Will Not Be Easy
15 Amigos
Notas iniciais
Quando a escola já estava com poucos alunos e o corpo de Sandra Carter já havia sido enrolado em um saco preto, Scott e Stiles foram ao encontro do Xerife, que parecia mais cansado que nunca.
— Oi pai – disse Stiles de mansinho – Esses dias tão loucos né.
O homem suspirou, sabendo muito bem o que o filho queria.
— Não sabemos de nada ainda. Isso está ainda pior do que os assassinatos daquele garoto Matt, pelo menos com um tempo conseguimos algum padrão, mas esse nada.
— Não há nada em comum? — insistiu Scott.
— Olha, não era nem para eu estar conversando com vocês sobre isso.
— Qual é pai, aconteceu aqui na escola, estamos curiosos.
— É o mesmo que sempre acontece – disse o Xerife – A mesma marca. Pode ser o símbolo de algum grupo terrorista ou satanista, não sei. Mortes violentas e sangue pra todo lado. A única ligeira diferença é que parece que eles aproveitaram mais dessa vez.
— Como assim?
— É que havia sinais de tortura no corpo dela. Nas outras vezes, eram ferimentos grandes e fatais, que causavam mortes rápidas, mas dessa vez eles quiseram que ela sentisse dor.
Stiles e Scott se entreolharam preocupados. Uma ideia se formulando na cabeça dos dois.
— E as câmeras de segurança? — perguntou Scott – Deve ter alguma coisa.
— Pedimos as gravações, mas se for como da última vez, não haverá nada. Olha, eu sei que vocês querem informações, mas infelizmente eu não as tenho. Vão para a casa e estou falando sério — disse o homem apontando o dedo para seu filho — Vá para casa e não saia de lá. Temos um assassino ou um grupo deles à solta matando gente pela cidade.
Stiles considerou o que foi dito.
— Nada que essa cidade já não tenha visto.
— Stiles – repreendeu o Xerife.
— Tudo bem, nós vamos ficar em casa. Aliás, vamos ficar na casa da Claire.
— Tudo bem, só não saiam de lá.
O homem se despediu dos garotos e seguiu os outros policiais.
— Você acha que eles sabem de nós? Que o plano deles deu errado? — perguntou Scott.
— Explicaria a tortura – disse Stiles a contragosto – Mas como eles saberiam?
— Nós só salvamos a Sandra porque você avisou. Acho que eles perceberam.
Stiles passou a mão pelo rosto, nervoso. O dia só piorava, seu corpo ainda estava dolorido, Sandra morta e havia a possibilidade dos demônios saberem que a marca deles não está em uma certa druidisa.
— Scott, e se eles quiserem tirar essa marca de mim? Dá pra tirar? E se eles quiserem me matar?
— Se eles quiserem te matar, vão ter que passar por nós, por todos nós — disse Scott.
Scott observou o amigo assentir, mesmo ainda preocupado. Ele não deixaria nada acontecer com Stiles.
— Vamos até a Claire, é melhor que hoje todos estejam juntos.
— Como uma festa de pijama.
— Exatamente.
Scott passou o braço pelos ombros do amigo, tentando confortá-lo e saíram andando para a saída. Não deram nem dez passos e Stiles perdeu os sentidos. Seu corpo caindo como se não pesasse nada, sendo segurado rapidamente pelo amigo.
***
Era um quarto escuro, o chão estava sujo, as janelas fechadas e as lâmpadas quebradas. Em um círculo se encontravam dez pessoas.
— Não precisamos nos preocupar. É a garota quem está com a marca. Vi quando ela saiu da sala – disse a mulher loira, abrindo um sorriso malicioso – Devia estar se contorcendo de dor.
— Com certeza, fiz a morte da garota ser longa e bem dolorosa — disse outro, de óculos.
— Ainda acho que foi arriscado usar wolfsbane no garoto McCall – disse o homem de meia idade — Não quero adolescentes curiosos nos olhando injetar substâncias em alunos, principalmente um que tem contato com a família Hale.
— A família Hale está em pedaços — disse o de óculos – Um lobisomem e um tio maluco.
— Mas ainda são fortes, lobisomens de nascença, um deles alfa. Não quero comprar briga por enquanto.
— Bem – disse a loira – Acho que já compramos. Um dos amigos do lobisomem McCall me reconheceu do dia do ataque à escola.
— Devemos matá-lo? — perguntou outro ao mais velho.
— Não importa se ele vive ou não, mas não vamos mais atacá-los diretamente por enquanto. O mais importante agora é fortalecer o Tenko.
***
Quando Stiles abriu os olhos ele estava no chão do banheiro. Argh. Já era a segunda vez naquele dia.
— Stiles? Meu Deus, você está bem? — disse Scott ajudando a levantar o garoto.
Stiles então se deu conta de que seu corpo todo estava doendo, como se tivesse uma febre muito forte. Ele grunhiu ao se sentar.
— O que houve? Foi a marca? Está sentindo dor?
— Não, é... É como se... Eu acho que eu vi aquela garota loira demônio com outras pessoas.
— Como assim viu? Eu estava com você esse tempo todo e não vi nada.
— Não foi aqui, quer dizer... Era um cômodo escuro, eu vi várias pessoas por lá, falando sobre nós.
Scott o olhou com as sobrancelhas franzidas, tentando entender o que o amigo estava dizendo.
— Vamos conversar com todos, mas primeiro é bom irmos pra algum canto.
Scott ajudou Stiles a se levantar e o ficou observando.
— Está bem? Consegue andar?
Stiles acenou com a cabeça.
— Bom. Vamos pra casa da Claire. Amanhã nós conversamos, tá bem?
Assim, os garotos foram para a casa da druidisa e passaram a noite lá.
— Eu achava que só o Scott ia vir – comentou o Sr.Roberts.
— Teve um imprevisto – disse Claire – Tem algum problema? Vai faltar espaço para os meus irmãos né?
— Não, não, está tudo bem. Eu liguei para eles e pedi que não viessem logo.
— Quê? E você nem me perguntou nada!
— Desculpa, querida, mas com toda essa violência achei melhor eles não virem logo. Nós combinamos deles virem próxima semana.
Claire fiz um bico com os lábios.
— São só uns dias a mais, o tempo vai passar correndo, você vai ver.
Assim, os amigos foram dormir. Stiles completamente apagado no colchão extra e Scott, preocupado, no sofá da sala.
No dia seguinte, estavam os três mais Lydia, Allison, Isaac e Derek na sala de estar de Claire.
Stiles não conseguia deixar de achar como aquela cena era esquisita. Um bando de adolescentes, um adulto mal humorado, três lobisomens e um cara possuído. Que time eles faziam.
Com o assassinato de Sandra, o colégio novamente havia fechado a escola por segurança.
— Ok, meu pai deve voltar no fim da tarde – disse Claire – Ele está com medo de ficar fora de noite, então vamos aproveitar o tempo. O que você quer falar, Scott?
— Nós temos que nos preparar. Estivemos às cegas por muito tempo, precisamos de informação.
— Que tipo de informação? — perguntou Lydia.
— Quem são esses demônios? De onde vieram esses novatos? O que pretendem fazer agora? Qual o objetivo deles afinal.
— Bem, esses novatos não podem ter aparecido do nada, não é? — falou Allison – A escola deve ter algum registro deles.
— Certo, mas como conseguiremos acesso a esses registros? — perguntou Claire.
— Danny? — disse Stiles.
— Acho que não precisamos hackear o sistema da escola – disse Lydia – Podemos entrar na sala do diretor e bater fotos dos arquivos, sem precisar pedir favores a ninguém ou ter que explicar porque queremos saber dados pessoais dos alunos novatos.
— E como planeja fazer isso? — perguntou Allison.
— Nós só precisamos de um aluno da qual ele goste e confie, que passe segurança de que não vai fazer nada de errado.
Todos olharam para Lydia com expectativa.
