Está frio e qualquer coisa quente serve hoje. Por mais frufru que seja.
— É mesmo, não? — Indagou retoricamente.
— Coloque esse cachecol, ninguém quer ficar vendo seu pescoção!
Levy segurou uma gargalhada. Gajeel, Gajeel...
Enrolou o cachecol e se apressou em acompanhar os passos do Dragon Slayer.
— A propósito, Gajeel... Com o que você costuma sonhar?
— Por que essa pergunta do nada?
— Só estou curiosa, oras! Diga logo!
— Com muitas coisas.
— Não dá para ser mais específico?
— Não seja intrometida, baixinha!
— Quê? Não sou intrometida!
— É sim! — Cutucou a testa dela. — Ah. Cansei de conversar com você.
A azulada voltou a sorrir. Embora geralmente fosse frio, Gajeel tinha um lado honesto e, se soubesse a maneira certa de desvendá-lo, estranhamente quente e aconchegante. Assim como o inverno.
— Vou lhe encher até me falar! — Afirmou decidida.
— Que irritante!
E, cá entre nós, quem não gosta de brincar com a neve?
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