Willow Está Desaparecida

1 Uma carta de uma garota desaparecida


Notas iniciais
Oi galerinha do barulho, tudo em cima? Venho aqui para falar (digitar?) pouco, pois estou ansiosa para o feedback da história e também estou ansiosa para postá-la! ⛤ Tudo que quero dizer está no Disclaimer da história, portanto, se não leu, dá uma passadinha lá, bem rápida. :( BOA LEITURA, PEREQUITINHOS! ♥

“Ela não está doente do corpo, mas a mente parece viciada em aflição. Bebe goles e goles de angústia até convertê-los em pânico. Então ela suporta sozinha. As pontadas, os tremores, o choro. Afunda no medo, engolindo suas águas, nada o máximo que pode para chegar à borda.”

Cativeiro, escrito por Tamires Vargas.

Querido leitor, olá.

Palavras machucam, todos sabem disso, não sabem? São cartazes, propagandas, músicas, poesias, biografias e qualquer outro tipo de aviso que recebemos no dia-a-dia. Todos eles, muitas vezes, já transmitiram a mesma mensagem: palavras machucam; tome cuidado com suas palavras; seja cauteloso com o que diz. Mas, mesmo com tudo isso, por que todos teimam em ignorar? Jogar a sujeira em baixo do tapete e rezar para que ninguém descubra? Mistérios do ser humano, creio eu.

Relaxe! A carta não é um pedido de desculpas, de “adeus” ou, até mesmo, uma biografia. Posso prometer uma coisa: tudo vai ficar claro. A confusão é passageira, como o medo. Tudo passa e tudo se transforma, o bem sempre vence o mal, certo? Mais ou menos.

Meu nome é Willow Houdv e vocês estão prestes a ler algo um pouquinho extremo. Não tenho de quando tudo começou a dar errado; para falar a verdade, eu nunca tenho certeza de nada. Quem é que tem, não é mesmo? Talvez eu estivesse desenvolvendo uma depressão ridícula e que não foi embora tão cedo e isso estava me corrompendo por dentro, mordendo cada cantinho que restava e me reduzindo a um poço sem fundo de gritos no escuro. Se mais alguém já se sentiu assim, bem-vindo ao clube! Tenho tido várias lutas dentro de meu corpo, mas não é como vemos em filmes: não há nada querendo sair, e sim várias coisas querendo espaço ao mesmo tempo; várias Willows querendo entrar num quartinho pequeno; várias eus lutando por um cantinho de sossego em meio a tanto caos. Ainda estão acompanhando? Calma, deixe-me ser mais clara. E, por favor, não tome conclusões precipitadas como: “ai, nossa, isso é só querer chamar atenção! Entrar para o noticiário! Por que ainda estão atrás de uma garota que desapareceu por conta própria?”; se tem uma mensagem que pode ajudar vocês durante toda essa carta, aqui está: rumores são apenas rumores. Leia e interprete do jeito que preferir, do seu ou do meu ponto de vista, isso já não me importa tanto assim.

O único som que ouço é o da caneta riscando o papel amassado e embrulhado, aqui é frio e quente ao mesmo tempo, não há muito barulho. Na verdade, não há barulho algum. Tudo que escuto é minha respiração batendo e voltando em meu casaco, o vento do lado de fora da porta de madeira e, consequentemente, a natureza: as árvores balançando, animais estranhos se cumprimentando. Consigo imaginar como o céu está lá do outro lado, cheio de estrelas, nuvens? Meio escuro, talvez seja noite. É difícil dizer qual dia estou, que horas ou se o Sol já deu “oi” pro mundo. É difícil dizer qualquer coisa dentro desse lugar. Sem sombra de dúvidas, estou de baixo da terra, sem contato com a vida humana ou qualquer aparelho que me dê uma única oportunidade de ligar para meus pais, aliás, se eu tivesse um celular, o que diria a eles?

Tive uma saúde mental estável por muito tempo, contudo, teve aquele ano.