— Estou falando de mim.
— O diretor confia em você? — perguntou Allison.
— Ele vive me chamando na sala dele para me convencer a participar de campeonatos acadêmicos e atividades extracurriculares. Sou a pessoa mais inteligente dessa cidade esquisita, do estado também. Ele adora me bajular.
— Então — disse Scott — Você acha que consegue os arquivos.
— Não ficou óbvio, Scott? Mas só depois que liberarem a escola.
— Tudo bem, leve a Allison também, só por precaução.
As duas garotas assentiram.
— O outro assunto é que precisamos descobrir mais sobre esses demônios. Temos que fazer alguma coisa para nos prepararmos.
— Pesquisa. Eu posso fazer isso – disse Stiles.
— Você sabe onde começar?
Stiles olhou em silêncio pro amigo.
— Não, na verdade – Scott rolou os olhos pro amigo – Mas eu posso tentar.
— Como se procura informações sobre demônios? — perguntou Claire.
— Internet, livros antigos e sombrios.
— Você sabe onde achar esses livros?
— A biblioteca — disse Stiles.
— Sério?
— O quê? Tem uma ideia melhor?
Claire se deu por vencida.
— Tudo bem – disse Scott – tente pesquisar como der, vou perguntar ao Deaton também. Eu queria também discutir sobre o que o Stiles viu.
— O que ele viu? — perguntou Derek.
— Às vezes – disse Stiles – Desde que eu recebi a marca, eu apago do nada. Eu meio que vejo coisas, como se fosse um sonho. Às vezes eu me lembro do que vi, outras não.
— Você viu algo de importante?
— Sim. Bem, quer dizer, não é algo crucial nem nada...
— Tá bom, Stiles – interrompeu Scott.
— Certo. Foram mesmo eles que usaram wolfsbane contra Scott para apagá-lo durante a aula, eles estavam preparados para isso. Eu também vi várias pessoas reunidas em um lugar escuro, parecia um quarto. Eu só reconheci uma delas, a garota loira novata na escola, a que atacou a escola dias atrás.
— A que é um demônio? — perguntou Allison.
— Isso. Acho que eles são o grupo que está planejando todos esses ataques.
— O que eles estavam falando? — perguntou Derek.
— Eles acham que a Claire que tem a marca, nesse sentido temos uma vantagem. Não é uma vantagem muito grande, mas temos. Eles também não querem chamar muita atenção, não vão nos atacar diretamente.
— Você acha que se Allison e Lydia conseguirem você consegue identificar quem estava nessa visão? — perguntou Scott.
Stiles pensou na sua visão, foi bem rápida, mas incrivelmente nítida.
— Sim, mas nem todos eram adolescentes, tinham adultos lá também.
— Melhor do que nada. Muito bem, vamos fazer isso. Lydia e Allison vão investigar os novatos, Stiles vai pesquisar mais sobre os demônios, eu vou ficar protegendo Claire e Stiles. Isaac e Derek ficam de olho na cidade, qualquer distúrbio que acontecer vão lá.
Assim, a reunião acabou e todos foram para suas casas, exceto o trio de amigos de infância.
Eles ficaram na sala, Claire e Scott no sofá e Stiles em uma poltrona, assistindo um filme de comédia na TV.
— Não é estranho, ver TV enquanto demônios estão matando e invocando outros demônios? — perguntou Claire com um olhar desinteressado para a TV.
— Bem, nós não temos nenhuma pista de quem eles são, o que querem e o que eles vão fazer – disse Scott – E a escola está fechada, com toque de recolher, nos resta pouco o que fazer.
— Ainda assim, me sinto como se estivesse só esperando eles atacarem novamente.
Scott olhou para a amiga com um olhar preocupado.
— Eu sei que parece isso, mas vai ficar tudo bem. Não vou deixar que nada te aconteça – garantiu o lobisomem, tocando o ombro da amiga.
— Como vocês conseguem ficar tão calmos assim? Nosso plano deu errado, Sandra morreu e não sabemos quando eles vão atacar novamente.
— Não ficamos – comentou Stiles – É tudo fingimento . Na maioria das vezes nem sabemos o que estamos fazendo.
— Bom saber – retrucou Claire.
— Não liga pra ele – falou Scott – Nós vamos passar por isso. Eu prometo.
Claire confiava no seu amigo, de verdade, mas era impossível tirar a sensação de serem presas esperando para serem comidas pelos predadores. Não era uma sensação muito legal.
— Bem, se for para me distrair, vou me distrair com futebol – disse a menina se levantando.
— Sério? – falou Stiles – Futebol? Você não pensa em outra coisa?
Claire olhou meio aborrecida. Mostrou o dedo do meio e subiu para buscar a bola em seu quarto.
Stiles olhou com um sorriso divertido no rosto.
— OK, vocês dois tão estranhos – comentou Scott.
— O que?
— Você e a Claire estão diferentes.
— Como?
— Não sei, é esquisito. Não estão brigando mais como antes.
— Isso não é bom?
— É... mas ainda é estranho.
Claire desceu as escadas e disse que ia treinar um pouco no jardim.
Assim, os garotos ficaram sozinhos na sala.
— Ela me ajudou ontem – disse Stiles, de repente, olhando para longe – Quando eu fiquei com dor. Ela me levou pro banheiro e ficamos lá até passar.
Stiles ficou pensando no relacionamento dele e de Claire. Ainda não podia dizer que eram amigos, mas não eram mais inimigos. Claire o havia confortado com a presença dela ali do seu lado, mostrando que estava ali para o que ele precisasse. Ela era legal quando queria.
— Eu sempre disse que ela era legal – disse Scott com um sorriso divertido naquele maxilar torto – Você que nunca quis acreditar.
— Eu disse em voz alta?
— Uhum.
— De qualquer forma, acho que estamos nos entendendo.
— Espero que vocês se resolvam logo. Adoraria ver os dois amigos.
— Quem sabe um dia, Scotty.
O clima de tensão continuou durante os dois dias seguintes. Não houve nenhum ataque e isso deixava os amigos com os nervos à flor da pele. Stiles não havia conseguido nenhuma informação útil na internet, pelo menos, nada que Hollywood não os havia ensinado. Além, é claro, de John Roberts que teve que lidar com dois adolescentes a mais com pais preocupados ligando para ele.
Na manhã do dia que voltariam às aulas, Claire não conseguiu dormir direito, sonhando com mortes, gritos e lobisomens. Era por isso que não gostava do sobrenatural, a fazia ter pesadelos que a deixava tensa o dia todo. Scott ainda estava dormindo no colchão inflável ao lado de sua cama.
A menina se arrumou e desceu as escadas penteando seu cabelo longo. Mesmo não ligando muito para aparência, ela gostava de cuidar de seus cabelos, deixando-os brilhosos e bem penteados. Talvez o único sinal da sua feminilidade.
Quando entrou na cozinha percebeu Stiles já sentado à mesa. Estava segurando um copo d´água.
— Hum, já está acordado – comentou a menina colocando a escova em cima da mesa de qualquer jeito. Logo foi atrás do cereal no armário.
— Não sou eu com fama de se atrasar.
Claire rolou os olhos. Pegou a caixa do alimento e leite na geladeira.
— Cereal?
— Não, já comi.
— O quê? Água?
— Não estou com fome – disse com a voz baixa.
Claire olhou de novo para o garoto. Estava com os ombros caídos, a cabeça baixa, o olhar perdido, com a aparência desleixada.
Era estranho vê-lo assim. Ele estava sempre cheio de energia, seja para solucionar crimes ou perturbá-la com implicâncias.
Ela colocou a comida em uma tigela e sentou-se ao seu lado.
— Não conseguiu dormir? — disse ao comer uma colherada do cereal.
Stiles deu de ombros.
— Só estou preocupado. Nada aconteceu esses dias.
— É, eu sei. Não teve nenhum outro sonho com eles?
— Se tive, não me lembro.
