Will You Remember?
12 Capítulo 12
Notas iniciais
A noite continuou com mais comida, mais jogos, mais bebida, mais cigarro. Quando Michael percebeu, o cigarro já passava entre as mãos de ambos enquanto trocavam as bebidas e riam de alguma coisa banal. Imaginou que se estivessem em seu apartamento, algum vizinho já teria reclamado do barulho – e nesse momento não deixou de lamentar por saber que o que faziam agora não chegava perto do normal entre Matthew e Helen.
Seja pelo cansaço dos estudos dos dias que passaram ou pelo excesso de bebida, os dois meninos sinalizavam silenciosamente um ao outro que o sono começava a lhes pesar as pálpebras. Com o corpo pesado, Matt pegara o velho colchão puído que ficava apoiado na parede atrás da mesinha com a televisão e arrastou-o com esforço até seu próprio quarto. Michael seguiu-o segurando uma das almofadas ainda fofas do sofá e tentando empurrar o colchão pela outra ponta. Arrumaram desajeitadamente a cama provisória de Mike com um dos cobertores felpudos que Matt tirou de seu guarda-roupa e o loiro deixou-se cair sobre ela.
— Teu quarto fede, Matt – disse sem pudor.
— Não gostou, pode ir pra sala – respondeu com um sorriso torto antes de apagar a luz e se jogar na própria cama. Viu Mike ponderar por algum tempo e interrompeu-o – Ah, qual é?
Michael riu brevemente, mas não conseguia deixar de se sentir apreensivo.
— Tá tão ruim assim? – Ele quebrou o silêncio que começara a nascer no cômodo. Pela luz da rua que entrava pela janela, notou o olhar de Matt voltar-se a si no chão – Cê tá fumando muito mais, sabe?
Ele não lhe respondeu, mas Michael ouviu-o soltar um suspiro longo e pesado. Irritou-se. Sentou-se em seu colchão e ficou encarando o amigo deitado de costas para ele, virado para a janela.
— Meu deus, Matt, fala comigo... – pediu com a voz baixa, quase um sussurro. Uma angústia tomava-o por completo por não conseguir entender o amigo – Até a Leslie você procurou antes de mim quando sua mãe... – sua voz pareceu sumir antes que pudesse ficar irritado com a aparente injustiça que sofrera.
O quarto ficou em silêncio, só o barulho do vento batendo as janelas.
— Desculpa – Matt finalmente se pronunciou, ainda de costas para o amigo – Obrigado por se preocupar – continuou com a voz impassível – Mas tô com sono, Mike.
Michael observou a sombra que era as costas do amigo deitado por alguns segundos. Desculpou-se em um sussurro quase inaudível e cobriu-se até a cabeça.
Acordou com uma movimentação pelo quarto. Lentamente tirou o cobertor grosso que lhe escondia a face e viu Matt atravessando o quarto. Olhou pela janela e estava igualmente escuro, talvez não se passara nem 2h desde que deitaram. Sentou-se o observou o amigo sair pela porta do cômodo; curioso, levantou-se e foi atrás. Matt parecia inquieto, sua respiração estava pesada. Michael chamou-lhe, completamente confuso. E então Matt virou-se para ele com a expressão de mais puro horror no rosto, algo que ele nunca imaginara ver naqueles olhos verdes que sempre transpareciam serenidade – seu rosto contorcido numa mistura de ira e terror.
— E aí, cara? Qual é? – Perguntou assustado.
E então o ruivo atirou-se em direção ao pescoço de Mike com uma força que ele desconhecia. Enquanto o prensava contra a parede apertando-lhe a garganta com uma das mãos, Matt começou a desferir golpes com a outra. Michael continuou sem entender por alguns segundos, apenas tentando respirar, se proteger e gritar pelo nome do amigo. Depois de não obter resposta alguma, o loiro decidiu revidar e o derrubou no chão. Quando se deu conta, estava tentando manter Matt imobilizado; sua própria força quase não sendo o suficiente para mantê-lo no lugar. Continuou chamando-o sem entender absolutamente nada do estava acontecendo e, como se algo saísse do corpo do ruivo, sua expressão mudara completamente e toda a tensão em seu corpo se desfez. Os grandes olhos verdes arregalados olharam em volta, completamente confusos e aterrorizados. Mike soltou-o instantaneamente e sentou-se a seu lado, esperando que ele lhe dissesse algo.
