Wind
10 Capítulo 08 - Confronto
Serafin nunca foi uma mulher muito maternal e amorosa, claro que ela se preocupava com o bem estar de Viecier e também dedicara muito de seu tempo para que pudesse ensinar à menina o dom de ser uma bruxa, no entanto ela sempre lhe parecera mais um mestre do que uma mãe, mas Viecier nunca se importou porque elas tinha Celine. Desde pequena ela sempre gostara de Celine, a empregada da casa, e sabia que Celine de certo modo a amava também, a jovem, acolhida quando criança pela mãe de Viecier, sempre cuidara muito bem dela. Ela era a pessoa que a alimentava e vestia, que lhe educava e que cuidava da garota quando ela estava doente, então a pequena Viecier cresceu muito apegada à sua amada criada. Celine era uma mulher dura quando queria, mas tinha abraços calorosos, palavras gentis e muitas supertições vindas da terra distante onde nascera. Ela costumava dizer que no lugar de onde viera as coisas eram muito diferentes, as pessoas poderiam andar por muitos dias seguidos e não encontrar nada além de areia em todos os lados. As mulheres apenas saiam da tenda de seu pai quando casavam e passavam a morar na tenda de seu marido, às vezes esta ficava há apenas alguns minutos de viagem, no entanto muitas vezes era necessária uma longa viagem pela areia escaldante. O marido e sua comitiva vinham buscar a sua noiva e, após prestar homenagem ao seu pai e irmãos de coração, seguiam viagem.
Celine costumava contar que, quando não era mais que uma menina, o filho mais velho de seu pai casou com uma moça que morava muito longe, filha de um hábil mercador. Era um bom casamento e a seria benéfico para ambas as famílias de modo que o irmão levou caros presentes para sua noiva e chamou os homens mais fortes e leais de seu pai para lhe acompanharem. O irmão de Celine era um homem bom e justo, que nunca levantaria a mão para uma mulher e jamais utilizaria seu nome como filho mais velho para fazer qualquer mal ao restante de sua caravana, contudo, dias depois de partir ele voltou mudado. Os homens que lhe acompanharam jamais retornaram, sua jovem noiva estava tão assustada que nunca mais voltou a proferir qualquer palavra e seu irmão havia se tornado uma pessoa cruel e paranóica. Celine não entendia como alguém podia mudar tanto em alguns dias, mas a mãe de sua mãe, que tinha muito mais idade que ela e que conhecia muito mais do mundo, lhe disse que ele devia ter encontrado nas areias um demônio que o enganara e tomara seu corpo, se fosse forte o bastante conseguiria lutar contra o demônio, contudo o irmão de Celine sempre fora um homem fraco e jamais voltou a ser como era antes de sua viagem.
Viecier não conseguia entender como uma pessoa poderia mudar ao ponto de se tornar irreconhecível para a própria família, muito menos como aquela mudança acontecia em tão pouco tempo, mas o que viu naquele momento a fez entender um pouco do que a jovem Celine presenciou. O homem a sua frente, que minutos antes quase destruíra o rosto de uma de suas empregadas em um surto de raiva, em poucos minutos havia mudado completamente. Ela viu em seu rosto a briga interna que durou vários segundos até que ele respirasse fundo e fechasse os olhos, estava tudo tão silencioso que ela não sabia ao certo o que estava acontecendo, dispensou a empregada com delicadeza e fechou a porta, quando se voltou para o seu anfitrião seus olhos azuis acinzentados estavam abertos e ele parecia uma pessoa completamente diferente. Poderia mesmo existir um demônio que entra na cabeça de uma pessoa e a controla ao seu bel prazer? Pois nem mesmo ela quando tentava agir de forma diferente conseguia atuar tão bem. O homem levantou-se da poltrona onde estava sentado e se desequilibrou, segurando no encosto enquanto tentava se manter de pé. Ele levantou a cabeça para olhar nos olhos de Viecier e abriu um sorriso brilhante que a fez estremecer.
—Ah, fico feliz que a minha bela convidada tenha acordado — ele disse gesticulando para que ela sentasse no assento de onde acabara de levantar.
—Não é o que parecia alguns segundos atrás — ela retrucou sentando-se na cama de pernas cruzadas, o colchão era alto de modo que seria mais fácil de se levantar caso ela precisasse reagir a qualquer coisa que ele fizesse. Se sentia humilhada por ter que agir com cautela na presença de um humano, mas seus instintos eram mais fortes que o seu orgulho naquele momento.
—Me chamo Caleb e sou um humilde servo desta residência — ele se apresentou com um floreio desajeitado devido ao excesso de bebida — Com quem eu tenho a honra de falar?
—Não vejo porque eu deveria me apresentar pra um servo — respondeu ela inclinando a cabeça em um hábito nervoso supondo que o homem provavelmente era o mordomo ou o chefe responsável pelos empregados da mansão, o dono de um lugar como aqueles dificelmente pareceria menos do que um nobre importante e ao longo dos anos ela conhecera quase todos os nobres daquele reino — Mas posso lhe dar um nome se me disser porque estou aqui e quem me trouxe pra esse lugar — ela sorriu resolvendo interpretar o papel da donzela agradecida, se não sabiam ainda quem ela era, ela não revelaria sua natureza.
—Meu mestre, Zephir, o senhor desta casa a trouxe até aqui, minha bela — ele disse sentando na poltrona, cansado de tentar ficar em pé decentemente — Ele ouviu sobre uma bela bruxa que fingia ser uma princesa e decidiu que ela seria perfeita pra um serviço especial — o homem piscou.
Todo o corpo de Viecier enrijeceu com a resposta, eles sabiam quem ela era. Como alguém com uma cara tão idiota conseguira descobrir o que o próprio povo não descobriu em mais de uma década? O homem levantou-se e ela acompanhou com os olhos cada movimento dele até que ele entrasse em uma porta nos fundos do quarto, sua mente tentando entender como ele sabia, analisando cada alternativa. Viecier sempre fora muito cuidadosa com o modo como agia, não costumava falar em público, mantinha uma distância adequada e segura dos aldeões e sempre apagava a memória dos viajantes que a seguiam em suas "atividades", não tinha como aquele estranho homem saber o que nem mesmo outras bruxas sabiam. A existência de Viecier sempre fora um segredo que a mãe guardara muito bem. Após diversos minutos sem qualquer sinal do homem, a loira se levantou impaciente e entrou na porta sem bater. Ele havia adormecido na banheira cheia, a espuma branca cobrindo a água e partes do rosto sereno.
Não seria muito difícil matá-lo, mesmo que enfraquecida ela conseguiria lidar com um homem naquele estado. Mas aquela voz em sua mente dizia para não o fazer, e àquela altura ela estava curiosa o bastante para deixá-lo viver apenas para que lhe contasse a versão integral dos fatos. Viecier puxou o homem pra fora da banheira com muito esforço e o deitou no chão, jogando uma das muitas toalhas de uma prateleira próxima em seu corpo nu, não tinha o mínimo interesse em analisar seus "dotes masculinos", mas não queria que Caleb se afogasse em seu sono sem que tivesse a oportunidade de lhe responder.
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