— Bem, pelo menos os outros estavam de olho na cidade. Talvez eles ficaram intimidados.
— Não acho que seja isso.
Claire sabia que Stiles estava tão preocupado quanto ela, talvez mais, levando em conta que era ele quem estava com uma marca demoníaca. Ela queria de alguma forma acalmá-lo. Nos últimos dias que ele e Scott estiveram em sua casa, ela e Stiles tinham conseguido não se matarem e até ficaram em uma situação levemente amigável. Então esse sentimento de querer ajudá-lo aumentou.
— De qualquer forma, nós temos Scott, um alfa que é nosso aliado, outro lobisomem, uma caçadora e o que quer que seja a Lydia. Nós vamos ficar bem.
— Eu sei que temos proteção, mas o resto de Beacon Hills não tem.
Claire pensou na situação.
— Vocês já estiveram em situações assim antes. E conseguiram passar por ela, não é?
Stiles pendeu a cabeça para o lado, considerando.
— Aparentemente alguém até morreu e ressuscitou.
— Jackson foi mordido, eu sou completamente humano.
— Derek pode te morder.
— Eu não confio muito no cara. Ele ainda me dá medo.
— Ele não pode ser tão ruim assim.
— Ele ameaçou arrancar minha garganta – Stiles se virou para Claire pela primeira vez – Com os dentes.
Claire entortou a boca, tentando não rir. Não sabia porquê, mas imaginar a cena era hilário.
— Não ria de mim!
— Desculpa é que parece ridículo.
— Claire!
— O cara é carrancudo, mas quantas vezes ele salvou você ou Scott. Ele é como o meu pai, assustador por fora, mas uma manteiga derretida por dentro.
— Ele cortou a garganta do próprio tio.
— Que matou a irmã dele, tentou matá-lo, matou uma enfermeira, te sequestrou e atacou várias pessoas.
Stiles fez uma careta, sem ter o que dizer.
— Stiles – ela chamou sua atenção — Vai ficar tudo bem. E se eu, que sou eu, estou dizendo, deve valer de algo.
Stiles deu um sorriso de leve.
— Era isso que eu queria ver – ela disse batendo seu ombro no dele. Ele se virou para a menina.
— Eu sei que você também não está dormindo muito bem. Obrigado.
Claire deu um sorriso.
— Cereal?
— Claro.
Claire se levantou, colocou sua tigela na pia e preparou outra para Stiles.
— Você não devia falar com o chefe do Scott?
— Deaton?
— Sim, ele disse que druidas são mais suscetíveis a ataques sobrenaturais ou coisa do tipo.
— Na verdade, eu falei com ele por telefone. Vou começar esse treinamento amanhã.
— Vai ser bom, vai conseguir se proteger dos demônios.
— É, talvez seja bom eu falar para meus irmãos também. Afinal, eles também são meio druidas também.
— Quando eles chegam?
— Hoje na verdade. O que significa que vocês não vão poder mais ficar aqui.
Stiles deu de ombros.
— Meu pai e Melissa também estão pedindo para nós voltarmos.
Stiles passou a mão pelos cabelos, desgrenhando-os ainda mais.
— Você, ao menos, penteou o cabelo? — perguntou Claire.
— Claro que sim.
— Com os dedos?
— Mais ou menos.
— Deixa eu arrumar isso aqui – disse Claire pegando a escova em cima da mesa e a aproximando dos cabelos do garoto.
— Para – ele disse segurando a mão da menina — Não toque no meu cabelo.
— Tá horrível, vai sair de casa assim?
— Vou sim. Para!
Uma briguinha de mãos se formou. Claire tentando ajeitar os cabelos de Stiles ele impedindo-a, ambos rindo tentando irritar o outro.
— Deixa eu ajeitar!
— Você vai estragar.
— Já está estragado.
— É estilo, nunca ouviu falar?
— Seu estilo é horrível.
— Uau – disse uma terceira voz.
Ambos olharam Scott, que estava com uma expressão surpresa no rosto.
Claire se sentiu estranhamente envergonhada com a reação do amigo. Olhou rápido para Stiles e seus olhares se encontraram, como se estivessem pensando a mesma coisa. Eles logo soltaram as mãos um do outro.
Claire deu um riso sem graça — Eu estava querendo pentear o cabelo dele, tá horrível.
Stiles passou a mão pelos cabelos novamente, mas não disse nada.
— Ceerto – falou Scott ainda confuso – Não percebi que já estavam acordados.
— Acho que vai ser bom chegarmos mais cedo, preciso falar com a Amanda mesmo.
— Certo. Hoje a Lydia vai tentar pegar os registros dos novatos, então talvez saibamos algo sobre eles.
Os outros dois assentiram, estranhamente calados.
O dia na escola passou, surpreendentemente, tranquilo. Aulas normais, chatas, mas normais. Sem assassinatos, desmaios ou intoxicação por wolfsbane. No corredor, olhando atentamente para a sala do diretor estavam duas garotas encostadas nos armários.
— Você acha que vai dar certo? — perguntou Allison.
— Eu já fiquei lá sozinha algumas vezes, ninguém desconfia de mim. O diretor já saiu da sala para almoçar, nós temos que ir.
— Ainda acho uma desculpa muito esfarrapada.
— Tornozelo torcido não é algo tão anormal, Allison, principalmente quando se está de salto.
— Eu nunca vi você andar menos que perfeitamente de salto.
— Eu sei – disse Lydia sorrindo, orgulhosa de si mesma – Maas, um novato estava correndo pelo corredor e acabou esbarrando em mim, me fazendo tropeçar e torcer o tornozelo. Vai dar certo.
— E por que você não foi à enfermaria primeiro?
— Eu fui e já pus gelo, mas está doendo bastante e prefiro ir para casa. Sério Allison, até ensaiei meu andar em casa. Olha.
Lydia saiu andando na frente, aparentemente mancando e com uma expressão convincente de dor.
Allison ainda era um pouco certinha para não ficar nervosa com a mentira.
— Vem, Allison, me ajuda aqui – Lydia a chamou com um olhar de “Vem aqui gora!”.
Allison seguiu a amiga, a contragosto. Fingiu ajudá-la a se apoiar e foram até a sala do diretor.
Sra. Smith, secretário do diretor, olhou inquisidoramente para as meninas. Ela tinha seus 40 anos, cabelos curtos e escuros e um olhar astuto que detectava mentira a quilômetros de distância.
— Oi Sra. Smith. O diretor está? Eu queria falar com ele – disse Lydia em uma fantástica interpretação de garota com o tornozelo dolorido.
— O que houve, minha querida?
— Um novato idiota estava correndo e esbarrou com mim. Torci meu tornozelo, queria ir para casa.
Sra. Smith olhou atentamente para o tornozelo de Lydia, tentando descobrir alguma farsa. Lydia havia passado maquiagem para ficar meio roxo, mas não conseguia fingir inchaço.
A mulher olhou para Lydia, como se estivesse se perguntando se confiava ou não. Mas, obviamente, era de Lydia Martin que ela estava falando, não é mesmo, super gênio da escola.
— Claro, minha querida – ela sorriu para a ruiva – O diretor foi almoçar, mas logo volta. Pode esperar lá dentro.
— Obrigada – ela sorriu e saiu mancando carregando Allison junto, que deu um sorriso não tão convincente para a mulher.
As duas entraram na sala e fecharam a porta.
— Rápido — apressou Allison – Onde fica esses registros.
— Deve estar em um desses armários. O homem é das antigas, gosta de tudo no papel.
Elas abriram as gavetas e procuraram por eles.
— Aqui tem um monte de gente, como vamos saber quem são?
— Ele tem pastas separadas por turmas, vamos pegar de todas as turmas desse ano.*
Elas procuraram apressadas e o mais silenciosas possíveis.
— Aqui, todos estão aqui – disse Allison achando a última pasta que faltava.
— Certo.