Nada.
Matt apenas levou a mão até o peito, onde seu coração batia mais acelerado do que ele achava ser possível. Novamente ele se via naquele completo pânico em que seu corpo tremia desesperadamente e respirava tudo descompassado. Fechou os olhos com raiva e então olhou para o lado, onde Mike o encarava. Sentiu seus olhos marejarem fora de seu controle quando encontrou os azuis lhe olhando assustados.
Quando menos esperava, via o ruivo chorar inconsolavelmente, o que fez ele mesmo começar a entrar em um estado de pânico por não conseguir fazer e entender nada. Tentou tocá-lo, mas por reflexo ele se afastou. Rosnou baixo e tentou de novo.
— Ei, olha pra mim, Matt – pediu enquanto aproximava sua mão das madeixas ruivas – Sou eu, calma – começou a lhe afagar quando notou que ele tentou erguer os olhos avermelhados, claramente lutando pra se acalmar.
“Eu não sei o que tá acontecendo” – Matt tentou dizer entre solucinhos assustados de criança que fez Michael começar a rir; ouvir o riso do amigo de alguma forma o confortou e aos poucos ele foi se recompondo.
Finalmente a respiração inquieta do choro cessara e ele começou a esfregar os olhos tentando afastar aquilo dali logo de uma vez.
— O que aconteceu? – Matt enfim perguntou.
— Olha, eu que te pergunto. Qual teu problema? Desde quando tem esse costume de sair atacando os outros assim do nada, hein?
Michael demonstrava irritação. Como ele pode fazer uma coisa dessas e simplesmente esquecer?— Pensou, puto. Mas depois de observar o amigo sentar-se encolhido e tremendo à sua frente, ele largou um suspiro longo e tentou explicar calmamente a cena que acabara de acontecer, como o rosto dele parecia de uma pessoa completamente diferente. Então Matt olhou as marcas que deixara na pele clara do amigo e passou a não conseguir encara-lo mais, enquanto contava-lhe sobre os casos passados, em como achava que a maioria deles eram só pesadelos que ele esquecia.
— Lembro de sonhar que tinha algo aqui – disse com a voz fraca, a cabeça abaixada por vergonha – e aí ouvi algo atrás de mim e era aquilo. E se eu não atacasse, ele ia... – finalmente ergueu os olhos ainda molhados em direção ao amigo – Desculpa...
— Podia ter avisado antes que cê tava ficando louco pra eu já me preparar – riu – Relaxa. Quantas vezes a gente não saiu na mão? Isso aqui né nada, não – disse sorrindo e apontando para o novo roxo em seu rosto.
Mas Matt ainda evitava olha-lo. Sentia muita vergonha do que acontecera e do estado em que o vira. Só de recordar os minutos passados, seu rosto queimava e ele se escondia mais entre os braços. Sentia vergonha, raiva, culpa.
Então todo seu drama interno foi interrompido:
— E daí, cê é sonâmbulo ou qualquer coisa assim, foda-se, para de se torturar agora – levantou-se e estendeu a mão – Vamos voltar pro quarto, vai. Tá frio aqui.
Aceitou a ajuda e se levantou – as pernas ainda ligeiramente trêmulas. Queria saber quantos surtos desse ele teria antes de aprender a controlar o próprio corpo.
Merda— sussurrou num pensamento alto.
Sentaram-se ambos no colchão de Michael, apoiando as costas na cama. O loiro reparou as sombras que eram projetadas pela janela e apressou-se a fechá-la – temeu que se o amigo pegasse novamente no sono, aquilo pudesse agir como agente ativador de algo semelhante. Matt percebeu sua intenção e não deixou de abrir um largo sorriso e agradece-lo em voz baixa.