De qualquer forma, vou contar a história de minha vida, do início ao meio. Não existem regras aqui, o principal motivo é por eu nunca ter me dado muito bem com regras; existem obrigações, três obrigações.

1 – Está carta pertence a você e somente você. Seja lá quem “você” for.

2 – Se começou, tem que terminar. Não deixe com que meu trabalho seja em vão.

3 – Leia duas, três, quatro, cinco vezes se precisar, vai que você é um dos motivos para tudo ter dado errado... Nunca se sabe. :)

Pois bem, acomode-se, pegue uma xícara de chá ou um energético, o importante é você estar à vontade, porque isso é algo que não estive durante todo esse tempo.

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Está confortável o bastante? Pegou sua xícara? Sentou-se no sofá, na cama? O que estou prestes a começar a contar quebra todas as regras que a linha do tempo já criou, não começa do dia que nasci, talvez, do dia que renasci. Nesta carta, lerão minha essência, minha passagem no ciclo caótico desse mundo caótico. Todos os acontecimentos têm um nome, todos têm uma razão e, definitivamente, todos foram importantes.

Desapareci há alguns anos, disso posso ter certeza. Lembro que, quando entrei nesse lugar, meus sapatos ainda entravam nos meus pés, minhas meias não eram tão apertadas e, acima de tudo, não era tão frio. Só havia um modo para acabar com tudo aquilo, uma chance e um gatilho a ser apertado. E assim o fiz. No início, marcava os dias pela quantidade de luz que entrava na fresta de madeira de onde estava, marcava no piso de terra e fazia questão de ficar apenas no canto esquerdo daquela estrutura apertada, para não pisar e atrapalhar todo meu calendário bagunçado. Fiquei por dias e semanas anotando tudo que acontecia, normalmente, me alimentavam dia sim e não, com gororobas alaranjadas que cheiravam a abóbora misturada com frango; ninguém entrava ou saía, era eu presa com meus pensamentos. A comida era entregue por uma portinhola ao lado de minha cama (tsc, “cama”). Não posso dizer que era a pior coisa do mundo, porque não era. Era... Comível. O cheiro dava de dez a zero no gosto. Pelas minhas contas, fiquei lá por dois anos, até ficar sem espaço e até aquilo acontecer.

Por muito tempo me perguntei o que acontecia lá fora, se minha foto aparecia em caixas de leite ou nos noticiários, se meus pais e irmão sentiam falta, se a escola sentia falta, se ele sentia falta. Sentiam? Sentiam, leitor?

A dádiva da dúvida é algo que não tenho poder e nem direito de me dar no momento.

Quando você estiver lendo isso, eu provavelmente devo estar morta. Fui sequestrada no dia treze de dezembro de dois mil e dez, no estacionamento do supermercado Happy Meal, também conhecido por ser franquia de uma grande empresa, da empresa de meu tio materno. Confesso que nunca reclamei do desconto absurdo que ganhava e gastava em balas de caju e tabletes de amendoim, além de reservar um espacinho no meu estômago para lotar de refrigerante de laranja. Sim, sempre comi como uma porca e sempre tive uma postura de uma árvore contra o vento, não chegava nem perto de ser uma dama, principalmente por estar andando com vestidos pretos até abaixo do joelho e tênis coloridos que subiam até acima de meu calcanhar. Por que gastaria uma fortuna em lojas conhecidas se podia levar o triplo de peças em brechós?

Voltando ao estacionamento: era meu décimo sétimo aniversário e nada me deixava mais animada do que chegar em casa e ter uma festa surpresa, sempre sonhei com festas surpresas. Ocupar meus pais com alguma coisa, qualquer coisa, era minha prioridade. Não hesitaria em iniciar assuntos diversos só para fazê-los pensar numa resposta bem demorada, eles costumavam a não brigar enquanto pensavam, ou preparavam uma festa surpresa. E as brigas são algo que sempre evitei. Quase sempre.

