Windstorm
6 Autopsy
Notas iniciais
— Vou deixar vocês conversarem. — disse o xerife, saindo da sala.
Adam ergueu os olhos para Ivy.
— Sente-se, por favor. — ele pediu.
A garota obedeceu, com uma expressão impassível.
— Ahm, não sei muito bem como começar... — admitiu Adam. — Ivy, você sabe o quanto pode ser perigoso para alguém fazer parte de uma investigação criminal? Eu mesmo tive que passar por meses de treinamento para chegar onde eu estou hoje. Eu não poderia permitir que uma menor de idade, sem nenhum treinamento participe de uma coisa como essa.
— Eu sei me cuidar. — insistiu a garota. Adam sorriu. Ivy deveria ter um pouco mais de um metro e sessenta. Ele se perguntou como exatamente uma garota daquela tamanho, com aquele rosto angelical saberia "se cuidar". — Veja só. Eu sou a fotógrafa do jornal de Windstorm High. Eu sei que em uma grande cidade como Londres isso não significaria nada, mas aqui é a única coisa que temos. Numa cidade com menos de oito mil habitantes, todos se conhecem pelo nome e sabem tudo da vida dos outros. E eu, como membro do jornal, tenho acesso a todo tipo de informação que corre por essa cidade. Além disso, pense. Você e sua equipe são desconhecidos por aqui. E ninguém vai confiar em vocês o suficiente para dizer tudo o que sabem. Mas eu nasci aqui. Todos me conhecem. E eu sei como conseguir as informações que preciso.
— Bem, você realmente tem um ponto. — reconheceu o detetive. — Mas, ainda assim, eu não poderia permitir. É muito perigoso...
— Escute. — a garota interrompeu, com um suspiro. — As informações dos pais de Rose não devem ter sido muito eficazes. Eu tenho certeza disso. Eles não sabiam nem da metade das coisas que ela fazia. Provavelmente devem ter dito algo sobre Faith. Não é novidade para ninguém que as duas se odiavam. Mas a verdade é que metade dessa cidade queria que Rose morresse. Nesse momento eu poderia citar pelo menos dez nomes.
Adam a encarou por alguns instantes, surpreso.
— Me diga o que sabe. — disse o detetive. Ivy sorriu, triunfante.
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— Por que você deixaria uma garota de dezesseis anos colaborar com uma investigação criminal? — perguntou Lauren, horrorizada. Adam realmente não tinha a menor noção do que fazia. — Não pensou no quanto isso pode ser arriscado para ela?
Os dois estavam na cozinha da pensão Clarke, fazendo um lanche, após um longo dia de trabalho. Brian já estava na cama. Lauren depositou a xícara de chá na pia e voltou-se para seu sanduíche. Adam tomou um gole de sua bebida antes de responder.
— É claro que pensei, Lauren. — declarou o homem, com um suspiro. — Mas ela pode ser realmente útil para a investigação. Ela sabe mais sobre a vida de Rosalie do que os próprios pais. E concordamos em manter essa colaboração em segredo. Além de nós, apenas o xerife Harris sabe.
— Adam, eu juro por Deus, que se qualquer coisa acontecer a uma garota inocente por sua causa... — ameaçou a legista.
— Não sabemos se ela é realmente inocente. — interrompeu o moreno.
— O que quer dizer com isso? — Lauren estreitou os olhos para ele.
— Quero dizer que acho suspeito que uma garota de dezesseis anos se interesse tanto por investigação criminal a ponto de arriscar a própria vida para participar de uma.
— Está sugerindo que ela pode ser a assassina?
— É como dizem, Thomas. Mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda. Ela pode estar querendo participar da investigação para encobrir os próprios rastros. — deduziu Adam.
Lauren deu uma risada sem humor.
— Você e suas malditas teorias de conspiração. — ela pegou o prato, agora vazio, e depositou-o na pia, junto com a xícara e começou a lavá-lo. Adam bufou, mas se limitou a dar uma grande mordida final em seu sanduíche.
— Você e Brian tiveram alguma sorte rastreando o celular? — perguntou o detetive, após alguns instantes.
Lauren suspirou, cansada.
— Não. Tentamos todo tipo de estratégia, mas parece que o número foi bloqueado ou coisa parecida. — explicou a mulher, secando o prato e a xícara e, em seguida, guardando-os.
— Estranho... — falou Adam, pensativo.
— Bem, conversaremos melhor sobre isso amanhã. Estou acabada. — admitiu Lauren. — Vou dormir. Boa noite.
— Boa noite. — disse Adam e observou a moça saindo da cozinha.
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Lauren tomou apenas um café antes de entrar no gabinete de perícia criminal da pequena delegacia, com sua roupa cirúrgica. Ainda era cedo — menos de sete horas da manhã. O corpo de Rose era o único na sala de exame. Nunca antes naquela cidade alguém havia morrido de forma tão suspeita e brutal. Ela engoliu em seco e tentou se concentrar antes de começar o procedimento. Precisava manter o sangue frio, por mais que aquilo a abalasse, mesmo após anos de profissão.