— O que mais anda acontecendo que eu não sei, Matt? – Perguntou assim que largou seu corpo ao lado do amigo.
Sentiu seu peito apertar quando pensou na resposta e hesitou em responder. Ah— pensou – Já chegamos até aqui mesmo... tanto faz.
— Eu acho que o Neil piorou, também – disse com a voz distante – Mas não vejo ele há umas duas semanas, então não sei.
— O que te impede de ir ver?
— Medo...— sussurrou baixinho de uma forma triste. E antes que o amigo pudesse formar uma frase para lhe responder, continuou – Acho que eu não vou aguentar entrar mais uma vez num hospital pra receber notícia ruim, sabe?
— Matt...
— Tenho sonhos com os dias depois do acidente até hoje – revelou rapidamente; e Michael logo entendeu – Não quero aquela angústia toda de novo...
— Eu sei... – fez uma curta pausa, como se estivesse revivendo aquilo – E lá você foi toda a minha força, Matt, apesar de tudo... – ouviu o ruivo soltar um riso triste – Então me deixa tentar retribuir agora, tá? Para de esconder toda merda que acontece, isso me deixa puto. Se você quiser ficar chorando feito criança, porra, fica, mas me chama porque quando eu chamava, você sempre ia.
Matthew riu e agradeceu – a voz tremida com um chorinho que ele engolia.
— E deve ser por isso que cê anda tendo esses pesadelos todos aí – concluiu entre bocejos, a voz cada vez mais lenta pelo cansaço.
— Vai dormir, Mike – pediu já puxando o cobertor para o amigo se aninhar – Não vai rolar de novo, então pode ir.
Sem ter muito como contra argumentar, Michael enfiou-se sob as cobertas rapidamente e chutou o ruivo que continuava sentado em seu colchão.
— Vai ficar aí mesmo?
— Vou – respondeu com tom divertido – Mas só uma coisa... – levantou e se apressou a fechar a porta; voltou a sentar-se no mesmo lugar de antes, enfiando as pernas sob as cobertas de Michael – Se eu conseguir dormir, melhor não ter nenhuma sombra que me faça aquilo de novo, né – riu, mas com medo real.
Ficaram em completo silêncio por minutos que pareciam horas. O quarto estava num completo breu e o barulho incessante do vento batucando as portas e janelas do apartamento ecoava de forma irritante.
— Matt – chamou uma última vez com a voz sonolenta, como se tivesse acordado de súbito por esquecer de falar algo.
— Hum?
— Você é forte pra caralho... Não fica com medo enquanto a gente estiver com você...
— Tá bom, Mike – riu.
Não é esse o problema?— Perguntou mentalmente enquanto jogava a cabeça para trás, apoiando-a na cama.
— Não precisava ter vindo.
— Eu sei. Mas se der merda eu ia ter que sair de casa de novo, então já fico aqui – riu e então percebeu o amigo murchar-se em preocupação, então lhe bateu com o cotovelo enquanto andavam até a casa de Neil – Deixa disso, cara, tá tudo certo lá.
Não respondeu; apertou os punhos dentro dos bolsos do moletom surrado que usava. Michael lhe convencera naquela manhã que devia ver como Neil estava para tentar se acalmar, e então pensar sobre visitar a mãe. Mesmo que entendesse que ele tentava lhe ajudar, Matthew sabia que a ideia de vê-la não resultaria em bem nem a ele, nem a ela. A cada passo que se aproximava da casa dos Collins, seu peito apertava – a sensação sufocante da ansiedade e do medo começava a querer tomar conta de todos os seus sentidos. Pressentimento ruim... — ele repetia mentalmente desde que saíram de sua casa.
Respirou fundo quando se encontrava de frente a porta deles – nesse breve segundo, Michael se apressou e tocou a campainha. Uma mulher de cabelos pretos e curtos os atendeu – pousou o olhar sobre Matthew e o reconheceu; abriu um sorriso doce em direção aos meninos.