No dicionário, medo significa estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência; temor, ansiedade irracional ou fundamentada. O receio. Sempre foi uma boa definição e nunca discordaria disso.

Como qualquer garota de dezesseis anos, desejava de tudo, menos a paz mundial. Desejava que parassem de me trancar no banheiro feminino e gritassem insultos do outro lado a porta. Desejava que as garotas do time de vôlei parassem de furtar minhas roupas do vestiário e de pendurá-las nas árvores do pomar. Desejava que os garotos veteranos parassem de apalpar minha saia toda vez que andava pelos corredores. Desejava não ser mais excluída dos ciclos sociais viciosos e infantis do Ensino Médio. Desejava sobreviver sem me sentir morta. Podre. Acabada. Derrotada. Dos Sete Pecados Capitais, eu era a ganância por desejar tudo isso; a preguiça por ignorar as perguntas eufóricas de minha mãe se estava tudo realmente bem; a gula por querer sempre mais e mais refrigerante de laranja; a inveja de não ter nascido loira de olhos azuis. Então, é, o Ensino Médio foi bem cruel comigo, e sabia que não era a única. Quantas garotas de dezesseis anos são inferiorizadas por serem garotas de dezesseis anos? Não, não apenas por serem garotas de dezesseis anos. É por serem garotas de dezesseis anos diferentes. Magras demais, gordas demais, morenas demais, brancas demais, olhos grandes demais, lábios e maçãs do rosto grandes demais, pés pequenos demais, roupas curtas demais, roupas longas demais, muitas cores, poucas cores; chamam atenção demais ou chamam atenção de menos. Não são iguais. Talvez, se eu fosse igual, nada disso teria acontecido.

Nesse caso, nessa carta e nessa história, eu era botada de lado por ser magra demais, alta demais, autossuficiente demais, calada demais, usava preto demais. E, mesmo que boa parte do Conselho Estudantil continuasse espalhando cartazes sobre socializar, fazer novos amigos e deixar o ego de lado para fazer outro feliz, tanto vocês como eu, sabemos que adolescentes podem ser bem cruéis quando querem. A pior raça, lembram? Adolescente é a pior e a melhor raça ao mesmo tempo. Por que a melhor? Porque somos explosivos, projetos gritantes de adultos calados, lutamos até o fim pelo o que achamos certo, mesmo que o certo, às vezes, esteja errado. Somos a melhor por não aceitarmos um simples “é assim e pronto.” Questionamos. Por que é assim? Por que tem que ser preto no branco, e não vermelho no rosa? Roxo no amarelo? Levamos a crítica a outro patamar, damos a visão para quem esteve cego por muito tempo. Mas, ao mesmo tempo em que construímos um prédio, demolimos outro. E esse outro, algum dia, já foi importante para alguém.

E, por que a pior? Porque somos adolescentes. Crianças mais altas e com um pinguinho de maturidade. Porque, apesar de tudo, julgamos; somos os donos da verdade, os donos do próprio mundo e ai de quem quiser mudar isso. Se em casa mandam em mim, mandarei em alguém em outro lugar. Não aceitamos um “não” como resposta, mas, sim, um “talvez”, “quem sabe”, “algum dia”, “vou pensar no assunto”. Estou generalizando sim! Até o mais sensato e mais maduro dos adolescentes comete deslizes, erros. Não somos perfeitos. Ninguém é perfeito, mas todo imperfeito corrige as imperfeições algum dia; nós não. Esperamos até o último segundo para arrumar algo, botar o que está errado no lugar, aparar os fios rebeldes, corrigir os erros. E, muitas vezes, certos erros não podem ser mais corrigidos.

Muitas vezes me perguntei como pessoas podem ser tão más, e como todos reagiriam se eu não voltasse a respirar e começasse a morar seis palmos abaixo da terra. Ao mesmo tempo, queria ver, queria presenciar e saber se todos se importavam, se iriam chorar, gritar ou questionar. O suicídio sempre foi uma opção, por que não seria agora? Por que eu deveria evitá-lo, sendo que todos me mandam fazê-lo? Sim, é verdade, não é só porque me mandam que sou obrigada a fazer. Eu sei. Mas, é uma possibilidade, não é?

