"Nemo potest beat mortem"

Eu era uma pessoa normal. Uma garota que não tinha nada a perder nem nada a ganhar. Vive meu ensino médio como uma estudante comum, tive um namorado, uma família de classe média, trabalhava meio período em uma loja de produtos eletrônicos, não podia reclamar, morava em uma cidade tranquila e tinha amigos confiáveis, além de ser boa nos esportes e ter uma saúde de ouro. Tudo isso eu levava em conta até conhecer Michel. O garoto conseguiu me conquistar com seu jeito doce, mas soube que por trás de todo aquele encanto, existia alguém obsessivo e dominador. Comecei a sair com ele sem pretensão, mas eu pude ver alguns traços de seu comportamento abusivo. Além de gritar comigo ele também era viciado em sexo, e mais tarde, soube que ele tinha uma namorada. Eu quis me desvencilhar mas ele parecia obcecado, como se eu fosse um objeto que ele não podia soltar. Eventualmente as pessoas descobriram isso e eu comecei a ser julgada e oprimida como a garota que pegava o homem dos outros. Sua namorada, Livia, era um ano mais velha que eu e estudava psicologia, eu estava entrando na faculdade no curso de medicina, depois de estudar muito havia conseguido finalmente passar, sempre sonhei desde pequena com isso, mas logo no começo já senti que minha vida por lá não seria nada fácil. Livia era muito popular e tinha muitos amigos, eles começaram a se organizar para acabar com minha reputação, além da violência que sofri por parte de Livia, também era ameaçada por outras pessoas. Foi isso até o dia em que Livia começou a fazer coisas mais pesadas como mandar cartas ameaçando minha família, ela chegou a matar meu cachorro e furou minha mão depois de me espancar. Eu não aguentava mais aquilo. Por que eu tinha que passar por esse inferno? Nunca fiz nada pra merecer algo do tipo, eu fui idiota ao sair com Michel, mas tanto ele como sua namorada não me esqueciam. Ela achava que eu ainda saía com ele, e ele não parava de me perseguir, chegou até a me agarrar a força na saída da faculdade. Eu pensei em denunciar mas não sei se adiantaria muito, Michel ameaçou que se aquilo vazasse as coisas iriam ficar ruins. Eu estava com medo, acuada, pensei até em largar a faculdade. Fiquei duas semanas sem ir na mesma, meus sonhos já estavam indo por água abaixo, até o dia em que ela apareceu na minha casa repentinamente e acabou com minha vida.

Michel estava morto no chão da minha sala, eu havia tomado vários remédios em seguida que me deixaram com sequelas na cabeça, eu estava impossibilitada de falar e de mover metade do meu corpo. Vivi por 3 anos em uma cama de hospital pensando todos os dias no que faria se algum dia pudesse me mover novamente. Livia. Eu nunca me esqueceria desse nome, a pessoa que me tirou tudo, eu também iria tirar tudo dela. Foi então que eu apareci aqui. Repentinamente eu estava em um lugar remoto, uma floresta calma e com pássaros cantando e uma pulseira metálica em meu pulso. Minha aparência estava diferente, olhei para um riacho e vi que meu cabelo estava louro e meus olhos claros, o oposto do que era, e o que sempre quis ser. Tinha preconceito e nunca consegui me amar, mas agora eu parecia uma nórdica, eu tinha revivido em outro mundo? Foi isso que pensei no começo, mas todas as minhas lembranças e aptidões estavam naquele corpo, eu continuava sendo a Jaqueline, mas agora poderia começar novamente? Claro que não. Eu ainda tinha rancor por tudo que havia acontecido, não consegui aproveitar quase nada da minha vida mundana, e eu nem tinha feito nada! Errei em ficar com Michel mas eu não sabia que ele namorava, eu fui alvo de uma psicopata, aquilo era azar ou apenas os planos de Deus ou de alguns Deuses maquiavélicos e sádicos? Eu não acreditava em nada disso, ainda achava que estava em coma sonhando. É, só podia ser aquilo! Como eu era tão linda assim? Eu até sentia meu corpo mais leve e a alergia que tinha parecia ter desaparecido, minha visão que tinha uns 2 graus de miopia também tava 100% perfeita, se aquilo fosse um sonho, talvez eu poderia fazer qualquer coisa (?) Foi quando me dei conta de onde realmente estava.