— Você é aquele amigo do Neil, né? – Matt assentiu – Entra, ele tá no quarto dele – e então ela sorriu cordialmente para Michael – Chloe Donelly – apresentou-se, sinalizando que entrassem.
Matthew apressou-se às escadas e parou, olhando o amigo – ele apenas acenou que fosse e deixou que Chloe puxasse assunto com ele.
Andou sobre aqueles degraus mais rápido do que sentia estar fazendo e então parou pouco antes do quarto de Neil; a porta estava aberta e o único som que podia ouvir era dos dois conversando no andar de baixo. Respirou fundo e se aproximou lentamente da porta; parou e recostou-se no batente com a imagem que via. Neil dormia calmamente em sua cama com um livro aberto sobre o peito – Matt não deixou de sorrir.
Me preocupei tanto e ele tá aí de boaça— riu, sentindo-se mais tranquilo.
Com um movimento suave sobre a cama para se deitar de lado, Neil acordou com o barulho do livro caindo no chão. Passou a mão no rosto e tentou focalizar sua visão; então viu a imagem do ruivo sorrindo em sua porta e sua expressão não escondeu a surpresa.
— Matt... — ele pareceu se esforçar para sentar – Tá fazendo o que aqui?
O sorriso que ainda se desenhava em seu rosto se desfez; esperava que Neil ficasse feliz em vê-lo e não receber nem um sorrisinho de volta fez com que percebesse que se precipitou segundos atrás.
— Quis te ver... – Respondeu desanimado – Você nunca disse porquê... Fiquei preocupado...
Neil apenas abaixou o olhar para esconder o sorriso triste que lhe traçara os lábios; não tinha muito como responder o amigo agora e um pequeno sentimento de culpa cortou-lhe o peito.
— Posso ir embora, se quiser – avisou, mas ainda sem mover um músculo para fora daquele quarto – Eu só queria ver se você tava bem. – Como não obteve resposta alguma, soltou um pesado suspiro, sem conseguir esconder uma pontada de chateação – Pode me ligar, qualquer coisa. Tô ind—
— Não vai – interrompeu-o, a voz tímida saindo com certa hesitação.
Matt sorriu.
— Posso entrar então?
Respondeu com um aceno positivo e encolheu as pernas sobre a cama, dando espaço para o ruivo sentar – e assim o fez depois de pegar o livro do chão e o colocar no criado mudo. Ficaram em silêncio por um tempo que pareceu durar anos, então Matt interrompeu-o com um pigarro.
— Não vai falar, mesmo?
Depois de enrolar mais uns longos segundos, Neil resolveu falar alguma coisa.
— Mudei de tratamento.
— Ta, e qual o problema? – Perguntou sem entender onde ele queria chegar.
— É químio – respondeu enfim com a voz inexpressiva – Finalmente – continuou, e percebeu que Matt o olhava confuso com a última fala – Quer dizer, demorou, sabe? Tentaram outras coisas e nada deu muito certo. Mas tá tudo bem – apressou-se a afirmar, não querendo o preocupar ainda mais – Eu só não aguento sair muito.
— E você não quis me envolver nisso – concluiu, sua voz distante – Acha que eu não aguento, é? – perguntou por fim tentando demonstrar confiança, mas em sua mente só se reforçava aquele sentimento desesperador.
Neil deu de ombros. Ninguém aguenta, Matt...— Pensou consigo, tentando não demonstrar isso.
— Tsc. Vem aqui – chamou estendendo um braço a ele, que depois de relutar um pouco, aconchegou-se no abraço – Não faz mais isso, fico achando que deu alguma merda.
— Desculpa...
Matt afundou o rosto nas ondas loiras de Neil e respirou fundo, tentando acalmar seu peito que desejava se fundir ao medo.
— Então – chamou-lhe a atenção depois de um breve silêncio, levando uma mão até um dos cachos mais definidos – Isso aqui vai embora?
Neil não conseguiu conter uma risada.
— Por enquanto não, Matt.
Ele fingiu um suspiro de alívio; sentiu-se de fato mais calmo quando viu Neil rir.
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