Após alguns instantes, ela pediu que o auxiliar de necropsia, uma mulher morena com cerca de 23 anos, retirasse o lençol estéril que cobria o corpo, enquanto ela colocava o avental cirúrgico, as luvas e o protetor facial.
Tendo já feito o exame externo do corpo, a legista pegou o bisturi e começou o procedimento.
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— Bem, Chelsea, espero que não tenha se incomodado por ter sido chamada aqui tão cedo. — começou Adam, fechando a porta da sala de interrogatórios, após a entrada de Brian. A garota já estava sentada na cadeira, apenas esperando que os policiais chegassem. Mesmo que não fosse tão cedo quanto o policial alegava — já passava das dez — a moça ainda parecia um pouco sonolenta
— Não tem problema. — retrucou a moça, secamente.
— É realmente uma pena que tenha saído ontem. Assim, não teria que te incomodar a essa hora da manhã. Sei que você trabalha até bem tarde... — o detetive tornou a se desculpar.
— Não tem problema, já disse. — a garota desviou o assunto, dessa vez um pouco mais delicada. Percebia bem aonde o homem queria chegar.
— Tudo bem. Vamos começar, então. — disse o homem. — Como você descreveria sua relação com sua irmã?
— Bem... Eu e Rose éramos... amigas. — ela respondeu, hesitante.
— Amigas? — repetiu Brian, incrédulo, enquanto Adam fazia anotações.
— Sim. Creio que posso dizer isso. — afirmou Chelsea.
— Eu creio que seus pais discordam dessa afirmação. — contestou o detetive Murray — Segundo eles, você e sua irmã viviam brigando e discutindo. Até mesmo por motivos bobos.
— Sim, isso é verdade. — confirmou a jovem. — Mas todos os irmãos brigam de vez em quando. Minha relação com Rose era mais do que apenas brigas.
— Vocês conversavam muito? Eram próximas? — perguntou Adam. A garota anuiu. — Sobre quais assuntos?
— Ah, você sabe. Assuntos de garotas. Roupas, garotos, festas, nossos pais... — explicou a moça.
— É engraçado, não acha? Seu pai parecem pensar que vocês não se davam nem um pouco bem. — ironizou Adam.
— Meu pai nunca passou tempo suficiente em casa para que presenciasse nenhum aspecto de minha relação com minha irmã. — disse Chelsea, com um tom ligeiramente acusatório. — Ele vive para o trabalho.
— E como você está se sentindo a respeito da morte de sua irmã?
— Que tipo de pergunta é essa? Estou triste, é claro. — esbravejou a garota, na defensiva.
— Senhorita Wilson, terei que pedir para que você abaixe um pouco o tom. Somos profissionais da polícia e podemos prendê-la por desacato a autoridade a qualquer instante. — Brian interveio. Chelsea bufou, mas não disse mais nada.
— Onde estava na noite de sexta? — perguntou Adam. O tom do rapaz deixava claro que estava se dirigindo a alguém que considerava suspeito.
— No trabalho. — respondeu Chelsea, prontamente.
— Hum... — murmurou Adam, enquanto fazia mais anotações. Depois de algum tempo, voltou a falar. — E se eu te dissesse que chequei alguns arquivos do The Turner's da última semana?
Chelsea engoliu em seco naquele instante, mas manteve a fisionomia impassível.
— Você pediu dispensa do trabalho naquele dia. Alegando "problema pessoal". Que tipo de problema era esse, Chelsea? — indagou o homem, andando de um lado ao outro da sala.
A moça empalideceu naquele instante, mas antes que pudesse responder a porta se abriu e Lauren entrou na sala.
— Senhores, desculpe por interromper. — ela anunciou, ofegante. Parecia ter corrido desesperadamente até ali. — Mas é uma emergência. Preciso falar com vocês imediatamente.
Adam olhou para ela, incrédulo por alguns instantes, mas Brian, percebendo que se tratava de algo de extrema importância, interveio.
— Senhorita Wilson, se não se importa, continuaremos seu interrogatório em alguns instantes. — declarou o técnico.
— Não me importo. — confirmou a moça, com um meio sorriso.
Os três detetives saíram da sala.
— O que está fazendo Lauren? Eu estava a ponto de conseguir informações realmente relevantes aqui... — queixou-se Adam.
— Ah, eu tenho uma informação relevante. Extremamente relevante. — ironizou ela, enfatizando a palavra "extremamente". E em seguida, mais calmamente, anunciou: — Acabei de realizar a necropsia.
— E? — estimulou Brian, depois de alguns instantes de silêncio. Lauren parecia realmente insegura e impressionada com algo. — O que descobriu?
— Bem... — começou ela, lentamente. — Analisando os padrões do ferimento, do ângulo de entrada da bala e do resíduo de pólvora... Consigo afirmar que não estamos lidando com um caso de homicídio. — afirmou ela, abalada.
— Do que está falando? — questionou Adam, como se a colega tivesse perdido completamente o juízo. O olhar de Brian — uma mescla de surpresa, revolta e negação — indicava que ele já tinha entendido. — É claro que estamos tratando de um homicídio...
— Não, Adam. Não foi homicídio. — interrompeu a moça. O homem a encarou. Depois de uma pausa dramática, Lauren explicou: — Rose se matou.
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