Wind

6 Capítulo 04 - Tecendo Palavras


Ele não se lembrava muito bem de sua infância no St.Jon, quando chegara era ainda muito novo e já era um rapaz quase adulto quando mandaram lhe buscar. Por ter passado tanto tempo naquela casa, imaginava-se que ele teria memórias marcantes e vívidas de cenas infantis e histórias sobre o seu desenvolvimento, contudo, tudo lhe parecia um tanto apagado como se fossem coisas acontecidas com outra pessoa e não com ele próprio, quando estava no abrigo com frequência a realidade se misturava ao terrível passado e ele se via em um estado de terror absoluto incapaz de diferenciar os sonhos da verdadeira guerra. Mas óbvio que haviam coisas inesquecíveis a respeito daquele lugar, como a péssima comida, a diretora antipática e aquelas crianças que compartilhavam o mesmo triste destino.

Apesar de não ter claras lembranças a respeito da maior parte de sua infância, pouco antes de saírem da mansão ele lembrou claramente das empregadas do abrigo se amontoando na entrada em uma noite chuvosa enquanto o jardineiro tentava controlar as crianças para que se mantivessem afastadas. No centro de toda a comoção havia uma mulher, bonita é claro, mas também sombria. Os detalhes na mulher sempre lhe fugiam a mente e mesmo assim ele lembrava claramente da sensação ruim que ela passava e dos funcionários agitados. Haviam acorrentado a mulher como se fosse um animal perigoso, sua boca fora amordaçada e eles pareciam furiosos com a sua presença. Na época ele não entendia bem o que os sussurros queria dizer, mas agora parecia simplesmente desumano até para alguém como ela: "Queime-a, assim não nos causará mais problemas", "Deveríamos colocá-la numa jaula? Elas não fazem mal algum se estiverem bem presas no ferro e cobertas de sal", "Não seja bobo, se não for uma bruxa então ela não flutuará e nos livraremos de uma ladra de qualquer forma!". No fim, eles a fizeram tomar uma mistura de sal, pó de prata e vinho. Ele duvidava que qualquer pessoa fosse ficar bem depois de ingerir tal mistura, contudo, a reação da mulher foi quase imediata e o que ele presenciou fora uma das piores memórias de sua vida.

Agora, bem à sua frente, havia uma mulher que supostamente seria uma bruxa, ao menos Zephir dizia que ela cheirava como uma bruxa, e todas aquelas memórias lhe atingiram em cheio, sobrecarregando sua mente com cenas horrendas. A loira estava desacordada e o guarda a havia acorrentado bem e a posicionado de forma que seu corpo tivesse o apoio do corrimão da grande escada que levava ao andar superior, sua cabeça pendia pra um lado de modo que os cabelos loiros cobrissem seu rosto, o peito levantava e descia suavemente como se ela tivesse adormecido em sua cama. Aquela garota... Caleb se aproximou sem qualquer hesitação e se ajoelhou ao seu lado ignorando a súbita tensão de seu guarda. Em um gesto quase natural suas mãos lhe afastaram o cabelo do rosto, não era um rosto familiar pra ele, mas de certa forma ele tinha a impressão de que a conhecia, tinha que ser ela. Sua mãos procuraram as dela, mas encontraram correntes frias no caminho e ele se retraiu . Não gostava de correntes, jaulas ou grilhões, não lhe traziam boas lembranças.

— Não podia ser menos... carrasco do rei louco e mais guarda bonito e gentil? — ele reclamou de Zephir ao perceber que as correntes começavam a deixar marcas na pele dourada.

— Deseja ter seus olhos arrancados, meu senhor? — retrucou indiferentemente — Ela pode facilmente fazê-lo e pode lhe enfeitiçar também, mas o ferro a deixará fraca então por enquanto não é um risco.

Ela não parecia ser um risco mesmo sem aquilo, mas ele preferiu não contrariar o guarda, não queria descobrir se ele estava disposto também a acorrentar o próprio contratante caso ficasse irritado a esse ponto.

— Podia ser algo mais sutil não podia? — ele revirou os olhos — Imagine que escândalo: abastado nobre transforma dama em escrava sexual e a exibe pelo reino acorrentada e inconsciente. Com certeza as minhas senhoras não gostarão nada disso, será a minha cabeça rolando, não a sua.

— Escrava sexual? — ele franziu o cenho e seus olhos muito verdes se fixaram na garota mostrando pela primeira vez algum tipo de sentimento.

— É só uma fofoca, não que alguma vez eu tenha precisado escravizar alguém pra... bem, não é muito cavalheiresco falar essas coisas na frente de uma dama, mesmo que desacordada — ele suspirou — Então?

O guarda se remexeu desconfortavelmente e após um suspiro se juntou ao seu contratante, perto da garota. Ele remexeu os bolsos, retirando bugigangas do tipo que um viajante solitário teria: uma faca, um pedaço de madeira meio entalhado, um saquinho com ervas, moedas, um pequeno brasão e enfim uma corrente. Era um bracelete de uma beleza delicada, feito de ferro escuro simples, no entanto, mesmo que os elos fossem simples e rústicos o trabalho feito era muito preciso, principalmente com as pequenas pedras, verdes em forma de folha, incrustadas nos minúsculos elos, como se fosse hera. Zephir, apesar de não ter hesitado em colocar uma pesada corrente em uma garota que era duas vezes menor do que ele, foi bastante cuidadoso ao pegar a mão da garota e colocar a corrente em seu pulso, seu toque se demorando mais do que era confortável para um observador. Caleb pigarreou.

