Wind
13 Capítulo 11 - Fugitivos
Ela nunca tinha estado naquela região antes por diversos motivos, mas principalmente porque amava seu lar e sair de casa sempre lhe parecera inconcebível, no entanto, as coisas mudaram e era preciso tomar atitudes que nunca faria em situações normais. Callan obviamente protestara e falara o quanto aquilo tudo era ridículo, mas ela não podia se arriscar, não com uma criança pequena e um bebê a caminho. Por mais que o marido não acreditasse nela, Laura tinha seus meios de fazer aquilo que era necessário e desse modo acabaram os dois naquela cabana muito diferente de sua casa. O local deixava os nervos do marido em um estado péssimo, as paredes eram de madeira de baixa qualidade e o teto parecia prestes a cair a qualquer momento, não havia um piso propriamente dito, apenas terra batida e o mobiliário não era muito melhor. A cabana não possuía lavatório ou cozinha, apenas uma mesa mal feita, um baú excessivamente grande e vazio, uma estante bamba e uma pequena cama com um colchão de palha onde nenhum dos dois tinha coragem de dormir, ela não gostava também, mas se conformava com o pensamento de que sua criança não estava ali.
— Laura já fazem semanas — Callan disse entregando o pão do dia para a esposa em um ato simples e gentil, não era muito, mas bastava — Isso tudo é loucura meu amor, vamos voltar pra casa e falar com o curandeiro, tudo bem? — ele sugeriu sentando ao lado dela na mesa e passando um braço protetor sobre seus ombros magros e curvados — Tenho certeza de que com o medicamento certo tudo ficará bem, vai ser melhor pro bebê e pro nosso menino também, deve estar morrendo de medo no meio de tantos estranhos, longe da família...
— Eu não sou louca — ela disse friamente sem olhar pro rosto do marido e sem tocar o pão que ele lhe trouxera, ela não confiava muito na comida que ele lhe trazia.
Nunca quisera que Callan viesse com ela, mas sabia que se o deixasse para trás ele procuraria pelo filho e isso era muito perigoso, por isso Laura implorara que o marido viesse junto e ele, julgando ser mais uma das estranhas peculiaridades da esposa, aceitara sem protestar, ao menos antes de descobrir que ela havia mandado o filho pra longe de casa. Quando Callan descobrira a respeito da criança ele ficara furioso e perguntara como ela era capaz de fazer mal ao próprio filho, ao sangue de seu sangue, mas ele não entendia, não sabia de nada. Laura nunca faria mal ao seu pequeno príncipe, o sol que iluminava seus dias, por isso o mandara pra longe de casa. Eles não se importavam com idade quando matavam seus prisioneiros depois de torturá-los e de tirar deles tudo que os tornava o que eram, Laura sabia que o filho era como ela e não como o marido, por isso ela fugira. Estava assustada de mais pra pensar em qualquer coisa racional e se escondera, mas o tempo estava chegando.
Laura acariciou a barriga carinhosamente, uma lágrima descendo por seu rosto pálido. Ela sabia que não estava em seu melhor estado, os cabelos loiros não eram lavados há dias, por isso ela os matinha bem presos, sua roupa nunca estivera mais suja e os olhos dourados já não tinham mais o mesmo brilho de antes, estava morrendo lentamente e ninguém além dela sabia disso.
— É uma menina — ela sussurrou para o marido — Ela é algo diferente eu sinto em meus ossos.
— Do que está falando agora, meu amor? O futuro está nas mãos dos deuses, não cabe a nós especular a respeito dele — Callan murmurou se virando para ela e ao encontrar o rosto da mulher manchado pelas lágrimas se surpreendeu — O que é isso? Por que está chorando? Eu não quis ser duro quando falei sobre o curandeiro Laura, você sabe que eu só quero o seu bem.
— Eles estão vindo, Callan! — ela soluçou histericamente, sem conseguir se conter.
— Quem está vindo? — perguntou ele tentando manter a calma, sabia que era comum pra mulher ter aqueles ataques de histeria por isso restava a ele manter a calma e trazê-la de volta à realidade — Não tem ninguém em milhas de distância.
— Me beije seu idiota! — Laura ordenou omitindo o fato de que aquele provavelmente seu ultimo beijo com seu tolo marido e puxou para um beijo apaixonado e carregado de desespero.
Callan não teve tempo de reagir à explosão quando escutou as batidas persistentes na porta. Ele arregalou os olhos e se levantou colocando a esposa, que também ficara de pé, atrás de si em um gesto inutilmente protetor. As batidas ficaram cada vez mais impacientes.
— Abra em nome da Rainha! — gritou a pessoa do lado de fora.