Vendo a quantidade de papel, Lydia suspirou, pela primeira vez pensando que essa não foi uma ideia tão boa assim.
— Isso vai levar um tempo.
Então Lydia foi fotografando com seu celular os papeis com dados dos alunos, ignorando, obviamente, os alunos que ela conhecia. Ao final ela fotografou umas 60 pessoas.
— A memória do meu celular agradece se você passar logo essas fotos pro seu celular – disse Lydia entregando o telefone para Stiles, depois de uma atuação digna de Oscar por parte de Lydia e de ter conseguido a permissão para sair mais cedo e tratar seu suposto tornozelo torcido.
— Isso é ótimo, Lydia, obrigado – disse o menino olhando as fotos – Vou enviar agora.
Eles estavam na saída do colégio e Stiles foi se encontrar com as meninas, ansioso demais para esperar Lydia enviar. Stiles se afastou um pouco delas para esconder o que estava fazendo de outros alunos que passavam e talvez pudessem ver os documentos que estava vendo.
— Tem certeza que quer ir? Você adora a aula de matemática avançada — disse Allison.
— Eu já sei toda a matéria mesmo – Lydia deu de ombros – Vou aproveitar e estudar um pouco mais meu mandarim.
— Mandarim? — comentou Allison com um sorriso — Você é popular, mas é uma nerd total.
— Não deixe as pessoas perceberem – ela piscou o olho para a amiga.
— Bem, eu ficaria apreensiva de deixar a escola.
— Não aconteceu nada até agora e não é como se eu faltar metade do período vai causar a morte de alguém.
Um grito foi ouvido pelas meninas que olharam assustadas ao redor. Uma garota corria ansiosa em direção a dois homens que sorriam e abriam os braços.
A menina de cabelos longos se jogou e abraçou forte um deles.
— Aquela é a Claire? — perguntou Lydia.
— Parece que sim – respondeu Allison sorrindo vendo a cena.
Lydia analisou os homens. Altos, fortes e bonitos.
— Quem são eles?
— Acho que são os irmãos da Claire. Scott me contou que eles vieram passar uns dias aqui depois das provas finais na faculdade.
Um deles tinha um sorriso muito bonito.
— Eu quero um.
— Qual? — perguntou Allison sorrindo para a amiga.
— O hétero, óbvio.
Allison, olhou confusa e observou os irmãos novamente. Um deles tinha uma discreta pulseira trançada colorida, e olhava curiosamente os garotos que passavam.
— Só não esquece que eles são irmãos da Claire, não se aproveite demais deles.
— Por favor, Allison, são alunos da faculdade chegando de uma semana cheia de provas. O que eles mais querem é aproveitar.
— Você acha que ele vai querer te pegar? Quero dizer, você ainda está no ensino médio.
— Sou, o quê, dois anos mais nova, talvez? Não temos uma idade muito diferente e Allison – ela olhou para a amiga novamente com o olhar convencido – Todos querem pegar Lydia Martin. Só espere.
As meninas voltaram a observar em silêncio a reunião dos irmãos.
— Aqui, Lydia – Stiles chamou sua atenção — Obrigado. Vou olhar as fotos, se achar algo eu aviso.
O garoto então logo voltou para dentro do prédio.
— É melhor eu voltar também — disse Allison.
— Nos falamos depois – Lydia se despediu da menina e foi para o seu carro.
Um tempo sozinha, estudando mandarim faria bem para ela, com toda maluquice perigosa acontecendo.
Foi dirigindo pelas ruas com uma surpreendente tranquilidade. O dia estava bonito e ensolarado. Lydia gostava de dirigir sozinha pela cidade, era estranhamente terapêutico. Estacionando, desceu do seu carro com vontade de um banho quente antes de estudar.
Só então percebeu que não estava em sua casa.
Havia parado em um posto de gasolina, só que não tinha ninguém por perto.
— Ah não — disse Lydia para si mesma. Já sabia que provavelmente aquela situação envolveria criaturas sobrenaturais.
Olhou para a loja de conveniência ali perto. Estava com as portas de vidro estilhaçadas e ensanguentadas. Andou em direção a elas, contrariando todo instinto de sobrevivência dela. Só sabia que se sentia atraída para aquele local e isso não devia ser bom.
Entrando na loja com cuidado achou o corpo de um dos funcionários no chão, sangue para todo lado.
— Ai meu Deus.
— Lydia!
A menina se assustou com a voz masculina próximo a ela. Ali estava Derek com Isaac ao seu lado, ambos machucados e ofegantes.
— O que está fazendo aqui? – perguntou o mais velho.
— Eu eu não sei, eu tava dirigindo para casa, mas quando eu reparei... estava aqui.
A loja estava completamente destruída, estantes com produtos jogados no chão, vidro por todo lado e uma das lâmpadas pendia quebrada do teto.
— O que aconteceu aqui?
— Um daqueles demônios. Por sorte estávamos por perto.
— Sorte de quem? O cara tá morto!
— Salvamos um – Isaac apontou para outro garoto, meio escondido atrás do balcão. Ele não parecia ser muito mais velho que eles.
— E os demônios?
— Conseguimos acabar com um – disse Derek.
— A mulher simplesmente virou fumaça, igual o Scott disse que aconteceu outra vez.
— Como?
— Cortei a garganta dela – disse Derek.
— Ah.
Lydia ficou olhando para o homem. Ele dizia aquilo com tanta naturalidade.
— Tinha um homem junto dela – falou o loiro – Ruivo, alto. Eu arranhei bem fundo no braço dele. Se virem alguém assim, pode ser esse.
— Bem, ao menos sabemos que essas coisas podem sim ser mortas – disse Lydia, pegando o celular da sua bolsa para comunicar ao resto do grupo – Aconteceu mais alguma coisa?
— Não, só isso mesmo.
— Então chamem a polícia e sumam daqui, eu não vou lidar com esse corpo.
Lydia saiu da loja meio atordoada meio zangada. Ela só queria uma tarde de estudos normal.
..
No colégio, os amigos estavam sentados em uma mesa mais afastada dos outros.
Stiles olhava as fotos no seu celular e anotava no seu caderno aqueles que ele reconhecia. Até aquele momento, só a loira bonitona.
O celular da Allison tocou com uma chamada de Lydia.
— Hum, é a Lydia. Oi, Lydia, esqueceu alguma coisa aqui?
— Teve outro ataque – a voz da ruiva saiu temerosa – Foi em um posto de gasolina.
— Ataque? Quer dizer, agora?
Scott, Claire e Stiles viraram-se para ela, prestando atenção. A caçadora colocou o celular no viva voz.
— Sim, acabei de chegar. Derek e Isaac estavam aqui quando aconteceu. Um cara morreu outro sobreviveu.
— Isso é bom, não é? – disse Claire – Estamos conseguindo salvar as pessoas, mesmo que alguns certo?
— Sim, mas um cara ainda morreu. Derek disse que matou um daqueles demônios, virou fumaça.
— Igual no ataque do colégio- lembrou Scott – Quando vieram atrás da Claire. Eu acertei um e ele virou fumaça.
— Mas nem todos aconteceu isso. Atirei várias flechas em um deles, mas nada aconteceu – disse Allison.
— Enfim, aparentemente outro fugiu. Segundo Isaac ele tem cabelo ruivo, é alto e está com ferimentos no braço. Garras, sabe. Então se virem alguém assim, é um daqueles malditos.
— Ok, Lydia, eu aviso se nós encontrarmos.
— Então eles voltaram – disse Stiles com um suspiro.
— Está sentindo alguma coisa? – perguntou Claire.
— Não muito, só desconfortável.
— Por que você reage tão mal a certos ataques e outros não? – perguntou Allison.
Stiles deu de ombros.
— A marca me faz receber a dor das vítimas. Normalmente eu sinto um desconforto, um pequena dor no corpo. Só fica muito ruim quando são muitas pessoas ao mesmo tempo, ou no caso da Sandra, quando alguém é torturado.