— Eu sei que essa história de amor à primeira vista é maravilhosa, mas não acho que ela vai se apaixonar por você se a deixar acorrentada por muito tempo — ele constatou.

— Precisa arranjar o próprio bracelete, eu vou querer este de volta — falou ignorando o gracejar de Caleb e retirou a corrente que prendia a mulher.

— Não me leve a mal, mas acho que é muito feminino pra você — caleb murmurou — Bem, mas se esse é o seu gosto... cada um com o que gosta, certo?

Voltando a ser ignorado por seu guarda que colocou a mulher nos ombros como se carregasse um grande saco de farinha, Caleb suspirou e guiou o caminho de volta à aldeia. No entanto, a atitude das pessoas mudara completamente tão logo perceberam que o seu corpulento guarda carregava alguém em seus ombros. Estava próximo do amanhecer e poucas pessoas estavam na rua, mas aquelas poucas pessoas pareciam apavoradas, evitavam olhar diretamente para eles e estavam obviamente incomodadas. Ninguém havia entrado no caminho deles até chegarem perto da saída da vila, onde um homem grande vestido de branco e coberto de farinha os parou. Ele cruzou os braços e apontou pra garota com a cabeça.

— Onde pensam que vão com a pequena senhora? — ele questionou.

— Pra casa? — Caleb arriscou.

— Tenho certeza de que a casa dela é subindo a colina — o homem apontou pro topo do solar, a única parte visível a partir da parte baixa da vila.

— Agora não é mais, se nos dá licença... — Caleb disse mas logo foi calado por Zephir que passou o peso da garota pra ele.

O grande guarda se pôs entre o jovem lorde e o grande homem, era uma força a se considerar mesmo assim o homem não pareceu se abalar, o que fez Caleb pensar. Apesar de ser uma bruxa do pior tipo, aquela garota era, no mínimo, muito respeitada pelas pessoas da sua cidade, enquanto ele, um jovem bonito, inteligente, engraçado, gentil, nobre, rico, cavalheiro e compreensivo além de ótimo no xadrez, sequer era respeitado por seu guarda muito grande. Antes que ele pudesse continuar os seus pensamentos, Zephir se pôs em ação. Caleb contratara o melhor e Zephir não era o melhor devido à suas capacidades físicas sobre-humanas (apesar de que, como feérico, ele possuir certa vantagem em relação à capacidades físicas e o tipo mais elemental de magia), aquele homem de aparência tão etérea era o último de sua linhagem, os tecelões de histórias. Caleb nunca cansava de ver aquilo, a cena era sempre assustadora e bela.

— Não vê o bracelete dela? — perguntou Zephir e o homem olhou pra bruxa, o seu grande erro foi ter prestado atenção ao que o guarda dizia. Ele já era parte da trama — É um presente de casamento de um mercador muito rico que mora nas terras distantes, além do mar. — Ele começou e agora não tinha como parar.

Caleb sabia que nem todos podiam ver aquilo, provavelmente sequer Zephir era capaz de vê-las, de ver as linhas brilhantes que o envolviam quando ele começava a contar uma de suas histórias, de ver os seus belos padrões e as imagens formadas. Elas sussurravam, mas Caleb não entendia, talvez o feérico entendesse, de qualquer forma era um espetáculo belo e único. As linhas se entrelaçavam formando uma grande trama, era real e todos que ouvissem acreditariam se ele dissesse que o deserto era feito de ouro e que o céu era apenas uma extensão do mar. Os olhos do homem a essa altura estavam cheios de lágrimas emocionadas, Caleb nunca prestava muita atenção nas palavras quando podia ver as linhas, mas com certeza ele devia ter dito alguma coisa bonita e melosa.

— Então você entende, não entende? — ele perguntou após terminar a história.

— Ah, mas é claro, milorde! — o homem fungou enxugando as lágrimas — Não se demorem e se precisarem de acomodações em sua viagem procurem uma pensão das rosas, há uma em quase todas as cidades até o Velho Porto, são de família então basta dizer que é um favor do Enri do Solar, eles entenderão — Enri apertou a mão de Zephir emocionado — Boa viagem, meus amigos e tomem conta da nossa flor!

— Por que deixou os cavalos tão longe da vila? — ralhou Zephir.

— O que você disse a ele milorde? — Caleb zombou ignorando a reclamação direcionada a ele, ele não pretendia falar ao feérico que os cavalos nunca gostavam muito dos lugares enfestados pelas coisas da noite, mas o guarda provavelmente não entenderia.

— Disse que éramos dois nobres menores que vieram fazer um favor a um amigo mercador, viemos convencer a família da noiva a deixá-la casar-se com seu amado, contudo, não obtendo a permissão tivemos que elaborar um plano de fuga que consistiu em algo como uma grande farsa ao trocá-la por alguém muito parecida... ele parece achar bastante romântico a ideia de casais separados por famílias que se odeiam — ele deu de ombros, fora a maior sentença que dissera em muito tempo e aquilo com certeza não se repetiria.

Ao alcançarem os cavalos, seguramente presos em um velho estábulo abandonado em meio à vegetação densa, o guarda colocou a mulher com cuidado em seu cavalo antes de subir, mas não esperou até Caleb montar, saindo um pouco antes de modo que ficasse à frente longe da tagarelice do lorde. Quem visse acharia que ele era o nobre e Caleb seu servo e não o contrário, mas o moreno não via problema nenhum nisso, estava feliz por tudo ter saído como esperado e quase sorriu pra pequena voz que lhe sussurrava coisas profanas... quase...