Callan não entendia o que a rainha queria com eles, mas não lhe parecia boa coisa. Podia ser tudo ou nada, mas após um rápido olhar para a mulher ele preferiu não arriscar e apontou o baú esquecido no canto e com um gesto simples mandou que Laura se escondesse, eles ririam de tudo aquilo quando descobrissem que era apenas o convite para a festa de alguém ou algo assim, ou ao menos era nisso que ele acreditava. Laura pôs a mão na frente da boca para evitar fazer qualquer barulho e deitou em posição fetal no grande baú, puxando a tampa até que estivesse na total escuridão. Ela escutou em silêncio a porta ser aberta e o som das botas pisando com força no chão.
— Onde está Lady Laura? — questionou um homem.
— Em casa, onde mais estaria — Callan mentiu, ele sempre fora bom em mentir a respeito dela pras pessoas.
— Você está mentindo — o homem disse.
— Vê ela em algum lugar? — ele retrucou — Esse lugar é pequeno de mais pra alguém se esconder, minha esposa está grávida e sequer teria condições de chegar a este lugar.
— Entendo — respondeu simplesmente.
Laura escutou a bancada abafada, o som de uma lâmina sendo desembainhada e então silêncio, ela não sabia quanto tempo ficara ali dentro, com medo demais pra sair. Quando saiu já havia anoitecido, mas não estava escura o bastante para que ela não visse a poça de sangue seco sob o corpo inerte do marido. Laura caiu de joelhos e o abraçou, ela sabia que aquele seria o último beijo, mesmo assim seu coração se negava a aceitar. Queria ter morrido junto com ele, se jogado na frente da espada, gritado com os soldados e tentado fugir com seu tolo amado, no entanto, não fizera nada daquilo. No fim, seu senso de dever vencera seu coração, ela ainda tinha uma missão a cumprir.
***
Ele não se sentia disposto pra sentar em uma mesa e jantar normalmente, mas seu estômago reclamava, sempre tinha fome depois de beber muito e aquela noite não era uma exceção. Caleb vestiu uma calça marrom simples, uma camisa branca bem passada e o colete verde que costumava ser de seu pai, calçando as botas limpas e ignorando completamente o fato de que ele devia parecer uma bagunça. Antes que tivesse a chance de descer e encarar a bagunça usual do jantar, uma bule com chá fumegante e um par de xícaras foram trazidos pela garota de mais cedo, o pequeno corte em seu rosto já havia sido tratado mas a garota ainda parecia estar assustada de mais pra entrar e colocar o chá em cima da mesa de Caleb. Desviando dos cacos de vidro que ainda não haviam sido jogados fora, Caleb tirou a bandeja das mãos da garota depositando-a em sua mesa antes de segurar as mão da ruiva e olhar diretamente para seus olhos.
— Mil perdões — ele implorou e se ajoelhou aos pés da garota que ficou completamente sem palavras — Eu me deixei levar pela bebida mas meus atos foram totalmente recrimináveis, eu deveria morrer neste exato momento por cometer o pecado de machucar o belo rosto de uma dama.
— Senhor Caleb! — a garota exclamou puxando-o pra cima em uma tentativa inútil, ela não teria forças para levantá-lo nem se quisesse, era muito pequena e o pai a amava de mais para fazer com que a filha trabalhasse no moinho, mais um motivo para que Caleb se sentisse culpado — Levante-se senhor, antes que os outros vejam, onde já se viu um lorde ajoelhado assim por uma empregada? Ponha-se de pé senhor!
— Não falo como lorde, mas como pessoa — ele retrucou — Se quiseres passarei a noite inteira aqui de joelhos, pode fazer o que quiser comigo, eu sei que mereço.
— Tudo bem, eu o perdoo! — ela reclamou rindo da situação, momentaneamente mais aliviada por seu senhor ter voltado ao que era sempre — Vai perder o jantar, o cozinheiro caprichou hoje porque a moça acordou e o convidado do senhor voltou — ela afirmou sacudindo as mão pra se livrar das de Caleb.
— Como pode o coração de uma pessoa ser tão bom ao ponto de oferecer perdão a um homem pecador? — ele continuou com seu monólogo — Devia ser uma princesa, não, uma rainha ou um anjo, nada menos, Alissa.
— Certo, certo — ela revirou os olhos — Tome seu chá ou ficará com dor de cabeça — ela apontou pra xícara — Por que tem que ser tão inconstante? Pare de beber de uma vez, senhor!
— Eu tento — Caleb informou se levantando — Me daria a honra de me acompanhar no chá? É extremamente depressivo beber chá sozinho, até parece que sou algum tipo de lorde órfão sem família ou amigos.
