Will-o'-the-wisp
1 Rotten Fruit
É só mais uma daquelas noites sombrias em que o negro céu que se esparrama por sobre a metrópole como um grande telhado fuliginoso parece tentar pacientemente engolir o topo dos edifícios que contra ele se erguem. As monumentais construções que moldam a cidade como a conhecemos se tornam verdadeiros palacetes da imaginação soturna num dado momento da noite em que tudo parece não passar de corpos mortos que aguardam pacientemente pelo nascer do Sol, que lhes dá mais um dia de vida antes que o mesmo ciclo se repita. Trafego pelas ruas de farol aceso e velocidade reduzida ao som das Gnossiennes de Satie, que nunca antes me pareceram tão sombrias como naquela noite em especial. Já à altura do bosque, toda aquela história que recheava os jornais e noticiários de TV e que me roubara o sono já havia cinco noites me acudia à cabeça. Em meio aos altos e lúgubres pinheiros, o cadáver de uma jovem pendia suspenso por uma corda atada a um galho. Uma verdadeira strange fruit, de abdômen violado do qual pendiam as vísceras que com não muito esforço alcançavam as folhas secas no solo e se emaranhavam entre as tais, regando as vegetações rasteiras com o rubro elixir que outrora animou os músculos e deu cor às faces daquela musa de mármore. Não me lembro muito da noite em que a encontrei, mas eu poderia dizer com toda a convicção que a jovem enforcada e molestada continua suspensa em meus pensamentos. Seu lento valsar no ritmo da brisa que trespassa os pinheiros é o pêndulo que contabiliza os segundos de minha insônia.
Não muito tempo depois, já estou a adentrar minha morada. A última dose de meu whisky é o golpe que preciso para pregar – ou tentar – meus olhos enquanto o amanhecer se aproxima, e também o fim de meu tormento. Não é mais a imagem da jovem brutalmente assassinada que toma a minha mente, mas o palco do abominável ato. Caminho lentamente por entre os robustos e sombrios pinheiros que se erguem no denso bosque, mergulhando meus pés nas cavidades do solo forradas pelas folhas e galhos secos. Longe, em algum lugar por entre os espessos troncos, um brilho vago e esverdeado conduz o meu caminho. Pisca oscilando como uma estrela na terra. Dir-se-ia ser este brilho causado pelo reluzir do farol de algum veículo qualquer, mas à medida que eu me aproximava, mais viva a chama esverdeada se tornava até por fim moldar-se na casta silhueta de uma bela jovem. Nua e com os cabelos dourados a cobrirem-lhe os seios, a bela moça aproxima-se a passos lentos, massageando a cada passo o solo frio com seus brancos pés descalços. Com as curvas de seu corpo virginal realçadas pela combinação da mística luz e sombras por ela produzidas, a princesa imaculada me toma em seus braços, e me lanço nesse intenso contato sem hesitação. Nossos corpos ardendo em desejo se unem gradativa e intensamente. A chama esverdeada toma a cor ardente do amor. Ao fim deste incêndio de almas, o vermelho ainda predomina. De minhas mãos ainda quentes, goteja nas folhas secas o rubro elixir da vida de minha musa impávida, que agora me encara com pálidos olhos azuis e sem vida.
Acordo sobressaltado e ofegante, pressionando freneticamente com as mãos o meu crânio como que para dissipar o turbilhão de pensamentos que ali começava a se formar. Minhas lembranças daquela noite se mesclavam com o terrível pesadelo, e eu ainda me sentia como sendo observado por aqueles pálidos olhos azuis. Vesti o primeiro casaco que encontrei e apanhei as chaves do carro. Antes mesmo de me dar por isso, já estava a estacionar o veículo em frente ao bosque. Saindo do carro, constatei que aquela era uma madrugada mais fria do que de costume e que o casaco de caxemira não era o bastante para reter o calor de meu corpo. Marchei a passos largos e apressados por entre as árvores, aguçando os olhos naquela tremenda escuridão, à procura de qualquer coisa que me lavasse a consciência daquela culpa. Qual não foi a minha surpresa quando vislumbrei, a centenas de metros dali, a silhueta de uma chama esverdeada bem semelhante – se não a mesma – de meus sonhos! O ar me faltou e todo o corpo estremeceu. Já não sentia meus pés, mas era preciso continuar. Deve ter sido a caminhada mais tortuosa de minha vida aquela realizada em noite tão fria e ao som do lúgubre canto das corujas, que em espírito mais se assemelhavam a réquiens.
Trespassando os últimos robustos pilares de madeira que me separavam do local onde encontrei pela primeira vez o cadáver da jovem que roubara meu sono, ao pé da árvore da qual seu corpo outrora pendeu como um pálido e solitário fruto notei logo uma discreta silhueta branca, que ainda mais clara e destacada se tornava à medida que eu me aproximava. O corpo estranho parecia se erguer, com aquilo que seria sua cabeça coberta por longos fios dourados. Pouco a pouco, sua silhueta se tornava familiar. À medida que o corpo estranho se virava até dar a ver as pálidas e apáticas esferas azuis que lhe ornavam as orbes que em outrora foram vívidos olhos. Era sem dúvidas a musa de meus sonhos, ali, diante de mim. Pensei em recuar, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, desfaleci sobre as folhas secas.
Enquanto recobrava aos poucos a consciência, sentia minhas mãos quentes como no sonho que tive havia poucas horas – ou muitas, havia perdido por completo a noção do tempo desde que entrei naquele bosque. Foi com grande esforço que abaixei o rosto para vislumbrar minhas mãos, vagamente iluminadas pela mística chama, sobre as quais um fluído quente e negro escorria antes de se perder em algum lugar no solo. Em poucas apalpadelas, constatei ser este o meu sangue, a escorrer diretamente de meu ventre aberto a ponto de expor minhas entranhas. No meu pescoço, o laço se apertava cada vez mais para me roubar uma última vez os sentidos enquanto a sibilina labareda que reluzia a muitos metros dali aos poucos tinha seu brilho apagado. Brilhou uma última vez, até se esvair junto com a última cintilação de minha vida, fazendo-me pender sobre o robusto pilar de madeira como uma verdadeira fruta podre prestes a cair por terra.
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