No começo foi bem difícil, eu tive que sobreviver a algumas [1]quests, forma como chamavam os supostos desafios de lá. Fui aprendendo que aquele mundo se baseava em um sistema de RPG, assim como [2]Dungeons and Dragons, eu jogava quando era adolescente, jogos eletrônicos nunca fui muito chegada, mas conhecia um pouco dos de tabuleiro, então eu tinha noção do que acontecia. Conheci outras pessoas, lutei contra algumas criaturas, descobri que havia algumas habilidades que eu podia usar conforme fosse completando tarefas e matando aqueles seres que nunca vi na vida, parecia mesmo um vídeo game, exceto na parte quando as pessoas morriam.

Desde que cheguei lá presenciei várias pessoas morrendo, senti a dor e angústia que eles também sentiram, perdi pessoas que eu estava começando a me apegar, não era nada fácil, viver naquele suposto mundo de fantasia era muito mais difícil do que viver na vida real. Pensei que podia estar no purgatório em alguns momentos, mas não haviam indícios disso, Deus não podia ser gamer nem um nerd que colocaria um sistema de RPG’s no purgatório, a possibilidade de ser um sonho ainda era a mais possível, mas eu interagi com pessoas que pareciam tão reais, elas pareciam conhecer tanto do mundo real como eu. Foi então que parei na fortaleza do lorde Kiriel. Lá eu vi as coisas mais horrendas da minha vida, fui obrigada a assassinar mais pessoas e passar por métodos de tortura e sobrevivência, eles estavam me treinando, geralmente, as mulheres que entravam lá eram sacrificadas para um ritual que eles tentavam fazer há anos para que um Deus ou demônio ou o que quer que seja fosse invocado naquele mundo, parecia que eles queriam que uma Deusa famosa de antigamente voltasse, mas para isso, precisavam de uma pessoa pura ou que, ao menos, fosse purificada por seus rituais. Eu claramente não era uma das que se encaixava nesse papel. Eu havia matado uma pessoa já no mundo real. Quando eu tinha 11 anos, cuidando do meu padrasto alcóolatra eu coloquei veneno em sua bebida, até então eles achavam que eu era inocente e que ele havia se suicidado, ninguém conseguiu provar minha culpa, mas por conta disso, no caso da Livia, eu foi enquadrada como suspeita, parece que eles finalmente desconfiaram do que houve com meu padrasto e por conta disso, Livia saiu impune. Se eu não fizesse aquilo aquele cara iria matar minha mãe, sei que nada justifica, mas eu não tinha arrependimentos. Vivi até hoje sabendo que minha mãe estava livre e feliz com outro homem, ao menos eu ‘morri’ sabendo que tinha feito algo bom, mas por conta disso, minha classe naquele mundo era de Assassina. Aos poucos fui descobrindo que podia liberar outra classe no level 30, a classe que você mais se adequava de acordo com sua vida naquele mundo, e pela minha convivência com Kiriel, um summoner mago, eu me tornei uma summoner também. Eu era uma rogue/summoner, uma assassina que podia fazer invocações e controlar alguns elementos. Aos poucos fui aumentando meu level, saía com Kiriel para várias missões, e matar aquelas pessoas que eu emboscava e levava pra fortaleza me faziam subir de level também, mesmo que de uma maneira grotesca. Claro que me culpava sempre, mas não era real aquilo. Seja lá o que for, não era eu matando as pessoas, mas eu não podia desistir de viver, apenas morrer ali, de novo, seria fazer o que Livia queria. Eu viver o máximo possível, essa era a vingança ideal contra a vida anterior, contra Livia, contra meu padrasto, contra Michel. Eu iria me colocar por cima de todos eles.

Minha vida naquele mundo começou a mudar quando eu finalmente me encontrei com Livia naquela floresta. Eu não consegui ter reação quando a vi correndo, ouvi sua voz e achei que era o inferno mesmo, para ela estar lá, só podia. Mas sendo o inferno ou o que for, era minha oportunidade. Livia não me reconheceu, mas também, como poderia? Eu teria minha chance única de vingança, ainda mais tendo a oportunidade de leva-la para a fortaleza, parece que tudo estava sendo favorecido para o meu lado naquele mundo, talvez fosse um pequeno presente que Deus me deu por arruinar a vida da Jaqueline. Sim, agora eu era a Liss. Escolhi um nome com L também para nunca me esquecer de Livia, e quando eu tive a chance de fazer ela sentir o desespero que senti, tive que seguir mesmo sacrificando a fortaleza, Kiriel e todo restante do pessoal que conheci. Era uma pena que aqueles 3 morreram, mas eles eram apenas [3]NPC’s, eu acho. Não queria pensar muito a respeito, decidi não me culpar mais, iria focar na missão atual que era apenas a de foder Livia com tudo que eu tinha direito. Ela estava em minhas mãos, eu não podia deixar de rir da expressão pasma da mesma ao ler meu nome e ver que eu também, assim como ela, era uma assassina. Mas a diferença estava clara, naquele mundo, eu era superior. Tive a vantagem de chegar antes.