— Sabe que o senhor é como família pra todos nós, senhor Caleb — a garota protestou mas sentou-se com ele e serviu o chá para os dois — Mesmo que seja um tanto estranho às vezes.
— Não somos nós todos um pouco estranhos? — ele murmurou tomando o chá que queimava sua língua, conhecia a filha do moleiro desde que nascera, ela era um pouco mais velha do que ele e fora uma das meninas que na época ajudaram a mãe a cuidar dele, de certo modo todos ali a certo nível eram como parentes e amigos, isso fazia com que ele se sentisse menos solitário, logo cenas como a de mais cedo o deixavam mortificado consigo mesmo.
Ele se perguntava o motivo de seu guarda ter chegado tão cedo quando dissera que só chegaria em um mês, tudo parecia estar saindo de forma diferente da que ele planejara, mas não podia se deixar levar. Tinha que lembrar de pedir pra Moira trancar a adega, vinho não lhe parecia mais uma boa ideia dadas as atuais circunstâncias. Antes mesmo que ele terminasse, Alissa se levantou e soltou um suspiro ao ver o estado do quarto, ele tinha o péssimo hábito de deixar o quarto uma bagunça e isso irritava profundamente todos que tinham que arrumá-lo no dia seguinte.
— Tenho que me preparar para o jantar, senhor — ela disse — Mais tarde mandaremos alguém limpar isso, então durma no quarto ao lado, por favor.
— Tudo que você quiser minha dama — ele respondeu perdido nos próprios pensamentos.
Não demorou muito mais para que ele terminasse o próprio chá e depois de um longo suspiro juntou de melhor forma possível os cacos de vidro, colocando-os na bandeja, junto com as xícaras sujas e o bule pela metade, levando tudo para a cozinha. As coisas estavam no caos usual de quando tinham visitas, as pessoas sempre ficavam agitadas e tentavam agradar os visitantes na esperança de que eles ficassem mais tempo, no fundo Caleb também tinha essa esperança mas preferia guardá-la pra si mesmo. Antes que terminasse de lavar as coisas e depois de levar um sermão de um dos responsáveis por lavar a louça, ordenaram que ele saísse da cozinha, só restavam os poucos que foram escolhidos para permanecer e cuidar das coisas enquanto os outros jantavam. Caleb fez um gesto para que Zephir sentasse em seu lugar na ponta da mesa que fora servida fartamente com um tipo de culinária refinada que eles raramente usavam por ali. Haviam aves douradas, batatas assadas e douradas e todo tipo de prato delicioso que ele não entendia muito bem, mas que provavelmente demorara para ser feito. A maioria das pessoas já estava sentada em seus devidos lugares, seja na mesa principal ou nas menores colocadas alguns anos atrás após Caleb declarar que era deprimente comer naquele salão sozinho e pedir para que os empregados e pessoas do vilarejo jantassem com ele. Os jantares sempre contavam com cerca de 100 pessoas ou um pouco mais sem contar com as crianças e viajantes, mas sempre deixavam vagos os dois assentos ao lado da ponta que naquela noite estavam ocupados por ele e a bruxa.
— Fez uma boa viagem, milorde? — ele perguntou para Zephir esperando que o guarda entendesse onde ele queria chegar.
— Tão boa quanto possível — respondeu sem lhe dirigir mais nenhuma palavra.
— Eles ficam cada vez mais quietos — disse ele para Viecier como se Zephir não estivesse presente — Em breve todas as crianças nobres nasceram mudas, será maravilhoso não ter que escutá-los ladrando ordens, mas você pode me ladrar ordens se quiser.
— Eu não preciso ladrar, meu bem — ela retrucou servindo-se de um grande pedaço de carne — Se isso estiver envenenado voltarei do além para matá-los — ela disse.
— Ela é adorável — ele suspirou.
— Ah, as pessoas costumam me dizer isso — Viecier sorriu — Mas vamos falar de negócios, pelo que seu Lorde disse você que tem todos os detalhes.
— Não é uma boa ideia discutir isso aqui — ele disse seriamente pela primeira vez naquela noite — Por mais que eu ache encantador o seu interesse por mim não quero que essas pessoas se envolvam em toda essa sujeira, são pessoas boas não merecem isso.
— E eu não sou uma pessoa boa? — ela piscou os grandes olhos dourados.
— Você é a melhor de todas, meu amor — Caleb sorriu — Após o jantar teremos uma conversa particular, sei que já a fiz esperar de mais, mas isso é importante.
— Calem a boca e comam — resmungou Zephir.
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