Claire sentiu um arrepio na nuca. Todo o caso de Sandra foi horrível para ela.
— Mas – insistiu Allison – As mortes das vítimas eram violentas, eles com certeza não sentiram só um desconforto no corpo. A marca diminui os efeitos? Por que você não sente a dor total delas?
— Eu não sei, Allison – disse Stiles rispidamente – Não conheço as regras de possessão demoníaca.
O sinal do colégio tocou, anunciando o fim do horário de almoço.
— Bem, eu vou treinar agora – disse Claire amarrando seu cabelo – Me esquecer que o mundo sobrenatural existe.
— E que você faz parte – completou Stiles.
Claire rolou os olhos. Scott e Allison trocaram sorrisos, contentes que, ao menos, aqueles se acertaram. Não brigavam mais como antes e, apesar de as implicâncias continuarem, havia um tom mais amistoso e brincalhão entre eles.
— Bem, eu e Stiles vamos para aula do treinador, a gente se fala mais tarde.
Claire acenou com a cabeça e saiu em direção ao vestiário feminino.
Enquanto andava, vários garotos acenavam para ela, cumprimentando-a. Não por ela ser bonita e alvo de desejo masculino, como era a Lydia, mas por ser amiga de quase todos os garotos do colégio. Claire tinha um jeito meio moleque, ela tinha consciência disso. Não era muito chegada a maquiagem, falava o que vinha na cabeça, era ligeiramente agressiva e driblava muitos caras no futebol.
Ela não desgostava do jeito que ela era, se sentia confortável consigo mesma. Mas não podia negar que gostaria que um garoto olhasse para ela mais como uma menina bonita e menos como a “mana” que ela era.
— Ei Claire – chamou Amanda, tirando-a de seus devaneios adolescentes – Nunca mais tinha visto você.
Amanda passou o braço pelos ombros da amiga.
— É, com todos esses acontecimentos doidos no colégio, fico grudada no Scott e Stiles quase o dia todo. Tenho medo de ficar muito tempo sozinha.
— Te entendo, eu fico com as minhas irmãs o dia todo. Não aguento mais. Eu amo elas, sério, mas ficar ouvindo drama pré-adolescente o dia todo é horrível.
Claire riu com a amiga. Amanda tinha duas irmãs mais novas, gêmeas, de 13 anos. Super patricinhas, mas muito divertidas.
— Você está seguindo o toque de recolher? — Amanda perguntou quando chegaram ao vestiário.
— Você não?
— Eu tô, mas Danny está planejando dar uma festa.
— Ele é louco? Com todos esses assassinatos ele quer dar uma festa?
— Acho que por estar havendo todas essas mortes ele quer dar uma festa. Sabe, pro pessoal se distrair.
— Bem, os dem... os assassinos não vão parar para que a gente possa se distrair.
Amanda deu de ombros.
— Ele disse que está contratando seguranças, e que a festa vai respeitar o toque de recolher.
— Você que ir?
— Seria legal – Amanda começou a trocar suas roupas pelo uniforme – E você sabe como as festas do Danny são legais, tipo, elas são o máximo e...
Claire parou de escutar a amiga. Seu cérebro estranhamente parou na conversa do outro lado do armário.
— Eu não entendo o que tá acontecendo com ele – era a voz de Victoria Hastings – Ele não era assim. Frio, distante, violento.
— Você não faz a menor ideia do que pode ter acontecido?
— Teve um dia que ele chegou muito estranho em casa. Estava machucado e parecia bêbado, não se lembrava do meu nome, mas ele não cheirava a álcool. Acho que desde esse dia ele têm mudado.
— Vic, isso não é normal. Ele está sendo abusivo com você, tem que denunciar.
— Eu sei, mas...
— Claire – Amanda lhe chamou a atenção — Você tá me escutando?
— Sim, claro. A festa...
— Então, eu acho que por isso a gente deve ir. O que você acha?
Sinceramente, Claire não estava em clima para festa. Descobrira que era uma druidisa, seu amigo era um lobisomem, Stiles tinha tomado uma maldição por ela, seus irmãos tinham chegado da faculdade no pior momento possível, aconteciam mortes adoidado pela cidade.
É, Claire não queria ir para essa festa. Mas Amanda a olhava com seus olhos pidões e Amanda tinha ótimos olhos pidões. Claire não tinha passado muito tempo com ela desde que o semestre havia começado e estava com saudades de fazer coisas adolescentes com ela.
— Tudo bem, Amanda – a menina deu um gritinho de vitória – Eu só não sei se o Scott e o Stiles vão gostar disso. É... eles não vão gostar disso.
— Você virou amiga do Stiles agora?
— O que quer dizer? — Claire perguntou meio desconfiada. Muitas pessoas tinham começado a perguntar isso. Seu pai passou um dia inteiro olhando estranho para ela, até perguntar se ela tinha ficado amiga do garoto. Ela não sabia por quê todos estavam tão admirados com a nova dinâmica do trio de amigos.
— É que você tem reclamado menos dele. Você tem andado junto dele, tipo, sem o Scott. E já faz um tempo que eu não sei de uma briga de vocês. Vocês virarão amigos?
— Não, a gente... — Claire ficou sem ter o que dizer. Ela não sabia em que situação eles dois estavam, na realidade. Eles tinham conseguido conviver nos últimos dias na mesma casa e até fazerem brincadeiras um com o outro, mas ela não sabia se eles já eram amigos.
— Quer saber, não importa. Amigos ou não, vocês estão civilizados um com o outro. Isso é um avanço, amadurecimento e tudo mais. Estou orgulhosa de você.
Claire saiu do vestiário para o campo de futebol com uma cara de dúvida estampada no rosto. Aquele dia estava sendo esquisito.
— Muito bem, garotas – a treinadora Ruby chamou a atenção — O primeiro jogo está chegando e nós estamos em desvantagem por ter perdido dois treinos por causa do que está acontecendo na cidade. Claire, Victoria, vocês tiram os times.
Claire ficou de frente para o rosto sardento de Victoria. Veio um sentimento estranho, enquanto a ruiva a encarava com desdém.
Ela não sentia mais tanta raiva pela garota.
Depois de presenciar cenas horríveis e se envolver em um mundo perigoso, sua rivalidade com Victoria não parecia mais tão importante assim. Ela estava enfrentando inimigos que poderiam matar a ela e seus amigos. Aquilo com Victoria era só uma rixa boba.
Uau.
Ela estava amadurecendo.
Então é assim.
As meninas escolheram seus times e foram jogar. A equipe de Claire ficou com as camisas amarelas e a de Victoria com as vermelhas.
No final do jogo, Claire perdeu para Victoria por um pênalti. Claire tinha aceitado não odiar mais Victoria, mas era difícil quando ela fazia piadas e olhava com superioridade para ela.
Alguém chamou a Victoria do outro lado do campo. Era um homem ruivo e alto.
Claire tinha um mal pressentimento sobre ele.
Victoria foi até ele e pela conversa, a menina parecia estar amedrontada. O homem passou sua mão pelo antebraço, para massagear.
Então o cérebro de Claire deu um click.
Aquele era o pai de Victoria, a pessoa de quem ela estava falando com a amiga de ter mudado e virado abusivo e violento. O pai dela era o homem que Isaac tinha arranhado no posto de gasolina.
Ele era um dos demônios.
...
Stiles estava indo em direção a seu jipe. O dia havia sido tenso, de todos os alunos que Lydia batera foto, ele só tinha reconhecido dois. A loira, chamada Emily e um cara, Joshua, que era da turma de espanhol do Scott. Ambos novatos na escola e todo o formulário de matrícula estava correto. Não havia nada legalmente que os ligassem aos assassinatos.
Estava com medo do que viria a seguir. As coisas haviam ficado ruins muito rápido e temia o quanto pior ainda ficaria.
— Stiles – uma voz chamou seu nome.