Lembro-me de participar de um debate na aula de Filosofia e, mesmo sendo ignorada diversas vezes pelo professor, fui ouvida pelas paredes. Estávamos falando sobre o bullying, e subitamente todos abaixaram a cabeça e pareceram engolir a própria alma. É engraçado o modo como que os agressores colocam o rabo entre as pernas sempre o assunto é algo que praticam, ou que já viram praticar. Fiz questão de observar uma por uma, um por um. O quão ruim seria se abrissem a boca? Se eu abrisse a boca?

Nunca abri.

Falar abertamente sobre o que acontecia comigo nos vestiários e corredores colocaria meu próprio pescoço dentro de uma apertada corda: ataques mais intensos, insultos mais pesados, perseguições mais duradouras. Perdi a conta das vezes que Evan, o capitão do time de Lacrosse sussurrou em meu ouvido que iria me matar se contasse a alguém todas as vezes que deslizava as mãos por minhas pernas e saia, ou faria pior se dissesse para seu técnico. Então, fico calada. Sempre fiquei. Tive medo.

Leitor, você tem certeza que está acomodado? Chá? Coca? Café? Qual bebida escolheu para ler essa carta?

Você me odeia também?

O suicídio é uma válvula de escape. O significado no dicionário é um ato ou efeito de suicidar-se; desgraça ou ruína causada por ação do próprio indivíduo, ou por falta de discernimento, de previdência. Ou como eu prefiro dizer, um modo de gritar em silêncio e deixar claro para todos ao seu redor que, não, você não estava bem só porque os cumprimentava de manhã ou sorria uma hora ou outra, e não, isso não significa que um “tudo vai ficar bem, relaxe!” pode fazê-lo mudar de ideia da noite para o dia. O suicídio não é apenas uma válvula de escape, como também é um tabu, um drama e uma lâmina invisível que todos nós temos dentro do corpo, basta apenas um deslize para essa lâmina começar a ferir de dentro para fora, começando na mente, e parando no coração.

“Ruína causada por ação do próprio indivíduo.”, que mentira! Todo suicídio tem um motivo, e todo motivo tem um indivíduo. Adolescentes e adultos se matam, muitas vezes, porque as pessoas ao seu redor foram tão podres com suas palavras que os feriram, os rasgaram de dentro para fora e não se importaram com isso. Então, por que a culpa é jogada apenas para quem realizou o ato? E os outros elementos? E as outras pessoas? E os por quês? É, tudo bem, entendo que a frase se refere a aquele que puxou a lâmina contra o pescoço, mergulhou em um tsunami de pílulas, cortou os pulsos e braços como quem corta tecido para vestidos, chutou a cadeira de apoio com uma corda amarrada no pescoço, e qualquer outra maneira de se matar que você pode inserir aqui... Enfim, você entendeu o que quero dizer?

Bem, quero tentar dizer que: não é justo culpar apenas o morto. Aliás, ele (a) está morto (a), do que adianta culpá-lo agora? É apenas um corpo apodrecendo a sete palmos da terra. Algo ou alguém o levou até tal decisão, e esse algo ou alguém deve ser culpado igualmente. Eu sei, é difícil querer pedir e clamar justiça em pleno século XXI, e é difícil escutar os gritos de uma garota silenciada a muito tempo como eu.