— Você... Impossível. Eu te deixei lesada! Eu te deixei de cama! Você... Era pra tá em uma cama imóvel babando, era pra tá comendo por sonda, como você tá aqui? O que aconteceu com sua pele repugnante? Com seu cabelo falho? – Livia tremia em minha frente, ela gaguejava enquanto eu via suas pernas ficarem moles.

— Bom, acho que não estamos naquele mundo injusto, infelizmente, apenas pra você.

— Cala a boca! Não acha que vai conseguir alguma coisa! Eu confiei em você até agora, por que fez isso comigo? Me salvou várias vezes apenas pra isso? O que diabos é isso?

— SIM, eu te salvei até agora pra ter eu mesma a chance de te matar sua desgraçada diabólica! Você tirou tudo de mim, do Michel, de nossas famílias, tudo por querer dar a sua boceta fétida, como fez com vários caras já, sei de todas as coisas que você fez, mas sabe Livia, não quero te matar por isso não, Michel era um lixo também e eu queria realmente me livrar dele. Quero te matar porque você é inútil mesmo. – Eu sorri invocando duas adagas afiadas e coloridas em minhas mãos, comecei a rodá-las em meus dedos como se não fosse nada.

— Não acha que vai conseguir assim! Eu nunca morreria pra você, e nunca mais ouse falar do Michel na minha frente! – Livia tentou invocar as duas adagas de luz em suas mãos mas em segundos, eu cortei suas duas mãos, fazendo-as caírem no chão sujando toda aquela grama verde escura. A neblina começava a nos cobrir ainda mais. Ela sangrava feito um porco no abatedouro. Bom, ela não tinha muita diferença pra um. Eu vi seu rosto branco e expressão de terror, aquilo me deu ainda mais motivação. AAAAAH, esperei tanto por esse momento. Todos os meus dias naquela cama, aqueles dias desejando morrer mas ninguém me matava, eu estava vivendo para compensar tudo isso.

— Você é uma assassina louca?

— Eu? Eu sou uma assassina? HAHAHAHAHA! Você matou Michel e depois o beijou, me deixou quase tetraplégica, você matou duas pessoas ali atrás como se elas fossem merda, você se tornaria até mais perigosa do que eu se vivesse mais aqui, é uma pena Liv, mas isso não vai acontecer.

— Me salva por favor, eu prometo que irei ser sua cobaia! Eu serei o que você quiser, faço tudo pra me redimir, pode me usar, eu lambo seus pés, eu faço o que for! ME deixa viver! Me deixa viver! – A garota gritava e chorava com desesperado, ela se levantou e ajoelhou em minha frente, eu a olhava com desprezo, chutei sua cabeça várias vezes, eu cuspi em seu rosto e a segurei pelos cabelos pegando uma adaga e enfiando no ombro dela pra ver sua boca suja sendo aberta, peguei sua cabeça e a afundei no chão junto a poça de sangue das suas mãos decepadas. Aquilo me lembrava do dia em que ela acabou com minha vida, digo, a vida de Jaqueline.

— Acha que eu conseguiria te salvar ainda sua ratazana? Vou apreciar cada segundo da sua vida se saindo por seus olhos! Digo, um olho né.

— Logo eles vão chegar aqui, você não tem pra onde fugir puta.

— HAHAHAHAHA, você não me conhece mesmo. Até agora estive me contendo, mas, sabe, eu sou bem poderosa Liv. Eu sou um Lorde das Trevas, eu te mostrei não é? O meu poder... O que aconteceria se eu arrancasse seus órgãos um por um? – Eu sorri e cortei fora o outro olho de Livia, ela gritou rolando no chão se esperneando.

— Cala a boca porra, to me concentrando aqui. Não sei como arrancar os outros órgãos sem te matar. Ué, tu não me mandou calar a boca também enquanto matava o Michel? Veja só, é o karma! – Dei outro chute com tudo no rosto da menina que caiu sem se mexer, ela tinha perdido muito sangue, já devia estar nos últimos suspiros. Finalmente minha vingança havia acontecido, mas, não era o bastante. Eu tinha perdido tudo, mas iria recuperar tudo. Eu iria voltar pra aquele mundo e ser feliz com minha mãe, assim como eu sempre mereci.

— Por quê... Como eu vim parar aqui com você? Você combinou tudo?

