Will I Love You?
6 Day Three. Tristan.
Notas iniciais

Eu tremia de frio.
Todo o meu corpo estava dormente, sequer sentia minhas pernas. Ao meu redor, pedras negras e úmidas. Barras de ferro meio enferrujado mostravam um corredor do mesmo material que minha cela, escuro, com uma tocha azul a alguns metros, sua luz quase insignificante de onde eu estava.
Mal podia mover-me. A respiração saía fraca e descompassada, coração quase parando de bater. A cada expiração, uma pequena nuvem de vapor. Os resquícios de calor abandonavam meu corpo. A visão estava ficando cada vez mais turva...
~*~
Acordei ofegante de um pesadelo e virei-me nas cobertas com perfume masculino. Menos de uma semana naquela cama e o Zabini já tinha infectando-a com a sua colônia forte demais.
Esfreguei os olhos e levantei, cutucando-o por cima da muralha de travesseiros. Ele grunhiu e levantou.
Ajeitou seus materiais enquanto eu olhava para o nada, ainda morrendo de sono, e depois fomos para o meu quarto, onde peguei o uniforme e os materiais e fomos ao banheiro. Fiz questão de entrar primeiro.
No banho, demorei mais que o necessário, não para irritar o moreno que já socava a porta, mas porque ainda estava entorpecida por aquele pesadelo. Meu corpo estava gelado e nem a água escaldante do chuveiro mudava aquilo.
Quando saí do lavabo, acompanhada por uma cortina de vapor densa como algodão, sequer prestei atenção à expressão indagativa de Christopher, apenas sentei no chão, encolhida sobre a capa, e esperei que ele terminasse sua higiene matinal.
Não pude colocar os pés no Salão Principal. Assim que viramos a última curva, próxima às portas do aposento, Aly e seus irmãos pularam em cima de mim, afobados. Tinham os rostos apreensivos e tristes.
— Eris... – Aly começou, mas parou de falar e apenas me abraçou forte. Ela sabia que eu não era dada a contato físico, então isso só serviu para me apavorar um pouco mais. Soltei-me dela não muito delicadamente e encarei os rostos dos meus primos.
— O que diabos está acontecendo aqui?
— O Tristan... – Carter começou, hesitante. Meu coração falhou uma batida. Calafrios passaram por todo o meu corpo, e apoiei o corpo na coluna ao meu lado.
— Ele tinha parado... Já faz anos... – sussurrei. Os pesadelos de Ty tinham passado uma semana antes do meu ingresso em Hogwarts, sem nenhuma explicação e repentinamente. Ele não tinha mais sofrido daquilo desde então. Se tivesse tido uma crise sequer, era óbvio que contaria para mim, não?...
— Ele teve uma crise, Eris. – Jack tocou levemente o meu ombro, mas desviei, em choque. – Seus colegas de quarto levaram-no à enfermaria no meio da noite. A enfermeira basicamente ordenou que não a chamássemos, disse que você tinha que descansar.
Não tinha ideia de como a enfermeira sabia que eu provavelmente passaria toda a noite em claro ao lado do meu irmão, mas não havia tempo para mais perguntas. Virei e corri o mais rápido possível para a enfermaria, os passos do Zabini acompanhando-me facilmente.
Abri as portas maciças com um empurrão e andei rapidamente até o leito onde meu irmão deitava. Ele estava encolhido sobre as cobertas, grossas olheiras sobre os olhos. Pela respiração, pude perceber que ele fingia dormir. Sentei na pequena maca e acariciei seu cabelo enquanto Ty abria os olhos lentamente. Sorriu ao me ver.
— Estava te esperando. – retribui a seu sorriso. – Deita.
Eu o fiz, um pouco desajeitadamente graças ao tamanho do catre, mas logo estava sobre as cobertas, abraçando-o e afagando gentilmente seus cabelos finos. Ele se aconchegou em mim, movendo-se como um gato manhoso. Sorri com a familiaridade do ato.
— Ty, quando os seus ataques voltaram? – perguntei delicadamente. Ele levantou os olhos verdes para encarar-me.