⛤⛤⛤⛤

No primeiro ano, fiz minha primeira redação. Éramos apenas crianças, então a professora May não se importou muito em pensar num tema muito elaborado, era obrigatório relevar situações da época e ter um personagem principal. Dissertativo ou crônica, narrativa ou fábula. Trabalhei em meu projeto mais do que trabalhei na floricultura de meus pais, e olha que passava boa parte do tempo lá, no caixa ou na entrada, distribuindo tulipas de papel feitas por meu primo mais novo. O dia da apresentação chegou rápido e professora May deixou claro que deveríamos ler a redação em voz alta, em cima de um palquinho de madeira improvisado e com elementos que representassem o texto (roupas, utensílios, vídeos, fotos...). Foi por ordem alfabética, e eu fui a última. A maioria dos trabalhos eram fábulas sobre animais de fazenda falantes que decidiam fazer protestos sobre a violência, e narrativas com meninos e meninas que corriam atrás de seu sonho. Talvez, se eu escrevesse sobre um cavalo falante e revoltado, tudo teria sido diferente. Um diferente que mudaria minha vida. Mas, não foi bem assim que aconteceu.

Comecei a ler minha redação dissertativa um tanto nervosa, e na medida em que o tempo ia passando, meus ombros ficavam mais leves e minha voz saía com facilidade. Sentia-me flutuando ao redor de nuvens, como se todos meus órgãos fossem substituídos por pedaços relativos de algodão. Era sobre feminismo, sobre, na minha escola, garotas não poderem jogar futebol com garotos por serem simples garotas; sobre ter apenas mulheres contratadas para limparem aquele edifício gigantesco, no meu ano, havia duas professoras competentes e profissionais (professora May e uma rabugenta de matemática). Não deixei nem um pontinho sequer passar: fui do A ao Z, das discriminações por roupa curta aos xingamentos nos corredores, e finalizei com um parágrafo inteiro sobre metade das meninas do colégio quererem formar um time de futebol, mas serem censuradas pelos treinadores por terem um corpo “frágil demais”. Acontece que a direção do colégio decidiu levar o que escrevi a sério e desde aquele dia os garotos foram obrigados a incluírem garotas em seus times, e isso incluía na Educação Física. Duas horas depois da apresentação, minha turma me colocou dentro de uma lata de lixo e disse, aos berros, que direitos iguais é coisa para adultos, e para eu manter a boca fechada, se não iriam fazer algo pior. Na semana seguinte, quando May entregou as redações com as notas, as garotas que sentavam ao meu lado lançaram minha folha como um foguete para dentro de um emaranhado confuso de chamas, para dentro de um fósforo pequeno e, ao mesmo tempo mortal. Chorei o resto do mês seguinte. Apelidaram-me de Vagabunda dos Olhos Castanhos, e jogaram café nos meus livros de Harry Potter. Adolescentes podem ser mais cruéis que alguns criminosos.

Mas essa não foi a pior parte, relaxe! Quando a professora May passou minha redação para a direção e os professores de Educação Física decidiram mesclar o time feminino com o masculino, o pequeno floco evoluiu para uma gigantesca bola de neve, e eu estava bem no centro dela. Os garotos pareciam tão irritados com o fato de terem meninas no time que feras descontroláveis em um safári eram uma opção melhor para mim; o futebol passou a ser queimada, e eu era a única que parecia estar participando no time que não tinha direito a retrucar, apenas a receber.

Não fui à escola por quatro semanas. Estava com medo. Com medo das pessoas que sentavam ao meu lado por mais de um ano.

Todos os dias, uma garota de dezesseis anos é sequestrada. Enquanto você está lendo minha carta, alguém pode estar em perigo, ou pior, uma garota de dezesseis anos, nesse exato momento e em qualquer lugar do mundo, pode estar sendo sequestrada. E morta. É algo bem cruel de se escrever (dizer?), e totalmente verdadeiramente errado; quer dizer, não posso ter a total certeza de que é verdade, a única certeza que temos na vida é da morte, e a minha está mais próxima do que imaginei. Existem 6,1 bilhões de pessoas na terra, segundo a ONU, nesses 6,1 bilhões de pessoas, quantas adolescentes de dezesseis anos estão sendo sequestradas? Estupradas? Assassinadas? Tudo isso por serem garotas, e em pleno século XXI, elas ainda são ignoradas, passam nos noticiários uma vez ou outra, depois viram um grande motivo para curtir fotos no Facebook e mudarem a capa, aí se esquecem do que aconteceu e voltam a tomar o chá da tarde com uma nova garota para atualizarem a rede social. Estou sendo pessimista, generalizando demais? Você ainda tem chances de rasgar a carta e jogá-la no lixo.