O garoto se virou e viu Claire correndo a seu encontro. Estava ofegante como se tivesse corrido o colégio inteiro.
— É o pai da Victoria.
— Perdão?
— O cara, o demônio que Isaac feriu é o pai da Victoria.
— Que Victoria?
— Hastings.
— Claire, qual é, eu sei que você tem essa inimizade com ela, mas...
— Eu estou falando sério, não estou inventando – Claire insistiu – Eu vi ele, ruivo e estava massageando o braço.
— Apesar de ser observações pertinentes, eu...
— Eu escutei a Victoria falando dele, ela parecia assustada. Estava dizendo que o pai dela tinha mudado, estava violento, distante. Um dia ele chegou todo machucado e não reconhecia ela. Não pode negar que faz sentido.
— Bem... pode ser...
— Eu não estou sendo tendenciosa, eu sei que é ele, sei do que eu estou falando. Quem é a druidisa aqui, afinal?
— Druidisa sem treinamento, vamos ressaltar.
Claire encarou o garoto, tentando transmitir toda a impaciência dela e insistindo em sua teoria. Stiles aguentou por alguns segundos, mas cedeu.
— Tudo bem, vamos pesquisar o pai da Hastings. Vamos, entre no jipe.
— Cadê o Scott? — perguntou a menina abrindo a parta do banco da frente.
— Foi para a clínica. Aparentemente ele ainda tem um emprego.
— E não pensou em me contar isso? Eu achava que ia de carona com ele.
— Achei que você fosse voltar com seus irmãos.
— Não! De onde tirou essa ideia?
— Eu... não sei.
— Muito inteligente, Stiles. Ia acabar me deixando sozinha no colégio.
— Não foi de propósito — ele ligou a ignição do carro e deu partida – Desculpa, não pensei direito.
Claire ainda queria discutir, afinal, se ela não tivesse corrido pelo colégio atrás dele, ela teria sido deixada na escola, em perigo e sem carona. Mas ele logo se desculpou, algo ainda novo entre eles dois, sempre discutindo e nunca dando o braço a torcer.
Descobriu que estava mais inclinada a perdoar mais rápido também.
Isso a fez lembrar dos momentos estranhos que viveu nos últimos dias.
— Nós somos amigos?
— Como? — a pergunta pegou Stiles de surpresa.
— Somos amigos?
— Quer que sejamos amigos?
— Você quer?
— Você quer que eu queira que sejamos amigos?
— Você quer que eu queira que você queira?
— Eu estou confuso.
Impaciente, Claire deu um soco no braço do garoto.
— Ai, pra quê isso? — ele massageou seu braço dolorido, olhando indignado para ela.
— Você tá desviando do assunto.
— Eu não sou vidente, não sei o que você quer que eu diga!
— Quero que diga a verdade. É só que muita gente tem perguntado pra mim se a gente tinha virado amigo. Só queria tirar a dúvida.
Stiles passou um tempo em silêncio, dirigindo por uma estrada com poucos carros, pensando.
— O que você acha sobre isso? — ele perguntou.
Claire deu de ombros, brincando com o cabelo e evitando o olhar do garoto. Se sentia estranhamente tímida, como se estivesse prestes a falar algo muito secreto e íntimo.
— Acho que a gente podia ser. Não tenho mais vontade de socar a sua cara como antes.
— Uau, me sinto honrado.
Claire sorriu. Ela não costumava gostar do sarcasmo de Stiles, mas havia começado a entendê-lo. Ele a fazia se sentir menos tensa.
— Não tô te pedindo em casamento, Stiles – ela brincou com o garoto.
Stiles sorriu, ainda prestando atenção à estrada.
— Amigos? — ele considerou — É, pode ser uma boa.
Ele finalmente se virou para encará-la, dando um sorriso, sem mostrar os dentes. Ele tinha um olhar que Claire não estava acostumada a receber, mas a fez se sentir bem, acolhida e leve. Era um olhar um tanto afetuoso. Ela sorriu de volta.
Os dois viraram o rosto para a estrada, continuando o resto do trajeto em silêncio, mas havia algo novo ali. Alguma coisa tinha mudado entre eles.
...
Quando os adolescentes chegaram à casa da Claire, os irmãos da garota estavam rindo e conversando com o pai.
Os irmãos de Claire, Mathews e Billy, eram mais parecido com John Roberts, altos e musculosos com cabelos escuros.
Eles haviam visitado Claire na escola e, mesmo assim, a menina queria abraçá-los como se fosse a primeira vez que os via naquele dia. Sentira muito a falta deles, mesmo que eles vivessem implicando com ele.
— Cheguei – Claire anunciou antes de se jogar no sofá junto dos irmãos.
— E aí, baixinha – riu Billy, seus óculos tortos com o abraço da irmã.
— Eles estavam me contando as traquinagens deles na faculdade – disse alto o pai, com um grande sorriso no rosto – Eles aprontaram tanto que nem sei como não expulsaram esses moleques.
— Qual é pai – reclamou Mathews risonho – Não foram tão sérias assim.
Claire se apertou entre os irmãos e ficou sorrindo só de estar ali perto deles, querendo saber mais sobre eles.
— Não, sério, você aprontou muito com o time de basquete.
— Eu sou influenciável, você sabe disso. Você é o irmão inteligente, eu sou o que vai na onda dos outros.
Então Billy percebeu a outra figura ali.
Stiles se sentia extremamente deslocado. Não os conhecia tão bem e até pouco tempo atrás ele detestava Claire. Sua situação era meio constrangedora.
— Olha só, o Stiles.
— Oi – o garoto acenou com a mão, desajeitado.
— Scott tá por aqui também? – Mathews perguntou a Claire.
— Nós vamos esperar ele chegar. Ele tá trabalhando agora.
— É mesmo, ele trabalha num... pet shop?
— Clínica veterinária.
— Certo.
— E vocês vão esperar o Scott, tipo, sozinhos? É seguro? Devo me preocupar da casa pegar fogo?
Claire deu uma cotovelada no irmão.
— Ah, você ficaria surpreso, Billy – disse o Sr. Roberts – Eles são amigos agora. Claire passa mais tempo agora com ele do que com o Scott.
— Pai! – reclamou Claire com vergonha – Não exagera.
— Uau – exclamou Billy.
— Por essa eu não esperava – disse Mathews.
— Que seja – Claire se levantou, lembrando do que havia acontecido naquela manhã – Eu preciso estudar agora então guardem as melhores histórias para o jantar de hoje à noite.
— Claire!
— Foi mal pai, mas você sempre faz um jantar especial quando eles voltam da faculdade, não é novidade.
— É, pai.
— Você não é tão discreto assim.
— Você se tornou previsível.
— Já que eu sou tão previsível assim, eu não vou fazer nada, vão jantar um sanduíche de queijo.
— Não, pai!
— Qual é, é brincadeira.
— A gente adora seus jantares.
Claire sorriu novamente para sua família, sentindo um calorzinho no coração. Era bom ver todos juntos novamente, mesmo com toda a maluquice nessa cidade.
Claire acenou para Stiles com a cabeça, para segui-la ao seu quarto.
Eles subiram as escadas e entraram no quarto da menina.
Quando ela fechou a porta, se lembrou de uma coisa.
— Eu não passo mais tempo com você do que com o Scott – Claire afirmou.
— Concordo plenamente.
Ela jogou sua mochila no chão e se sentou na sua cama.
Stiles olhava esquisito para a janela.
— O que foi? – ela perguntou.
— Não acha... sei lá, estranho eles estarem rindo tanto assim com todas as mortes acontecendo?
— Bem, é uma pequena dose de alegria – Claire deu de ombros — Alegria que, sinceramente, estamos precisando.
— Eu sei, só é estranho. Na escola todos estão com medo, na cidade toda. Às vezes parece inapropriado se divertir tanto.
— Eles vão voltar em uma semana, depois teremos bastante tempo para termos medo.