— Hã? Claro que não! Se eu pudesse fazer isso não teria esperado tanto. Foi Deus, sabe. Ele te colocou aqui comigo pra eu fazer isso, ainda duvida? Seja um purgatório ou o que for, está sendo bem justo não acha?

— Você... não era assim. Era uma garota fraca... Era patética.

— Pois é, graças a você eu mudei, te agradeço por isso Liv, do fundo do coração. Acho que já tá na hora. Sabe, eu acho que não vou conseguir tirar seus órgãos sem te matar, então pensei em uma coisa! – Eu segurei em minha pulseira e ativei e minha habilidade ultimate. – Essa será a última vez que iremos nos falar, se nos encontramos em outro mundo, e onde quer que seja, eu vou te matar 10 vezes pior. Pague por tudo, Livia. – Eu me afastei e ativei e habilidade, meus olhos estavam focados e afiados, as duas laminas em minhas mãos esquentaram, eu senti que meu corpo estava cem vezes mais leve, em um movimento, comecei a cortar Livia em vários pedaços, era um corte por milésimo, eu fatiava todo seu corpo em movimentos de vai e vem, eu apoiava meus pés no chão, dava um salto, apoiava do outro lado, saltava para de onde vim, a lâmina percorria por sua cabeça, peito, pernas, ombros, virilha, eu a fatiava sem dó em mais de sei lá quantos pedaços. Para cada órgão perfurado, era uma estacada de terra. Eu vi os inimigos na minha frente correndo com suas lanças, machados e arco e flecha, eles foram todos empalados pelas lanças de terra afiadas que saíram do chão. Não sobrou um só em pé. Toda aquela floresta foi recheada desses espetos de terra dura, ouvi até uns lobos chorando ao serem pegos, todos que estavam em uma área de 50 metros foram abatidos. Olhei para o corpo de Livia picado no chão, agora não importava mais. Eu tinha cumprido uma de minhas missões. Comecei a chorar, mas não sabia se era de medo, raiva, gratidão, solidão, dor. Eu talvez sentisse tudo isso. Eu era uma rogue. Era uma assassina nata que iria subir de nível a todo custo e chegar ao final daquele lugar. Se fosse realmente um jogo, iria vencer e voltar ao meu mundo.

Notas finais
[1] Missões de jogos RPG [2] Popular jogo de RPG, percursor no gênero [3] Bots, personagens que são controlados pela máquina em um jogo. Considerações Essa novel está sendo escrita de uma maneira bem casual, sem muitas pretensões, mas criando um universo original e único, por mais que pareça ser um roteiro muito maçante e com seus vários clichês do gênero, ainda assim a proposta é inserir um conceito novo em termos de novelas baseadas em RPG’s e mundos de fantasia, misturando drama, horror e até mesmo religiosidade e filosofia. Wildland pretende inicialmente ter cada volume focado em um dos personagens foco da obra, sendo histórias curtas introdutórias sem muita descrição daquele mundo, focando apenas nas personagens. Referências As referências usadas para monstros nesse capítulo foram tiradas exclusivamente do universo de Dungeons and Dragons, como Goblins, Trolls, Kobolds, assim como as classes citadas como summoner, mago, clérigo, assassino, guerreiro, ranger e tank. "An Introduction to Dungeons & Dragons, Part II". White Dwarf (overview). No. 24. Games Workshop. pp. 10–11. ^ Livingstone, Ian (August–September 1979). "White Dwarf Interviews Gary Gygax". White Dwarf (interview). No. 14. Games Workshop. pp. 23–24. ^ Jump up to:a b c d e f g h i j k l m Schick, Lawrence (1991). Heroic Worlds: A History and Guide to Role-Playing Games. Prometheus Books. pp. 84–85. ISBN 0-87975-653-5. ^ Jump up to:a b c Players Handbook at acaeum.com. Retrieved November 22, 2008. ^ Gygax, Gary (1978). Player's Handbook. TSR. ISBN 0-935696-01-6. ^ Jump up to:a b "Dungeons & Dragons FAQ". Wizards of the Coast. Archived from the original on 2008-10-03. Retrieved 2008-10-03. ^ RPGnet d20 RPG Game Index: AD&D First Edition Players Handbook (1983 TSR edition). Retrieved on November 22, 2008. DataBase: AD&D Player's Handbook, 2nd Ed. Revised (1995) at lyberty.com. Retrieved November 23, 2008. ^ AD&D Player's Handbook, 2nd Ed. Revised (1995)Archived 2008-12-15 at the Wayback Machine at the Pen & Paper RPG Database. Retrieved November 23, 2008.