— Eles nunca pararam, Eris. – ele sussurrou e enterrou a cabeça na curva do meu pescoço, abafando as palavras que vieram a seguir. – Você estava com onze aos, prestes a entrar em Hogwarts, e eu não queria que você passasse o seu tempo nessa escola pensando em mim e se eu estaria tendo pesadelos ou não. Conversei com o papai e a mamãe e os convenci a colocar um Abaffiato no seu quarto. Quando eu sonhava, eles vinham me ajudar.
Meu coração falhou uma batida e a respiração entrecortou-se.
— Oh, Tristan... – abracei meu irmão mais forte. – Você só tinha sete anos. Eu deveria ter te protegido, não o contrário. Eu sou a única que te acalma nas crises... – ele estava sério.
— Eris, você teria desistido de Hogwarts por mim. Eu sei disso, e não quero isso. Todos os bruxos merecem seu tempo nesse lugar. E as noites sem dormir valeram a pena. Você voltava toda animada nas férias, sempre com mil histórias sobre a magia dessa escola pra contar. Não discuta sobre isso. Estou morrendo de sono. Boa noite, Eris. – ele encerrou o assunto e aconchegou-se novamente em mim.
Ele pegou no sono depois de alguns minutos, a respiração regular e calma entregando o fato. Ouvi um pigarrear e levantei a cabeça, novamente ciente da presença do Zabini, que havia observado a tudo calado e parado atrás de Ty. Com sorte, o pequeno não teria notado sua presença, já que estava deitado de costas para a entrada, e me pouparia de perguntas que não podiam ser respondidas.
Os quatro Potters entraram e amontoaram-se ao redor do primo.
— Ele está bem? – Sophie perguntou. Ela era a mais próxima dele depois de mim.
— Mais pesadelos. – perguntei se algum deles sabia que os ataques nunca tinham parado, mas todos fitaram-me em descrença. Repeti as palavras de meu irmão, e pareceram extremamente chocados.
— Não acredito que eles esconderam isso de você, Eris. – disse Carter.
— Mas tinham razão num ponto, Eris. Essa escola é como uma artéria para você. Vital. – Jack completou.
— Não consigo te imaginar sem estudar aqui. Seria você quem precisaria de médicos. – Alyssa acrescentou, alisando os cabelos de Tristan.
— Sem falar que ele precisa se acostumar com a sua ausência, Eris. Vocês não ficarão juntos para sempre. Algo poderia acontecer com você, e, mesmo sem isso, você precisa ter sua própria vida. E ele, a dele. – foi Sophie quem falou. Ela era daquele tipo de pessoa que fica calada em noventa por cento do tempo, mas quando fala, causa impactos gigantescos.
Encolhi-me como se tivesse levado um tapa e abracei Ty mais forte. A ideia de abandona-lo com aqueles sonhos malditos era devastadora. Aquilo não aconteceria. Não enquanto eu continuasse viva.
Levantei cuidadosamente para não acorda-lo e saí de lá a passos rápidos. Estava a meio caminho do meu destino quando alguém segurou meu pulso e parou-me. Virei e dei de cara com o Zabini, que arregalou os olhos ao ver a minha expressão assassina, mas não afrouxou o aperto.
— O que diabos aconteceu lá dentro? O que o sei irmão tem? – não pude deixar de notar uma nota aguda de esperança e desespero em seus olhos. Só não tinha ideia do motivo.
— Não é da sua conta, bastardo. Agora me solta, tenho coisas mais importantes a fazer. – ele apertou mais. Estava começando a doer.
— Erika. Isso é sério. Eu preciso saber o que aconteceu com o seu irmão. – ele estava basicamente implorando. Por alguns segundos, suas barreiras caíram e, em vez do galinha idiota e mandão, vi um ser humano quebrado por dentro. Suspirei e deslizei pela parede fria até sentar no chão.
— Desde pequeno, Tristan tem sonhos estranhos. Eles são as memórias de guerra de Hermione Granger. Ninguém entende como aquelas imagens perturbadoras foram parar na cabeça dele, mas lá estão. Ele costuma acordar no meio da noite com...