— Foi mal, eu não quero acabar com a felicidade de vocês nem nada do tipo, só...
— Eu sei – disse a menina mansamente – Tudo de ruim está acontecendo pela cidade e você é quem está pagando pelo o que está acontecendo. Enquanto você sofre tentando evitar o que está acontecendo, pessoas estão se divertindo como se tudo estivesse normal.
— Parece tão egoísta quando fala assim – Stiles se sentiu constrangido.
— Pode ser, mas acho que qualquer um na sua situação se sentiria assim. Eu me sinto assim, às vezes. Meu pai e meus irmãos tem consciência dos assassinatos, mas fazem meses que eles não se veem. Então, dê um desconto pra eles.
— Eu sei, desculpa. Eu também me sentiria super feliz se eu tivesse irmãos e eles voltassem para passar alguns dias comigo.
Claire bateu no colchão ao seu lado, chamando o recém amigo para se sentar.
Stiles obedeceu e sentou-se ao lado dela, encarando a parede verde claro com um mural de notas.
— Você está bem? – Claire perguntou – De verdade, está sentindo alguma coisa?
Stiles demorou a responder, não sabia se respondia sinceramente ou não. Odiava preocupar as pessoas, mas a menina vinha sendo tão legal com ele.
— Começou de manhã, me sentia como se estivesse febril, mas agora está um pouco mais forte.
— Tá doendo muito?
— Não, só é desconfortável.
— Acho que aspirina não vai ajudar né?
Stiles riu com seu comentário.
Percebeu que seu senso de humor e o de Claire eram parecidos. Sarcástico e inapropriado, mas que fazia rir quem soubesse apreciar.
Se isso era ser amigo de Claire, ele estava gostando.
— Voltando para o assunto que nos levou até aqui – disse Stiles – Você acha que o pai da Victoria é um dos demônios.
— Sim.
— Você conhece ele?
— Não, mas eu sei que ele é rico.
— Ele tem alguma rede social?
— Vamos ver.
Claire abriu seu laptop e procurou pelo perfil de Victoria.
A maioria de suas fotos e publicações eram sobre amigos e futebol, mas uma mais antiga aparecia um homem ao lado dela. Os dois sorriam para a foto, Victoria com seu cabelo ruivo solto e o pai igualmente ruivo e calvo com um ar elegante, mas descontraído, como um empresário moderno e simpático.
— É ele – A menina apontou – Você reconhece?
Stiles olhou atentamente para a foto e se lembrou da visão que teve alguns dias atrás.
— Sim, ele estava no sonho que tive. Ele é mesmo um deles.
— Mas ele não parece um demônio aqui. O cara que eu vi hoje não se parece nada com ele. Ele era carrancudo e parecia falar com raiva.
— Você disse que a Victoria estava reclamando do pai que estava distante e violento, certo?
— Sim, ela disse que ele mudou de repente.
— Ele deve ter sido transformado nisso. Quando ele começou a mudar foi a época em que ele foi possuído.
— Então esses demônios... Eles não são simplesmente monstros. São humanos!
— Humanos possuídos.
— Isso é terrível.
Claire ficou surpresa e, ao mesmo tempo, triste com a nova informação.
— Você viu que eles desaparecem não é?
— Como assim? – perguntou Stiles.
— Alguns deles viraram fumaça, aquele que o Scott arranhou e o outro cara que o Derek matou. Os dois viraram fumaça.
— Dois humanos possuídos transformados em fumaça. Como isso pode acontecer?
— Eu não acho que esse tipo de informação tem na internet.
— Precisamos do Deaton. Urgentemente.
Stiles pegou seu celular e abriu a tela.
— O que vai fazer?
— Ligar pro Scott. Ele está com Deaton, eles tem que saber disso.
— Você pode... – Claire interrompeu – Não fazer isso hoje?
— O que?
Claire mordeu o lábio, sem saber como pedir aquilo.
— Amanhã eu vou ter meu primeiro treinamento oficial com Deaton, eu falo com ele sobre isso.
— Ou eu posso falar agora com ele.
— É que.. se você falar agora com ele, Scott vai querer que todos nós nos juntemos para discutir sobre isso e vai durar a noite inteira. É a primeira noite dos meus irmãos aqui em meses, eu quero ficar com eles.
— Claire..
— Por favor, só por hoje.
Stiles queria insistir, era o mais lógica a se fazer. As coisas estavam dando errado muito rápido, era preciso que o máximo de informações fossem encontradas e divulgadas o mais rápido possível.
Mas Claire o olhava com tanta súplica, com esperança de ter uma noite normal com a família, que Stiles não teve a coragem de negar.
— Tudo bem – Ele suspirou.
— Obrigada – A menina sorriu.
— Mas a primeira coisa que você fala para ele é sobre isso, treinamento de druidisa depois.
Ela acenou com a cabeça rapidamente.
— Sim, claro.
— Tudo bem, então acho que o Scott não precisa vir aqui hoje, não é? Vai querer aproveitar sua família.
Claire acenou com a cabeça.
— Então eu vou pra casa. Meu pai quer que eu chegue em casa cedo, pra variar.
— Certeza? Pode ficar pro jantar, se quiser.
Claire se surpreendeu com a sinceridade em suas palavras.
— Não, é melhor mesmo eu ir.
— Ok.
Os adolescentes se levantaram e Claire acompanhou Stiles até a porta e se despediu dele.
Quando fechou a porta, encontrou dois pares de olhos curiosos encarando-a.
— O que foi dessa vez?
— Nada – disse Mathews – Só é esquisito você se dando bem com Stiles.
— Vocês se odiavam – comentou Billy.
— Uma vez você desenhou um bigode com caneta permanente nele.
— Outra vez ele grudou chiclete no seu cabelo e você teve que cortar.
— Verdade, tinha me esquecido disso. Cara, você jogou um sapato na cara dele depois de voltar do salão.
— Acertou direitinho.
— O rosto dele ficou bem marcado da sola do sapato.
— A gente era criança – rebateu Claire.
— Você desenhou o bigode ano passado.
— Todos estamos em evolução. E chega de falar de mim, a noite é sobre vocês.
Logo o assunto foi esquecido com as histórias engraçadas dos meninos e a chegada do famoso jantar.
John Roberts podia não parecer ser um grande chef de cozinha, mas era. Precisando cuidar sozinho de três crianças esfomeadas sem dinheiro para pagar alguém, o lutador teve que aprender a se virar. E se virou muito bem, sua comida era deliciosa.
Na mesa de jantar havia tortas, carnes, legumes e sucos variados.
Nessa noite, Claire se esqueceu do que estava enfrentando. Se esqueceu de suas responsabilidades e envolvimento no mundo sobrenatural. Ela aproveitou cada segundo com seus irmãos e seu pai, implicando uns com os outros, mas com um sorriso no rosto. A comida boa que parecia muito no início da noite, foi devorada pela família.
Quando terminaram, jogaram jogos na sala até tarde da noite, rindo e se divertido.
Naquela noite, Claire dormiu bem.
...
Claire parou em frente à porta da clínica veterinária.
Nervosa seria um eufemismo. Tinha medo do que viria a seguir, do que iria descobrir.
Então Deaton apareceu do outro lado da porta transparente.
— Claire! Entre, por favor.
Sem muita ideia do que iria acontecer, a menina entrou, oferecendo um sorriso acanhado.
Deaton virou a plaquinha para fechado e a guiou até o consultório.
— Sente-se, Claire. Acho que temos muito o que conversar.
A menina se sentou em uma cadeira em frente à dele.
— Muito bem, o que você...
— Antes de começamos.. – ela interrompeu – Desculpa, é que eu prometi que isso seria a primeira coisa que eu falaria com você.
O veterinário ficou surpreso, mas manteve sua postura cordial.
— Muito bem, e o que seria?
— Eu e o Stiles descobrimos algo sobre os tais demônios.
— Continue.