Talvez, se eu apenas tivesse colocado as compras no porta-malas e ido para casa direto, poderia ter adiado tudo isso. Tudo. Demorei longos minutos para descarregar o carrinho, estava admirada demais com o céu: as estrelas pareciam marshmallows gigantescos e brilhavam como nunca. Os postes de luz elétrica nem eram necessários, a Lua já fazia o trabalho de iluminar tudo ao nosso redor, até mesmo os carros. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas não queria parar de olhar, de admirar. É como aqueles momentos que só ocorrem uma vez na vida, e se você não parar só um pouquinho, pode perdê-lo para sempre.

Foi nesse momento que ele chegou.

Não foi por panos tóxicos no rosto, nocautes com pequenos intervalos no blecaute ou ameaçar. Veio devagar, de mansinho e com um sorriso gigantesco no rosto. De cara, tinha certeza que era um calouro da faculdade local e que só estava na procura de informações, ou de uma vaga livre no estacionamento. Ele puxou o gatilho de uma metralhadora de perguntas, alternando de meu nome à qual a melhor atração da cidade, ou o mais barato restaurante. E eu respondi todas. Respondi todas sorrindo. Estava feliz. A única pessoa que mantinha uma conversa comigo por mais de dez minutos sem me insultar ou fazer brincadeiras sem graça eram meus pais e avô, apesar dele sempre perguntar meu nome sempre que o visitamos, e de quem era filha. Então, qual era o sentido de jogar fora uma oportunidade dessas? Jogar fora um amigo? E, para quem não tem nenhum, qualquer pessoa se torna seu amigo. Qualquer uma.

Suas perguntas pararam em um convite que aceitei sem pensar duas vezes. Quando abri os olhos, estávamos indo em direção a sua caminhonete, que ele deixou claro estar estacionada dentro de um bosque próximo, já que não havia tantas vagas na parte lateral do Happy Meal— havia sim, e muitas. Eu sei, eu sei... Fui estúpida. A pior parte é que estava ciente da estupidez, mesmo assim não parei um segundo se quer. Continuamos com os passos pesados por cima de galhos filhos e folhas murchas, um silêncio que nunca presenciei, apenas na biblioteca do colégio, e nem lá era tão calmo assim. Diferente do verão passado, não conseguia escutar nada, nem mesmo um esquilo, coelho, urso... Nada.

Ah, é, verdade. Havia barulhos sim, muitos deles. Todos dentro da minha cabeça.

Enquanto o mundo estava em um agonizante e perpétuo silêncio, minha mente gritava insultos por eu estar sendo tão ingênua e tão estúpida ao ponto de entrar em um bosque às nove da noite junto com um calouro que nunca vi nesse lado da cidade, e eu conhecia todo mundo desse lado da cidade. Castigando-me sem piedade, minha eu interior jogava conselhos no ar apenas na esperança de que eu os pegasse, mas não o fiz. Os deixei flutuando no breu, inalcançáveis. Essa era uma oportunidade que não estava pronta para desperdiçar, fazer um amigo era uma oportunidade que nunca desperdicei.