— Ataques de pânico. – ele completou e encarei-o sem entender. Não lembrava de ter mencionado aquilo na frente dele. – Meu irmão tem a mesma coisa. Começou mais ou menos quando tinha três anos.
— Você era o único que conseguia acalma-lo. – completei. Ele assentiu lentamente e nos encaramos por alguns segundos. – Vocês conseguiram alguma resposta para tudo isso? Um diagnóstico? – sabia que minha esperança era vã, mas tinha de tentar. Ele negou com a cabeça. Suspirei novamente e levantei. – Então vamos. – ele não se mexeu. Bufei. Mesmo numa hora daquelas, ele conseguia me deixar irritada até os ossos.
— Para onde? – questionou.
— Biblioteca. Nossos parentes não têm acesso a esses livros, e eu estou decidida a encontrar uma cura para isso. – ele levantou e seguimos até a biblioteca.
~*~
— Finalmente te encontrei! – Alyssa disse ao sentar junto a mim numa das mesas da biblioteca. Uma pilha de quinze livros estava empilhada ao meu lado, e a de Zabini não estava muito menor. – Vocês perderam todas as aulas do dia! Eu entendo que é um assunto delicado e importante, Eris, mas você precisa comer. E não pode abandonar as classes. Acabou de realizar um dos seus maiores sonhos virando monitora-chefe, precisa continuar na vaga!
— Tristan é mais importante que meu título de monitora-chefe, Alyssa. Estou ocupada.
— Eu sei disso! Mas já é hora do jantar, e as pessoas estão estranhando que, além de sentarem juntos em todas as aulas e refeições possíveis, vocês faltaram as mesmas o dia todo.
— Que as pessoas morram. – murmurei e anotei o nome de mais um livro infrutífero. Meus olhos ardiam e a cabeça estourava, mas não aceitava a ideia de sair dai sem uma nova pista sequer. O Zabini espreguiçou-se à nossa frente e encarou-me.
— Eu acho que é melhor darmos uma pausa, Erika. É possível que eu pule alguma informação importante se continuar aqui. Meu cérebro já virou pudim. E estou morto de fome.
Hesitante, levantei e guardei todos os livros. Seguimos caminho até o Salão Principal.
— Como você o convenceu a ajudar? – questionou Alyssa num sussurro alto demais durante o percurso. Pela visão periférica, notei o olhar suplicante que o bastardo me lançou.
— E eu lá faço ideia? Acho que o seu coraçãozinho de pedra se apiedou do Ty ou algo assim. Não é como se eu perdesse o meu tempo tentando entender esse aí. – comentei. Ele deu um sorriso de lado.
— A única pessoa com coração de pedra aqui é você, Erika. Sabemos disso. – sorriso de lado. Apertei os dentes, furiosa.
— Meu. Nome. É. Eris. E.R.I.S. Veja se o seu cérebro lento compreende isso. – ele gargalhou um pouco e caminhamos em silêncio até o Salão Principal. No segundo em que entramos, todas as cabeças se viraram para encarar. Risadinhas e cochichos soaram, mas ignorei e segui até a mesa da Slytherin. Sentei propositalmente perto do irmão do Zabini, que provavelmente não o via desde o primeiro dia na escola.
O moreno me lançou um olhar disfarçadamente agradecido e começou a conversar com a sua réplica mais nova e aparentemente mais legal, afinal, ele era Slytherin. Zeke juntou-se a nós pouco tempo depois, visivelmente desconfortável em se sentar na mesa das cobras.
Passei a refeição em silêncio, apenas ouvindo as pessoas ao meu redor falando sobre a notícia do momento: Alastor Wikham, pai de uma das Hufflepuff mais populares, havia sido encontrado morto por um aneurisma cerebral em sua casa. A garota, devastada, foi para casa para o funeral do pai e descobriu que a mãe e os irmãos estavam mudando-se para a França. Ela estudaria em Beauxbatons porque a mãe insistia que o marido havia sido assassinado. Loucura era a principal aposta dos alunos.
Tirando aquilo, não havia mais nada de importante acontecendo. Meu nome e o de Zabini não foram mencionados audivelmente na mesma frase, pelo menos.
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