— Eles são pessoas. Isaac disse que machucou o braço de um dos que atacaram o posto. Disse que ele era ruivo também. No meu treino de futebol eu vi o cara, ele é o pai de uma das minhas colegas de sala. O nome dele é Gregory Hastings.
— Como tem tanta certeza?
— A descrição batia com ele, a filha dele também falou sobre as mudanças de comportamento dele e depois Stiles também confirmou que ele estava presente naquela visão que ele teve.
Deaton franziu as sobrancelhas.
— Quais são essas mudanças de comportamento?
— Eu ouvi ela falar sobre como o pai dela estava distante, violento até. Um dia ele chegou na casa dela machucado e atordoado. Parecia bêbado, não se lembrava dela, mas não cheirava a álcool. Ela definiu como abusiva a relação dela com o pai. E isso foi de repente, tipo alguns meses atrás.
— Então se ele era um humano antes de virar um demônio, então todos eles são.
— Isso, a gente também chegou a essa conclusão.
— Essa parte não é a mais importante, Claire – disse Deaton – A maior parte dos demônios encontrados pela Terra são humanos possuídos. Pouquíssimas são as espécies com forma corpórea. O que me parece mais grave é a natureza desse tipo de demônio.
— Como assim?
— Grande parte dos demônios utilizam seus hospedeiros vivos. Mas alguns os matam para se apossar de seus corpos.
— Você acha que eles são desse tipo?
— Scott e Isaac ambos me relataram sobre o que acontece com eles quando são feridos. Eles viram fumaça. Você sabe me dizer o que isso significa?
— Não me parece coisa boa – disse Claire com uma careta.
— Significa que seus hospedeiros foram completamente absorvidos pelos demônios. Eles já morreram, não existem mais. Se tornaram completamente demônio, por isso viraram fumaça.
— Então todos ali, nenhum deles está vivo de verdade? – perguntou Claire arrasada com a informação – Não há um jeito de salvá-los?
— Infelizmente não, Claire. Eles terem se transformado em fumaça é prova disso. Se os hospedeiros estivessem sendo apenas controlados por eles, haveria corpos deixados para trás. Ou no caso do demônio arranhado pelo Scott, o humano ali teria sido passado pela transformação lobisomem e o demônio destruído.
— Por que ele seria destruído? Por que alguns de nós conseguem matá-los, mas outros não? Balas não servem nem as flechas da Allison.
— Se prestar atenção, verá que nos dois casos, os demônios foram mortos por lobisomens. Pelo sobrenatural. Demônios são muito fortes, mas são vulneráveis ao sobrenatural. O veneno de kanima pode paralisá-los, as garras e presas de lobisomens e wendigos podem matá-los, gritos de banshee também. Somente o sobrenatural pode destruir os demônios. Em alguns tipos de demônios, eles seriam mortos, mas o hospedeiro se salvaria, dependendo da gravidade do ferimento. Infelizmente o tipo que estamos enfrentando não é assim.
Claire absorveu tudo aquilo com pesar. Antes eles eram apenas monstros, depois, de alguma forma, viraram humanos que talvez pudessem ser salvos, e então, não era possível.
Todas aquelas vidas perdidas. O pai de Victoria, morto já algum tempo e ela nem fazia ideia.
— Você sabe mesmo bastante coisa sobre demônios.
— Bem, quando tive conhecimento da natureza desse inimigo, me pus a pesquisar e estudar sobre o assunto – o veterinário sorriu levemente – Esse é o papel dos druidas.
— Ser a fonte de informação?
— Ajudar.
Claire olhou para suas mãos.
— Os druidas são um povo sábio. Zelamos pelo equilíbrio e temos grande apreciação da natureza. Há muito tempo, nos juntamos aos bandos de lobisomens com a função de ajudá-los, guiá-los. Nós somos a ligação entre o mundo natural e o sobrenatural.
— E como eu posso fazer isso? Só tenho 16 anos. Não sou sábia o suficiente e ainda estou reprovando em matemática.
— É por isso que nós marcamos essa reunião. Eu irei ensiná-la. Passarei meus conhecimentos a você, para que, se desejar, esteja apta a ser a druidisa do bando que escolher.
— Eu posso escolher não ser? Posso viver minha vida sem me aliar a lobisomens e tudo mais?
— É claro. Não somos obrigados a nos envolvermos. Ainda assim, seria de grande utilidade para você conhecer mais sobre o mundo sobrenatural.
— É – Claire ponderou – Acho que sim.
Então um pensamento se formou na mente de Claire.
— E quanto ao Stiles? Ele se tornou um deles também? – A menina perguntou horrorizada – Ele está morto? O único jeito pra ele é virar fumaça?
— Calma, Claire. O tipo de demônio dentro do Stiles não é o mesmo dos que vocês estão enfrentando. Esse Tenko, é do tipo que mantém o hospedeiro vivo. Pelo menos por um tempo.
— Como assim, por um tempo?
— Stiles vem sentindo dores das vítimas, correto?
— Sim.
— Isso está alimentando o Tenko dentro dele, está o fortalecendo. Chegará um tempo em que ele ficará forte o bastante para se separar de Stiles e assumir sua forma própria.
— Ele vai sair do Stiles?
— Com um preço. E acho que esse preço é alto demais.
— Ele vai morrer?
— Provavelmente.
Claire sentiu um aperto no coração. Tão forte que a deixou sem ar. Sentiu pânico começar a se espalhar dentro dela, suas veias gelarem, sentiu um nó na garganta.
Junto a esse pânico surgiu também uma enorme vontade de lutar. Uma vontade tão feroz que aplacou um possível ataque de ansiedade. Aquilo lhe clareou a cabeça, a fez ter um propósito.
— Ele não vai morrer. Eu não vou deixar – disse a garota com a voz firme — Deve ter algum jeito de impedir.
— Eu estou tentando encontrar um jeito, eu garanto. Mas informações são escassas para um demônio tão antigo. Pode haver um jeito, mas preciso de tempo para descobrir.
— Scott sabe disso?
— Não. Como disse eu vinha me informando sobre nossa situação, não tive muito tempo para conversar com o Scott. Você é a primeira a saber disso.
— Certo. Você está procurando por uma solução, eu quero ajudar. Eu não vou deixar esses malditos levarem o Stiles, eu quero impedi-los. Como posso fazer isso?
Deaton lançou um olhar enigmático para ela.
Que droga, ele era sempre tão misterioso assim?
— Fico feliz em ouvir isso. Você será de muita ajuda, Claire, mas há algo mais urgente nesse momento.
— O que?
— Sua própria situação como druidisa. Sua mente ainda está destreinada, aberta para invasões.
— Como isso pode acontecer? Druidas tem poderes? Por que nossas mentes são tão importantes?
— Não temos poderes como Scott, de fato. Mas nós temos poder. Nós somos a ligação entre dois mundos, não estamos completamente nem em um nem em outro. Por isso nossas mentes tem facilidades para abrir brechas, somos mais suscetíveis a ações naturais e não naturais. Devido a essas brechas, somos perfeitos hospedeiros para possessões, por exemplo. Uma mente destreinada é bem mais fácil de ser controlada.
— Meus irmãos também são assim?
— Se eles não tiveram treinamento adequado, provavelmente sim.
— Eu realmente preciso envolvê-los? Eu quero deixa-los o mais longe possível de tudo isso.
— É sua escolha, Claire, mas isso não é recomendado.
— Depois eu tomo uma decisão. Voltando à minha mente, como eu fecho essa brecha.
— Essa é uma parte mais complicada que vai depender somente de você. Dentro de sua mente há fraquezas, medos, inseguranças. Em um humano normal isso não causaria muitos danos se a pessoa tivesse uma boa saúde mental, mas nós somos mais vulneráveis. Por isso é preciso que você encontre tais fraquezas e quero que você as domine.
— Como eu posso dominá-las?
— Como uma criança perde o medo do escuro? Enfrentando-o.
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