Mesmo depois de andar até sentir meus pés calejarem aos poucos e serem sufocados dentro do tênis apertado, ouvi minha mãe gritar um estridente e desesperado “Willow, cadê você?!” Ela gritou tão alto que um dos berros rasgou ao meio, sendo interrompido por uma série de tosses roucas e fracas. Parei a caminhada na hora e ameacei a voltar, pronta para iniciar uma corrida exasperada na direção do estacionamento e ajudá-la no que quer que precisasse... Mas, meus pés não se moviam. Minha boca não abria, meus braços não respondiam aos meus comandos e meus olhos não paravam de lacrimejar: ele me segurava contra uma árvore, forçando tanto meu corpo para trás que senti o tronco triscar em minha nuca envergada; os dedos grossos e ásperos dele roçavam em meu queixo e subiam até atrás da orelha, analisando todo meu rosto com uma fera pronta para o abate, e eu era a presa. Seu palmo estava suado e melecava minhas bochechas, tinha cheiro de tabaco. Um tabaco horrível.

E então gritei. Gritei até meus olhos saltarem para fora e meus pulmões entrarem em combustão, reduzindo a vida dentro de mim a pó. E, sério, por uma fração de segundos, pensei que ia morrer. Que jeito estúpido de morrer, não é? Sequestrada no meio de uma floresta a menos de seis metros da minha família inteirinha, esmagada numa árvore que tinha a minha finura. Descabelada e de pijamas. É, um jeito estúpido de morrer.

Os lábios rachados e maltratados pelo tempo deslizaram até próximo ao meu rosto e todos meus nervos se contorceram, com o suor brotando do topo de minha testa e escorrendo até o queixo. Ele me segurou pelos ombros e sorriu novamente, apertando o tronco e minha cintura. Seu toque era tão forte e bruto que eu tinha certeza que iria morrer antes mesmo de fazer o que planejava. Rápido e eficaz, seu sussurro me penetrou como uma lâmina e deixou uma ferida semelhante.

“Você não é tão bonitinha quanto pensei... Mas dá para o gasto.”

⛤⛤⛤⛤

Não sei para onde me levaram, e também não sei como esta carta chegou a você. Tudo em minha vida parece ser um enorme e simétrico borrão de tinta preta, manchando boa parte das linhas e da história, reduzindo minha memória a um buraco fundo de fragmentos confusos.

Você ainda se lembra dos primeiros parágrafos da carta? Onde deixei claro como contava os dias, e que tipo de gororoba era alimentada? Pois bem, foi nesse esquema por muito tempo... Até que, do dia para noite (ou foi da noite para o dia?), uma mão esquelética, flácida e recoberta pelos mais refinados anéis apareceu na fresta mal iluminada daquele cômodo de madeira, e essa mesma mão passou a me alimentar todos os dias. A mão transformou-se em um braço, e o braço em um corpo. Ela era alta e tinha o rosto esticado como plástico sobre comida embalada à vácuo, a pele escura como café e os olhos feitos enormes pérolas verdes, tão inexpressivos e vazios quanto o vestido rubro que usava todos os dias. Seu cheiro era agridoce, um misto de chiclete de morango com limão estragado. Por dias tentei decifrar seu nome, ou arrancar uma pista do que iriam fazer comigo... Mas, além do rosto esticado, ele era impassível, intransmissível e, acima de tudo, cruel.

Depois de dias implorando, ela me disse para chamá-la de Miss D., e nada além. Sua função era “me preparar”, para o que, você se pergunta? Bem, fiquei com tal dúvida por muito, muito tempo. Me alimentava com arroz e carne branca em um horário específico, que não consegui decifrar, ou era às 15:40, ou 13:50; não estava sozinha, já que a escutava conversar em outra língua com pessoas no cômodo ao lado. Sua voz era como ferro raspando em ferro, grossa e rouca, e sempre trazia dos mais divergentes e confusos assuntos, desde o capitalismo ao seu filho mais velho que cursava medicina em Harvard. Miss D. evitava entrar de cabeça e cegamente no cômodo abarrotado de feno e de ácaro que estive por anos, limitando-se no batente da porta e apoiando um banco preto precário entre uma parede e outra, aonde se sentava como uma rainha, de pernas cruzadas e dedos entrelaçados por cima do joelho. Ela era uma ótima companhia, não devo mentir sobre isso, mas seus gritos de reprovação quando eu estava fraca demais para levantar do colchão improvisado e comer pela segunda vez no dia me assustavam. Ah! Também houve o dia em que me lançou uma faca sem ponta no ombro, o corte não foi profundo ou sangrento demais, pareceu uma picada de abelha (o pouco que me lembrava de como uma picada de abelha era, pelo menos), ela se desculpou logo em seguida, me trazendo um farrapo amarelado para limpar a sujeira minutos depois. Sua idade sempre foi um mistério, mas beirava na casa dos cinquenta e setenta. A pele cheia de plástica era mais enganosa do que produtos chineses atuais dos desenhos animados.

Sim, leitor, eu sabia o que ia acontecer. Sempre soube. Poucas pessoas sequestravam garotas da minha idade por anos para fazê-las de enfeite ou de estimação, confesso que esperei um destino mais cruel, como ser enviada para Turquia e feita de objeto sexual para homens de idade, ou negociada com minha família, que apesar de não ter muito dinheiro, venderia a floricultura para me ter de volta. O motivo? Não sei.

A morte foi minha aliada por muito tempo. Desde meus parágrafos melancólicos de suicídio, aos meus relatos horríveis da adolescência e infância. O que? Pensou que seria mais uma história de uma garota que cometeu suicídio pela sociedade ser cruel? Que essa era mais uma carta de despedida? Ah, a última parte está certa. Não, eu não cometi suicídio. Não tive coragem para isso. Sempre fui covarde, e não mudaria tão cedo. A vontade de me juntar ao mundo dos mortos (seja no Paraíso, ou no-outro-lado-que-você-sabe-qual-é), de desistir, de gritar tão alto que meus pulmões virem nada além de um emaranhado confuso, de chorar até os olhos derreterem, de mandar todo mundo para a casa do caralho, de perguntar “por que eu?!”, não é recente.

Ser sequestrada nunca passou pela minha cabeça, até porque, para mim, isso acontecia apenas em filmes e com as garotas mais estúpidas, estúpidas o suficiente para serem gentis demais com um estranho e adentrar em um bosque escuro no meio da noite. Estúpida. No primeiro ano, eu ainda tinha esperanças de ser encontrada, mas não durou muito tempo. O segundo ano veio rápido, e os pelos grandes debaixo de meu braço e nas pernas só faziam o mau cheiro crescer, um cheiro nauseante e terrível. Sabia que ia morrer. Como disse, ninguém sequestrava garotas para mantê-las no porão e alimentá-las diariamente. Eu estava sendo preparada. Preparada para a morte. E, caso esteja se perguntando o motivo desta carta, o motivo é esse. O motivo é minha morte. E estou apavorada. Nunca senti tanto medo quanto sinto agora, então, perdoe a página molhada, o choro veio do nada e não consegui contê-lo, do mesmo jeito que não contive muita coisa, porque sou fraca.

Eu vou morrer e a culpa é toda minha. Vou morrer nas mãos de pessoas que não conheço, e vou morrer aterrorizada com a ideia de morrer. É, escrevi essa carta porque sabia que iria morrer, que meus dias estavam contados.

Estava certa. Enquanto escrevia o trecho passado, Miss D. apareceu na fresta de novo, com um saco de plástico grande e uma garrafa esquisita. Me tremi toda.

Isso não é apenas uma carta; isso é um aviso em forma de papel, é um grito, é um “aguente firme, as coisas nem sempre estão tão ruins assim”; é um tapa na cara pra acordar pra vida e olhar para outros lugares além de seu próprio umbigo e, principalmente, é um pedido de amizade recusado daqueles que sentem (ou já sentiram) toda essa dor que já senti. Portanto, esse é meu adeus. Adeus!

Que sua vida seja repleta de felicidade e momentos incríveis.

Obrigada por me ler, me ouvir. Você fez algo que me salvaria a alguns anos atrás, e não estou sendo sarcástica ou irônica... Realmente, obrigada.

Atenciosamente, Willow Mounbatten, a garota morta.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!